OS ALTOS E, CADA VEZ MAIS, BAIXOS NÍVEIS DO RESERVATÓRIO DE TRÊS MARIAS

Represa Três Marias

Entre os anos de 2014 e 2015, muitos de vocês devem se lembrar, uma fortíssima estiagem atingiu em cheio a região Sudeste do Brasil, em especial os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa estiagem ganhou contornos dramáticos quanto o Sistema Cantareira, o maior conjunto de reservatórios de água para o abastecimento das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, entrou no chamado “volume morto”, ameaçando o abastecimento de uma população de aproximadamente 20 milhões de pessoas. Uma pauta diária nos telejornais em rede nacional mostrava as quedas sucessivas do nível das represas, apresentando a cada dia índices cada vez mais negativos. Foi necessário um esforço tremendo de toda a população na economia de água, inclusive com a adoção de procedimentos de redução de pressão na rede de distribuição e racionamento de água em algumas regiões até que as chuvas retornassem ao Sudeste e se iniciasse a recuperação lenta e gradual do Sistema Cantareira.

Muito menor divulgação na mídia nacional teve a forte estiagem que se abateu sobre a Represa de Três Marias, em Minas Gerais, um dos maiores e mais importantes reservatórios da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Em 2014, no final do período da seca, o nível da represa chegou a casa de 2,5%, o menor desde o fechamento das comportas em 1962, o que obrigou o desligamento de várias turbinas da importante usina hidrelétrica, que tem uma capacidade de 396 MW/h e responde por um terço de toda a energia elétrica gerada no São Francisco. Naquele momento, a barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho apresentava um nível acima dos 27% da capacidade máxima, o que comparado aos parcos 5% que apresenta nos nossos dias, era um verdadeiro “mundaréu de água”.

De acordo com dados do Portal das Usinas e Reservatórios da CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, empresa responsável pela administração e operação da Usina Hidrelétrica de Três Marias, a situação vivida pelo reservatório não é nada confortável – no último dia 12 de novembro, o nível máximo da lâmina d’água estava em 6,4% da cota máxima e em queda constante. Quando analisamos as cotas do reservatório desde o início do ano, encontramos o nível em 25% no dia 1° de janeiro, já em pleno período das chuvas – esse nível atingiu a cota máxima em 12 de abril, quando a lâmina d’água bateu no nível dos 33% e, deste momento para cá, o nível vem em queda constante. Aliás, há muitos anos que não se assistem cenas do reservatório da barragem “sangrando” para liberar o excesso de água armazenada.

A Usina Hidrelétrica de Três Marias foi inaugurada em 1962 e, na época, foi considerada uma das mais importantes do Brasil. Com uma barragem relativamente pequena, com 2, 7 km de comprimento, o reservatório formado possuía uma capacidade para armazenar 21 bilhões de metros cúbicos de água, com uma área de espelho d’água com aproximadamente 1.040 km² e um potencial de geração de energia elétrica que atenderia grande parte do país na época. Contam os locais que o nome do lugar se deve a uma antiga hospedaria de fazenda, parada obrigatória para os viajantes e tropeiros do passado, administrada por três irmãs: Maria Francisca, Maria das Dores e Maria Geralda, mais conhecidas como as Três Marias. Tragicamente, as irmãs morreram afogadas: as três nadavam no rio quando houve numa repentina cabeça de enchente, evento que ocorre quando as águas de fortes chuvas chegam velozmente ao rio e arrastam com violência tudo o que está pela frente.

Localizada em um Estado que não tem fachada oceânica, a represa acabou por se transformar em um grande polo turístico da região central de Minas Gerais, chamado de Circuito Turístico do Lago de Três Marias. A represa se espalha por áreas dos municípios de São Gonçalo do Abaeté, Felixlândia, Morada Nova de Minas, Biquinhas, Paineiras, Pompeu, Martinho Campos e Abaeté. Além da grande importância turística, apoiada em dezenas de clubes de campo e náuticos instalados em terras nas suas margens, muitas destas localidades dependem das águas da represa para o abastecimento público e o transporte de veículos e pessoas através de balsas, que encurta em dezenas de quilômetros a tradicional ligação rodoviária.

As razões para a escolha da região se devem ao relevo e à grande disponibilidade de fontes de água no Alto Rio São Francisco. Conforme já comentamos em postagem anterior, a bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma área total de 639.217 km² e se estende por sete unidades da federação, englobando um total de 521 municípios, o que corresponde a cerca de 9% do total de municípios do país – mais de 15 milhões de brasileiros vivem na região da bacia hidrográfica, o que equivale a 7,5% da população do Brasil. Uma característica desta bacia hidrográfica é que ela tem aproximadamente 37% de sua área dentro das fronteiras do Estado de Minas Gerais, porém a contribuição de águas que ela recebe dos inúmeros rios tributários mineiros corresponde a aproximadamente 75% do total de caudais do Rio São Francisco. Para efeito de comparação, o trecho baiano do Médio São Francisco desde a divisa de Minas Gerais e Bahia até a cidade de Juazeiro, que representa 45% da área total da bacia hidrográfica, possui afluentes que contribuem com apenas 20% das águas do Velho Chico. Logo, a responsabilidade maior pela qualidade e quantidade das águas da bacia hidrográfica se dá em terras mineiras.

Infelizmente, o quadro ambiental que se assiste em todo o trecho mineiro da bacia hidrográfica do rio São Francisco não é dos mais animadores: a sistemática destruição de matas ciliares, trechos remanescentes da Mata Atlântica e das famosas veredas dos textos de Guimarães Rosa; os avanços das áreas de mineração e todo o conjunto de problemas que a atividade gera ao meio ambiente; o crescimento desordenado de cidades que, sem a devida criação de infraestruturas, lançam enormes quantidades de esgotos in natura e resíduos sólidos nas águas dos inúmeros afluentes da bacia hidrográfica; a destruição de extensas áreas do Bioma Cerrado, considerado o Berço das Águas do Brasil, pelo avanço da fronteira agrícola. A somatória de todas estas atividades antrópicas, combinada com alguns fatores climáticos regionais observados, têm resultado numa diminuição sistemática dos caudais do rio São Francisco, o que é particularmente visível nos reservatórios de Três Marias e de Sobradinho, que há vários anos não vem conseguindo atingir os volumes de água acumulada registrados em tempos passados.

Em Três Marias, os baixos níveis da represa resultaram na destruição da indústria turística: dezenas de hotéis, pousadas e clubes náuticos, outrora localizados a poucos metros da linha d’água, agora estão distantes centenas de metros da represa. Sistemas de captação de água para o abastecimento de comunidades necessitam, sistematicamente, de ampliações nas tubulações de captação para que se consiga acompanhar o ritmo do recuo da lâmina d’água. Turbinas geradoras de energia elétrica precisam ser desligadas por causa da falta de água. Por fim, sistemas de balsas rodoviárias tiveram as suas operações interrompidas – falta água em profundidade segura para a navegação; algumas comunidades isoladas agora necessitam de acessos rodoviários, com percursos várias vezes mais longos, para o transporte de pessoas e de cargas; entre os habitantes locais mais afetados pela paralização destes serviços, estão os alunos que frequentam escolas em outras cidades.

Lendo as minhas postagens, vocês perceberão facilmente que, na grande maioria das situações, a seca é o resultado dos humores e caprichos do clima global e de toda a sua complexidade de fenômenos naturais. Em muitos casos, porém, o que se assiste é o resultado de décadas de irresponsabilidade humana no uso dos recursos naturais, sem pensar nas consequências futuras destes atos. Creio eu que, muito do está acontecendo em Três Marias e em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco, têm enorme responsabilidade de mãos humanas e muito pouco de origem natural.

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