REDE DE ÁGUAS PLUVIAIS E REDE COLETORA DE ESGOTOS – UMA ETERNA CONFUSÃO

Enchente em São Paulo

Dentro de umas poucas horas a partir do momento em que escrevo este post, estaremos entrando oficialmente no Inverno, época do ano que, na minha região, costuma apresentar um tempo seco e razoavelmente frio. Quando “eu era criança pequena lá em Santo Amaro”, roubando o bordão de um antigo comediante, Inverno era sinal de tempo seco e muito frio – lembro que, em dias de frio muito intenso, o gramado de casa amanhecia coberto com uma fina camada de gelo: há muito não se vê um Inverno assim aqui por estas bandas. Curiosamente, estes últimos dias tem sido extremamente chuvosos, o que não é muito comum para a estação – aliás, hoje no meio da tarde enfrentei chuva torrencial numa rodovia. Chuva forte em São Paulo e região, como deve ser do conhecimento geral, é sinal de preocupação com as enchentes.

Estou usando a lembrança destes fatos e memórias para falarmos de um tema bastante importante em hidrologia e que, infelizmente, vem sendo desprezado nas últimas décadas aqui na minha cidade e, imagino, na cidade de muitos de vocês: a Rede de Drenagem das Águas Pluviais. Essa Rede de Drenagem foi formada naturalmente ao longo de milhares (para não falarmos milhões) de anos, quando as águas dos cursos d’água e das chuvas escavaram canais no solo para permitir o escoamento natural dos caudais. Com a intensa urbanização e o crescimento desordenado das cidades, muitos destes canais naturais acabaram obstruídos por construções ou confinados em tubulações subterrâneas – basta uma chuva mais forte para as enchentes tomarem conta das ruas e avenidas. E pior – os cursos d’água passaram a receber os esgotos das casas e indústrias, passando a funcionar como uma “rede coletora de esgotos” a céu aberto. Essa é uma realidade na maioria das cidades brasileiras e na maior parte das cidades dos países pobres e em desenvolvimento.

Vou usar o exemplo da minha cidade: o município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000 se considerados os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem escondidos no subsolo da cidade. Desde a fundação da pequena Vila de São Paulo de Piratininga no século XVI pelos padres jesuítas, já se observa uma técnica de construção que virou a marca da cidade: a vila foi construída no alto de um morro ao lado do Rio Tamanduateí com um duplo objetivo – as águas do Rio seriam usadas para o abastecimento dos moradores e também como um veículo para dispersar os esgotos gerados nas casas. Ao longo de mais de quatro séculos, esse conceito de “urbanização” vem sendo mantido e essa imensa rede hidrográfica, que poderia estar garantindo parte do abastecimento da população, serve apenas para transportar esgotos. É por isso que explicar para uma pessoa comum a diferença entre Rede de Drenagem Pluvial e Rede Coletora de Esgotos é tão complicado – para um leigo, é tudo a mesma coisa. Vamos tentar:

Como já foi mostrado, a chamada Rede de Drenagem de Águas Pluviais utiliza toda a “infraestrutura natural” do relevo de uma região para escoar os excedentes de água que são precipitados nos dias de chuva – isso quer dizer que essa rede de canais precisa estar dimensionada para drenar toda a água dos cursos naturais da região e ainda possuir um espaço extra para absorver as águas das chuvas; quando esse equilíbrio natural é alterado por ações antrópicas, temos as famosas enchentes, matéria na qual nós paulistanos e muitos de vocês, já devem ter atingido o grau de doutorado (vide foto).

Para compensar as alterações provocadas no relevo pela construção das cidades, onde grande parte do solo é impermeabilizado por concreto e asfalto, a Rede de Drenagem de Águas Pluviais precisa receber adições artificiais de condutos para absorver e conduzir as águas: ruas com sarjetas ou meio fio, bueiros, grelhas, tubulações subterrâneas de grande porte, piscinões e áreas de detenção (para acumular rapidamente as águas e liberar aos poucos na rede de drenagem), entre outras obras. Nossas cidades cresceram rápido demais e muitas destas obras deixaram de ser feitas – todos nós arcamos com os custos das enchentes ano após ano.

Como se os problemas de drenagem já não fossem suficientes, grande parte dos cursos de água das cidades continuam sendo usados para o transporte e afastamento dos esgotos. Além de todos os riscos à saúde pública, seja pelo contato com águas poluídas, seja pela proliferação de vetores de todos os tipos e lançamento de lixo e resíduos nestas mesmas águas, existe um enorme agravante: uma Rede de Drenagem de Águas Pluviais não prevê a instalação de qualquer tipo de estação para o tratamento das águas – este tipo de instalação faz parte dos projetos das Redes Coletoras de Esgotos. A consequência óbvia do despejo destes esgotos é a contaminação das fontes usadas para a captação de água para o abastecimento público. No meu último post citei dois exemplos graves dessa contaminação: as Represas Billings e Guarapiranga aqui na Região Metropolitana de São Paulo – nós lançamos esgotos nas fontes de água que abastecem as nossas casas.

É fundamental que todos tenham em mente que são necessários o projeto, a construção e o uso de uma Rede de tubulações específicas para a coleta e o transporte dos esgotos da sua cidade e região – se esta Rede não existe, os governantes locais deverão sempre ser lembrados disto.

Vamos detalhar a Rede Coletora de Esgotos nos nossos próximos posts.

A REDE COLETORA DE ESGOTOS

Esgoto

O acesso a fontes de água com boa qualidade para o abastecimento de populações é hoje um dos maiores desafios da humanidade. Mudanças climáticas globais estão afetando o ciclo das chuvas e provocando grandes alterações em sua dinâmica: em algumas regiões do planeta as chuvas aumentaram em volume e intensidade; em outras regiões, aconteceu justamente o contrário – as chuvas se tornaram irregulares e em volumes menores que os tradicionais. Em regiões montanhosas do planeta, grandes geleiras estão derretendo e reduzindo os volumes de águas de derretimento, as responsáveis pela alimentação de importantes riachos e rios, fontes de água de inúmeras aglomerações humanas. Em muitos lugares é a contaminação de rios e lagos com esgotos domésticos e industriais a responsável pela dificuldade de abastecimento de inúmeras cidades (vide foto). Em São Paulo, a maior e mais rica cidade do país, as Represas Guarapiranga e Billings, duas importantes fontes para o abastecimento da população, recebem diariamente dezenas de milhões de litros de esgotos justamente pela falta de uma Rede Coletora adequada – nós poluímos a água que amanhã chegará em nossas torneiras para o abastecimento de nossas casas. Esse é um problema recorrente em todo o Brasil. Vamos tentar entender essa situação caótica:

A Rede Coletora de Esgotos é formada pelo conjunto de tubulações que tem a função de receber as águas servidas do imóvel (água suja proveniente das pias, tanques e ralos e o esgoto do vaso sanitário). Essa água é afastada dos imóveis e é encaminhada através das tubulações da Rede Coletora para as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), onde os efluentes são tratados antes de serem despejados em corpos de água. Além das tubulações, a Rede Coletora de Esgotos necessita de uma série de instalações complementares e tubulações especiais para o seu perfeito funcionamento: Estações Elevatórias de Esgoto (EEE), coletores tronco, interceptores, linhas de recalque, emissários entre outros.

As tubulações da Rede Coletora de Esgotos têm diâmetro entre 15 cm (mais de 80% de uma Rede típica utiliza esse diâmetro de tubulação) e 50 cm. A grande maioria dos tubos é fabricada em PVC (Poly Vinyl Chloride – Poli Cloreto de Vinila), resinas plásticas de alta qualidade e durabilidade e também em PEAD (Poli Etileno de Alta Densidade); em alguns trechos a tubulação utilizada pode ser de ferro fundido, concreto especial, cerâmica entre outros materiais construtivos. As tubulações desta Rede são instaladas, normalmente, em profundidades entre 1 e 4 metros. Profundidades maiores, sempre que possível, são evitadas, uma vez que se torna necessário o uso de escavadeiras de maior porte; valas profundas estão sujeitas a riscos maiores de desmoronamentos e necessitam de escoramentos reforçados nas paredes para a segurança dos trabalhadores.

Diferente das tubulações da Rede de Abastecimento de Água, que trabalham por pressão, as tubulações da Rede Coletora de Esgotos funcionam por força da gravidade – o esgoto corre de um ponto mais alto para um ponto mais baixo de um terreno, similar ao que acontece com a enxurrada de uma chuva, que corre na direção da sua drenagem natural que são os rios e córregos. Essa característica torna a construção das Redes de Esgotos um verdadeiro desafio técnico, que encarece muito a sua construção.

Uma rede de água pressurizada utiliza torneiras e registros nos pontos de saída, que são abertos e fechados conforme as necessidades de uso; já os pontos de saída de esgotos de um imóvel são abertos (possuem apenas o fecho hídrico). Se, eventualmente, alguém pressurizar um determinado trecho de uma Rede de Esgotos, todo o volume de esgotos presente nas tubulações vai retornar para o interior dos imóveis – imagine a imagem de vasos sanitários se transformando em pequenos vulcões e expelindo “lava” – seria um verdadeiro desastre.

Durante os trabalhos de escavação das valas e instalação das tubulações de esgotos, há um controle rigoroso da profundidade e da inclinação das tubulações, seguindo-se à risca as instruções do projeto técnico. Esse é o principal motivo para a diferença de velocidade na execução das Redes de Esgotos e de Abastecimento de Água Potável. Também é por esse motivo que, em alguns pontos dos bairros da cidade, a população vai se surpreender com o grande volume de terra escavada e com a profundidade na qual a tubulação vai ser assentada, podendo chegar à marca dos 4 metros. Sempre que as tubulações da Rede atingem essas profundidades, é necessária a construção de uma Estação Elevatória de Esgotos (EEE) – essas Estações Elevatórias recebem todos os esgotos de um bairro, por exemplo, e utilizando de um sistema de bombas elétricas os encaminham por força de pressão (nesses trechos são utilizadas tubulações de ferro fundido) para um ponto alto de outro bairro, de forma que os esgotos voltem a correr por força da gravidade. O bombeamento dos esgotos por Estações Elevatórias é repetido várias vezes, conforme o projeto da Rede de Esgotos, até que chegue finalmente na Estação de Tratamento de Esgotos.

Ao longo de uma série de posts vamos explicar cada uma das partes que formam uma Rede Coletora de Esgotos, com o objetivo de lhe dar uma noção básica do seu funcionamento e fornecer subsídios para que você possa cobrar providências das autoridades locais aí na sua cidade.

FALANDO DE ESGOTO SANITÁRIO, OU MEU TRABALHO É UMA GRANDE “MERDA”!

Esgoto a céu aberto

Essa foi uma das minhas primeiras postagens publicadas aqui no blog há quase um ano atrás (10/07/2016) e lida por talvez 6 pessoas – todo o meu grande universo de seguidores na época. Por se tratar da minha área de especialização em saneamento ambiental, eu preparei toda uma série de postagens sobre a temática esgotos sanitários, mantendo sempre a mesma audiência.

Curiosamente, ao longo dos meses, as publicações que tratavam deste assunto tão “asqueroso”, passaram a ser as mais procuradas e compartilhadas do meu arquivo – imagino que a falta de informações mais detalhadas sobre o tema tenha sido o motivo de tamanho “sucesso”. Motivado por essa popularidade tardia, resolvi fazer um up grade nestes antigos posts e republica-los agora para uma audiência um pouco maior. Vamos lá:

Esgoto sanitário é um tema que nem de longe pode ser definido como um dos mais populares em nossa sociedade. Trabalhei por vários anos nas áreas de relações comunitárias e de divulgação de obras para a implantação de redes coletoras de esgotos em cidades da região metropolitana de São Paulo e em diversas cidades litorâneas da chamada Baixada Santista; também integrei a equipe de profissionais que iniciou as obras de implantação da rede de esgotos da cidade de Porto Velho na região amazônica. Muito mais que o trocadilho da chamada (que não deixa de ser uma verdade), conheço muito bem a matéria e sei o quanto é difícil desenvolver esse tipo de trabalho. Em Porto Velho, só para citar um exemplo, trabalhamos um ano e meio para conseguir implantar apenas 32 km de rede coletora de esgotos de um projeto com previsão de mais de 700 km de rede – uma homérica guerra entre diferentes grupos políticos da cidade não permitiu que as obras prosseguissem, apesar da farta alocação de recursos financeiros disponibilizados pelo Governo Federal na época, além de um fabuloso arsenal de máquinas e equipamentos e de uma equipe técnica altamente capacitada.

Governos de todos os níveis ou fingem que o problema não é seu ou se esforçam ao máximo para fazer o mínimo possível – esgoto é obra invisível e não costuma render votos nas eleições. Diferentes das grandes obras visíveis como pontes, viadutos, escolas e hospitais, as dispendiosas redes de esgotos não permitem grandes cerimônias de inauguração, com prefeitos ou governadores cortando uma vistosa fita de seda; também é um tanto difícil imaginar uma dessas autoridades colocando o nome do seu digníssimo pai ou mãe numa estação de tratamento de esgotos – batizar uma escola ou hospital com o nome de um familiar é muito mais digno. Obras de abastecimento de água, muito mais baratas, rápidas para se executar e geradoras de expressivas votações eleitorais tem a preferência e simpatia da maioria dos políticos. Porém, não custa lembrar, que para cada um litro de água potável que entra em uma residência será gerada a saída de um litro de esgoto – simples assim. Na falta de uma rede coletora adequada, os improvisos para a destinação dos esgotos serão multiplicados, afetando diretamente a saúde de grandes contingentes populacionais e causando prejuízos imensos ao meio ambiente.

Qualquer que seja o improviso ou “mágica” que se faça, será muito difícil esconder os despejos de esgotos numa cidade: cada um dos habitantes produz diariamente a sua cota, em média entre 150 e 200 litros de esgoto por dia (no Rio de Janeiro, por exemplo, esse valor supera os 300 litros por dia). Esse número pode, a princípio, parecer exagerado mas considera o consumo total diário de água pessoal como aquela usada nas descargas para transportar os dejetos do vaso sanitário, a água dos banhos, da lavagem das roupas e das louças, escovação de dentes entre outros usos. Numa cidade com 500 mil habitantes encontraremos fácil uma produção diária de, pelo menos, 75 milhões de litros de esgotos por dia. Esses esgotos correrão pelas sarjetas do meio fio das ruas, poluirão córregos e rios, comprometendo inclusive os rios e reservatórios de captação de água para o abastecimento ao longo da bacia hidrográfica, entre outras tragédias ambientais.

Como se isso não bastasse, certamente encontraremos outros problemas no saneamento básico desta cidade: ineficiências na coleta do lixo e sua disposição inadequada em lixões, sistemas de águas pluviais problemáticos ou inexistentes, além da proliferação de vetores de doenças (mosquitos, baratas e ratos entre outros), resultando num ambiente insalubre e de péssima qualidade para a vida dos habitantes. Os recentes surtos de Dengue, de febre Chikungunya e de Zika vírus (esse último suspeito de estar associado ao surto de microcefalia em bebês), que tanto acompanhamos nos noticiários recentes, são os reflexos mais notórios da nossa falta de cuidado com o saneamento básico.

Em uma sociedade onde o consumismo vem crescendo nos últimos anos, é comum assistirmos comerciais de TV açucarados, onde a temática “qualidade de vida” está diretamente associada ao consumo do produto anunciado. Francamente, é difícil conciliar esse mundo da fantasia com a realidade que nos cerca. Por mais deliciosa que seja a margarina, a alta tecnologia do smartphone ou o conforto do carrão sofisticado, os felizes consumidores destes fantásticos produtos estarão cercados por um meio ambiente mais próximo da tragédia do que do mundo da fantasia.

Os governantes mais sérios, que infelizmente ainda são poucos, estão descobrindo que os investimentos em saneamento básico representarão no médio e no longo prazo uma ferramenta valiosa para a economia de recursos na área de saúde – em cidades com boa infraestrutura de saneamento básico, a incidência de doenças, notadamente as de veiculação hídrica, diminui substancialmente. Estudos internacionais indicam que para cada dólar investido em saneamento básico, gera-se uma economia de até cinco dólares em despesas de saúde pública. Em tempos de crise financeira como estes que estamos vivendo, investimentos públicos (e por que não privados) maciços em infraestrutura de saneamento básico são uma excelente alternativa para a geração de empregos e economia de recursos dos orçamentos nas áreas da saúde pública.

Infelizmente, o caminho que deve ser percorrido entre as boas ideias e os resultados práticos do saneamento básico é longo, caro e, em alguns casos, até traumático para a população. A execução de qualquer obra pública em regiões urbanas é problemática e apresenta uma série de dificuldades técnicas que vão desde dificuldades logísticas para o transporte e armazenamento de materiais até os problemas de relacionamento com as comunidades do entorno das obras, onde fatalmente surgirão complicações no trânsito local, barulho e poeira entre outros transtornos. Nos casos das obras de redes de esgoto, onde há necessidade de longos períodos de bloqueio em trechos de ruas e avenidas, além da escavação de valas na frente de acessos a residências, escolas e comércios, os problemas e as reclamações se multiplicam.

Obras similares nas redes de abastecimento de água, redes de águas pluviais, redes de gás, implantação de dutos subterrâneos para telefonia, TV a cabo e eletricidade que estão sendo realizadas simultaneamente pelos quatro cantos das cidades, aumentarão ainda mais a confusão. É fundamental que todos os envolvidos nos trabalhos tenham uma visão ampla do tema e um entendimento claro da importância das obras como forma de atender as demandas das populações afetadas e solucionar os problemas que surgirão.

Em pleno século XXI, com o Brasil ocupando uma posição de destaque entre as maiores economias do planeta, milhares de cidades em todas as regiões do país mal começaram a implantar redes coletoras de esgoto – estações de tratamento de esgoto então, nem pensar… Vivemos o paradoxo de ser um dos países líderes em números de usuários da internet e da telefonia móvel e, por outro lado, pertencer ao grupo de países com as mais precárias infraestruturas de saneamento básico do mundo – a era da informação e a pré-história disputando seu espaço em nossa sociedade.

Existe muito o que se fazer para mudar a cultura das “obras invisíveis” e transformar o saneamento básico numa realidade para todos. É um tema bastante extenso e muito interessante, que será trabalhado em diversos outros posts.

Enquanto isso, uma dica: você já deve ter percebido que saneamento básico é essencialmente uma questão de decisão política – a alocação de recursos financeiros e a contratação de empresas com expertise na área nunca será a garantia da efetiva realização e operação dos sistemas. Escolher bons representantes políticos, verdadeiramente comprometidos com essa causa, é o que será um bom começo para uma revolução no saneamento básico na sua cidade ou região.

A SUA BENÇÃO SÃO FRANCISCO

São Francisco

No meu último post falei sobre os desencontros de alguns dos números do Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco – há água “de menos” no Rio para água “de mais” necessária para uso na transposição. Pode até parecer uma diferença pequena, mas, para um rio em situação sofrível, cada metro cúbico pode fazer diferença. Uma forma de entender o problema é imaginar uma pessoa extremamente doente e que seja obrigada a doar sangue para um outro doente – por melhor que seja a intenção, o doador poderá ter a sua saúde completamente comprometida com este ato. Antes que se façam planos e mais projetos para o uso das águas que serão retiradas da bacia hidrográfica do São Francisco para uso na transposição, é fundamental que se desenvolvam ações para revitalizar as margens, nascentes, tributários, matas ciliares, entre outros imensos problemas, garantindo aumento na produção e na qualidade das águas do Rio.

Caso você tenha interesse em pesquisar mais sobre o Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco, recomendo que procure informações sobre o processo de licenciamento ambiental da obra. Como sempre acontece em obras de grande porte, as autoridades ambientais impuseram uma série de condicionantes para a liberação do licenciamento – uma série de programas ambientais foram propostos para compensar, atenuar e reverter os impactos ambientais negativos produzidos pelas obras. Destaco alguns destes programas: Programa de Recuperação de Áreas Degradadas, Programa de Compensação Ambiental, Programa de Prevenção à Desertificação, Programa de Conservação e Uso do Entorno e das Águas dos Reservatórios, Programa de Conservação da Fauna e da Flora e Programa de Educação Ambiental – é fundamental que estes e outros programas sejam implementados o quanto antes para ajudar a reverter alguns dos males crônicos que estão destruindo a bacia hidrográfica do Rio São Francisco e que se garanta, no futuro, a disponibilidade de água para todos.

A água usada sem controle e sem critério para fins de agricultura, por exemplo, normalmente resulta em grandes desastres ambientais – apresentei alguns exemplos destas tragédias. No primeiro post desta série, apresentei os problemas do Mar de Aral na Ásia Central – as águas dos rios formadores do Aral, o Amu Daria e o Syr Daria, passaram a ser usadas descontroladamente para irrigação de campos de algodão e o grande lago de outrora acabou se transformando num grande deserto de areias salgadas. Outros exemplos citados foram o Mar Morto, na fronteira entre Israel e Jordânia, o Lago Chade na África e o Rio Colorado no Sudoeste dos Estados Unidos. Citei outras fontes de água em risco iminente: o Delta do Rio Okavango no Sul do continente Africano e o Lago Titicaca, na fronteira entre a Bolívia e o Peru; na Bolívia, apresentei também o caso do Lago Poopó, que entrou em colapso após obras que desviaram as águas do Rio Desaguadero, seu principal tributário, para áreas de irrigação. Logo, toda e qualquer preocupação com o futuro do Rio São Francisco é altamente relevante.

Também citei o caso dos espertalhões que tinham acesso a informações privilegiadas das áreas que seriam desapropriadas para a formação da Represa de Sobradinho – os gatunos convenciam os pobres sertanejos a venderem suas terras a preço de banana e faturavam alto com as indenizações pagas pela concessionária responsável pelas obras. Quantos novos vivaldinos não tiveram acesso a informações antecipadas das áreas que seriam atravessadas pelos canais dos Eixos Norte e Leste dos Sistema de Transposição do Rio São Francisco e saíram comprando grandes extensões de terras desvalorizadas a baixos preços, ficando a esperar a chegada das águas, quando faturarão milhões com a produção de frutas e outras culturas irrigadas?

As obras já concluídas e ainda em execução estão literalmente carregadas de denúncias de superfaturamento, desvios de recursos, problemas de execução e falhas de projeto – frequentemente recebemos notícias e vídeos mostrando canais com paredes rompidas, vazamentos de água, barragens se desmanchando com a força da correnteza entre outros problemas. É fundamental que se apure tudo, que se processem e prendam os responsáveis e, o mais importante, que se corrijam os problemas e quaisquer erros de projeto – é fundamental que o Sistema de Transposição das Águas do Rio São Francisco funcione, senão perfeitamente, da melhor maneira possível.

Encerrando, lembro que muito tem se falado dos 12 milhões de sertanejos que serão beneficiados com a chegada das águas da transposição – entretanto, fala-se pouco das centenas de obras menores que serão necessárias para trazer as águas desde os canais da transposição até as pequenas vilas e cidades; estas obras incluem pequenos canais, adutoras, estações de bombeamento e de tratamento, além dos sempre esquecidos sistemas de coleta e tratamento de esgotos. Que todos fiquem de olho e cobrem providências das autoridades locais.

Rogo ao bom São Francisco que continue a zelar pelas águas do “seu” Rio e que ilumine o coração e a mente dos homens – precisamos muito disto!

A TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO E OS NÚMEROS

Donald Duck

Eu devia ter uns 6 ou 7 anos quando assisti pela primeira vez a animação O Pato Donald no País da Matemágica (Donald in Mathmagic Land, em inglês). O filme mostra as confusões do atrapalhado personagem numa aventura através do mundo dos números – se você ainda não viu, recomendo. Lembrando do filme, passei a usar de uns anos para cá o termo “matemágica” para designar “equações, fórmulas e projetos públicos mirabolantes onde os cálculos não fecham” – e os números da Transposição do Rio São Francisco me enchem de desconfiança.

Sem entrar no mérito da necessidade inadiável do abastecimento de água a milhões de pessoas nas regiões do Semiárido nordestino, a forma como o Projeto da Transposição do Rio São Francisco foi vendida para o país e como vem sendo implantado, tem revelado algumas “imprecisões” nos números, o que preocupa muita gente. Vejam:

A vazão média anual do Rio São Francisco que você vai encontrar na literatura especializada é de 2.846 metros cúbicos por segundo, variando entre 1.077 m³/s nos períodos de seca e 5.290 m³/s na estação das chuvas (dados da ANA – Agência Nacional de Águas). Quando a primeira expedição exploratória portuguesa liderada por Américo Vespúcio descobriu a foz do Rio em 1501, verificou-se que os poderosos caudais de água doce avançavam até 4 quilômetros mar a dentro – o Velho Chico era, na época, um rio de respeito.

Entretanto, conforme demonstramos aqui ao longo de dezenas de postagens, as águas preciosas do Rio São Francisco já não correm tão fartas e fáceis como no passado – em meados de maio último, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, reduziu as vazões das barragens de Sobradinho e de Xingó para míseros 650 m³/s, com o objetivo de preservar ao máximo a lâmina d’água – o nível de Sobradinho é o menor em seus 38 anos de história e está abaixo dos 15%. Faz muito tempo que a vazão real do Velho Chico não chega nem perto da vazão histórica mostrada nestes manuais.

Pesquisando os dados que foram usados na proposição do Sistema, encontrei um interessante vídeo publicado pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária: Caminho das Águas. O vídeo mostra que, para efeito de cálculo, usou-se um valor médio de vazão para o Rio São Francisco de 1.850 m³/s; também se informa que o desvio de água da bacia hidrográfica para a transposição seria de “apenas” 1,4%. Feitos os devidos cálculos usando estes valores, conclui-se que o desvio de água para fins da transposição corresponde a uma vazão de 25,9 m³/s, um número que está muito próximo dos valores divulgados como vazão média projetada para o Sistema: 16,4 m³/s no Eixo Norte e 10 m³/s no Eixo Leste.

Em termos absolutos, estamos falando de aproximadamente 37,3 bilhões de litros de água por dia – para abastecer uma população de 12 milhões de pessoas, conforme divulgado pela propaganda oficial, será necessário reservar 1,2 bilhão de litros deste total (considerando-se o consumo mínimo per capita de 100 litros/dia, recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde). Observe que, a grosso modo, os números fazem sentido.

Porém, existem perdas de água que não estão sendo consideradas nos cálculos:

Perdas de água por evaporação: O Projeto de Transposição do Rio São Francisco é o que se chama “sistema aberto” – são canais e reservatórios onde a água fica exposta ao sol intenso e ventos do Semiárido, e parte da água evapora e se perde;

Perdas de água por vazamentos nos canais, túneis e aquedutos: Considerando que os Eixos Norte e Leste tem aproximadamente 620 km de comprimento, é improvável que não existam trincas e fendas nos revestimentos de concreto, por onde se perderão volumes consideráveis de água;

Perdas de água por infiltração no solo: De acordo com as informações oficiais, o Projeto de Transposição contará com, pelo menos, 27 reservatórios onde há grandes chances de perdas de água por infiltração no solo.

Observem que não estou considerando a água absorvida pela vegetação, os desvios clandestinos e o “roubo” de água ao longo dos canais. Sem querer ser muito rigoroso, eu consideraria pelo menos uns 30% de perda de água neste Sistema (a perda média em sistemas de abastecimento de água no Brasil é estimada em 37%). Para compensar essa perda será necessário retirar, pelo menos, mais 30% de água ou 7,7 m³/s de água da bacia hidrográfica do Rio São Francisco – portanto, nós não estamos falando mais de 25,9 m³/s e sim de 33,67 m³/s de água para fins de transposição.

Há uma outra sutileza na apresentação do Sistema: apesar dos números médios de vazão informados serem relativamente baixos, os Eixos Norte e Leste foram projetados para transportar volumes de água bem maiores: respectivamente, 99 m³/s e 28 m³/s. Cedo ou tarde, com a implantação de projetos de agricultura irrigada ao longo dos canais e reservatórios, haverá uma pressão imensa dos produtores por volumes cada vez maiores de água. Só para lembrar: as atividades agropecuárias são grandes consumidoras de água, absorvendo até 70% das reservas disponíveis em uma região.

Na “equação” deste Sistema, a vazão do Rio São Francisco está superdimensionada, o volume de água retirado para transposição está minimizado e não estão sendo consideradas as possíveis perdas de água no sistema. E, para pensar na cama, a construção do Sistema de Transposição do Rio São Francisco já custou, até este momento, o dobro do que havia sido orçado – haja “matemágica” para tanta imprecisão nos cálculos.

É por isto que tem tanta gente preocupada com os rumos deste Projeto…

FALANDO DAS OBRAS DO PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO

Estação de Bombeamento

De acordo com dados do Ministério da Integração Nacional, o Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco compreende a construção de um complexo conjunto de obras civis onde se incluem: 14 aquedutos, 9 estações de bombeamento, 27 reservatórios, 9 subestações elétricas com potência de 230 kW, 270 quilômetros de linhas de transmissão em alta tensão e 4 túneis – um destes túneis, o Cuncas I, com 15 quilômetros de extensão, é o maior já construído na América Latina para o transporte de água. Essas obras integrarão dois grandes Eixos de canais: O Eixo Norte, com aproximadamente 400 km de extensão, e o Eixo Leste, com aproximadamente 220 km de extensão.

Antes de passarmos à descrição destas obras, é importante entendermos a história do relevo local e os problemas que os desníveis dos terrenos criam para a transposição das águas:

O vale do Rio São Francisco é o que se chama em geologia estrutural de Graben ou fossa tectônicaum vale alongado com um fundo plano, resultado do afundamento de um grande bloco do território devido aos movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas. Sem entrar em maiores detalhes, esse tipo de afundamento se deve à movimentação das Placas Tectônicas, também conhecido como Tectônica Global – pesquise sobre isto.

A palavra Graben é de origem alemã e significa escavação ou vala. Os paredões que cercam a área afundada são chamados de Horst. Essa fossa tectônica original, num primeiro momento, formou um grande lago alongado, orientado no sentido Norte-Sul; com o tempo, a água deste lago encontrou uma falha no paredão (Horst) na direção Leste, através da qual começou a fluir em direção ao Oceano Atlântico – ao longo de um processo erosivo de milhões de anos, a água escavou as rochas nesta falha no paredão, formando o que conhecemos hoje como o Canyon (a palavra em português é canhão) do Rio São Francisco. Os processos geológicos que se seguiram, especialmente a erosão e a sedimentação, formaram a paisagem que conhecemos hoje como a bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

Para que se consiga levar a água desde a depressão onde se encontra o vale do Rio São Francisco até os sertões de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, é necessário que se vença a altitude do relevo do antigo paredão que surgiu ao Norte do Rio São Francisco. No caso do Eixo Norte, a altura a ser vencida será de 160 metros acima do nível do Rio São Francisco na área de captação, próxima da cidade de Cabrobó em Pernambuco; no Eixo Leste as altitudes são bem maiores: para atender áreas do Semiárido Pernambucano, a água precisará ser elevada a uma altura de 500 metros acima do nível do Rio na área de captação na barragem de Itaparica, no município de Floresta em Pernambuco; no ramal que segue na direção do Semiárido Paraibano, a altitude chega aos 300 metros. Para vencer esses grandes desníveis, o Sistema contará com 9 estações de bombeamento (3 no Eixo Norte e 6 no Eixo Leste), onde poderosas bombas hidráulicas alimentadas por energia elétrica captam a água nos canais e reservatórios, bombeando “morro acima”.  Para facilitar o entendimento, imagine um imóvel com três andares: uma primeira bomba capta a água ao nível do solo e eleva até uma caixa d’água no primeiro andar; uma segunda bomba repete o processo elevando a água até o segundo andar e uma terceira bomba completa o processo, elevando a água até uma caixa d’água no terceiro andar; a partir deste ponto mais alto a água será distribuída por tubulações para todos os cômodos da construção usando a força da gravidade. O conceito do Sistema de Transposição do Rio São Francisco é exatamente este – eleva-se a água até reservatórios em pontos altos da região e se distribui para as regiões mais baixas pela ação da força da gravidade através de canais, aquedutos e túneis, numa declividade média de até 3% (isso significa que a cada 1 km percorrido, a água desce uma altura equivalente a 30 metros).

Através do Eixo Norte do Projeto, ainda em construção, a água será distribuída entre os sertões de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, seguindo através de 400 km de canais, alimentando quatro rios, três sub-bacias do São Francisco (Brígida, Terra Nova e Pajeú) e mais dois açudes: Entre Montes e Chapéu.

No Eixo Leste, que já possui um ramal em operação chegando até o município de Monteiro na Paraíba, serão 220 km de canais, parte levando água até o Rio Paraíba, depois de passar nas bacias dos Rios Pajeú e Moxotó, e outra parte atendendo regiões do Semiárido de Pernambuco.

As capacidades máximas de vazão de água nos Eixos Norte e Eixo Leste serão, respectivamente, de 99 m³/s e 28 m³/s; as vazões médias, porém, serão mais baixas: 16,4 m³/s no Eixo Norte e 10 m³/s no Eixo Leste. De acordo com estimativas do Governo Federal, quando todo o Sistema de Transposição estiver em plena operação, uma população total de 12 milhões de pessoas será beneficiada com as águas do Rio São Francisco.

Esses números grandiosos e mágicos escondem alguns problemas, que trataremos no nosso próximo post.

OS CONCEITOS DE BACIA HIDROGRÁFICA E DE TRANSPOSIÇÃO ENTRE BACIAS HIDROGRÁFICAS

Telhado

Para que você leitor entenda perfeitamente o que é o famoso Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco, incluindo todas as suas implicações técnicas e operacionais, é fundamental que você conheça alguns conceitos de hidrologia, que é a ciência que estuda, entre outros temas, a ocorrência, a circulação e distribuição das diferentes formas de água existentes na superfície terrestre, além de algumas informações de geografia e geologia. Vamos por partes.

Em diversas das postagens aqui publicadas, falamos da bacia hidrográfica do Rio São Francisco – vamos entender melhor o que isso significa:

O termo bacia hidrográfica é utilizado para definir uma área de captação de água, ou seja, a somatória das águas das chuvas e das águas que brotam de inúmeras nascentes subterrâneas de uma determinada região e que correm na direção de um único ponto de saída chamado de exutório. No caso do Rio São Francisco, estamos falando das águas de milhares de riachos e centenas de rios com nascentes em áreas do Cerrado e do Semiárido, e também das águas das chuvas, que correm com a força da gravidade na direção de um canal principal e central. A grande bacia hidrográfica do São Francisco corre primeiro no sentido sul-norte, do Estado de Minas Gerais em direção a Bahia; no Norte da Bahia, a bacia hidrográfica converge na direção Leste, acompanhando inicialmente áreas dos Estados da Bahia e de Pernambuco e, a seguir, de Alagoas e de Sergipe; o exutório da bacia hidrográfica do Rio São Francisco é a foz no Oceano Atlântico. Essa bacia hidrográfica é um sistema considerado aberto, onde há muitas perdas de água ao longo do caminho, ou seja, se você somar todo o volume de água que entrou na bacia hidrográfica, perceberá que não é exatamente o mesmo volume de água que vai ser despejado na foz no Atlântico. Essa diferença se dá pelas perdas de água por evaporação, infiltração de água no solo, interceptação pela vegetação, uso da água pela população para abastecimento e irrigação, entre outros usos. Os limites de uma bacia hidrográfica são estabelecidos pela topografia do terreno, ou seja, pelo relevo. Se tomarmos como exemplo uma montanha ou uma serra, você perceberá rapidamente que as águas das nascentes ou das chuvas correrão pelas diversas faces do relevo, seguindo em direções diferentes – o topo da montanha ou dos morros da serra são conhecidos como divisores de águas ou divisores topográficos da bacia hidrográfica. Como o escoamento da água se dá pela ação da gravidade, e a bacia é definida como o conjunto de áreas que contribuem com os caudais para um ponto central, a água seguirá sempre pelo caminho mais fácil, indo dos pontos mais altos do terreno em direção aos pontos mais baixos – isso acontecerá em cada um dos lados da montanha ou da serra que estamos usando como exemplo, formando bacias hidrográficas distintas em cada um dos lados. De uma forma bem simplificada: observe o telhado de uma casa (vide foto) – toda a água da chuva que cair sobre as telhas (captação da água) vai correr primeiro na direção de uma calha (equivalente a calha do rio) e depois vai descer por uma tubulação (exutório) até o nível do solo; se for um telhado com diversas faces ou lados, cada uma das faces ou lados formará um conjunto equivalente a uma bacia hidrográfica.

E o que significa a transposição de águas de uma bacia hidrográfica para outra? No exemplo da nossa montanha ou serra, ou ainda o exemplo do telhado de uma casa, significa que estaremos retirando água de um dos lados do relevo, ou seja, de uma bacia hidrográfica, e transferindo para o outro lado – para conseguir fazer essa transferência será necessário utilizar algum sistema mecânico de bombeamento que consiga elevar a água por meio de tubulações até o outro lado da montanha ou serra. Existindo um desnível natural entre as bacias hidrográficas, poderá ser escavado um túnel por baixo da montanha ou serra, permitindo que a água corra por gravidade de um lado para o outro, sem a necessidade ou uso de qualquer tipo de bombeamento mecânico.

Um exemplo bastante didático de transposição entre bacias hidrográficas é o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de grande parte da Região Metropolitana de São Paulo. O Sistema é formado por um conjunto de represas localizadas em diferentes bacias hidrográficas e em diferentes altitudes. A transferência de água entre as represas é feita por  túneis de interligação, que usam força da gravidade; entre o ponto mais baixo do Sistema Cantareira e a Região Metropolitana de São Paulo existe um grande desnível – a Serra da Cantareira. Para que se consiga transpor esse desnível, o Sistema conta com um poderoso conjunto de bombas hidráulicas, que eleva a água até uma pequena represa no alto da Serra da Cantareira; a seguir, a água é tratada e distribuída para os consumidores por força da gravidade. Em resumo – para fazer a transposição de uma bacia hidrográfica para outra, você sempre precisará realizar algum tipo de obra de engenharia que permita transpor um obstáculo criado pelo relevo.

No próximo post nós vamos mostrar como a transposição está acontecendo na prática no Rio São Francisco, apresentando todas as obras já executadas e em execução, responsáveis por levar as águas do Rio na direção dos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

A TRANSPOSIÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO

 

Projeto de Transposição São Francisco

Quem acompanha as postagens do blog já percebeu que este é um espaço onde se fala diariamente da água, o elemento natural mais fundamental para a criação e a manutenção da vida em nosso planeta. Cada vez mais necessária e rara, a água é o grande desafio da humanidade em nossos tempos. Nas sequências de posts publicados ao longo do tempo, uma determinada temática ambiental é escolhida num dado momento e detalhada em várias publicações, sempre procurando mostrar a complexidade do tema e os conflitos e problemas criados pelo uso da água.

Nos últimos três meses, o foco das publicações foram os problemas de superexploração e destruição das fontes de água em várias partes do mundo – no Brasil, foram tomados como exemplo destes fatos os problemas que assolam, já há muito tempo, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Ao longo de 33 publicações tentou-se mostrar um mosaico dos problemas que, literalmente, estão destruindo o nosso Velho Chico. Agora, a partir dessa base de problemas, gostaria de falar um pouco do necessário e problemático Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco.

De acordo com registros históricos, a ideia de realizar uma obra de engenharia que permitisse a transposição das águas do Rio Francisco na direção de áreas assoladas por secas frequentes remonta a meados do século XIX, época do reinado de Dom Pedro II. Nesta época, apesar das boas intenções dos idealizadores, o projeto não poderia ser realizado por falta de tecnologias e recursos de engenharia adequados – citando um único exemplo: a tecnologia para bombear a água a grandes alturas com o uso da eletricidade só estaria disponível 50 anos depois.

A região do Semiárido, como deve ser de conhecimento geral, enfrenta períodos cíclicos de secas com excepcionais proporções – notas de antigos cronistas, testemunhas oculares, médicos e jornalistas, além de registros dos governos, falam de grandes secas em 1744, 1790, 1846, 1877, 1915, 1932, 1951 e 1979. Em nossos tempos, mais precisamente desde 2012, o Semiárido está vivendo uma estiagem comparável à grande seca de 1915, evento que acabou imortalizado na literatura brasileira décadas depois com a publicação do romance O Quinze, obra da grande  escritora cearense Rachel de Queiroz. Todos estes registros falam das penúrias e sofrimentos vividos pelos sertanejos, vitimados pela sede e pela fome, forçados a migrar para outras terras, quando milhares caíram desfalecidos pelos caminhos dos sertões. Um pequeno trecho de um antigo relatório oficial de um órgão do governo nos dá uma ideia da perplexidade criada pelo evento climático extremo:

“Em 1932, o ano começou com poucas chuvas em janeiro. A seca havia se generalizado abrangendo uma área até hoje não superada: parte do Maranhão e o Piauí até a Bahia, ao sul do rio Itapicuru foram atingidos, numa extensão de 650.000 km², onde habitava uma população de 3.000.000 de pessoas.”

A discussão acerca de um sistema de transposição voltou a ser considerada nas décadas de 1940, época do Governo Vargas, e 1980, no Governo do Presidente João Batista de Figueiredo. Em 1994, durante o Governo do Presidente Itamar Franco, foi iniciado um estudo sobre os potenciais hídricos das bacias hidrográficas do Semiárido nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, estudos que prosseguiram durante o Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 2007, já no Governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, um projeto de transposição das águas do Rio São Francisco começou a ser implantado, com obras sendo executadas por batalhões especializados em engenharia do Exército Brasileiro e por construtoras privadas. Depois de inúmeros atrasos, suspeitas de fraude e superfaturamento, o primeiro trecho do Eixo Leste do Sistema de Transposição do Rio São Francisco foi inaugurado oficialmente no início de março de 2017 – depois de mais de um século e meio desde as primeiras sugestões iniciais, as águas transpostas começaram a escoar pelos sertões do Estado da Paraíba.

Projeções oficiais do Governo Federal estimam que o Sistema de Transposição, quando estiver totalmente concluído, atenderá 12 milhões de habitantes nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, levando as águas do Rio São Francisco para uma extensa área do Semiárido.

Entre o sonho inicial do século XIX e os primeiros metros cúbicos de água correndo no município de Monteiro na Paraíba, muito tempo se passou e grandes volumes de recursos foram alocados no projeto; os poderosos caudais do Velho Chico dos tempos de Dom Pedro II já não existem mais e a sombra da devastação ambiental se esconde a cada meandro da bacia hidrográfica – o sonhado Projeto se cerca de muitas incertezas…

Vamos discutir e nos aprofundar nestas importantes questões nos nossos próximos posts.

 

AS CARRANCAS, A UIARA, O MINHOCÃO E O MISTERIOSO NÊGO D’ÁGUA

Nêgo D'água

Estamos falando muito dos problemas e dificuldades que se desenrolam de forma dramática nas águas do Rio São Francisco. Um rio, porém, extrapola os limites do mundo físico das águas, dos relevos e das populações, e também flui sutilmente por caminhos imateriais. Simon Schama, escritor e historiador britânico, sintetizou esse sentimento com essa afirmação: “ver um rio equivale a mergulhar numa grande corrente de mitos e lembranças, forte o bastante para nos levar ao primeiro elemento aquático de nossa existência intrauterina”.

Marinheiros e pescadores são, desde os primórdios da história da humanidade, criaturas supersticiosas. A força, os perigos e os mistérios do mar, passados também para as águas dos grandes rios, deram origem a quantidades imensas de crendices e histórias folclóricas em todos os cantos do mundo. Relatos de monstros e serpentes marinhas, sereias, leviatãs, entre outras criaturas sobrenaturais, são encontrados ainda hoje na cultura popular de muitos povos. Não é de se estranhar que um Rio tão grande e importante como o São Francisco, com margens habitadas há séculos por diferentes populações (índios, negros e brancos), também tenha desenvolvido um folclore muito particular. Hoje, vamos amenizar a nossa usual conversa e conhecer um pouco do folclore do nosso Velho Chico.

Antigos moradores das costas da Escandinávia, os vikings nos legaram um importante conjunto de tradições folclóricas e uma complexa mitologia. Deixem-me fazer uma rápida apresentação de um dos seus costumes que, seguindo algum caminho improvável, acabou chegando ao Rio São Francisco:

Os velozes barcos destes implacáveis bárbaros eram chamados de knörr, na versão curta para transporte de carga, e langskip, uma versão com casco mais longo usada em batalhas. Uma característica marcante dessas naus era a presença de um dragão ou cabeça de serpente marinha, conhecido como drakkar, esculpido em madeira na proa do barco. O drakkar tinha a função de espantar monstros marinhos que, eventualmente, cruzassem o caminho da embarcação e, de quebra, colocavam em pânico qualquer população que avistasse uma dessas naus de perfil inconfundível navegando nas costas oceânicas dos mares do Norte.

Curiosamente e sem que haja uma explicação concreta para a prática, imagens antropomórficas muito parecidas com os antigos drakkar passaram a ser esculpidas pelas populações ribeirinhas do São Francisco, a partir de meados do século XIX, e instaladas nas proas das embarcações, virando uma espécie de marca registrada do Rio: as carrancas. A população ribeirinha passou a atribuir características místicas às carrancas: espantar os maus espíritos, evitar que a embarcação afundasse ou que passasse por maiores perigos durante as tempestades, além funcionar como um amuleto para atrair muitos peixes. Com a redução dos estoques pesqueiros em consequência de uma série de problemas ambientais e com as crescentes dificuldades de navegação, as carrancas têm presença cada vez menor nas águas do Rio São Francisco.

Entre as criaturas míticas do Velho Chico, merecem destaque o Nêgo D’água, a Uiara e o temido Minhocão:

O Nêgo D’água é uma criatura de pele escura, descrita com a aparência de um rapaz de porte atlético (vide foto). Tem a cabeça sem qualquer fio de cabelo e orelhas pontudas. Os pés e as mãos têm garras afiadas, com membranas interdigitais como os anfíbios. Vive no fundo Rio, junto com os surubins, dourados, piaus e curimatãs-pacus. Em outros rios do Brasil ele é conhecido como Caboclo D’água. Para alguns, ele é um protetor das águas; para outros, uma terrível ameaça. Os ribeirinhos dizem que ele gosta de gargalhar forte, o que costuma apavorar quem está por perto. De vez em quando, ele se deita sobre as grandes pedras no meio do Rio para tomar sol. Os pescadores fazem de tudo para não cruzar com o Nêgo D’água e sempre trazem uma garrafa de cachaça em seus barcos para uso nos casos de um encontro acidental: eles fazem a oferenda da bebida para que a criatura não vire a jangada ou a canoa.

Dizem que as oferendas de pouco adiantam: a brincadeira preferida do Nêgo D’água é atormentar os seres humanos tirando os peixes dos anzóis, partindo as linhas, rasgando as redes ou assustando quem estiver nos barcos. Também gosta de aterrorizar as mães: costuma carregar as crianças que tomam banho longe das margens do Rio.

Ribeirinhos mais antigos juram que no fundo do Velho Chico se esconde um gigantesco e multi centenário surubim, conhecido como Minhocão. De tão velha, a criatura perdeu as suas barbatanas e o corpo ficou anelado e comprido como o verme. Quando enfurecido, o ser desfere golpes violentos contra as embarcações, que naufragam e vão, aos destroços, para o fundo do rio. O Minhocão também tem a má fama de escavar sob os barrancos da beira do rio, derrubando as casas dos “beiradeiros”, que teimam em se aproximar perigosamente dos seus domínios.

A Uiara – a deusa do Rio São Francisco, é uma sereia de imensa beleza e longos cabelos, que costuma cantar nas noites de lua cheia. Pescadores, ribeirinhos e índios (lembrando aqui da versão do mito entre os índios da Amazônia – a Iara) prestam homenagens ofertando presentes para a Mãe D’água, lembrando muito as oferendas a Iemanjá, a rainha do mar de origens africanas. Dizem que é o Nêgo D’água quem se encarrega de recolher e entregar os presentes para a Uiara. Nas cercanias de Juazeiro e Petrolina, uma grande estátua da Uiara foi colocada sobre as pedras do São Francisco.

Uiara

Tragicamente, mitos e águas podem desaparecer – no São Francisco, nenhum dos dois está a salvo…

RIOS SÃO FRANCISCO E COLORADO: UMA TRÁGICA SEMELHANÇA

Vale São Francisco

Desde o final do mês de março, venho publicando uma série de postagens que tratam de um dos problemas mais preocupantes de nosso tempo: a superexploração e o desaparecimento de importantes fontes de água em várias partes do mundo. Nesta sequência de postagens, eu fiz questão de falar bastante do Rio Colorado, o mais importante da região Sudoeste dos Estados Unidos, um rio muito parecido com o nosso São Francisco. O Rio Colorado está localizado em uma região que alterna trechos semiáridos e desérticos; ele atravessa diversos estados americanos e tem sua foz no Golfo da Califórnia já em território mexicano; possui diversas represas criadas para a geração de eletricidade e regulação do volume das águas; também possui canais de transposição que levam as águas na direção de grandes cidades em outras bacias hidrográficas e, para demonstrar a semelhança com o nosso Velho Chico, vem apresentando uma redução gradual dos caudais devido a alterações climáticas regionais e a superexploração das suas águas. Até parece que são rios siameses separados logo após o nascimento…

Dentro dos respectivos contextos ambientais, sociais e econômicos, que são bem diferentes, essa comparação é bastante visível nos grandes reservatórios construídos nos dois rios: a Represa Hoover no Rio Colorado, que formou o Lago Mead, o maior lago artificial dos Estados Unidos e a Represa de Sobradinho, que formou o maior lago artificial do Brasil – Sobradinho, construído no semiárido da nossa Bahia. Como vem ocorrendo em Sobradinho, o Lago Mead vem perdendo volume de água sistematicamente – as paredes de arenito vermelho nas margens da Represa, origem do nome do Rio – Colorado em espanhol significa “vermelho”, mostram uma faixa em um tom mais claro, indicando a perda de volume de água nos últimos anos: o nível do Lago Mead está reduzido a 40% do nível que apresentava a 15 anos atrás e continua a diminuir; o Lago de Sobradinho está hoje está com um volume de armazenamento menor do que 15% da sua capacidade total, o mais baixo nível dos seus 38 anos de história.

Existe, porém, um ponto de divergência em relação às causas principais dessa redução no nível de água nas duas bacias hidrográficas e que merecem uma crítica em detalhes:

O rio Colorado é o maior e mais importante rio da Região Sudoeste dos Estados Unidos, sendo a fonte de água responsável pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos: Colorado, Utah, Arizona, Nevada, Califórnia, Novo México e Wyoming, além de moradores em uma pequena região no Norte do México. Quase 90% do total das suas águas é desviado para fins de irrigação em 2 milhões de hectares, o que torna sua bacia hidrográfica uma das mais aproveitadas do mundo. Várias cidades importantes dos Estados Unidos como Los Angeles, Las Vegas, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson utilizam sistemas de abastecimento que captam águas do Rio Colorado. O início do uso das águas para fins de irrigação em alta escala começou no início do século XX e aumentou exponencialmente após a conclusão da Represa Hoover na década de 1930. Mudanças climáticas regionais já comprovadas tem alterado o volume de caudais a partir de áreas de degelo nas Rockies Mountains (nome carinhoso dado às Montanhas Rochosas), porém, a superexploração das águas do Rio Colorado é a causa principal da dramática redução no nível dos caudais.

O nosso Velho Chico também é um importante manancial regional de águas, atravessando cinco Estados brasileiros: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas; recentemente, com a inauguração do primeiro trecho do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco estão chegando ao Estado da Paraíba e, com a conclusão de novos trechos, chegarão em breve ao Rio Grande do Norte e Ceará. Na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vivem, aproximadamente, 15 milhões de habitantes – com a implementação de todas as obras do Sistema de Transposição do Rio São Francisco, haverá um acréscimo no futuro de até 12 milhões de novos usuários das águas. Tradicionalmente, as atividades agrícolas são as maiores consumidoras de água de uma bacia hidrográfica, chegando a consumir até 70% dos caudais – apesar do grande avanço da agricultura irrigada na bacia hidrográfica do São Francisco nas últimas décadas, o consumo de água em atividades ligadas à produção agrícola está muito longe de atingir esse volume de uso.

Considerando que, fisicamente, os Rios São Francisco e Colorado são bastante similares, como pode o Velho Chico abastecer um número bem menor de habitantes e irrigar uma área que é apenas uma fração do correspondente americano e apresentar uma redução tão intensa dos seus caudais?

Eu recomendo que você faça uma leitura das postagens já publicadas sobre os problemas do nosso Velho Chico para conhecer a resposta desta pergunta.