A RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL E AS EMISSÕES DE GASES NOS ATERROS SANITÁRIOS

Parque Ecológico do Tietê

As palavras enterro e aterro tem a mesma origem, mas os significados são diferentes. Ambas expressam ações de escavar e revolver a terra, porém em escalas diferentes. Enterro significar escavar um pedaço de solo para enterrar um morto ou para esconder um objeto – um tesouro, por exemplo; já aterro significa o acúmulo de terras removidas para nivelar ou altear um terreno, indo desde operação de nivelar um pedaço de um terreno até uma obra monumental como a construção do Aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro.

Comecei este texto fazendo a diferenciação porquê, algumas vezes, pode até parecer óbvia uma analogia entre cemitérios e aterros sanitários – a quietude e tranquilidade de um cemitério em nada poderá lembrar a dinâmica diária de um aterro sanitário, com máquinas escavando e movimentando o solo, caminhões descarregando resíduos, toneladas e mais toneladas de matéria orgânica em decomposição e milhares de metros cúbicos de gases em geração e liberação a partir do solo.

Existem algumas diferenças que impõem uma reflexão – a possibilidade de mudar um cemitério de lugar é uma delas. Isto pode parecer estranho a você, mas historicamente é um fato até corriqueiro, apesar de todas as resistências políticas e religiosas feitas por alguns grupos. Um exemplo é a região da Liberdade, bairro bem próximo da região central da cidade de São Paulo, conhecido em todo o Brasil pela forte presença de orientais, especialmente japoneses. Em 1779 foi construído um cemitério no local, destinado aos pobres, indigentes e executados – o atual Largo da Liberdade era conhecido naquela época como o Largo da Forca e ficava ao lado deste cemitério, sendo o local onde eram executados os criminosos do período colonial. Com o crescimento da cidade e com a abertura do Cemitério da Consolação em 1858, este cemitério foi fechado e as ossadas foram transferidas para a nova necrópole – a Liberdade, pouco a pouco, passou a ser ocupada por ruas comerciais. Se você pesquisar na internet, na literatura e até no cinema, encontrará dezenas de casos de transferência de cemitérios em grandes cidades mundo afora.

Imaginemos agora uma provável mudança de lugar de um aterro sanitário – vamos usar como exemplo o já desativado Aterro Bandeirantes, na região oeste da Cidade de São Paulo. Entre os anos de 1979 e 2007, este aterro recebeu 40 milhões de toneladas de resíduos sólidos, despejados caprichosamente em uma área de 140 hectares, formando camadas sucessivas de resíduos sólidos e terra que atingiram alturas de até 100 metros. Uma hipotética mudança desses resíduos para um outro local implicaria em milhões de viagens de caminhões basculantes e dezenas de milhares de horas de trabalho de máquinas operatrizes escavando o solo e transportando os resíduos para embarque nos caminhões – uma operação de tal magnitude teria custos, literalmente, astronômicos.

Este pequeno exercício foi realizado para mostrar a responsabilidade social e ambiental implícita na escolha de uma área destinada ao uso como aterro sanitário, que ultrapassa o custo de aquisição da terra e a tecnologia necessária para a implantação e operação de um aterro sanitário. As consequências desta escolha serão sentidas por várias décadas, indo desde os anos de operação efetiva do aterro até as fases mais distantes no tempo, quando a área continuará emitindo os gases resultantes da decomposição da matéria orgânica. Voltando ao exemplo do Aterro Bandeirantes – apesar de desativado em 2007, o aterro continua emitindo uma grande quantidade de gases, o que poderá continuar acontecendo até o ano de 2050. Isso ocorre porquê, segundo estudos realizados, 1 tonelada de resíduos sólidos tem potencial de gerar até 250 m³ de gases ao longo de até 40 anos. Em termos mais gerais isso significa que, considerando-se a vida útil de um aterro sanitário mais o período total de emissão de gases resultantes da decomposição, a área poderá ficar comprometida de 50 a 60 anos até que possa ser utilizada para outros fins, ainda que usos sejam limitados. Isso só faz aumentar a responsabilidade pela decisão da escolha.

Uma opção de uso de antigas áreas de aterros sanitários são os parques públicos – o Parque Ecológico do Tietê na Zona Leste da Cidade de São Paulo (vide foto) é um bom exemplo: inaugurado em 1982, o parque foi construído em uma área usada pela Prefeitura de São Paulo como lixão durante 25 anos.

Dos males, o menor.

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