CALCULANDO O TAMANHO DAS ENCHENTES

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Você deve estar achando a imagem da foto publicada neste post familiar: ela mostra um trecho do Rio Los Angeles, na cidade homônima da Califórnia, Estados Unidos. Dezenas de filmes americanos, produzidos em Hollywood (distrito da cidade de Los Angeles), mostraram cenas de perseguições ao longo da calha concretada do Rio Los Angeles; podemos citar os filmes Exterminador do Futuro e Uma Saída de Mestre; no filme O Núcleo – Missão ao Centro da Terra, um ônibus espacial faz um pouso de emergência no local . A curiosa desproporção entre o pequeno filete de água e o tamanho da calha tem uma explicação simples – a calha foi superdimensionada para receber o volume das águas das chuvas e evitar enchentes na cidade – simples assim.

Os volumes das águas das chuvas são previsíveis em cada uma das regiões de um Estado ou País e podem ser calculados a partir de uma série histórica das médias de chuvas ao longos dos anos. Conhecido os volumes das chuvas, o sistema de drenagem de águas pluviais pode ser dimensionado, de forma que não ocorram as enchentes. Quando um sistema de drenagem não consegue escoar adequadamente o volume das águas das chuvas, temos o conhecido fenômeno das enchentes, tão familiar a todos nós. Enchentes nada mais são do que acúmulos anormais de água das chuvas, que não conseguem “lugar” nos dispositivos de extravasão pluvial – se não há lugar nesses dispositivos, a água excedente fica nas ruas e avenidas “esperando” chegar sua vez de seguir pelas rede de drenagem. E como disse, esse volume de chuvas é previsível e não há como chamar uma enchente de catástrofe natural (algumas vezes isso até acontece): é irresponsabilidade de governantes.

O dimensionamento dos sistemas de drenagem de águas pluviais deve considerar os volumes típicos de chuva na região que caem sobre a superfície. Uma chuva com precipitação de 20 mm, por exemplo, resultará num volume de 20 litros de água sobre cada metro quadrado da região; considerando-se que as casas e terrenos de uma determinada rua ocupam área total de 10.000 m², pode-se calcular que o volume de águas pluviais que será lançado sobre essa rua será de 200.000 litros nessa chuva (ou seja, 20 litros/m² x 10.000 m²) – portando, todos os dispositivos instalados para drenar a água da chuva terão de ser capazes de absorver esse volume de água. Se a chuva tiver precipitação de 30 mm ou 40 mm, os volumes de água aumentarão respectivamente para 300.000 e 400.000 litros – não havendo uma capacidade de drenagem instalada para se absorver e escoar rapidamente todo esse volume de chuvas, o resultado será um ponto de alagamento nessa rua, que somada às águas de tantas outras ruas poderá se transformar no alagamento de uma avenida e depois de todo um bairro ou cidade.

A chuva, como todos sabem, é um fenômeno da natureza essencial para a vida no planeta, contra o qual não temos nenhum controle e que nunca seremos fortes o bastante para vencer: temos de adaptar nossas cidades para o convívio com as chuvas, de forma a minimizar ao máximo os eventuais problemas e prejuízos de sua fúria. Apesar de previsível e natural num país de clima essencialmente equatorial e tropical, muitas cidades do Brasil ainda não estão plenamente adaptadas ao convívio com este fenômeno. Minha cidade, São Paulo, simplesmente para em dias de chuva forte, com enchentes generalizadas nos bairros mais baixos que, entra ano e sai ano, continuam alagando e causando prejuízo sistemático para a população. As vezes até chego a pensar que nossos governantes estão a esperar por alguma mudança climática que, de uma hora para outra, virá a reduzir substancialmente os volumes anuais das chuvas, fazendo desaparecer as odiosas enchentes num passe de mágica.

Na falta de soluções milagrosas, sabemos que o próximo verão, ou inverno conforme a região, trará em sua esteira as fortes chuvas de final de tarde e, mais uma vez, assistiremos ruas e avenidas alagadas, deslizamentos de encostas, famílias desabrigadas e a mercê das doenças de veiculação hídrica.

É muito triste ser um profeta de catástrofes anunciadas…

MEIO FIO E SARJETA, OU O BÊ-Á-BÁ DA DRENAGEM URBANA

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Os sistemas de drenagem de águas pluviais vêm fazendo parte da paisagem urbana das cidades há milhares de anos. Valendo-se da intuição e da observação sistemática, nossos antepassados perceberam que em certos períodos do ano as chuvas se intensificavam e que eram necessários cuidados especiais para o seu escoamento na direção dos rios. Vários dispositivos urbanos foram criados ao longo dos séculos para drenar as águas das chuvas (e também do degelo em países de clima temperado) – sarjetas ou calhas estão entre dispositivos mais antigos.

Anos atrás, durante a realização de obras de redes coletoras de esgotos na cidade de Porto Velho, em Rondônia, enfrentei uma crise sem precedentes na minha carreira com os moradores de uma pequena rua no bairro Aponiã. A Rua Bidu Sayão tem aproximadamente 200 metros de extensão, interligando duas grandes avenidas do bairro, leito de terra (pelo menos há época), sem meio fio e sarjeta – uma típica rua de periferia urbana. De acordo com os protestos dos moradores, que fizeram muito barulho na imprensa local, após as obras realizadas, a rua passou a enfrentar problemas com enchentes. Depois de muitas idas e vindas, nossos técnicos constataram através de medições topográficas que a parte central da rua ficava num nível 25 centímetros abaixo do nível das avenidas nos extremos, ou seja, não havia como a água das chuvas escorrer para um ponto mais baixo – a movimentação de terra feita pelas nossas obras nada tinham a ver com o problema.

Por essa rápida descrição, é muito fácil perceber a importância do projeto e construção de sistemas de drenagem de águas pluviais bem dimensionados nas áreas urbanizadas das cidades e nas áreas impactadas por obras de infraestrutura como rodovias, ferrovias, pontes, aeroportos e túneis. Em áreas rurais com vocação agrícola, as técnicas de produção devem incorporar o cultivo respeitando as curvas de nível no terreno, uso de barreiras de contenção, a preservação de faixas de matas ciliares nas beiras de rios e córregos entre outras técnicas de conservação do solo e redução de processos de erosão provocados pelas águas pluviais. E todo sistema de drenagem de águas pluviais começa pelo básico – o corte de ruas e avenidas ainda na fase do loteamento de um lote ou gleba deve considerar o nível do solo, criando desde o início um caminho para as águas da chuva fluírem naturalmente; o meio fio (conhecido em São Paulo como guia) e a sarjeta, instaladas na sequência, simplesmente vão dar um corpo “sólido” para os caminhos de drenagem das águas de chuva. No exemplo citado da Rua Bidu Sayão, nome que homenageia a grande cantora lírica brasileira, os brilhantes projetistas não respeitaram os princípios básicos da agrimensura, ciência criada pelos antigos egipcios para a demarcação das propriedades rurais após as cheias anuais do famoso Rio Nilo.

Nos meios urbanos, os sistemas de drenagem de águas pluviais são responsabilidade das prefeituras das cidades. Eles começam com um bom projeto de urbanização, onde o traçado das ruas, avenidas e demais logradouros considera as condições ideais para o rápido escoamento das águas de chuva, que correm por ação da força da gravidade. Essa preocupação deve começar, como já dissemos, nas operações de terraplanagem e corte das vias, que devem ser executadas de maneira que o leito da via ficará num nível abaixo do nível das calçadas, que por sua vez ficará num nível abaixo do nível dos terrenos; os imóveis devem ser construídos num nível mais alto que o nível dos terrenos. As ruas receberão as guias e sarjetas que, na forma de uma calha, terão a função de escoar as águas pluviais na direção das tubulações da drenagem pluvial.

Ressalte-se que a rede de drenagem de águas pluviais é uma rede de tubulações subterrâneas independente da rede de esgotos. Essa rede de tubulações deve receber apenas as águas pluviais captadas pelos bueiros, bocas-de-lobo, grelhas e outros dispositivos e deve encaminhar o fluxo de águas na direção de valas de drenagem, córregos, rios ou outros receptores como piscinões, lagos e represas (por exemplo, as represas que armazenam a água para uso no abastecimento das cidades).

AS CHUVAS DE VERÃO E OS PROBLEMAS QUE VIRÃO

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Ao longo de muitos milênios, os sistemas naturais foram se adaptando aos inevitáveis e periódicos ciclos de chuvas: canaletas naturais de escoamento foram escavadas por erosão nas faces de serras e montanhas, leitos de córregos e rios criaram áreas de várzeas para comportar o excedente de águas das cheias dos rios, pedras e gargantas em rios montanhosos foram moldadas para reter e reduzir a velocidade dos excedentes de água, os diferentes tipos de vegetação se adaptaram para armazenar parte da água da chuva e suas raízes se adaptaram para uma forte fixação no solo e evitar o arrastro com a enxurrada. As matas ciliares nas bordas dos rios se especializaram na retenção de galhos, toras e demais particulados, de forma a evitar o entulhamento da calha e futuras enchentes. O próprio solo desenvolveu diferentes tipos de permeabilidade, absorvendo volumes consideráveis de água de chuva (até 50% da água da chuva pode ser absorvida pelo solo) e assim reduzindo os volumes de água que correm desesperadamente a procura das partes baixas dos terrenos – são sistemas em equilíbrio. Na natureza há um alongamento do tempo de drenagem das águas da chuva e as cheias dos corpos d’água são controladas e acontecem sem maiores danos ao ambiente natural local.

Os diferentes tipos de intervenção humana nos meios naturais interferem com esse delicado equilíbrio natural, produzindo distorções na dinâmica das águas pluviais. Na agricultura, a remoção de grandes extensões de cobertura vegetal para a formação das culturas resulta em alterações nos volumes de absorção de água pelo solo e formação de grandes correntes de água: sem a proteção da vegetação que reduz a velocidade da correnteza, grandes volumes de solo agricultável são arrastados para os leitos dos rios, deixando um rastro de erosões e voçorocas pelo caminho. O assoreamento dos rios reduzirá cada vez mais a capacidade da sua calha em receber futuros excedentes de águas de chuva – a água avançará cada vez mais na direção das bordas das margens e produzirá cada vez maiores assoreamentos neste rio. Cria-se uma continuidade de problemas que crescem cada vez mais.

Nas cidades, o crescimento desenfreado das construções interfere cada vez mais na dinâmica das chuvas:

  1. A ocupação cada vez maior de encostas de morros leva a remoção da cobertura vegetal e ao corte do solo para a construção de habitações. Períodos de chuva mais intensos saturam o solo com água, o que pode provocar sérios desmoronamentos, com alto risco para os moradores;

  2. A impermeabilização do solo resultante da aplicação de imensas faixas de asfalto nas ruas, concretagem de calçadas e quintais, reduz drasticamente a absorção de água pelo solo e provoca a formação de fortes enxurradas, com enorme potencial de inundações;

  3. Construções ocupam grandes extensões de solo e concentram nos seus telhados grandes volumes de água que descem velozmente por sistemas de calhas e se somam as volumosas enxurradas do solo;

  4. Áreas de várzea, que originalmente absorviam os excedentes de águas nos períodos de chuva, foram aterradas para permitir o aumento da área disponível para as construções;

  5. Margens de rios e córregos foram retificadas e urbanizadas, diminuindo a área de recepção das águas excedentes e, em muitos casos, diminuindo a velocidade da correnteza do curso d’água, e aumentando assim o tempo de drenagem das águas da chuva.

  6. Restaram nas áreas urbanas poucas áreas verdes e remanescentes florestais com grande capacidade de absorção de água nos seus solos e pela vegetação.

As consequências dessa somatória de interferências humanas no meio ambiente urbano são enchentes cada vez maiores e mais frequentes nas cidades, deslizamentos de encostas de morros, prejuízos econômicos enormes e, tristemente, danos algumas vezes irreparáveis na saúde de populações inteiras, inclusive com situações de invalidez permanente ou morte dos mais desafortunados.

SISTEMAS DE ÁGUAS PLUVIAIS: DESCASO, CHUVAS E ENCHENTES

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Em nosso último post falamos rapidamente do predomínio da água salgada dos oceanos no planeta Terra – nada menos que 97,5% de toda a água disponível se encontra nos oceanos e mares ao redor de nosso mundo. A transformação de água salgada em água potável (ou doce, como se diz frequentemente) depende da energia do sol – bilhões de litros de água do mar evaporam todos os dias e são carregadas pelas correntes de vento para os quatro cantos do planeta. Esse vapor, ao ser resfriado, cairá sobre o solo na forma de neve, granizo, de chuva, de orvalho etc, e formará todas as formas possíveis de fontes de água para o consumo de plantas, animais e pessoas. No inóspito deserto do Atacama no norte do Chile, por exemplo, a principal fonte de água para as plantas e animais é a neblina noturna vinda do oceano Pacífico que condensa sobre o solo e plantas. Rios importantes como o Jordão em Israel, Tigre e Eufrates no Iraque, Indus e Ganges na Índia e Paquistão, além do nosso Amazonas, tem nascentes alimentadas pelo degelo das neves em cumes de montanhas. Em regiões de clima equatorial e tropical como o território brasileiro são as chuvas que fornecem toda a água que utilizamos em nosso dia a dia.

Dependemos das chuvas para a manutenção de nossas florestas e demais sistemas naturais – muita chuva na Floresta Amazônica e pouca água na região da Caatinga nordestina. Na agricultora, nossa dependência das águas das chuvas é total, seja na forma direta por precipitação seja de forma indireta por irrigação da água de rios e reservatórios ou de fontes subterrâneas. O abastecimento de nossas cidades e indústrias se baseia na ideia de ciclos regulares de chuva para recarga de aquíferos, fontes e reservatórios – até a dispersão de muito do nosso lixo e dos dejetos não tratados dos esgotos são dependentes da frequência das águas pluviais que correm na direção dos rios e tudo arrastam.

A naturalidade e a previsibilidade das chuvas em nosso país pressupõem que haja em nossa infraestrutura geral um mínimo de adequação e preparo para a convivência com grandes períodos de precipitação intensa e suas naturais consequências, como as enchentes, desmoronamentos, bloqueios de ferrovias e de rodovias entre outros problemas. Porém, todos nós sabemos que essa convivência com as águas pluviais não é assim tão natural. A cada ano as enchentes (e também as secas) se repetem, com todos os problemas associados, e nossas cidades e infraestrutura geral se mostram insuficientemente preparadas. Improvisam-se as soluções e se fazem promessas de futuras obras…

Sistemas de drenagem de águas pluviais tem a função de escoar os grandes volumes das precipitações que caem sobre as cidades na direção de canais de drenagem, rios e outros corpos de água, no maior volume e no menor tempo possível. Conforme a declividade do terreno, parte da lâmina de água de chuva formada sobre o solo ganha grande velocidade de descida, formando corredeiras violentas e com grande potencial de danos a vegetação, formações naturais do solo e construções como casas, edifícios, ruas, rodovias, ferrovias etc. Em meio aos danos materiais, as águas pluviais podem causar enormes prejuízos nas populações afetadas por enchentes, incluindo-se ai os riscos à vida humana. Também há riscos à saúde humana – doenças como a leptospirose, provocada pela contaminação da água com urina de ratos, são frequentes em áreas alagadas por enchentes.

Épocas de chuvas, “coincidentemente”, são as mesmas onde acontecem as grandes enchentes nas cidades brasileiras. Na cidade de São Paulo, por exemplo, existem ruas e avenidas onde as enchentes tem data e hora para acontecer. Um exemplo que já se tornou um clássico é o Jardim Pantanal, na zona leste da cidade – nos últimos anos, o bairro tem ficado alagado por semanas a fio no verão, sem que as autoridades consigam resolver o problema na drenagem.

Continuaremos no próximo post..

TERRA, O PLANETA DAS ÁGUAS

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Orbitando há bilhões de anos ao redor do sol, o nosso planeta gradativamente foi adquirindo as características geofísicas e climáticas que hoje vemos com tanta naturalidade.

A massa rochosa e quente, muito quente, de tempos imemoriais da formação do planeta Terra esfriou pouco a pouco, permitindo que a água carregada desde as profundezas do espaço sideral (provavelmente trazida na forma de gelo em cometas e meteoros que caíram no planeta) se acumulasse ao redor do planeta, inicialmente na forma de uma densa camada de vapor.

Eras posteriores testemunharam o resfriamento gradativo e ainda maior do nosso planeta, o que permitiu que essa massa de vapor passasse para o estado de água líquida, caindo volumosamente na forma de chuva sobre o solo. Essa água acumulou sobre a face da Terra formando os primeiros oceanos e corpos de água sobre o leito estéril da superfície rochosa.

A poderosa energia do sol manteve o núcleo metálico da Terra em estado liquefeito, com intensa atividade geotérmica, modelando cada vez mais intensamente a superfície do planeta e consolidando cada vez mais os espaços dos oceanos e continentes. O forte campo magnético terrestre produzido pela energia do núcleo metálico do planeta permitiu a retenção dos gases formadores da atmosfera ao redor do planeta; Marte, nosso vizinho sideral dos mais próximos, teve muita água em sua superfície num passado distante, mas por não ter um campo magnético forte perdeu praticamente toda a sua água, que escapou pouco a pouco de volta para o espaço. A força do sol combinada com a atmosfera modelou o clima – as chuvas, o gelo, as marés e os ventos esculpiram o relevo, abrindo o caminho para a explosão da vida em todos os cantos da Terra.

O lento passar do tempo e toda uma combinação elementos criaram um planeta azul, com dois terços de sua superfície coberta por água e repleto de vida. Terra, planeta água…

Apesar de ser um dos elementos mais abundantes do planeta, a água existente é essencialmente a salgada ou dos mares, imprópria para o consumo humano e da esmagadora maioria das plantas e animais. Apenas 2,5% da água existente na Terra é doce ou potável – desta pequena porção de água doce apenas uma fração está acessível para o consumo humano: a maior parte da água doce do planeta se encontra congelada nas calotas polares, nas geleiras das altas montanhas ou infiltrada no solo a grandes profundidades. 7 bilhões de habitantes do planeta estarão a disputar cada gota dessa preciosa água nas próximas décadas.

É a energia do calor do sol que provoca a evaporação da água dos oceanos, produzindo a água doce e potável tão essencial para a manutenção da vida. Essa água doce é distribuída por todo o planeta como vapor presente na atmosfera, na forma de gelo e, especialmente, na forma de chuvas.

O ciclo e a distribuição das chuvas são fundamentais na geografia física, humana e econômica. A formação e distribuição dos diferentes ambientes da superfície do planeta estão diretamente ligadas aos volumes e à frequência das chuvas, com reflexos diretos nas populações de plantas e animais, incluindo ai o homem. A consolidação dos assentamentos humanos ao redor do mundo se deu em função da disponibilidade das fontes de água. No Brasil, como não poderia ser diferente, foram os grandes rios os indutores do povoamento do território e os grandes patrocinadores da fundação das vilas e cidades em suas margens. País essencialmente tropical, o Brasil tem nas chuvas sua principal fonte de recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos de água, formadores primários de todos os riachos, rios e demais corpos de água de superfície. A exceção de alguns rios da bacia amazônica, com nascentes formadas por águas de degelo nas montanhas dos Andes, toda a água doce de nosso território vem das chuvas – somos um país de águas pluviais.

Falaremos bastante deste tema nos próximos posts.

IRRIGAÇÃO – A SALVAÇÃO DA LAVOURA. OU NÃO?

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De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a irrigação é um método artificial de aplicação de água na agricultura, cujo principal objetivo é viabilizar os cultivos nos locais onde a escassez de água limita a atividade agrícola. A aplicação da água pode ser feita das seguintes formas: total, suplementar, com déficit hídrico e de salvação.

Irrigação total é aquela onde toda a água necessária para atender a demanda hídrica das culturas é aplicada via irrigação; Irrigação suplementar ocorre quando é necessário compensar as perdas de água das chuvas que evaporaram com o calor; Irrigação com déficit ocorre quando se planeja atender somente uma fração da demanda hídrica da cultura e irrigação de salvação quando se planeja irrigar somente num período relativamente curto ou em um estágio do cultivo. Todas essas técnicas de irrigação são o resultado de milhares de anos de experiência da humanidade com o cultivo da terra em diferentes solos e climas.

Foram desenvolvidas diferentes técnicas de irrigação ao longo das diferentes épocas. As mais usadas atualmente são:

Irrigação de superfície: a água é aplicada de forma concentrada, em sulcos de irrigação abertos paralelamente às fileiras das plantas. É um método que apresenta baixa eficiência no uso da água. É recomendado apenas para situações específicas de solos de textura médio-argilosa e topografia plana. Essa é a técnica mais tradicional, que vem sendo usada desde a antiguidade, normalmente utilizada por pequenos produtores. A água corre pelos sulcos usando a força da gravidade ou usando sistemas elementares de bombeamento: manual, por tração animal ou por “moinhos” de vento;

Irrigação por aspersão: a água é aplicada por emissores chamados de aspersores, que possuem bocais, por onde a água é aspergida sob pressão, em forma de uma chuva artificial. Os aspersores são conectados por conjuntos de tubulações a uma bomba centrífuga, responsável pela pressurização do sistema. É um método que apresenta uma eficiência de aplicação de água em torno de 70% a 80%. Técnica utilizada largamente em grandes plantações industriais;

Irrigação localizada: a água é aplicada de forma localizada, próxima às fileiras das plantas. O sistema de irrigação mais utilizado é o gotejamento subsuperficial, no qual as linhas gotejadoras são enterradas a uma profundidade de 25 centímetros, entre as fileiras duplas das plantas. Apresenta elevada eficiência de aplicação de água – 90% a 95 %. Como desvantagem, apresenta elevado investimento inicial com a aquisição das linhas gotejadoras, tubulações, filtros e acessórios, sendo por isso ainda pouco utilizada.

Além dos problemas de eficiência no uso da água nos sistemas de irrigação, onde ocorrem perdas por infiltração no solo e evaporação, existem as inevitáveis falhas de operação, quando quantidades excessivas de água são bombeadas e aspergidas sobre as plantações, em volumes muito superiores às necessidades das plantas. Problemas de falta de manutenção nos equipamentos e vazamentos de água nas tubulações entre o corpo d’água e a plantação também são muito frequentes.

A raiz principal para esse uso abusivo de água é que, diferentemente dos usos urbanos onde há um hidrômetro medindo cada gota que entra no imóvel (algumas vezes, por falta de manutenção, esses aparelhos medem acima do uso real), os usos em agricultura e pecuária, normalmente, não possuem nenhum tipo de sistema de controle dos volumes de água utilizados na irrigação. Sem nenhum custo para o produtor, não há cuidados e controles na quantidade de água utilizada e o desperdício acaba acontecendo. Como o volume de água de um lago, açude, rio ou riacho não é infinito, sempre poderá existir algum usuário, no campo ou na cidade, que ficará com as torneiras ou bombas de irrigação secas por falta de água.

Vamos continuar falando deste tema no próximo post.

DUZENTOS LITROS DE ÁGUA PARA PRODUZIR UM OVO. FALA SÉRIO?

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De acordo com matéria publicada recentemente na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, o Brasil é um dos países que mais gastam água para a produção de bens de consumo e na agricultura. Neste trágico ranking, nosso país ocupa o 4° lugar entre os grandes gastadores de água. Entre as causas desse uso abusivo, podemos adiantar que a falta de uma cobrança pelo uso da água e os sistemas de irrigação obsoletos estão entre as principais razões.

Escolhi o caso da produção dos ovos como um exemplo desse descaso com o alto consumo de água: gastar 200 litros de água para produzir um ovo com apenas 60 gramas de proteína é  um absurdo. Vamos entender o que acontece:

No ano de 2015 o Brasil atingiu a maior produção de ovos dos últimos 30 anos – dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram que a produção brasileira de ovos totalizou no ano passado 39,5 bilhões de unidades, graças a um plantel de 91,2 milhões de aves produtoras (poedeiras). O consumo per capita atingiu a marca de 191,7 ovos por habitante. A crise econômica que o país vem enfrentando nos últimos anos é uma das principais responsáveis por esse crescimento na produção – o ovo é uma das proteínas mais baratas do mercado, com lugar garantido na mesa dos brasileiros.

Para manter uma criação com 10.000 galinhas poedeiras de ovos para consumo, são gastos aproximadamente 5.000 litros de água por dia. Esse consumo considera a água de dessedentação, limpeza e higienização das instalações, lavagem dos ovos e higienização dos equipamentos, além dos gastos nas instalações do armazém de processamento de ovos. As aves consomem pequenas quantidades de água, porém com muita frequência, principalmente para regular a temperatura do corpo. Eventuais falhas no suprimento de água em criadouros em meses quentes podem resultar na morte de centenas de aves em poucas horas.

O grande vilão no consumo de água na cadeia de produção dos ovos está na produção do milho utilizado na produção da ração das aves: cada quilo de milho produzido necessitará de 900 litros de água, utilizada fartamente nos processos de irrigação mecanizada. Na recente seca que atingiu diversas regiões do Brasil entre os anos de 2014 e o início de 2016, as safras de milho sofreram uma forte quebra e os produtores de aves e de suínos, que também consomem ração a base de milho, sofreram imensamente com o aumento dos custos de produção.

O sistema de irrigação de plantações por aspersão, um dos mais utilizados no campo, representa um consumo de água 30 a 50% maior que sistemas mais modernos que utilizam a técnica do micro gotejamento. Sistemas de gestão informatizados de plantações permitem que os técnicos agrícolas realizem um planejamento dos volumes de água necessários em cada hectare plantado, variando a quantidade de água liberada nas plantas em cada um dos ciclos do crescimento. Essas novas tecnologias que estão em estágio de desenvolvimento no Brasil é que vão permitir reduções expressivas no consumo de água na produção de ovos. As pobres galinhas que fazem o “trabalho” pesado desta produção não podem ser privadas de sua dose diária de água fresca e de ração.

Talvez você tenha achado exagerado os gastos de água na produção dos ovos: saiba que para se produzir um único quilo de carne bovina, esse consumo de água salta para 15.500 litros ; a carne suína tem um consumo menor: 5.990 litros de água para quilo de carne.

Esses rápidos exemplos dão uma ideia da ineficiência dos sistemas produtivos da agropecuária em relação ao uso adequado dos recursos hídricos. Serão necessárias várias mudanças nos mecanismos de produção de todas as cadeias, objetivando um uso mais racional da água e na sustentabilidade ambiental e econômica dessas atividades.

TRATANDO OS DEJETOS SUÍNOS, OU A VINGANÇA DOS PORCOS CONTINUA

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No meu último post começamos a falar do sério problema no abastecimento de água na região oeste do Estado de Santa Catarina, provocado pela contaminação da maior parte das fontes de água por dejetos suínos.

Para que se entenda a complexidade do problema, pesquisei dados relativos à suinicultura no início da década de 2.000 no Estado de Santa Catarina. Vejam alguns números:

– Rebanho suíno de mais de 4 milhões de animais;

– Produção de 665 mil toneladas de carne no ano 2.000;

– Estado responsável por 80% das exportações brasileiras do produto, com rendimento de U$ 231 milhões;

– 18 mil propriedades produtoras de suínos para venda industrial.

– Suinocultura catarinense participava com cerca de 18% do valor bruto da produção agrícola estadual.

Esses números, por si só, conseguem explicar e justificar a pressão ecológica da suinocultura no oeste catarinense. Porém, há muito mais – se você verificar na gondola de congelados de um supermercado, vai observar que os grandes frigoríficos que trabalham com carnes e produtos de origem suína ficam no Estado de Santa Catarina. Esses grandes grupos praticamente monopolizam a compra dos animais produzidos nas pequenas propriedades, ditando o preço a ser pago ao produtor. Sempre que situações de monopólio acontecem, um lado sempre sai perdendo – nesse caso, como se pode notar, são os pequenos produtores que ficam sujeitos às “regras” do mercado.

A baixa rentabilidade dos produtores acaba impedindo que estes façam os investimentos necessários em suas propriedades com vistas ao tratamento dos dejetos suínos. Grandes volumes de dejetos vão necessitar de instalações adequadas para o tratamento: uma ótima solução são os biodigestores e as lagoas facultativas com aeradores, que vão permitir a separação dos resíduos sólidos e tratamento dos efluentes antes do lançamento num corpo d’água, além de permitir uma destinação adequada ao lodo sanitário gerado. Relatórios da época mostravam que 75% das propriedades estavam em desacordo com a legislação ambiental. A maioria das propriedades rurais pesquisadas utilizavam tanques de decantação para a separação dos efluentes líquidos dos sólidos; esse processo garante um pré-tratamento dos dejetos e uma grande redução da carga orgânica dos poluentes, porém verificou-se que a maioria destes tanques não possuía um revestimento no fundo, levando à infiltração de efluentes no solo e à contaminação das águas do lençol freático. Para o tratamento final dos efluentes, seria necessário utilizar, pelo menos, um tanque ou lagoa aerada para uma redução ainda maior da carga orgânica, o que poucas propriedades possuíam – os efluentes ainda com grande carga de poluentes eram lançados nos corpos d’água, levando ao já citado colapso do abastecimento das cidades.

Apesar do custo proibitivo para a maioria dos pequenos produtores rurais, o tratamento dos dejetos de suínos através de biodigestores teria condições de resolver, ao mesmo tempo, o controle sanitário dos efluentes, a reciclagem orgânica dos resíduos para uso como fertilizante e também permitir o aproveitamento do biogás gerado pela biodigestão anaeróbia dos resíduos. Esse biogás (gás metano) pode ser usado na produção de energia elétrica através de queima em uma turbina geradora a gás, garantindo a autossuficiência das propriedades e possibilitando a venda dos excedentes de produção para as distribuidoras de eletricidade da região, gerando uma renda extra para a complementação do orçamento das famílias. Já existem alguns projetos pilotos em andamento, porém em escala muito pequena para o tamanho dos problemas na região.

Ao longo dos últimos anos diversas medidas foram e vem sendo tomadas com vistas ao controle da poluição gerada pelos dejetos suínos no oeste catarinense, com bons resultados no combate à poluição dos mananciais. Muita coisa ainda precisará ser feita ao longo dos próximos anos de forma a garantir que todos tenham direito ao acesso a água, tanto nas propriedades rurais quanto nas cidades. Aliás, essa disputa entre os vários usuários da água será uma das marcas do século 21.

A CRISE NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO OESTE CATARINENSE, OU OS PORCOS CONTRA ATACAM

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Quem leu minhas publicações nos últimos dois meses pode ter ficado com a sensação que os problemas de abastecimento de água e lançamento de esgotos sanitários é uma questão meramente urbana – ao contrário: as atividades rurais em agricultura e pecuária consomem 70% da água disponível e, consequentemente, geram grandes agressões ambientais. Vamos começar analisando um caso envolvendo a suinocultura na região oeste do Estado de Santa Catarina.

A suinocultura é considerada pelos órgãos ambientais como uma das maiores geradoras de dejetos por unidade de área ocupada, produzindo em média de 5% a 8% em relação ao peso vivo dos animais. Considerando-se urina, fezes e limpeza dos viveiros, cada porco gera pouco mais de 10 litros de esgotos por dia. O Estado de Santa Catarina, maior produtor de suínos do Brasil com 30% do rebanho nacional, tem mais de 4,7 milhões de animais produzindo quase 50 milhões de litros de esgotos por dia. Considerando-se que as cidades brasileiras nunca demonstraram grandes preocupações com a implantação de sistemas de coleta e de tratamento de esgotos, seria difícil imaginar que produtores rurais tivessem esse tipo de preocupação – grande parte desses dejetos acaba sendo lançada em cursos d’água in natura e também infiltra no solo, contaminando as águas subterrâneas do lençol freático.

Os dejetos de suínos possuem altas concentrações de nitrato, fósforo e de potássio, além de grandes quantidades de bactérias e vermes. Um litro de dejeto suíno sem tratamento polui dez vezes mais que a mesma quantidade de esgoto doméstico. Os gases emitidos pela suinocultura também geram desconforto aos humanos por possuírem grandes concentração de gás metano (CH4), que é considerado vinte vezes mais agressor na atmosfera que o gás carbônico. Há séculos, criadores de porcos e moradores das cidades em todo o mundo se confrontam por causa do mal cheiro e dos dejetos dos animais; porém, os prazeres do consumo da carne suína e dos diversos tipos de frios e embutidos acabou por criar uma relativa tolerância e sempre se encontrou uma forma de convívio relativamente próximo desses animais.

A criação de suínos sempre foi uma atividade tradicional na região com base na produção familiar. A partir da década de 1940 foi iniciada a produção em escala industrial, levando ao aumento progressivo de produtores especializados. Até a década de 1970 a produção não era considerada um problema ambiental e as propriedades tinham capacidade de “controlar” os volumes de dejetos gerados na produção. Essa falta de preocupação persistiu até o ano 2000, quando o nível de produção de suínos atingiu um nível crítico, comprometendo o abastecimento de água de 5,5 milhões de habitantes das cidades da região, chegando perto do colapso – a maioria das fontes de água estava contaminada por dejetos dos suínos. Além dos problemas localizados na região do oeste Catarinense, essa poluição tinha potencial para atingir outros 15 milhões de habitantes de regiões vizinhas – rios e lençóis subterrâneos estão interligados ao Aquífero Guarani, manancial subterrâneo que se estende por 1,2 milhão de km² em áreas do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. As águas estratégicas deste aquífero são utilizadas pelas populações de centenas de cidades.

Análises laboratoriais feitas em amostras coletadas em corpos d’água e poços da região demonstravam o tamanho da contaminação: 84% das fontes e pequenos mananciais da área em estudo estavam contaminados por coliformes fecais; na cidade de Chapecó por exemplo, foi verificado que pelo menos 97% dos poços rasos estavam contaminados por coliformes totais e quase 70% por coliformes fecais. Nos poços profundos (artesianos e semiartesianos) a contaminação por coliformes fecais era de até 30%. O grupo de bactérias denominado coliformes tem origem no intestino de animais mamíferos, inclusive o homem, .e são eliminadas junto com as fezes; são consideradas os principais indicadores de contaminação das águas.

No próximo post vamos continuar nesse assunto, detalhando um pouco mais os problemas e mostrando quais as soluções que precisaram ser implementadas para começar a resolver essa grave crise no abastecimento de água local.

UMA FLORESTA REGADA À ESGOTOS NO DESERTO DO EGITO

floresta_egito

Nos últimos posts falamos bastante sobre o tratamento dos esgotos, lançamento dos efluentes tratados e também sobre a destinação do lodo sanitário resultante dos processos de tratamento dos esgotos. No portal CICLOVIVO, especializado em sustentabilidade, encontrei uma matéria superinteressante que tem tudo a ver com esses assuntos que estamos tratando por aqui:

Plantar árvore no deserto já soa estranho; usando efluente de esgotos fica ainda mais confuso. Mas, essa é a estratégia usada por um programa de pesquisa no Egito. O trabalho teve início na década de 90, com o intuito de promover a ecologização de 36 pontos diferentes no deserto. A floresta Serapium é um dos frutos deste trabalho.

O processo de florestamento está localizado em uma bacia de drenagem para efluentes de esgotos a duas horas de Cairo. O local recebe os esgotos de mais de 500 mil habitantes, tornando-o ideal para abastecer todo o plantio que cresce em suas margens.

Os pesquisadores criaram um modelo de floresta que mescla espécies nativas e exóticas de grande valor, como o eucalipto e o mogno. O solo é coberto por folhas e possui tubos de irrigação que levam água e nutrientes às árvores. O abastecimento é feito duas vezes ao dia e cada árvore recebe, em média cinco litros de água.

Como este é um recurso escasso no deserto, nada de água potável é usado no processo. Todo o sistema é abastecido com os efluentes de esgotos, que passam por duas fases de tratamento antes de serem liberados na plantação. Na primeira etapa são retirados os resíduos sólidos e na segunda são incluídos micróbios e oxigênio, para decompor os materiais orgânicos.

O que chega às árvores é um líquido com alta concentração de fosfato e composto de azoto (nitrogênio), que funcionam como excelentes fertilizantes naturais. Por conta disso, o processo deixa o crescimento das árvores muito mais rápido do que o tradicional, mesmo estando em condições climáticas tão adversas. Um eucalipto, por exemplo, leva 15 anos para crescer no Egito e alcançar o mesmo tamanho que na Alemanha levaria, em média, 60 anos.

Voltei: Você poderá conferir maiores detalhes desse projeto através de um vídeo em inglês. Algumas importantes observações:

– Observem no vídeo que a rega das plantas é feita por processo de gotejamento sobre as raízes das plantas, o que evita perdas de “água” por evaporação;

– Num deserto como o Saara, é mais fácil se encontrar um lençol petrolífero sob o solo do que um lençol freático com água – a eventual infiltração de água com resíduos de esgotos nesse solo representaria um risco desprezível para o meio ambiente;

– Por fim, para um país com recursos naturais tão escassos como o Egito, faz todo o sentido desenvolver florestas artificiais para o plantio de árvores de espécies com alto valor comercial no meio de um deserto; aqui no Brasil, assistimos áreas de floresta nativa sendo substituídas por plantações de árvores exóticas como o eucalipto australiano em trechos de domínio da Mata Atlântica e, mais recentemente, a plantação de Teca, árvore originária do sudeste asiático e muito parecida com o mogno brasileiro, que está sendo plantada em áreas da floresta amazônica (derrubam a mata nativa para o plantio da Teca) – eu mesmo encontrei várias destas plantações encravadas em trechos da floresta nos Estados de Rondônia e do Amazonas.

Transformar esgotos em florestas artificiais é genial e mostra que existe todo tipo de solução para algo que é considerado um grande problema ambiental em grande parte do mundo. Agora, derrubar florestas de grande biodiversidade para plantar espécies exóticas é, no mínimo, uma gigantesca estupidez…

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FLORESTAS IRRIGADAS COM EFLUENTES DE ESGOTOS NO DESERTO DO EGITO