A QUEDA DA PRODUÇÃO DO CAFÉ EM 2017, OU EXISTE UM LADO BOM NA SECA

Cafezal

Uma antiga “lenda” conta que um certo Prefeito de uma cidade do interior do Estado de Alagoas, que estava muito preocupado com a forte estiagem que se abatia sobre a região, pretendia construir uma grande caixa d’água na praça central, garantido assim o abastecimento da população. O engenheiro da Prefeitura fez um relatório para o Prefeito, informando que o local era inadequado para a construção – o terreno era demasiadamente inclinado e a “lei da gravidade” impediria a estrutura de se manter de pé. Inconformado com o relatório, o Prefeito teria chamado o líder do Governo na Câmara dos Vereadores e dado instruções para que articulasse a maioria dos representantes da população para derrubar a tal “Lei da Gravidade” e construir a caixa d’água na praça. A narrativa prossegue com um comentário do líder do Governo: “- Senhor prefeito, não se sabe se esta lei é municipal ou estadual. E, depois, pode ser federal. É melhor não mexer no assunto, para não criar problemas. O negócio é não desobedecer ao engenheiro, que é autoridade no assunto”.

Tomando como base as qualidades de muitos políticos que encontramos por este mundo afora, pode até existir algum fundo de verdade nesta história. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que a Lei da Gravitação Universal (ou da Gravidade), proposta por Sir Isaac Newton em 1687, é imutável. Uma outra lei, bastante conhecida e que também é imutável, para a decepção de muitos políticos, é a Lei da Oferta e da Procura. Vamos comentar:

A forte estiagem que está castigando a região do Semiárido e alguns Estados brasileiros têm provocado a quebra de safras de uma série de produtos agrícolas nos últimos anos. De acordo com dados divulgados pela CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, a bola da vez é à safra do café, praticamente finalizada, e que está sinalizando para uma redução de 12,8% em relação à safra de 2016, ano em que a seca já havia provocado estragos. Os dados indicam que a produção deve alcançar 44,77 milhões de sacas de 60 kg – em 2016, a produção alcançou 51,37 milhões de sacas.

O café é uma planta arbórea nativa do Nordeste da África, que chegou ao Brasil ainda nos tempos Coloniais. Produzido inicialmente para o consumo pelas populações rurais, a cultura passou a ser vista como estratégica já no início do século XIX – o consumo do café começou a se popularizar na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, mercados fortes e ávidos pelo produto, que pagavam altos preços pelos grãos do café. É importante lembrar que, naquele momento, nosso país vivia um “vácuo econômico” – o Ciclo do Ouro, que durou aproximadamente 100 anos, havia se esgotado e as elites rurais brasileiras estavam, digamos assim, empobrecendo: literalmente, o café viria a ser a “salvação da lavoura”. Em poucas décadas, gigantescos cafezais passaram a cobrir extensas faixas de terras nos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, principalmente de São Paulo, onde entrou pela região do Vale do Paraíba, avançando depois para o chamado “Oeste Paulista”. A cultura do café foi altamente impactante para o país, tanto em aspectos positivos quanto negativos, e o Brasil ainda é o maior produtor de café do mundo.

A maior parte da produção brasileira é a do café arábica (Coffea arabica), que corresponde a 80% do total, uma espécie mais difícil de se produzir e destinada ao consumo direto na forma de bebida. O restante da produção é do chamado café robusta (Coffea canephora) ou conillon, uma espécie de produção mais fácil e que é utilizada pelas indústrias para a produção do café instantâneo e expresso. O café robusta tem um teor de cafeína duas vezes maior que o café arábica. Meu avô era um pequeno produtor de café no interior de São Paulo e lembro bem como a cultura dessa planta é trabalhosa. O café é na verdade uma pequena árvore e, como tal, precisa de uma grande quantidade de nutrientes no solo para produzir uma boa quantidade de frutos – a alta fertilidade dos solos de terra roxa (terra rossa) do interior do Estado de São Paulo foram fundamentais para a extrema adaptação e alta produtividade das plantas. Os cafezais também são exigentes no quesito água, não toleram baixas temperaturas por muito tempo e são sensíveis a fortes ventos. As plantas precisam receber trabalhos constantes para a remoção de ervas daninhas e mato ao redor do caule, além de adubação. A colheita também não é das mais fáceis e, em grande parte das propriedades, ainda é feita manualmente. Os frutos colhidos precisam passar por um processo de secagem e limpeza – o que tem valor comercial são as sementes. A produção do café é, normalmente, lucrativa apesar de ser extremamente trabalhosa e de estar sujeita aos riscos climáticos como as secas e as geadas.

Desde a época da criação do Proálcool – Programa Nacional do Álcool, pelos Governos Militares em meados da década de 1970, a cultura do café passou a perder importância aqui no Estado de São Paulo, que já foi o maior produtor brasileiro e que produz hoje apenas 10% da produção nacional. Os belos cafezais plantados em curva de nível, com vários tons de verde e frutos vermelhos, cederam lugar ao verde monótono dos canaviais, mais fáceis de se plantar e mais lucrativos. Minas Gerais é hoje o maior produtor nacional de café, seguido pelo Espírito Santo. A cultura também se espalhou pela Bahia, Goiás, Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, além de ter se mantido em algumas regiões dos Estados do Rio de Janeiro e do Paraná. O forte período de estiagem que estamos vivendo em grande parte do Brasil, atingiu em cheio várias regiões produtoras de café, especialmente nos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Goiás, o que explica a quebra da safra do produto neste ano de 2017.

Apesar de todos os problemas provocados pela seca, as notícias não são as piores para os produtores: as fortes chuvas no Vietnã, o maior produtor mundial de café do tipo robusta, estão prejudicando a qualidade do produto. A Indonésia, país que está entre os maiores produtores mundiais, também anunciou que a sua produção será menor neste ano. Dois outros grandes produtores mundiais, a Índia e a Colômbia, anunciaram aumentos nas suas safras, porém num volume insuficiente para cobrir as baixas nos estoques mundiais – vai faltar café no mercado mundial no próximo ano!

A boa e velha Lei da Oferta e da Procura, que nunca falha, já começou a mostrar as suas garras: a busca por contratos futuros para a compra de café do tipo arábica nas principais bolsas de mercadorias do mundo já cresceu 60% – o preço do café robusta ou conillon, aquele usado para fazer o café instantâneo e o preparado para cafés expressos, já subiu 40% em alguns mercados. O café foi a commodity que mais se valorizou nos mercados internacionais em 2017. Para os produtores brasileiros, atingidos pela quebra de safra do café, essas são notícias maravilhosas – mesmo tendo uma produção menor, a elevação dos preços internacionais de venda do produto poderá compensar as perdas e, quem sabe, até acabar num lucro extra e inesperado. Nem sempre as notícias divulgadas aqui neste blog ou ligadas à seca são necessariamente ruins.

Que os ventos internacionais, apesar de tudo, continuem a soprar favoravelmente para os produtores brasileiros de café e que não “me” apareçam políticos tentando mudar a “Lei da Oferta e da Procura”.

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