RIOS SÃO FRANCISCO E COLORADO: UMA TRÁGICA SEMELHANÇA

Vale São Francisco

Desde o final do mês de março, venho publicando uma série de postagens que tratam de um dos problemas mais preocupantes de nosso tempo: a superexploração e o desaparecimento de importantes fontes de água em várias partes do mundo. Nesta sequência de postagens, eu fiz questão de falar bastante do Rio Colorado, o mais importante da região Sudoeste dos Estados Unidos, um rio muito parecido com o nosso São Francisco. O Rio Colorado está localizado em uma região que alterna trechos semiáridos e desérticos; ele atravessa diversos estados americanos e tem sua foz no Golfo da Califórnia já em território mexicano; possui diversas represas criadas para a geração de eletricidade e regulação do volume das águas; também possui canais de transposição que levam as águas na direção de grandes cidades em outras bacias hidrográficas e, para demonstrar a semelhança com o nosso Velho Chico, vem apresentando uma redução gradual dos caudais devido a alterações climáticas regionais e a superexploração das suas águas. Até parece que são rios siameses separados logo após o nascimento…

Dentro dos respectivos contextos ambientais, sociais e econômicos, que são bem diferentes, essa comparação é bastante visível nos grandes reservatórios construídos nos dois rios: a Represa Hoover no Rio Colorado, que formou o Lago Mead, o maior lago artificial dos Estados Unidos e a Represa de Sobradinho, que formou o maior lago artificial do Brasil – Sobradinho, construído no semiárido da nossa Bahia. Como vem ocorrendo em Sobradinho, o Lago Mead vem perdendo volume de água sistematicamente – as paredes de arenito vermelho nas margens da Represa, origem do nome do Rio – Colorado em espanhol significa “vermelho”, mostram uma faixa em um tom mais claro, indicando a perda de volume de água nos últimos anos: o nível do Lago Mead está reduzido a 40% do nível que apresentava a 15 anos atrás e continua a diminuir; o Lago de Sobradinho está hoje está com um volume de armazenamento menor do que 15% da sua capacidade total, o mais baixo nível dos seus 38 anos de história.

Existe, porém, um ponto de divergência em relação às causas principais dessa redução no nível de água nas duas bacias hidrográficas e que merecem uma crítica em detalhes:

O rio Colorado é o maior e mais importante rio da Região Sudoeste dos Estados Unidos, sendo a fonte de água responsável pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos: Colorado, Utah, Arizona, Nevada, Califórnia, Novo México e Wyoming, além de moradores em uma pequena região no Norte do México. Quase 90% do total das suas águas é desviado para fins de irrigação em 2 milhões de hectares, o que torna sua bacia hidrográfica uma das mais aproveitadas do mundo. Várias cidades importantes dos Estados Unidos como Los Angeles, Las Vegas, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson utilizam sistemas de abastecimento que captam águas do Rio Colorado. O início do uso das águas para fins de irrigação em alta escala começou no início do século XX e aumentou exponencialmente após a conclusão da Represa Hoover na década de 1930. Mudanças climáticas regionais já comprovadas tem alterado o volume de caudais a partir de áreas de degelo nas Rockies Mountains (nome carinhoso dado às Montanhas Rochosas), porém, a superexploração das águas do Rio Colorado é a causa principal da dramática redução no nível dos caudais.

O nosso Velho Chico também é um importante manancial regional de águas, atravessando cinco Estados brasileiros: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas; recentemente, com a inauguração do primeiro trecho do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco estão chegando ao Estado da Paraíba e, com a conclusão de novos trechos, chegarão em breve ao Rio Grande do Norte e Ceará. Na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vivem, aproximadamente, 15 milhões de habitantes – com a implementação de todas as obras do Sistema de Transposição do Rio São Francisco, haverá um acréscimo no futuro de até 12 milhões de novos usuários das águas. Tradicionalmente, as atividades agrícolas são as maiores consumidoras de água de uma bacia hidrográfica, chegando a consumir até 70% dos caudais – apesar do grande avanço da agricultura irrigada na bacia hidrográfica do São Francisco nas últimas décadas, o consumo de água em atividades ligadas à produção agrícola está muito longe de atingir esse volume de uso.

Considerando que, fisicamente, os Rios São Francisco e Colorado são bastante similares, como pode o Velho Chico abastecer um número bem menor de habitantes e irrigar uma área que é apenas uma fração do correspondente americano e apresentar uma redução tão intensa dos seus caudais?

Eu recomendo que você faça uma leitura das postagens já publicadas sobre os problemas do nosso Velho Chico para conhecer a resposta desta pergunta.

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