A SUA BENÇÃO SÃO FRANCISCO

São Francisco

No meu último post falei sobre os desencontros de alguns dos números do Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco – há água “de menos” no Rio para água “de mais” necessária para uso na transposição. Pode até parecer uma diferença pequena, mas, para um rio em situação sofrível, cada metro cúbico pode fazer diferença. Uma forma de entender o problema é imaginar uma pessoa extremamente doente e que seja obrigada a doar sangue para um outro doente – por melhor que seja a intenção, o doador poderá ter a sua saúde completamente comprometida com este ato. Antes que se façam planos e mais projetos para o uso das águas que serão retiradas da bacia hidrográfica do São Francisco para uso na transposição, é fundamental que se desenvolvam ações para revitalizar as margens, nascentes, tributários, matas ciliares, entre outros imensos problemas, garantindo aumento na produção e na qualidade das águas do Rio.

Caso você tenha interesse em pesquisar mais sobre o Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco, recomendo que procure informações sobre o processo de licenciamento ambiental da obra. Como sempre acontece em obras de grande porte, as autoridades ambientais impuseram uma série de condicionantes para a liberação do licenciamento – uma série de programas ambientais foram propostos para compensar, atenuar e reverter os impactos ambientais negativos produzidos pelas obras. Destaco alguns destes programas: Programa de Recuperação de Áreas Degradadas, Programa de Compensação Ambiental, Programa de Prevenção à Desertificação, Programa de Conservação e Uso do Entorno e das Águas dos Reservatórios, Programa de Conservação da Fauna e da Flora e Programa de Educação Ambiental – é fundamental que estes e outros programas sejam implementados o quanto antes para ajudar a reverter alguns dos males crônicos que estão destruindo a bacia hidrográfica do Rio São Francisco e que se garanta, no futuro, a disponibilidade de água para todos.

A água usada sem controle e sem critério para fins de agricultura, por exemplo, normalmente resulta em grandes desastres ambientais – apresentei alguns exemplos destas tragédias. No primeiro post desta série, apresentei os problemas do Mar de Aral na Ásia Central – as águas dos rios formadores do Aral, o Amu Daria e o Syr Daria, passaram a ser usadas descontroladamente para irrigação de campos de algodão e o grande lago de outrora acabou se transformando num grande deserto de areias salgadas. Outros exemplos citados foram o Mar Morto, na fronteira entre Israel e Jordânia, o Lago Chade na África e o Rio Colorado no Sudoeste dos Estados Unidos. Citei outras fontes de água em risco iminente: o Delta do Rio Okavango no Sul do continente Africano e o Lago Titicaca, na fronteira entre a Bolívia e o Peru; na Bolívia, apresentei também o caso do Lago Poopó, que entrou em colapso após obras que desviaram as águas do Rio Desaguadero, seu principal tributário, para áreas de irrigação. Logo, toda e qualquer preocupação com o futuro do Rio São Francisco é altamente relevante.

Também citei o caso dos espertalhões que tinham acesso a informações privilegiadas das áreas que seriam desapropriadas para a formação da Represa de Sobradinho – os gatunos convenciam os pobres sertanejos a venderem suas terras a preço de banana e faturavam alto com as indenizações pagas pela concessionária responsável pelas obras. Quantos novos vivaldinos não tiveram acesso a informações antecipadas das áreas que seriam atravessadas pelos canais dos Eixos Norte e Leste dos Sistema de Transposição do Rio São Francisco e saíram comprando grandes extensões de terras desvalorizadas a baixos preços, ficando a esperar a chegada das águas, quando faturarão milhões com a produção de frutas e outras culturas irrigadas?

As obras já concluídas e ainda em execução estão literalmente carregadas de denúncias de superfaturamento, desvios de recursos, problemas de execução e falhas de projeto – frequentemente recebemos notícias e vídeos mostrando canais com paredes rompidas, vazamentos de água, barragens se desmanchando com a força da correnteza entre outros problemas. É fundamental que se apure tudo, que se processem e prendam os responsáveis e, o mais importante, que se corrijam os problemas e quaisquer erros de projeto – é fundamental que o Sistema de Transposição das Águas do Rio São Francisco funcione, senão perfeitamente, da melhor maneira possível.

Encerrando, lembro que muito tem se falado dos 12 milhões de sertanejos que serão beneficiados com a chegada das águas da transposição – entretanto, fala-se pouco das centenas de obras menores que serão necessárias para trazer as águas desde os canais da transposição até as pequenas vilas e cidades; estas obras incluem pequenos canais, adutoras, estações de bombeamento e de tratamento, além dos sempre esquecidos sistemas de coleta e tratamento de esgotos. Que todos fiquem de olho e cobrem providências das autoridades locais.

Rogo ao bom São Francisco que continue a zelar pelas águas do “seu” Rio e que ilumine o coração e a mente dos homens – precisamos muito disto!

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