A POUCO DIVULGADA SECA NO NORTE DE MINAS GERAIS

Seca no Norte de Minas Gerais

Caso a previsão do tempo se confirme, um extenso corredor de nuvens estará se formando desde a região Norte, atravessando o Centro-Oeste, Minas Gerais e chegando até o Estado do Rio de Janeiro – a previsão é de chuva forte entre a área central de Minas Gerais e a região serrana do Rio de Janeiro. Este corredor de nuvens também poderá provocar chuvas em todo o Norte de Minas Gerais. Neste momento de seca forte, qualquer chuva é sempre bem-vinda.

De acordo com informações do Governo do Estado, 151 municípios de Minas Gerais já tiveram os decretos de situação de emergência por causa da seca reconhecidos pelo Governo Federal, o que agiliza a liberação de verbas emergenciais e serviços para o atendimento da população. Deste total, 80 municípios ficam nas regiões Norte e Noroeste do Estado, além dos Vales do Mucuri e do Jequitinhonha. O quadro mais grave é na região Norte, que vem enfrentando problemas com a estiagem já há cinco anos. De acordo com a EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, 550 dos 700 rios e córregos da região já estão completamente secos ou em situação crítica. A AMANS – Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, informa que muitos destes rios secos já foram perenes – a exemplo do rio Verde Grande e do Pardo, e confirma que 80 mil famílias, moradoras de comunidades rurais do Norte de Minas Gerais estão sofrendo com a falta de água. A seca que está assolando toda a região é uma extensão do fenômeno que atinge todo o Semiárido nordestino, lembrando que a região Norte de Minas Gerais faz parte do chamado “Polígono das Secas”.

Normalmente, a região enfrenta um período de estiagem entre os meses de abril e outubro, quando os rios menores, chamados de intermitentes, costumam secar. O período chuvoso na região se estende de novembro a março, quando as fontes de água passam por um processo de recuperação. O problema é que a estiagem persiste há cinco anos e todas fontes de água se esgotaram, levando a população das cidades e das áreas rurais ao desespero. A situação só não é mais grave porque caminhões pipa coordenados pelo Exército e pelas Prefeituras têm feito a distribuição de água nas comunidades – cada morador tem direito a uma cota de 20 litros de água a cada entrega; alguns moradores tem de andar longas distâncias a pé para chegar até os pontos de distribuição e garantir a sua “lata” de água.

Um exemplo das dificuldades vividas pela gente da região pode ser vista na comunidade de Alto São João, localizada na zona rural do município de São Francisco. Existia na região uma lagoa, conhecida pela população como Lagoa Grande, que respondia pelo abastecimento de água das 70 famílias da comunidade, inclusive garantindo a dessedentação dos animais criados pelos agricultores – esta lagoa secou completamente em janeiro, colocando toda a comunidade em situação de emergência. Diversas outras lagoas perenes da região, muitas marginais do rio São Francisco, simplesmente desapareceram. Além da falta de chuvas, a mão dos homens também deixou as suas digitais no drama da Lagoa Grande – de acordo com informações de pessoas da própria comunidade, as matas ciliares ao redor da Lagoa foram derrubadas sistematicamente ao longo dos anos para garantir o fornecimento de lenha e madeira; sem a proteção das matas, os solos expostos acabaram arrastados pelas chuvas, carreando grandes quantidades de areia e sedimentos para o fundo do espelho d’água: quanto mais raso é um lago ou represa, maior será a taxa de evaporação da água. Há relatos que dizem que o trecho mais profundo da Lagoa Grande podia chegar a uma cota de 10 metros, o que só demonstra que a crise atual do corpo d’água, independentemente da forte estiagem dos últimos anos, é o resultado de muitos anos de sedimentação por causas antrópicas.

O agravamento da estiagem ao longo deste ano estendeu a crise hídrica por todo o Norte de Minas Gerais, atingindo inclusive os municípios maiores como Montes Claros, onde a empresa de abastecimento local implantou um sistema de rodízio na distribuição de água, como forma de garantir um pouco de água para todos os habitantes. No município de São João, a Prefeitura usou um dos seus tratores para abrir um grande cacimbão, um buraco de 30 metros de extensão, 10 metros de largura e 4 metros de profundidade, no leito seco de um rio, na esperança de conseguir juntar um pouco de água no fundo. Está é uma técnica utilizada pelos sertanejos do Semiárido, que nos momentos mais agudos das estiagens recorrem a todas as alternativas possíveis para conseguir juntar alguns litros de água. Em São João, encontrou-se muito pouca água, apesar de todo o esforço das autoridades. Resta esperar pela distribuição de água através dos caminhões pipa, que sempre são insuficientes para atender tanta gente.

Na falta de ajuda oficial, muitas famílias se vêem obrigadas a comprar água de motoristas autônomos, que chegam cobrar até R$ 150,00 por uma carga de água com 12 mil litros, um valor que, diga-se de passagem, vai fazer muita falta no orçamento destas famílias. Com muita economia, esse volume de água pode ser utilizado por um período entre 20 e 30 dias por uma família, que no Norte de Minas Gerais costuma ser formada por muita gente. Depois, é juntar todos os “trocos” que se puder dispor para fazer uma nova encomenda de água. Como já fiz em uma postagem anterior, chamo a atenção aqui para os “industriais da seca”, que nunca perdem uma oportunidade para ganhar algum dinheiro com a desgraça alheia, entregando uma “água” que nunca se terá certeza de onde foi captada e em que condições foi transportada.

A estiagem prolongada vem afetando a economia da região de forma contundente. De acordo com dados da EMATER, o Norte de Minas Gerais tinha, até 2011, um rebanho bovino com aproximadamente 3,3 milhões de cabeças – com a estiagem que assola a região nesses últimos anos, o rebanho acabou reduzido para 2,4 milhões de cabeças em 2016. Sem pastagens para alimentar os animais e sem as lagoas e rios para dessedentar os rebanhos, não há como os produtores rurais sobreviverem. De acordo com a AMAMS, existem comunidades rurais da região Norte de Minas Gerais onde metade das casas está fechada – cansadas das agruras da estiagem, muitas famílias estão deixando o campo e migrando para as cidades em busca de melhores condições de vida, o que, infelizmente como todos nós sabemos, dificilmente será algo que se concretizará.

Chamo a atenção de todos para a gravidade da situação desta estiagem no Norte de Minas que está sendo pouco divulgada pelos meios de comunicação. Apesar da região se encontrar dentro da região Sudeste do Brasil, a mais populosa e mais rica de toda a União, as condições climáticas e geomorfológicas locais têm mais a ver com o Semiárido nordestino. E a sede que sentem os “Severinos” do sertão nordestino é a mesma que sentem os “Geraldos Magelas, Josés e Joãos” do Norte de Minas Gerais.

Que olhemos por todos eles e que as ótimas previsões da meteorologia se confirmem…

BOTO DO ARAGUAIA: UMA ESPÉCIE RECÉM DESCOBERTA E JÁ EM RISCO DE EXTINÇÃO

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O processo de destruição contínua do rio Araguaia, sobre o qual comentamos nas duas postagens anteriores – A implacável seca na Ilha do Bananal e Araguaia: um rio que poderá desaparecer em 40 anos, está afetando milhares de pessoas, em diferentes cidades nos Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Pará. O grau de degradação do rio, que se mostra com intensidade devastadora no período da seca, está intimamente ligado ao avanço das fronteiras agrícolas no Bioma Cerrado. Poderão até surgir evidências da participação de fatores climáticos como a redução do volume de chuvas, aumento da temperatura regional, mudança do regime dos ventos, influências do El Niño e La Niña, entre outros, porém, as ações antrópicas, aquelas criadas pelas mãos e obras dos homens, continuarão sendo as que mais contribuíram para a catástrofe ambiental que assistimos no rio Araguaia.

Analisando a situação do Araguaia, me deparei com um fato extremamente preocupante e sobre o qual não poderia deixar de tecer um comentário: os botos do Araguaia (Inia araguaiensis), uma espécie que há bem pouco tempo passou a ser classificada como uma espécie diferente dos botos da bacia Amazônica, corre sérios riscos de extinção em virtude de todo o “conjunto da obra” que encontramos neste rio.

Em 2014, um estudo conjunto de pesquisadores da UFAM – Universidade Federal do Amazonas, do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade de Dundee da Escócia, comprovou, através de uma série de análises genéticas, que os botos do rio Araguaia se separaram dos botos do restante da bacia Amazônica entre um e dois milhões de anos atrás, passando a constituir uma espécie diferente. Segundos os estudos, as corredeiras existentes na região do Baixo Rio Tocantins, atualmente submersas em grande parte pelo lago formado pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Sul do Estado do Pará, isolou uma população de botos que, com o passar do tempo, desenvolveu características físicas e genéticas diferentes. Algumas destas diferenças são um crânio mais largo e a presença de um número menor de dentes em comparação a outras espécies de boto do gênero Inia.

A descoberta de “novas” espécies de animais conhecidos não é uma novidade para a ciência. Dois exemplos muito recentes envolvem as girafas e os elefantes africanos, dois dos animais mais conhecidos de todo o mundo. Até bem poucos anos atrás se acreditava que havia uma única espécie de cada animal em todo o continente africano. Com o desenvolvimento das técnicas para o sequenciamento cada vez mais preciso do DNA, a identificação genética de todos os seres vivos, os pesquisadores começaram a perceber diferenças entre as girafas e os elefantes de diferentes regiões da África. Graças a estes novos estudos, hoje já é possível afirmar que existem, pelo menos, duas espécies diferentes de girafas e duas espécies de elefantes africanos – com o desenvolvimento de novas tecnologias e novos estudos, talvez estas famílias venham crescer ainda mais. No caso dos botos, havia uma percepção generalizada que todos os animais dos diferentes rios da bacia Amazônica, na qual os rios Tocantins e Araguaia estão contidos, pertenciam às mesmas espécies – em águas da Amazônia brasileira, as principais espécies são o boto cinza (Sotalia guianensis), o boto tucuxi (Sotalia fluviatilis) e o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis). A constatação que o boto do Araguaia é na verdade uma espécie diferente é fundamental para um esforço de preservação ainda maior.

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a população de botos do Araguaia está entre 900 e 1.500 animais. Essa população se divide entre os rios Tocantins e Araguaia, sendo que o grupo que vive nas águas do rio Tocantins é a que se encontra em um estado mais crítico. A construção de diversas barragens dividiu as populações em pequenos grupos sem comunicação, condição que leva ao enfraquecimento genético dos animais – em populações isoladas, tanto humanas quanto de animais, passa a ocorrer o cruzamento entre indivíduos da mesma família, o que reduz a diversidade genética dos indivíduos e aumenta os risco de extinção do grupo. De acordo com o Instituto Araguaia, entidade que se dedica à conservação e preservação da biodiversidade e processos ecológicos do rio Araguaia, existe um grupo de botos vermelhos, mais conhecidos como boto-cor-de-rosa, isolado no trecho entre as Usinas Hidrelétricas de Serra Mesa e Canabrava em Goiás. Sem a intervenção humana, o isolamento genético deste grupo poderá, a longo prazo, resultar no desaparecimento da espécie neste trecho.

Além do isolamento dos grupos, da redução cada vez maior dos caudais dos rios, do açoreamento e da destruição dos seus habitats, os botos do Araguaia ainda têm de enfrentar um inimigo furioso: os pescadores. Os botos de todas as espécies são animais muito inteligentes e oportunistas – eles nunca perdem a chance de fazer um “lanche rápido” sempre que a oportunidade aparece. E costumam fazer isso quando percebem que as redes dos pescadores está cheia de peixes. Os pescadores, é claro, não estão dispostos a dividir o fruto do seu trabalho, cada vez mais difícil por causa da degradação ambiental dos rios, e fazem de tudo para espantar os botos – muitas vezes a bala ou jogando iscas envenenadas.

Em 2010, eu participei de uma pescaria no rio Jamari, um dos afluentes do rio Madeira em Rondônia, num trecho exatamente abaixo da barragem da Usina Hidrelétrica de Samuel. Enquanto tentava fisgar algum peixe (capturei um único bagre), passei a observar grupos de botos cinza e cor-de-rosa que nadavam ao redor do barco – fiquei pensando nos problemas que a construção daquela barragem bem na minha frente trouxe para as espécies. Como é comum em outras hidrelétricas, a de Samuel não possui nenhum dispositivo que permita a “migração” de peixes, cetáceos, répteis ou qualquer outro ser vivo de um lado para o outro da barragem. Conversando com o “piloteiro” do barco, nativo e morador das margens do rio, fiquei sabendo que a partir da construção da Usina Hidrelétrica de Samuel foram inúmeras as espécies de peixes que simplesmente “desapareceram” das águas do rio Jamari. É esse mesmo processo de fragmentação dos habitats aquáticos que ameaça, junto é claro com outros problemas de degradação das águas, a sobrevivência do recém “descoberto” boto do rio Araguaia.

Essa sina dos botos do Araguaia e da Amazônia não é uma exclusividade dos delfinídeos de água doce do Brasil – todas as espécies de “golfinhos” de rio do mundo estão sofrendo por causa da poluição e da destruição dos habitats. Em 2006, o baiji ou boto do rio Yangtzé (rio Azul) na China foi declarado extinto, vitima da sobre pesca, da construção de barragens e, sobretudo, por causa da poluição – 60% dos rios da China estão em condições extremas de poluição: os rios mais poluídos do Brasil, se comparados aos rios chineses, podem ser considerados “verdadeiros regatos das montanhas”.

Até quando nós vamos continuar tolerando este tipo de agressão?

Veja também:

OS GOLFINHOS E A POLUIÇÃO DOS RIOS

ARAGUAIA: UM RIO QUE PODERÁ DESAPARECER EM 40 ANOS

Xambioá

O rio Araguaia nasce no Estado de Goiás e segue rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso, seguindo depois para o Pará, até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Na cidade de Xambioá, no Norte do Estado do Tocantins, a pesca nas águas do rio Araguaia costumava ser a principal atividade econômica – no final de 2016, os 250 pescadores da cidade retiraram 17,5 toneladas de peixes das águas do rio; passado um ano, a pescaria não chegou a 7 toneladas. De acordo com as informações fornecidas pela Secretaria de Meio Ambiente da pequena cidade, distante 480 km da capital Palmas, o rio Araguaia baixou 2 metros entre os meses de janeiro e outubro, ficando com uma lâmina d’água de apenas 20 cm em muitos trechos. A travessia do rio, que nesta época do ano só podia ser feita de barco, agora pode ser facilmente feita a pé (vide foto).

A desolação que se vê em Xambioá não é exceção – é a regra em toda a calha do rio Araguaia. Um estudo publicado em 2014 pela DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado, o que vem ocorrendo desde a década de 1950, mas que aumentou substancialmente nos últimos anos devido ao avanço das fronteiras agrícolas. A principal responsável por esse avanço tem nome e sobrenome: a soja Doko, uma variedade da oleaginosa de origem chinesa desenvolvida pela Embrapa Cerrados.

Os solos do Cerrado sempre foram considerados muito pobres e extremamente ácidos para o cultivo em larga escala. O primeiro passo para a solução destes problemas foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas como a calagem, onde é feita a correção do solo a partir da aplicação de calcário, a adubação fosfatada e a adubação potássica, entre outras. O grande salto da agricultura na região se deu mesmo em 1980, quando foi lançada a soja Doko. Resultado de mais de 10 anos de trabalhos de pesquisa e cruzamento de milhares de variedades de soja, a Doko se adaptou perfeitamente ao solo e ao clima do Cerrado. Em poucas décadas, surgiram imensos campos de cultivo da variedade em áreas do Cerrado nos Estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; em anos mais recentes, a cultura se expandiu para a região Oeste da Bahia e em partes do Piauí e do Maranhão. As estimativas de produção da safra 2016/2017 são de 114 milhões de toneladas, com uma área plantada de aproximadamente 34 milhões de hectares, o que coloca o Brasil como o segundo maior produtor mundial da oleaginosa, muito próximo de alcançar o primeiro colocado, os Estados Unidos.

Todo esse sucesso, que faz a alegria dos grandes produtores e proporciona enormes saldos comerciais na balança de exportação do país, teve um alto custo ambiental, que pouco a pouco começa a enviar a “fatura” a todos nós: calcula-se que metade da vegetação nativa do Cerrado sucumbiu ao avanço da agroindústria – a forte estiagem que passamos a observar nos rios da região no período da seca, inclusive com alguns rios secando completamente, é uma das consequências mais visíveis de todo este desmatamento. Conforme comentei em minha última postagem, as árvores e arbustos raquíticos do Cerrado não nos impressionam à primeira vista, especialmente quando comparados à vegetação de grande porte da Amazônia e da Mata Atlântica; é inclusive corriqueiro se confundir a vegetação do Cerrado com a Caatinga. Apesar da aparente fragilidade, as árvores e arbustos do Cerrado possuem um enorme e profundo sistema de raízes, adaptadas para captar a água em grandes profundidades no subsolo – é esse sistema radicular o responsável pela infiltração no solo de grandes volumes de água no período das chuvas, contribuindo assim para a recarga dos depósitos subterrâneos. Quando a temporada das chuvas se encerra, serão estes lençóis e aquíferos que fornecerão a água para as nascentes dos riachos e rios que brotam por todos os cantos do Bioma, acertadamente chamado de Berço das Águas do Brasil.

Com o corte da vegetação do Cerrado e o plantio da soja, do milho ou da grama usada na formação das pastagens para os rebanhos, esse mecanismo de recarga dos aquíferos é interrompido – essa plantas possuem raízes “ridiculamente” curtas e não permitem a infiltração de grandes volumes de água no solo. O resultado é um aumento na velocidade superficial da água das chuvas sobre o solo, carreando grandes volumes de sedimentos e areia, que acabam lançados nas calhas dos rios. No período das chuvas, os rios ficam sujeitos a fortes enchentes; na época da seca, pela grande redução dos volumes de água armazenada no subsolo, os rios definham – alguns, como já citamos, passaram a se comportar como rios intermitentes como aqueles do Semiárido nordestino.

Com nascentes na Serra do Caiapó, na divisa entre Goiás e Mato Grosso, o Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior. Com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no sul do Estado do Pará em 1984, que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem peixe a rio sem água, foi um “pulo”. A redução sistemática dos caudais do rio, que na época da seca mais parece um córrego em muitas regiões, tem afetado a economia e a vida de inúmeras comunidades ribeirinhas, que retiravam seu sustento das águas durante o ano todo com a pesca, com o transporte fluvial de mercadorias e com o turismo. Agora, com o rio apresentando bons volumes de água apenas nos períodos das chuvas, vivem numa espécie de “trabalho em meio período”, o que não é bom para ninguém.

Preocupações com a devastação ambiental no Araguaia existem desde o final da década de 1970, quando o rio tinha o apelido de “lixão” devido ao despejo de grandes quantidades de resíduos sólidos, tanto pelas cidades quanto pelos turistas, que corriam para a região em busca dos peixes e deixavam todo o seu lixo nos locais dos acampamentos. Uma das primeiras iniciativas com fins de preservação do rio Araguaia foi a criação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (hoje ligado ao ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que mantém, entre outros, o Projeto Quelônios do Araguaia. Também surgiu Projeto “Araguaia Sustentável“, realizado há 27 anos pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios, além de inúmeras iniciativas de organizações não governamentais em toda a bacia hidrográfica. Todas essas maravilhosas iniciativas, infelizmente, correm o risco de se tornar inócuas caso o rio Araguaia continue em sua marcha rumo ao desaparecimento.

Muitos meses atrás eu escrevi um post falando do famoso rio Nilo do Egito – poucos sabem, mas, até uns 10 mil anos atrás, o Nilo tinha um curso bem mais longo – ele virava para o Leste e atravessava todo o Norte da África, desaguando no Oceano Atlântico. Uma drástica mudança climática fez o rio mudar seu curso, que passou a seguir direto rumo ao Norte e desaguando no Mar Mediterrâneo. Uma das consequências desta mudança de curso foi o surgimento do Saara, o maior deserto do mundo. Se o rio Araguaia vier a desaparecer, como dizem alguns estudos, as consequências ambientais não vão ficar muito distantes do que ocorreu com o Norte da África…

A IMPLACÁVEL SECA NA ILHA DO BANANAL

Seca na Ilha do Bananal

A seca é um fenômeno natural que, periodicamente, assola algumas regiões do território brasileiro. Sempre que alguém toca neste assunto, é comum que venham às nossas mentes as imagens das violentas estiagens que assolam o Semiárido nordestino. Essas imagens aparecem com força na nossa literatura, teatro e cinema, com destaque para as obras clássicas – Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Quinze, de Rachel de Queiroz. Entretanto, como venho mostrando nesta sequência de publicações, já se foram os tempos das grandes secas localizadas exclusivamente na região do Semiárido – extensas áreas das regiões Sudeste, Centro-Oeste, Sul e até mesmo da região da Amazônia, vem sendo afetadas por fortes estiagens. Vejam o que está acontecendo no coração do Brasil:

A Ilha do Bananal é considerada a maior ilha fluvial do mundo e declarada área da Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Com aproximadamente 20 mil km², a ilha é pouca coisa menor que o Estado de Sergipe, que tem uma área total de 21.190 km² – somente por esta apresentação, vocês podem ter uma ideia do tamanho do território. Eu lembro dos meus tempos de infância, época em que nosso país era governado por uma junta militar, quando se falava muito da Ilha do Bananal – sistematicamente, grandes reportagens mostravam a beleza selvagem do lugar, com muita água, matas e tribos indígenas. Em tempos mais recentes, tenho a impressão que a Ilha ficou um tanto esquecida dos brasileiros.

Localizada entre os Estado de Tocantins, Mato Grosso e Goiás, a Ilha do Bananal se formou por uma espécie de capricho da natureza, quando o rio Araguaia resolver se dividir em dois cursos distintos, mantendo de um lado o seu curso principal, e um braço do outro lado chamado rio Javaés. Desde 1959, a região é considerada uma reserva ambiental, inclusive com a presença de vários territórios indígenas – a Ilha é há séculos o local de morada dos povos Karajá e Javaé, grupos que se subdividem em vários grupos indígenas.

O conceito geográfico de ilha, imagino eu, é um dos mais facilmente lembrados dos tempos do ensino fundamental: “porção de terra cercada de água por todos os lados”. No caso da Ilha do Bananal, esse conceito está a um passo de deixar de ser verdadeiro – a seca intensa que está assolando uma parte da região Centro-Oeste, reduziu trechos do rio Araguaia a um filete de água, deixando grandes bancos de areia a mostra, e a lâmina de água se apresentando com profundidades inferiores a 20 cm. Trechos que antes só podiam ser atravessadas com barcos ou balsas, agora são atravessados facilmente a pé; dependendo do trecho, até veículos comuns conseguem atravessar as “águas” e chegar até a “ilha”. A falta de águas chegou a um nível tão crítico que os indígenas não estão conseguindo mais pescar, uma das atividades mais tradicionais de sua cultura.

Com o avanço da fronteira agrícola na região do Cerrado Brasileiro, considerado o segundo maior bioma da América do Sul com área superior a 2 milhões de km², teve início um processo contínuo de corte da vegetação nativa e sua substituição por grãos como milho e soja, ou simplesmente a formação de extensas pastagens para acomodar gigantescos rebanhos bovinos. As abundantes fontes de água do Cerrado, que lhe valeu o título de Berço das Águas do Brasil, dependem fundamentalmente das raízes da vegetação nativa para a recarga dos reservatórios e aquíferos subterrâneos. Apesar do aspecto raquítico das árvores e arbustos, que lembram muito a vegetação da Caatinga, a vegetação do Cerrado possui sistemas de raízes gigantescos, que atingem grandes profundidades e que são fundamentais para auxiliar a água das chuva a infiltrar no solo e recarregar as fontes subterrâneas. Com o fim da temporada das chuvas, tem início a estação seca, quando toda esta água acumulada no subsolo irá fluir para alimentar as nascentes de água. Apesar da forte aridez deste período, os rios e nascentes do Cerrado não secavam nos períodos de estiagem, algo muito comum em rios da região do Semiárido nordestino. Eu fiz questão de utilizar o verbo no passado (secavam) porque, atualmente, muitos rios da região passaram a ser intermitentes: apresentam água corrente no período das chuvas e secam completamente no período das secas.

O outrora caudaloso rio Araguaia, um dos mais importantes da região Central do Brasil, há muito vem apresentando sinais de estresse hídrico, chegando muito perto de secar completamente nos momentos mais crônicos das estiagens. E a Ilha do Bananal, que deveria estar literalmente cercada por águas do Araguaia, vem sofrendo intensamente com a seca.

Sem receber chuvas a mais de cinco meses, a Ilha do Bananal tem assistido um processo contínuo de desaparecimento de nascentes e fontes de água no interior do seu território, fenômeno que está causando a morte de inúmeros animais, tanto da fauna silvestre quanto de criações. No último mês de outubro, equipes de fiscalização do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis e do PREVFOGO – Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, foram mobilizadas para o resgate de animais que ficaram presos em poças de lama por toda a Ilha, especialmente jacarés, capivaras e bois (vide foto). Com a falta de chuvas, as lagoas foram reduzindo seu tamanho gradativamente até ficarem restritas a pequenas poças de lama – os jacarés, moradores mais conhecidos destes habitats, acabaram presos nestes locais, sob forte risco de morte por desidratação; no caso dos animais domésticos, é a busca desesperada por água que leva os animais a se arriscar nos atoleiros, ficando atolados na grossa camada de lama. Sem auxílio humano, a morte seria inevitável para todos.

Apesar dos enormes esforços das equipes, o resgate destes animais não é tarefa fácil, especialmente se tratando dos jacarés. Acuados, os animais se tornam violentos e demonstram toda a força de um corpo que pode ter mais de 300 kg de peso – é necessária a força combinada de vários profissionais para imobilizar e amarrar os animais, carregá-los até os veículos e transportá-los para soltura em áreas que ainda apresentem bons níveis de água. Como as previsões indicam que as chuvas só devem voltar a cair na região em dezembro, haverá muito trabalho pela frente.

Apesar de ser classificada como reserva ambiental e possuir várias áreas indígenas, razões que fariam pressupor acesso restrito e a preservação ambiental, a Ilha do Bananal é, há muito tempo, usada como local de pastagem para rebanhos bovinos, que podem chegar a um total de 100 mil cabeças a cada ano, levados  pelos fazendeiros da região e que transformam importantes áreas de preservação em “restaurantes particulares”. Apesar dos líderes tribais receberem uma espécie de “aluguel” pelo uso das pastagens, estas verdadeiras invasões criam grandes problemas para os indígenas, que necessitam da terra e das matas para o cultivo de suas roças, para a coleta de frutas e a da caça de pequenos animais. O grau de penúria das comunidades indígenas ficou completo com o avanço da forte estiagem, que reduziu drasticamente a pesca, a maior fonte de proteína animal destas populações. Relatos falam que, há não muito tempo atrás, as águas dos rios Araguaia e Javaés garantiam aos nativos capturas entre 70 e 80 kg de peixe sem maiores esforços. Nos últimos anos, com a intensificação dos efeitos da seca e a redução drástica do nível dos rios, é preciso que se trabalhe dobrado para conseguir apenas a metade dos peixes. Além dos prejuízos para a pesca, a baixa profundidade dos rios tem tornado cada vez mais fácil o acesso de pessoas, veículos e de animais domésticos para o território da Ilha, que sofre intensamente com a forte pressão ambiental – o relativo isolamento da Ilha do Bananal era uma das chaves para a sua preservação; agora, transformada numa espécie de península nas épocas da seca, caminha para se transformar numa espécie de terra de ninguém.

Na próxima postagem, vamos falar um pouco mais dos graves problemas do rio Araguaia.

OS ALTOS E, CADA VEZ MAIS, BAIXOS NÍVEIS DO RESERVATÓRIO DE TRÊS MARIAS

Represa Três Marias

Entre os anos de 2014 e 2015, muitos de vocês devem se lembrar, uma fortíssima estiagem atingiu em cheio a região Sudeste do Brasil, em especial os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa estiagem ganhou contornos dramáticos quanto o Sistema Cantareira, o maior conjunto de reservatórios de água para o abastecimento das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, entrou no chamado “volume morto”, ameaçando o abastecimento de uma população de aproximadamente 20 milhões de pessoas. Uma pauta diária nos telejornais em rede nacional mostrava as quedas sucessivas do nível das represas, apresentando a cada dia índices cada vez mais negativos. Foi necessário um esforço tremendo de toda a população na economia de água, inclusive com a adoção de procedimentos de redução de pressão na rede de distribuição e racionamento de água em algumas regiões até que as chuvas retornassem ao Sudeste e se iniciasse a recuperação lenta e gradual do Sistema Cantareira.

Muito menor divulgação na mídia nacional teve a forte estiagem que se abateu sobre a Represa de Três Marias, em Minas Gerais, um dos maiores e mais importantes reservatórios da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Em 2014, no final do período da seca, o nível da represa chegou a casa de 2,5%, o menor desde o fechamento das comportas em 1962, o que obrigou o desligamento de várias turbinas da importante usina hidrelétrica, que tem uma capacidade de 396 MW/h e responde por um terço de toda a energia elétrica gerada no São Francisco. Naquele momento, a barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho apresentava um nível acima dos 27% da capacidade máxima, o que comparado aos parcos 5% que apresenta nos nossos dias, era um verdadeiro “mundaréu de água”.

De acordo com dados do Portal das Usinas e Reservatórios da CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, empresa responsável pela administração e operação da Usina Hidrelétrica de Três Marias, a situação vivida pelo reservatório não é nada confortável – no último dia 12 de novembro, o nível máximo da lâmina d’água estava em 6,4% da cota máxima e em queda constante. Quando analisamos as cotas do reservatório desde o início do ano, encontramos o nível em 25% no dia 1° de janeiro, já em pleno período das chuvas – esse nível atingiu a cota máxima em 12 de abril, quando a lâmina d’água bateu no nível dos 33% e, deste momento para cá, o nível vem em queda constante. Aliás, há muitos anos que não se assistem cenas do reservatório da barragem “sangrando” para liberar o excesso de água armazenada.

A Usina Hidrelétrica de Três Marias foi inaugurada em 1962 e, na época, foi considerada uma das mais importantes do Brasil. Com uma barragem relativamente pequena, com 2, 7 km de comprimento, o reservatório formado possuía uma capacidade para armazenar 21 bilhões de metros cúbicos de água, com uma área de espelho d’água com aproximadamente 1.040 km² e um potencial de geração de energia elétrica que atenderia grande parte do país na época. Contam os locais que o nome do lugar se deve a uma antiga hospedaria de fazenda, parada obrigatória para os viajantes e tropeiros do passado, administrada por três irmãs: Maria Francisca, Maria das Dores e Maria Geralda, mais conhecidas como as Três Marias. Tragicamente, as irmãs morreram afogadas: as três nadavam no rio quando houve numa repentina cabeça de enchente, evento que ocorre quando as águas de fortes chuvas chegam velozmente ao rio e arrastam com violência tudo o que está pela frente.

Localizada em um Estado que não tem fachada oceânica, a represa acabou por se transformar em um grande polo turístico da região central de Minas Gerais, chamado de Circuito Turístico do Lago de Três Marias. A represa se espalha por áreas dos municípios de São Gonçalo do Abaeté, Felixlândia, Morada Nova de Minas, Biquinhas, Paineiras, Pompeu, Martinho Campos e Abaeté. Além da grande importância turística, apoiada em dezenas de clubes de campo e náuticos instalados em terras nas suas margens, muitas destas localidades dependem das águas da represa para o abastecimento público e o transporte de veículos e pessoas através de balsas, que encurta em dezenas de quilômetros a tradicional ligação rodoviária.

As razões para a escolha da região se devem ao relevo e à grande disponibilidade de fontes de água no Alto Rio São Francisco. Conforme já comentamos em postagem anterior, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região da bacia hidrográfica, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica desta bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do Médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras.

Infelizmente, o quadro ambiental que se assiste em todo o trecho mineiro da bacia hidrográfica do rio São Francisco não é dos mais animadores: a sistemática destruição de matas ciliares, trechos remanescentes da Mata Atlântica e das famosas veredas dos textos de Guimarães Rosa; os avanços das áreas de mineração e todo o conjunto de problemas que a atividade gera ao meio ambiente; o crescimento desordenado de cidades que, sem a devida criação de infraestruturas, lançam enormes quantidades de esgotos in natura e resíduos sólidos nas águas dos inúmeros afluentes da bacia hidrográfica; a destruição de extensas áreas do Bioma Cerrado, considerado o Berço das Águas do Brasil, pelo avanço da fronteira agrícola. A somatória de todas estas atividades antrópicas, combinada com alguns fatores climáticos regionais observados, têm resultado numa diminuição sistemática dos caudais do rio São Francisco, o que é particularmente visível nos reservatórios de Três Marias e de Sobradinho, que há vários anos não vem conseguindo atingir os volumes de água acumulada registrados em tempos passados.

Em Três Marias, os baixos níveis da represa resultaram na destruição da indústria turística: dezenas de hotéis, pousadas e clubes náuticos, outrora localizados a poucos metros da linha d’água, agora estão distantes centenas de metros da represa. Sistemas de captação de água para o abastecimento de comunidades necessitam, sistematicamente, de ampliações nas tubulações de captação para que se consiga acompanhar o ritmo do recuo da lâmina d’água. Turbinas geradoras de energia elétrica precisam ser desligadas por causa da falta de água. Por fim, sistemas de balsas rodoviárias tiveram as suas operações interrompidas – falta água em profundidade segura para a navegação; algumas comunidades isoladas agora necessitam de acessos rodoviários, com percursos várias vezes mais longos, para o transporte de pessoas e de cargas; entre os habitantes locais mais afetados pela paralização destes serviços, estão os alunos que frequentam escolas em outras cidades.

Lendo as minhas postagens, vocês perceberão facilmente que, na grande maioria das situações, a seca é o resultado dos humores e caprichos do clima global e de toda a sua complexidade de fenômenos naturais. Em muitos casos, porém, o que se assiste é o resultado de décadas de irresponsabilidade humana no uso dos recursos naturais, sem pensar nas consequências futuras destes atos. Creio eu que, muito do está acontecendo em Três Marias e em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco, têm enorme responsabilidade de mãos humanas e muito pouco de origem natural.

LAGOA DE ITAPARICA SECA E 3 MILHÕES DE PEIXES MORREM NO NORTE DA BAHIA

Lagoa Itaparica

Quem acompanha o blog, já deve ter percebido que o rio São Francisco é um assíduo frequentador do espaço e tema recorrente das postagens aqui publicadas. Infelizmente, segue mais um post para a coleção das tragédias “franciscanas”:

A Lagoa de Itaparica, considerada a maior lagoa marginal do rio São Francisco, secou e, de acordo com informações do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, cerca de 3 milhões de peixes que viviam nas suas águas morreram. Localizada entre as cidades de Xique-Xique e Gentio do Ouro no Norte do Estado da Bahia, a Lagoa de Itaparica já chegou a possuir um espelho d’água com área de 24 km² e uma profundidade máxima de 6 metros – nos últimos anos, já em crise, a profundidade mal conseguia passar de 1 metro. De acordo com as informações disponíveis, essa é a quarta vez que a lagoa seca nos últimos 40 anos, sendo que a última vez que isso aconteceu foi em 2015.

Antes da construção da barragem de Sobradinho e a inundação da grande área que foi ocupada pelo lago, as margens do rio São Francisco nesta região possuíam inúmeras lagoas marginais. Estas lagoas funcionavam segundo o princípio dos vasos comunicantes, acompanhando o sobe e desce das águas do rio São Francisco. Uma das funções ecológicas mais importantes destas lagoas marginais, que lamentavelmente se perdeu, era a formação de espaços com águas calmas e protegidas, usadas pelos peixes para reprodução. Protegidos dos predadores e com abundância de alimentos, os pequenos alevinos frequentavam essas verdadeiras maternidades durante seus primeiros meses de vida, só migrando para as águas do São Francisco quando estivessem crescidos e com maiores condições para viver num ambiente mais turbulento e hostil. Esse mecanismo garantia a renovação frequente dos estoques de peixes, o que assegurava a sobrevivência das espécies e a fartura da pesca para os ribeirinhos de toda a bacia hidrográfica. O São Francisco já foi considerado um dos rios mais piscosos do Brasil, com registro de 158 diferentes espécies de peixes na bacia hidrográfica, algumas endêmicas. Entre as espécies de peixes destacam-se o curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro, o pirá e o surubim, peixe que já foi considerado um dos símbolos do rio São Francisco. Com a construção das barragens, os desmatamentos das margens, o assoreamento do leito e a poluição das águas, o Velho Chico viu as suas águas e peixes rarearem cada vez mais. O “surubim” que é servido atualmente em muitos restaurantes de cidades na beira do rio São Francisco é na verdade um peixe conhecido como cachara, natural da bacia Amazônica e primo distante do surubim verdadeiro – os “genéricos” chegaram ao mercado dos peixes.

Em sistemas com vasos comunicantes, relembrando as aulas de física, o líquido contido nos recipientes fica em equilíbrio: a altura do líquido é a mesma em todos os recipientes, independentemente da forma ou tamanho dos mesmos, desde que haja um canal ou tubo de comunicação entre esses vasos; ocorrendo a interrupção da ligação entre os vasos, o sistema tende ao desequilíbrio – é justamente essa a causa do desaparecimento da Lagoa de Itaparica. Como já comentamos em diversas postagens anteriores, o Lago de Sobradinho, já há muito tempo, vem apresentando um declínio contínuo do seu espelho d’água. Com a redução do nível de Sobradinho, a sua ligação com a Lagoa de Itaparica foi interrompida, deixando suas águas num sistema fechado, que na hidrologia recebe o nome de bacia endorreica. Um exemplo clássico de bacia endorreica é o Mar Morto, localizado entre Israel e Jordânia. O Mar Morto tem como única fonte de abastecimento as águas do rio Jordão e perde aproximadamente o mesmo volume de água para o forte calor do deserto pela evaporação, o que mantinha o nível do lago razoavelmente estável. Nas últimas décadas, devido ao aumento do consumo de água para uso em irrigação, o Mar Morto já perdeu 40% do seu volume de água e, se nada for feito, tenderá a secar completamente nos próximos anos. Outros exemplos dramáticos de bacias endorreicas que estão secando ou secaram pela falta de aporte de águas são o Mar de Aral, na Ásia Central, o lago Chade, na África subsariana, e o Lago Poopó, na Bolívia – a Lagoa de Itaparica, infelizmente, acaba de juntar a essa trágica lista.

De acordo com as informações técnicas disponíveis, a Lagoa de Itaparica perde anualmente por evaporação o equivalente a 2.400 mm – isto significa que cada metro quadrado da superfície do espelho d’água perde uma coluna de água com 2,4 metros de altura ou um volume equivalente a 2.400 litros de água. A pluviometria anual na região, que tem um clima Semiárido, é de apenas 600 mm, o que corresponde a um volume de 600 litros de água de chuva para cada metro quadrado. O déficit hídrico resultante da água que se perde por evaporação e os aportes fornecidos pelas chuvas era coberto pelas águas do rio São Francisco – sem as águas do Velho Chico, as águas da Lagoa de Itaparica “zeraram” em poucos meses – uma trágica e simples operação matemática.

Pela sua importância, a região da Lagoa de Itaparica foi elevada em 1997 à condição de APA – Área de Proteção Ambiental, através de decreto assinado pelo Governo da Bahia. Uma APA é uma Unidade de Conservação (UC) de uso sustentável, que tem como objetivo a compatibilização entre a conservação da natureza e o uso sustentável de uma parcela de seus recursos naturais pela população. De acordo com a legislação ambiental vigente, os 78.450 hectares da APA da Lagoa de Itaparica deveriam estar livres da caça e da pesca predatória, da extração de areia e pedras para uso na construção civil, além da ação dos garimpeiros, que reviram os solos em busca de cristais, ouro e diamantes. Moradores da região teriam autorização para pesca de subsistência, desde que não utilizassem redes de arrasto. Uma outra função importante do reservatório era a dessendentação dos rebanhos de animais criados na região. A fiscalização desta Unidade de Conservação pelas autoridades ambientais nunca foi minimamente adequada.

Na área de entorno da Lagoa de Itaparica vive uma população “ribeirinha” calculada em 2 mil famílias, que costumavam chamar o corpo d’água de “Mãe da Pobreza”. Essa população, agora completamente desamparada, retirava seu sustento das águas da Lagoa – diretamente através da pesca e indiretamente pela criação de animais e pelo cultivo irrigado de pequenas culturas de subsistência. Mesmo nos períodos de seca, quando as águas recuavam, era possível escavar poços no leito seco e obter água para o consumo nas casas e a dessedentação dos animais. Com o desaparecimento completo das águas, toda essa cadeia de consumo entrou em colapso. Quando se analisa a situação do lago de Sobradinho, que caminha a passos largos para atingir o volume morto, a situação da Lagoa de Itaparica e de toda a população que depende das suas águas para sobreviver ganha contornos de tragédia ambiental.

Graças aos esforços voluntários de professores e alunos do curso de engenharia ambiental da UNEB – Universidade Estadual da Bahia, de membros do Corpo de Bombeiros, de funcionários das Secretarias Municipais de Meio Ambiente e do IBAMA, milhares de peixes, que estavam morrendo nas últimas poças d’água, puderam ser salvos e transportados para as poucas águas que ainda teimam em permanecer no Lago de Sobradinho – ao menos 3 milhões de peixes não tiveram a mesma sorte e morreram asfixiados pelo ar seco do Semiárido: a foto que ilustra este post mostra o tamanho da tragédia. Planos para recuperar a Lagoa de Itaparica, existem muitos, mas todos sabemos das dificuldades que existem para tira-los do papel.

Restaram apenas as lembranças e a fé inabalável dos sertanejos, que sempre acreditam na chegada de dias melhores.

O CHOCOLATE QUE COSTUMAVA NASCER EM ÁRVORES

Cacau no Sul da Bahia

Entre muitas outras paixões, o brasileiro adora chocolate.

Estudo realizado em dez grandes cidades brasileiras mostrou que 69% dos entrevistados afirmaram consumir chocolate pelo menos uma vez por semana. O Brasil é atualmente o terceiro maior consumidor de chocolate do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha. O consumo per capita dos brasileiros é de 2,8 kg/ano, valor bem menor do que os 7,5 kg /ano consumido pelos europeus. Vale ressaltar que o consumo do produto aqui no Brasil vem registrando aumentos anuais de 10% em média nos últimos anos. De acordo com as pesquisas, os brasilienses e os recifenses são os maiores chocólatras do Brasil. Muita gente adoraria ter um “pé-de-chocolate” no seu quintal, o que, por mais incrível que pareça para alguns, não está longe da realidade.

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore originária da bacia hidrográfica do rio Amazonas, que produz um fruto chamado cacau – são as castanhas do cacau que dão origem ao nosso chocolate do dia a dia. Foram as grandes civilizações mesoamericanas dos Maias e dos Astecas que desenvolveram as primeiras bebidas preparadas a base do cacau – o kabkajatl. Os conquistadores espanhóis que chegaram ao continente americano a partir do final do século XV e que experimentaram a bebida, tinham muita dificuldade para pronunciar esta palavra nativa, que acabou sendo hispanizada para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar; a partir daí, ganhou o mundo com o nome de chocolate.

O cacaueiro se desenvolve sob as copas sombreadas das florestas, onde a árvore pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. Existem cerca de 60 mil produtores de cacau no Brasil, sendo a região Sul do Estado da Bahia a que concentra o maior número de plantadores. A produção baiana corresponde a 61% da produção brasileira de cacau, seguida pelo Pará, que produz 23% – Roraima, Espírito Santo e Amazonas produzem juntos 15% da produção total do país.

Diferente de outras culturas, o cacau depende da sombra de uma floresta para sobreviver, o que torna o seu cultivo sustentável do ponto de vista ambiental. O sucesso da região Sul da Bahia na produção do cacau se deve à razões históricas importantes: os ferozes índios antropófagos que viviam na região rechaçaram todas as tentativas dos primeiros colonizadores em instalar plantações de cana e engenhos de açúcar. A Mata Atlântica preservada foi fundamental para o início da cultura há mais de 200 anos na região, fornecendo sombra, umidade e proteção contra os ventos.

Esse regime de produção em sistema agroflorestal foi fundamental para a conservação de grandes corredores de mata nativa, onde hoje encontramos algumas espécies raras como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), o pau-brasil (Caesalpinea echinata) e a gameleira (Ficus gomelleira), espécies que desapareceram em outras regiões onde a Mata Atlântica foi praticamente dizimada. A existência de uma grande cobertura florestal preservada no Sul da Bahia é uma das grandes responsáveis pelo alto índice pluviométrico da região, cuja média anual até 2014 era de 1570 mm, muito acima da média da região Nordeste.

A forte estiagem que vem assolando grande parte da região Nordeste, infelizmente, vem apresentando reflexos na região Sul da Bahia e causando sucessivas quebras nas safras de cacau desde 2015. A última safra apresentou uma queda de 50% na produção, que atingiu o volume de 120 mil toneladas. Com a baixa produção local, quatro importantes indústrias de chocolate da região se reuniram e importaram, via o porto da cidade de Ilhéus, cerca de 150 mil toneladas de castanhas de cacau produzidas em Gana, país da costa oriental da África. Os países com as maiores produções mundiais de cacau do mundo se encontram hoje na África.

Apesar da reconhecida alta qualidade do produto e dos crescentes volumes de produção, as grandes fazendas africanas aparecem de forma recorrente nos noticiários internacionais pelo uso intensivo de mão de obra infantil e escrava – grandes fabricantes europeus, sob forte pressão popular, têm se recusado a comprar matérias-primas produzidas nestes países, com o claro objetivo de forçar a regularização da contratação de trabalhadores dentro das regras trabalhistas internacionais. Quando grandes empresas brasileiras compram cacau destes países, indiretamente podem estar contribuindo com a continuidade do uso desta mão de obra clandestina, o que se mostra como mais um desdobramento lamentável da seca que vem assolando diversas regiões brasileiras.

Os criadores de gado da região também têm enfrentado grandes prejuízos com a estiagem, especialmente nos municípios de Itabuna, Ilhéus, Buerarema, Coaraci, Barro Preto, Canavieiras e Almadina. Com as pastagens reduzidas a uma cobertura de palha seca e com as fontes de água cada vez mais escassas, os animais perdem peso e valor comercial. Os produtores de leite têm enfrentado uma redução de até 60% na produção – uma vaca que produzia, em média, oito litros de leite por dia, raramente tem conseguido produzir 5 litros nos últimos meses. Pequenos produtores de milho da região também vêm sendo fortemente atingidos pela estiagem e perderam a maior parte de suas safras.

De acordo com informações Laboratório de Climatologia da UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, a cada 10 ou 12 anos a região costuma enfrentar um período de seca, porém, a intensidade desta seca que vem assolando a região é a mais intensa já observada nos últimos 70 anos e não há consenso científico para explicar as suas causas. De 2015 para cá, o índice pluviométrico da região caiu para a metade da média histórica.

Grandes e pequenas cidades da região como Ilhéus e Itabuna têm enfrentado sérias dificuldades para garantir o abastecimento de suas populações. Com a redução do nível dos principais rios e mananciais, as empresas de saneamento locais têm buscado por fontes alternativas e recorrido à perfuração de poços artesianos para aumentar a produção e o fornecimento de água tratada. Em diversos bairros e comunidades mais distantes das cidades, o abastecimento tem sido feito com caminhões pipa, uma alternativa que, conforme comentamos em postagem anterior, é cheia de problemas.

Em diversas localidades abastecidas com estes caminhões, há relatos de moradores que reclamaram da salinidade da água – sempre que um rio com foz no oceano apresenta uma redução na vazão da água, ocorre a chamada intrusão ou língua salina, quando a água do mar consegue avançar continente a dentro e deixa a água salobra; dependendo do local onde é feita a captação da água para o abastecimento da população, água salobra poderá ser captada, especialmente durante a maré alta. Vale lembrar que o tratamento convencional da água em uma ETA – Estação de Tratamento de Água, não consegue retirar os vestígios de sal, o que só é possível com o uso de equipamentos de filtragem especiais conhecidos como dessalinizadores.

Todos esses problemas vem se somar a um outro, que desde o final da década de 1980, vem causando enormes perdas para os produtores locais: a vassoura-de-bruxa-do-cacaueiro, uma doença vegetal causada pelo fungo Moniliophtora perniciosa, que ataca e destrói as plantas. No período entre 1991 e 2000, a participação do Brasil no mercado internacional do cacau caiu de 15% para apenas 4% – a economia da cidade de Ilhéus foi uma das mais prejudicadas com a crise que se seguiu.

A seca, além de todos os problemas e transtornos já conhecidos por todos vocês, tem também o poder de deixar o chocolate nosso de cada dia um pouquinho mais amargo que o normal…

A QUEDA DA PRODUÇÃO DO CAFÉ EM 2017, OU EXISTE UM LADO BOM NA SECA

Cafezal

Uma antiga “lenda” conta que um certo Prefeito de uma cidade do interior do Estado de Alagoas, que estava muito preocupado com a forte estiagem que se abatia sobre a região, pretendia construir uma grande caixa d’água na praça central, garantido assim o abastecimento da população. O engenheiro da Prefeitura fez um relatório para o Prefeito, informando que o local era inadequado para a construção – o terreno era demasiadamente inclinado e a “lei da gravidade” impediria a estrutura de se manter de pé. Inconformado com o relatório, o Prefeito teria chamado o líder do Governo na Câmara dos Vereadores e dado instruções para que articulasse a maioria dos representantes da população para derrubar a tal “Lei da Gravidade” e construir a caixa d’água na praça. A narrativa prossegue com um comentário do líder do Governo: “- Senhor prefeito, não se sabe se esta lei é municipal ou estadual. E, depois, pode ser federal. É melhor não mexer no assunto, para não criar problemas. O negócio é não desobedecer ao engenheiro, que é autoridade no assunto”.

Tomando como base as qualidades de muitos políticos que encontramos por este mundo afora, pode até existir algum fundo de verdade nesta história. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que a Lei da Gravitação Universal (ou da Gravidade), proposta por Sir Isaac Newton em 1687, é imutável. Uma outra lei, bastante conhecida e que também é imutável, para a decepção de muitos políticos, é a Lei da Oferta e da Procura. Vamos comentar:

A forte estiagem que está castigando a região do Semiárido e alguns Estados brasileiros têm provocado a quebra de safras de uma série de produtos agrícolas nos últimos anos. De acordo com dados divulgados pela CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, a bola da vez é à safra do café, praticamente finalizada, e que está sinalizando para uma redução de 12,8% em relação à safra de 2016, ano em que a seca já havia provocado estragos. Os dados indicam que a produção deve alcançar 44,77 milhões de sacas de 60 kg – em 2016, a produção alcançou 51,37 milhões de sacas.

O café é uma planta arbórea nativa do Nordeste da África, que chegou ao Brasil ainda nos tempos Coloniais. Produzido inicialmente para o consumo pelas populações rurais, a cultura passou a ser vista como estratégica já no início do século XIX – o consumo do café começou a se popularizar na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, mercados fortes e ávidos pelo produto, que pagavam altos preços pelos grãos do café. É importante lembrar que, naquele momento, nosso país vivia um “vácuo econômico” – o Ciclo do Ouro, que durou aproximadamente 100 anos, havia se esgotado e as elites rurais brasileiras estavam, digamos assim, empobrecendo: literalmente, o café viria a ser a “salvação da lavoura”. Em poucas décadas, gigantescos cafezais passaram a cobrir extensas faixas de terras nos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, principalmente de São Paulo, onde entrou pela região do Vale do Paraíba, avançando depois para o chamado “Oeste Paulista”. A cultura do café foi altamente impactante para o país, tanto em aspectos positivos quanto negativos, e o Brasil ainda é o maior produtor de café do mundo.

A maior parte da produção brasileira é a do café arábica (Coffea arabica), que corresponde a 80% do total, uma espécie mais difícil de se produzir e destinada ao consumo direto na forma de bebida. O restante da produção é do chamado café robusta (Coffea canephora) ou conillon, uma espécie de produção mais fácil e que é utilizada pelas indústrias para a produção do café instantâneo e expresso. O café robusta tem um teor de cafeína duas vezes maior que o café arábica. Meu avô era um pequeno produtor de café no interior de São Paulo e lembro bem como a cultura dessa planta é trabalhosa. O café é na verdade uma pequena árvore e, como tal, precisa de uma grande quantidade de nutrientes no solo para produzir uma boa quantidade de frutos – a alta fertilidade dos solos de terra roxa (terra rossa) do interior do Estado de São Paulo foram fundamentais para a extrema adaptação e alta produtividade das plantas. Os cafezais também são exigentes no quesito água, não toleram baixas temperaturas por muito tempo e são sensíveis a fortes ventos. As plantas precisam receber trabalhos constantes para a remoção de ervas daninhas e mato ao redor do caule, além de adubação. A colheita também não é das mais fáceis e, em grande parte das propriedades, ainda é feita manualmente. Os frutos colhidos precisam passar por um processo de secagem e limpeza – o que tem valor comercial são as sementes. A produção do café é, normalmente, lucrativa apesar de ser extremamente trabalhosa e de estar sujeita aos riscos climáticos como as secas e as geadas.

Desde a época da criação do Proálcool – Programa Nacional do Álcool, pelos Governos Militares em meados da década de 1970, a cultura do café passou a perder importância aqui no Estado de São Paulo, que já foi o maior produtor brasileiro e que produz hoje apenas 10% da produção nacional. Os belos cafezais plantados em curva de nível, com vários tons de verde e frutos vermelhos, cederam lugar ao verde monótono dos canaviais, mais fáceis de se plantar e mais lucrativos. Minas Gerais é hoje o maior produtor nacional de café, seguido pelo Espírito Santo. A cultura também se espalhou pela Bahia, Goiás, Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, além de ter se mantido em algumas regiões dos Estados do Rio de Janeiro e do Paraná. O forte período de estiagem que estamos vivendo em grande parte do Brasil, atingiu em cheio várias regiões produtoras de café, especialmente nos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Goiás, o que explica a quebra da safra do produto neste ano de 2017.

Apesar de todos os problemas provocados pela seca, as notícias não são as piores para os produtores: as fortes chuvas no Vietnã, o maior produtor mundial de café do tipo robusta, estão prejudicando a qualidade do produto. A Indonésia, país que está entre os maiores produtores mundiais, também anunciou que a sua produção será menor neste ano. Dois outros grandes produtores mundiais, a Índia e a Colômbia, anunciaram aumentos nas suas safras, porém num volume insuficiente para cobrir as baixas nos estoques mundiais – vai faltar café no mercado mundial no próximo ano!

A boa e velha Lei da Oferta e da Procura, que nunca falha, já começou a mostrar as suas garras: a busca por contratos futuros para a compra de café do tipo arábica nas principais bolsas de mercadorias do mundo já cresceu 60% – o preço do café robusta ou conillon, aquele usado para fazer o café instantâneo e o preparado para cafés expressos, já subiu 40% em alguns mercados. O café foi a commodity que mais se valorizou nos mercados internacionais em 2017. Para os produtores brasileiros, atingidos pela quebra de safra do café, essas são notícias maravilhosas – mesmo tendo uma produção menor, a elevação dos preços internacionais de venda do produto poderá compensar as perdas e, quem sabe, até acabar num lucro extra e inesperado. Nem sempre as notícias divulgadas aqui neste blog ou ligadas à seca são necessariamente ruins.

Que os ventos internacionais, apesar de tudo, continuem a soprar favoravelmente para os produtores brasileiros de café e que não “me” apareçam políticos tentando mudar a “Lei da Oferta e da Procura”.

AINDA FALANDO DE CAMINHÕES PIPA

Água de Reuso

A greve dos chamados “pipeiros” no Estado do Ceará, comentada em minha última postagem, me trouxe à lembrança uma série de problemas associados à qualidade da água transportada por estes caminhões. Deixem-me começar relembrando fatos, no mínimo curiosos, associados a caminhões pipa:

Comecei a trabalhar na área da engenharia civil em 2003, quando caí de “pára-quedas” numa obra viária na Zona Leste da cidade de São Paulo, isto depois de ter trabalhado por mais de quinze anos em áreas diferentes da eletroeletrônica. Meu trabalho era o desenvolvimento de um processo de comunicação com as comunidades do entorno das obras. Caminhões, máquinas e centenas de homens trabalhando numa região geram conflitos e transtornos de vizinhança, que vão desde os clássicos assédios dos operários às mulheres que circulam pelas calçadas aos acidentes de obra que envolvem carros, motos, muros de casas, entre outros. Nesta obra, em particular, a reclamação mais frequente que se ouvia dizia respeito à poeira sufocante carregada pelos ventos das ruas para o interior das casas. A solução encontrada era a aspersão frequente de água nas ruas através de caminhões pipa. Certa manhã, eu estava atendendo um morador no estande da obra (que foi montado numa praça justamente para facilitar o contato com a população), quando uma moradora entrou correndo e falou que o caminhão pipa “havia jogado peixes na avenida”. Sem entender exatamente o que se passava, pedi licença ao morador que estava sendo atendido e me dirigi até o lado de fora – haviam centenas de peixinhos, alguns com mais de 5 cm, pululando sobre o asfalto. A água usada pelo caminhão pipa para molhar o asfalto foi captada em algum açude da região e os peixinhos acabaram sendo sugados pela bomba. Com a ajuda de muitos operários e moradores da vizinhança, conseguimos recolher e salvar a maioria dos peixes, que foram lançados num córrego localizado no centro da praça. Felizmente, o pessoal da Policial Militar Ambiental, que vistoriava a obra com uma frequência impressionante, não deu as caras naquele dia.

Lembro de um outro caso, quando um caminhão pipa a serviço de uma obra de implantação de uma rede coletora de esgotos se envolveu num acidente com um ônibus – com o choque, a válvula de saída do tanque arrebentou e um jato incontrolável lançou milhares de litros de água para o interior de uma casa, localizada num ponto abaixo do nível da avenida. Foi necessário alocar alguns funcionários da obra para ajudar na limpeza da casa e também reembolsar os prejuízos com móveis e eletrodomésticos danificados. Deixando de lado esses dois casos, que são exceções, a maioria dos problemas com caminhões pipa estão ligados à qualidade da água transportada. Aqui, é importante analisar o uso final da água transportada – água potável destinada ao consumo humano, indústria de alimentos, lavanderias, piscinas, aquicultura etc; água não potável destinada a lavagem de ruas, lavagem de peças e equipamentos industriais, refrigeração de equipamentos, preparação de concreto e massa em obras civis, rega de jardins e de plantações, etc.

As principais fontes de captação de água potável pelos caminhões pipa são as redes públicas de abastecimento e os poços artesianos. Como esta água será usada, direta ou indiretamente, no consumo humano, é fundamental que haja um perfeito controle da qualidade da água e do tanque do caminhão, que além de limpo e higienizado, precisa ser apropriado para o transporte de água potável, inclusive com a inscrição “ÁGUA POTÁVEL” pintada nas laterais – vou explicar a importância disto mais a frente do texto. No caso das fontes de água não potável podemos citar os açudes e os rios (tomando-se o cuidado de colocar uma rede na entrada da captação de água para se evitar que peixes e outros seres aquáticos como girinos, rãs e sapos sejam sugados pela bomba), poços semi artesianos (são os poços rasos, chamados de poços caipiras, cacimbas e cacimbões, conforme a região) e também a chamada água de reuso. A água de reuso é o resultado final do tratamento dos esgotos nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Nas ETEs mais modernas, essa água costuma apresentar um grau de pureza (vou usar este termo por questões didáticas) da ordem de 90 a 95% – em ETEs mais antigas, essa pureza é um pouco menor. Apesar de limpa, a água pode apresentar alguns resíduos ou um leve cheiro de esgotos ou ainda possuir algumas cepas de bactérias. Esta água não pode, em hipótese nenhuma, ser usada, direta ou indiretamente para o consumo humano; porém, para regar as plantas de uma praça (vide foto), ser usada no preparo do concreto numa obra ou para lavar uma rua onde funcionou uma feira livre, esta água serve perfeitamente. O caminhão pipa usado para o transporte dessa água deve estar identificado com a frase “ÁGUA DE REUSO” e o motorista deve ser treinado adequadamente sobre os usos específicos deste tipo de água. Por razões óbvias, um caminhão pipa usado para transportar água de reuso não poderá ser usado para o transporte de água potável, e vice versa.

Ampliando um pouco mais a nossa linha de raciocínio, é preciso comentar que os caminhões tanque são construídos para o transporte de líquidos em geral: além dos diversos tipos de água, podemos citar os combustíveis (gasolina, etanol, diesel, querosene de aviação, etc), solventes e produtos químicos dos mais diversos tipos, leite, sucos, ovo líquido (para uso industrial), entre outros usos. Observem que são fins diferentes, que exigem a dedicação do veículo para um tipo de uso exclusivo, sob risco de comprometimento da qualidade do líquido transportado – um tanque usado no transporte de leite, por exemplo, poderá agregar o sabor e o cheiro deste produto a um volume de suco de laranja que venha a ser transportado neste tanque; num caso mais extremo, um tanque usado no transporte de combustíveis, caso venha a ser utilizado para o transporte de água potável irá contaminar e inutilizar a carga – cito um exemplo: logo após o acidente no rio Doce, em Minas Gerais, há pouco mais de dois anos atrás, houve uma corrida alucinante por caminhões pipa para uso no abastecimento das cidades e povoados afetados. Foram inúmeros os relatos de cargas de água “potável” descartadas por apresentarem cheiro e gosto de combustíveis, ou seja, espertalhões travestiram caminhões tanques ou pipas usados no transporte de combustíveis para uso no transporte de água, algo absolutamente irregular.

Na postagem anterior, onde foi comentado sobre a greve dos “pipeiros” no Estado do Ceará, afirmei que militares do Exército brasileiro realizam um trabalho de fiscalização da documentação dos caminhões usados no transporte de água para o abastecimento dos flagelados pela forte estiagem do Semiárido – esse rigor da fiscalização, que algumas vezes gera conflitos com os motoristas, tem como objetivo justamente comprovar o uso de veículos em condições adequadas para o transporte de água potável e também em boas condições de manutenção – mesmo que o uso de um tanque possa ser, comprovadamente, exclusivo para o transporte de água potável, a presença de ferrugem poderá comprometer a qualidade da água durante o transporte. Outro controle importante é a fonte onde essa água foi coletada, que deve apresentar as melhores condições de qualidade e potabilidade para o posterior consumo pelas populações. Motoristas gananciosos, mais preocupados com o próprio bolso do que com a saúde e o bem estar dos usuários da água transportada, não pensarão duas vezes antes de parar na beira de um corpo d’água qualquer para encher o tanque do caminhão e assim conseguir lucrar com um reembolso de despesas de uma viagem mais longa. O MEI – Módulo de Monitoramento Embarcado e o GCDA – Sistema Gestor de Distribuição de Água, utilizados pelo Exército para controlar todo o sistema de distribuição de água por caminhões pipa nas regiões atingidas pela estiagem, são fundamentais para garantir a qualidade desta água.

Mesmo que você não more em áreas onde o abastecimento da água está sendo feito emergencialmente por estes caminhões pipa, é importante que se fique de olho na qualidade da água e nos caminhões tanques usados por indústrias, comércios, chácaras ou até mesmo na piscina do clube frequentado por você e sua família – existem espertalhões demais neste nosso mundo, que podem estar vendendo água não potável ou de reuso como água “mineral”.

A GREVE DOS “PIPEIROS” NO CEARÁ, OU LEMBRAM QUE FALEI DA INDÚSTRIA DA SECA?

Pipeiros

Há poucos dias atrás falei da “suposta” indústria da seca, uma associação informal de políticos, comerciantes, empresários, prestadores de serviços e servidores públicos que, se aproveitando de verbas emergenciais liberadas para obras, serviços e auxílios financeiros para o combate à seca, conseguem ganhar um dinheirinho extra – em poucas palavras: tentam lucrar o máximo possível com a desgraça alheia. E não é que os motoristas de caminhões pipa que transportam água para as populações atingidas pela seca no Estado do Ceará resolveram entrar em greve?

Antes de entrar no assunto, gostaria de apresentar um pequeno drama pessoal, onde fui vítima de uma greve dos médicos: em dezembro de 1986, quando voltava da faculdade com a minha motocicleta, um motorista bêbado fez uma conversão proibida e me atingiu em cheio. Fui levado para um pronto socorro particular bem próximo do local do acidente, onde sabia que meu convênio médico era aceito. Por mais incrível que possa parecer, uma greve dos médicos estava em andamento naquele momento e só casos de emergência estavam sendo atendidos – eu estava com uma fratura no osso da canela e com uma forte hemorragia devido a um corte profundo, o que não foi considerada uma emergência.

Os dois policiais militares que me socorreram e me acompanhavam no hospital ameaçaram dar voz de prisão por omissão de socorro aos dois médicos que estavam de plantão – com extrema má vontade e muito medo da firme ameaça dos policiais, os médicos me atenderam. O preço da “omissão” veio logo no dia seguinte: sentindo dores muito fortes, fui levado a uma clínica ortopédica particular, onde uma amiga trabalhava e onde não havia greve. O médico que me atendeu ficou chocado com a precariedade do primeiro atendimento recebido: havia resíduos de terra e de graxa no corte, mostrando que não foi feita uma assepsia adequada – caso eu não tivesse procurado outro atendimento médico, o ferimento teria evoluído para uma infecção grave.

Fiz questão de relembrar essa história para enfatizar que greve em serviços essenciais, na minha modesta opinião, é uma das maiores covardias que se pode imaginar: dor, sede e fome são inadiáveis e não é possível deixar pessoas sem o atendimento na defesa de interesses pessoais, particularmente o pleito de salários ou pagamentos maiores. Pois bem: no Estado do Ceará, 1 milhão de pessoas, vítimas da forte estiagem que assola o Semiárido nordestino há seis anos, estão sem o serviço de abastecimento de água através de caminhões pipa – os motoristas, conhecidos na região como “pipeiros”, entraram em greve por maiores salários e em protesto contra supostas falhas no sistema de monitoramento do trajeto dos caminhões.

Como todos devem saber, a seca é um fenômeno natural na região do Semiárido brasileiro, variando de intensidade ao longo do tempo – na maioria dos anos tem uma intensidade menor, mas em intervalos regulares, como tem ocorrido desde 2011, assume proporções gigantescas, causando enormes dificuldades para as populações sertanejas. Entre os diversos mecanismos usados pela autoridades dos diversos níveis de Governo para amenizar os efeitos da estiagem, a distribuição de água através de caminhões pipa é o mais comum. Veículos das Prefeituras, dos Estados e de órgãos Federais, transportam água para distribuição aos flagelados nos mais distantes rincões.

Considerando que o Semiárido tem uma área total próxima de 1 milhão de km² (nem sempre a estiagem atinge de maneira única toda a região) e que existem milhares de comunidades a serem abastecidas com água, fica fácil perceber as dificuldades para se fiscalizar todo este trabalho emergencial – desvios de verbas e má prestação dos serviços sempre acabam acontecendo.

Há vários anos, as autoridades vêm usando um sistema de monitoramento dos caminhões pipa através de sinal GPS – Global Positioning System ou, em português, Geoposicionamento Global por Satélite. Os caminhões são equipados com um MEI – Módulo de Monitoramento Embarcado, que envia via satélite as informações do trajeto percorrido, desde a coleta da água nas fontes até a entrega nas comunidades, para o COTER – Comando de Operações Terrestres, do Exército Brasileiro.

Sempre que um dos caminhões pipa chega a uma comunidade para fazer uma entrega, os dados são gravados em um cartão eletrônico, o G-Pipa. Este cartão fica sob a responsabilidade de um representante da comunidade e serve para comprovar a entrega da água. Estas informações são transmitidas em tempo real para o GCDA – Sistema Gestor de Distribuição de Água, sob responsabilidade do Comando Militar do Nordeste. A liberação dos pagamentos pelos serviços de entrega da água são feitos a partir destes dados, evitando-se assim a ocorrência de desvios.

Este sistema controla atualmente o abastecimento em mais de 78 mil pontos, espalhados por aproximadamente 850 municípios nos Estados da Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, além de municípios do Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. A população atendida é de aproximadamente 4 milhões de pessoas – cerca de 350 militares atuam diariamente no monitoramento das cisternas e reservatórios abastecidos pelos “pipeiros”, incluindo também a verificação da documentação e das condições dos veículos, além de monitorar a qualidade da água.

Os militares fornecem uma planilha com os locais que devem ser abastecidos e tabletes de cloro para serem adicionados à água. Os “pipeiros” cadastrados no Sistema ficam responsáveis pela coleta da água nos mananciais e fontes de abastecimento, e a aplicação do cloro na água após o enchimento das cisternas e caixas d’água nas comunidades. São aproximadamente 2 bilhões de litros de água distribuídos mensalmente.

De acordo com informações do Comando Militar do Nordeste, cerca de 200 “pipeiros” já foram afastados do serviço após irregularidades terem sido constatadas, indo desde a captação de água em fontes poluídas até o uso de câmaras de ar de pneus dentro dos tanques para reduzir o volume água transportada (o consumo de combustível pelos caminhões diminui e os motoristas “lucram” com o reembolso das despesas).

Curiosamente, esse Sistema tão complexo e eficiente não está funcionando corretamente no Ceará, o que motivou o SINPECE – Sindicato dos Pipeiros do Estado, a iniciar uma greve por causa da “precariedade do Sistema G-Pipa, pela defasagem dos salários e por um melhor tratamento profissional”. Segundo o Sindicato, o G-Pipa não está registrando corretamente o percurso feito pelos caminhões e os motoristas tem sofrido prejuízos. Cerca de 1.800 “pipeiros” aderiram à paralisação, que afeta cerca de 1 milhão de pessoas em cidades como Orós, Madalena, Nova Olinda, Morada Nova e Caucaia. Os grevistas afirmam que, caso não sejam atendidas as suas reivindicações, irão realizar bloqueios nas estradas, o que só vai aumentar o drama das populações sertanejas.

Minha crítica não é contra a reivindicação dos profissionais – se existem defasagem nos pagamentos ou problemas de funcionamento no Sistema, que se apurem e se resolvam: todo trabalhador tem direito a receber um salário justo. O que é inadmissível é se usar a fragilidade das populações afetadas pela falta da água para se chantagear as autoridades. Garçons e pasteleiros, por exemplo, caso queiram iniciar uma greve, não terão a mesma força dos “pipeiros” – o máximo que conseguirão é deixar seus clientes sem cerveja e pastéis, o que está muito longe de ser uma tragédia social.

Água, ao contrário, é um dos insumos essenciais a vida – alimentação, dessedentação, higiene pessoal e doméstica dependem da sua disponibilidade, mesmo que em quantidades diárias mínimas. Usar essa necessidade inadiável do bem natural como uma ferramenta de pressão para pressionar as autoridades por maiores salários chega, na minha opinião, ao limite da criminalidade – sem acesso a água, pessoas podem morrer.

São essas distorções com vistas ao lucro de uns poucos e sem se importar com o sofrimento de muita gente com a falta de água que impõem o uso da polêmica expressão “indústria da seca”.

Que prevaleça o bom senso e que as partes consigam se acertar e reestabelecer o abastecimento com caminhões pipa no menor tempo possível.