LAGOA DE ITAPARICA SECA E 3 MILHÕES DE PEIXES MORREM NO NORTE DA BAHIA

Lagoa Itaparica

Quem acompanha o blog, já deve ter percebido que o rio São Francisco é um assíduo frequentador do espaço e tema recorrente das postagens aqui publicadas. Infelizmente, segue mais um post para a coleção das tragédias “franciscanas”:

A Lagoa de Itaparica, considerada a maior lagoa marginal do rio São Francisco, secou e, de acordo com informações do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, cerca de 3 milhões de peixes que viviam nas suas águas morreram. Localizada entre as cidades de Xique-Xique e Gentio do Ouro no Norte do Estado da Bahia, a Lagoa de Itaparica já chegou a possuir um espelho d’água com área de 24 km² e uma profundidade máxima de 6 metros – nos últimos anos, já em crise, a profundidade mal conseguia passar de 1 metro. De acordo com as informações disponíveis, essa é a quarta vez que a lagoa seca nos últimos 40 anos, sendo que a última vez que isso aconteceu foi em 2015.

Antes da construção da barragem de Sobradinho e a inundação da grande área que foi ocupada pelo lago, as margens do rio São Francisco nesta região possuíam inúmeras lagoas marginais. Estas lagoas funcionavam segundo o princípio dos vasos comunicantes, acompanhando o sobe e desce das águas do rio São Francisco. Uma das funções ecológicas mais importantes destas lagoas marginais, que lamentavelmente se perdeu, era a formação de espaços com águas calmas e protegidas, usadas pelos peixes para reprodução. Protegidos dos predadores e com abundância de alimentos, os pequenos alevinos frequentavam essas verdadeiras maternidades durante seus primeiros meses de vida, só migrando para as águas do São Francisco quando estivessem crescidos e com maiores condições para viver num ambiente mais turbulento e hostil. Esse mecanismo garantia a renovação frequente dos estoques de peixes, o que assegurava a sobrevivência das espécies e a fartura da pesca para os ribeirinhos de toda a bacia hidrográfica. O São Francisco já foi considerado um dos rios mais piscosos do Brasil, com registro de 158 diferentes espécies de peixes na bacia hidrográfica, algumas endêmicas. Entre as espécies de peixes destacam-se o curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro, o pirá e o surubim, peixe que já foi considerado um dos símbolos do rio São Francisco. Com a construção das barragens, os desmatamentos das margens, o assoreamento do leito e a poluição das águas, o Velho Chico viu as suas águas e peixes rarearem cada vez mais. O “surubim” que é servido atualmente em muitos restaurantes de cidades na beira do rio São Francisco é na verdade um peixe conhecido como cachara, natural da bacia Amazônica e primo distante do surubim verdadeiro – os “genéricos” chegaram ao mercado dos peixes.

Em sistemas com vasos comunicantes, relembrando as aulas de física, o líquido contido nos recipientes fica em equilíbrio: a altura do líquido é a mesma em todos os recipientes, independentemente da forma ou tamanho dos mesmos, desde que haja um canal ou tubo de comunicação entre esses vasos; ocorrendo a interrupção da ligação entre os vasos, o sistema tende ao desequilíbrio – é justamente essa a causa do desaparecimento da Lagoa de Itaparica. Como já comentamos em diversas postagens anteriores, o Lago de Sobradinho, já há muito tempo, vem apresentando um declínio contínuo do seu espelho d’água. Com a redução do nível de Sobradinho, a sua ligação com a Lagoa de Itaparica foi interrompida, deixando suas águas num sistema fechado, que na hidrologia recebe o nome de bacia endorreica. Um exemplo clássico de bacia endorreica é o Mar Morto, localizado entre Israel e Jordânia. O Mar Morto tem como única fonte de abastecimento as águas do rio Jordão e perde aproximadamente o mesmo volume de água para o forte calor do deserto pela evaporação, o que mantinha o nível do lago razoavelmente estável. Nas últimas décadas, devido ao aumento do consumo de água para uso em irrigação, o Mar Morto já perdeu 40% do seu volume de água e, se nada for feito, tenderá a secar completamente nos próximos anos. Outros exemplos dramáticos de bacias endorreicas que estão secando ou secaram pela falta de aporte de águas são o Mar de Aral, na Ásia Central, o lago Chade, na África subsariana, e o Lago Poopó, na Bolívia – a Lagoa de Itaparica, infelizmente, acaba de juntar a essa trágica lista.

De acordo com as informações técnicas disponíveis, a Lagoa de Itaparica perde anualmente por evaporação o equivalente a 2.400 mm – isto significa que cada metro quadrado da superfície do espelho d’água perde uma coluna de água com 2,4 metros de altura ou um volume equivalente a 2.400 litros de água. A pluviometria anual na região, que tem um clima Semiárido, é de apenas 600 mm, o que corresponde a um volume de 600 litros de água de chuva para cada metro quadrado. O déficit hídrico resultante da água que se perde por evaporação e os aportes fornecidos pelas chuvas era coberto pelas águas do rio São Francisco – sem as águas do Velho Chico, as águas da Lagoa de Itaparica “zeraram” em poucos meses – uma trágica e simples operação matemática.

Pela sua importância, a região da Lagoa de Itaparica foi elevada em 1997 à condição de APA – Área de Proteção Ambiental, através de decreto assinado pelo Governo da Bahia. Uma APA é uma Unidade de Conservação (UC) de uso sustentável, que tem como objetivo a compatibilização entre a conservação da natureza e o uso sustentável de uma parcela de seus recursos naturais pela população. De acordo com a legislação ambiental vigente, os 78.450 hectares da APA da Lagoa de Itaparica deveriam estar livres da caça e da pesca predatória, da extração de areia e pedras para uso na construção civil, além da ação dos garimpeiros, que reviram os solos em busca de cristais, ouro e diamantes. Moradores da região teriam autorização para pesca de subsistência, desde que não utilizassem redes de arrasto. Uma outra função importante do reservatório era a dessendentação dos rebanhos de animais criados na região. A fiscalização desta Unidade de Conservação pelas autoridades ambientais nunca foi minimamente adequada.

Na área de entorno da Lagoa de Itaparica vive uma população “ribeirinha” calculada em 2 mil famílias, que costumavam chamar o corpo d’água de “Mãe da Pobreza”. Essa população, agora completamente desamparada, retirava seu sustento das águas da Lagoa – diretamente através da pesca e indiretamente pela criação de animais e pelo cultivo irrigado de pequenas culturas de subsistência. Mesmo nos períodos de seca, quando as águas recuavam, era possível escavar poços no leito seco e obter água para o consumo nas casas e a dessedentação dos animais. Com o desaparecimento completo das águas, toda essa cadeia de consumo entrou em colapso. Quando se analisa a situação do lago de Sobradinho, que caminha a passos largos para atingir o volume morto, a situação da Lagoa de Itaparica e de toda a população que depende das suas águas para sobreviver ganha contornos de tragédia ambiental.

Graças aos esforços voluntários de professores e alunos do curso de engenharia ambiental da UNEB – Universidade Estadual da Bahia, de membros do Corpo de Bombeiros, de funcionários das Secretarias Municipais de Meio Ambiente e do IBAMA, milhares de peixes, que estavam morrendo nas últimas poças d’água, puderam ser salvos e transportados para as poucas águas que ainda teimam em permanecer no Lago de Sobradinho – ao menos 3 milhões de peixes não tiveram a mesma sorte e morreram asfixiados pelo ar seco do Semiárido: a foto que ilustra este post mostra o tamanho da tragédia. Planos para recuperar a Lagoa de Itaparica, existem muitos, mas todos sabemos das dificuldades que existem para tira-los do papel.

Restaram apenas as lembranças e a fé inabalável dos sertanejos, que sempre acreditam na chegada de dias melhores.

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