AINDA FALANDO DE CAMINHÕES PIPA

Água de Reuso

A greve dos chamados “pipeiros” no Estado do Ceará, comentada em minha última postagem, me trouxe à lembrança uma série de problemas associados à qualidade da água transportada por estes caminhões. Deixem-me começar relembrando fatos, no mínimo curiosos, associados a caminhões pipa:

Comecei a trabalhar na área da engenharia civil em 2003, quando caí de “pára-quedas” numa obra viária na Zona Leste da cidade de São Paulo, isto depois de ter trabalhado por mais de quinze anos em áreas diferentes da eletroeletrônica. Meu trabalho era o desenvolvimento de um processo de comunicação com as comunidades do entorno das obras. Caminhões, máquinas e centenas de homens trabalhando numa região geram conflitos e transtornos de vizinhança, que vão desde os clássicos assédios dos operários às mulheres que circulam pelas calçadas aos acidentes de obra que envolvem carros, motos, muros de casas, entre outros. Nesta obra, em particular, a reclamação mais frequente que se ouvia dizia respeito à poeira sufocante carregada pelos ventos das ruas para o interior das casas. A solução encontrada era a aspersão frequente de água nas ruas através de caminhões pipa. Certa manhã, eu estava atendendo um morador no estande da obra (que foi montado numa praça justamente para facilitar o contato com a população), quando uma moradora entrou correndo e falou que o caminhão pipa “havia jogado peixes na avenida”. Sem entender exatamente o que se passava, pedi licença ao morador que estava sendo atendido e me dirigi até o lado de fora – haviam centenas de peixinhos, alguns com mais de 5 cm, pululando sobre o asfalto. A água usada pelo caminhão pipa para molhar o asfalto foi captada em algum açude da região e os peixinhos acabaram sendo sugados pela bomba. Com a ajuda de muitos operários e moradores da vizinhança, conseguimos recolher e salvar a maioria dos peixes, que foram lançados num córrego localizado no centro da praça. Felizmente, o pessoal da Policial Militar Ambiental, que vistoriava a obra com uma frequência impressionante, não deu as caras naquele dia.

Lembro de um outro caso, quando um caminhão pipa a serviço de uma obra de implantação de uma rede coletora de esgotos se envolveu num acidente com um ônibus – com o choque, a válvula de saída do tanque arrebentou e um jato incontrolável lançou milhares de litros de água para o interior de uma casa, localizada num ponto abaixo do nível da avenida. Foi necessário alocar alguns funcionários da obra para ajudar na limpeza da casa e também reembolsar os prejuízos com móveis e eletrodomésticos danificados. Deixando de lado esses dois casos, que são exceções, a maioria dos problemas com caminhões pipa estão ligados à qualidade da água transportada. Aqui, é importante analisar o uso final da água transportada – água potável destinada ao consumo humano, indústria de alimentos, lavanderias, piscinas, aquicultura etc; água não potável destinada a lavagem de ruas, lavagem de peças e equipamentos industriais, refrigeração de equipamentos, preparação de concreto e massa em obras civis, rega de jardins e de plantações, etc.

As principais fontes de captação de água potável pelos caminhões pipa são as redes públicas de abastecimento e os poços artesianos. Como esta água será usada, direta ou indiretamente, no consumo humano, é fundamental que haja um perfeito controle da qualidade da água e do tanque do caminhão, que além de limpo e higienizado, precisa ser apropriado para o transporte de água potável, inclusive com a inscrição “ÁGUA POTÁVEL” pintada nas laterais – vou explicar a importância disto mais a frente do texto. No caso das fontes de água não potável podemos citar os açudes e os rios (tomando-se o cuidado de colocar uma rede na entrada da captação de água para se evitar que peixes e outros seres aquáticos como girinos, rãs e sapos sejam sugados pela bomba), poços semi artesianos (são os poços rasos, chamados de poços caipiras, cacimbas e cacimbões, conforme a região) e também a chamada água de reuso. A água de reuso é o resultado final do tratamento dos esgotos nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Nas ETEs mais modernas, essa água costuma apresentar um grau de pureza (vou usar este termo por questões didáticas) da ordem de 90 a 95% – em ETEs mais antigas, essa pureza é um pouco menor. Apesar de limpa, a água pode apresentar alguns resíduos ou um leve cheiro de esgotos ou ainda possuir algumas cepas de bactérias. Esta água não pode, em hipótese nenhuma, ser usada, direta ou indiretamente para o consumo humano; porém, para regar as plantas de uma praça (vide foto), ser usada no preparo do concreto numa obra ou para lavar uma rua onde funcionou uma feira livre, esta água serve perfeitamente. O caminhão pipa usado para o transporte dessa água deve estar identificado com a frase “ÁGUA DE REUSO” e o motorista deve ser treinado adequadamente sobre os usos específicos deste tipo de água. Por razões óbvias, um caminhão pipa usado para transportar água de reuso não poderá ser usado para o transporte de água potável, e vice versa.

Ampliando um pouco mais a nossa linha de raciocínio, é preciso comentar que os caminhões tanque são construídos para o transporte de líquidos em geral: além dos diversos tipos de água, podemos citar os combustíveis (gasolina, etanol, diesel, querosene de aviação, etc), solventes e produtos químicos dos mais diversos tipos, leite, sucos, ovo líquido (para uso industrial), entre outros usos. Observem que são fins diferentes, que exigem a dedicação do veículo para um tipo de uso exclusivo, sob risco de comprometimento da qualidade do líquido transportado – um tanque usado no transporte de leite, por exemplo, poderá agregar o sabor e o cheiro deste produto a um volume de suco de laranja que venha a ser transportado neste tanque; num caso mais extremo, um tanque usado no transporte de combustíveis, caso venha a ser utilizado para o transporte de água potável irá contaminar e inutilizar a carga – cito um exemplo: logo após o acidente no rio Doce, em Minas Gerais, há pouco mais de dois anos atrás, houve uma corrida alucinante por caminhões pipa para uso no abastecimento das cidades e povoados afetados. Foram inúmeros os relatos de cargas de água “potável” descartadas por apresentarem cheiro e gosto de combustíveis, ou seja, espertalhões travestiram caminhões tanques ou pipas usados no transporte de combustíveis para uso no transporte de água, algo absolutamente irregular.

Na postagem anterior, onde foi comentado sobre a greve dos “pipeiros” no Estado do Ceará, afirmei que militares do Exército brasileiro realizam um trabalho de fiscalização da documentação dos caminhões usados no transporte de água para o abastecimento dos flagelados pela forte estiagem do Semiárido – esse rigor da fiscalização, que algumas vezes gera conflitos com os motoristas, tem como objetivo justamente comprovar o uso de veículos em condições adequadas para o transporte de água potável e também em boas condições de manutenção – mesmo que o uso de um tanque possa ser, comprovadamente, exclusivo para o transporte de água potável, a presença de ferrugem poderá comprometer a qualidade da água durante o transporte. Outro controle importante é a fonte onde essa água foi coletada, que deve apresentar as melhores condições de qualidade e potabilidade para o posterior consumo pelas populações. Motoristas gananciosos, mais preocupados com o próprio bolso do que com a saúde e o bem estar dos usuários da água transportada, não pensarão duas vezes antes de parar na beira de um corpo d’água qualquer para encher o tanque do caminhão e assim conseguir lucrar com um reembolso de despesas de uma viagem mais longa. O MEI – Módulo de Monitoramento Embarcado e o GCDA – Sistema Gestor de Distribuição de Água, utilizados pelo Exército para controlar todo o sistema de distribuição de água por caminhões pipa nas regiões atingidas pela estiagem, são fundamentais para garantir a qualidade desta água.

Mesmo que você não more em áreas onde o abastecimento da água está sendo feito emergencialmente por estes caminhões pipa, é importante que se fique de olho na qualidade da água e nos caminhões tanques usados por indústrias, comércios, chácaras ou até mesmo na piscina do clube frequentado por você e sua família – existem espertalhões demais neste nosso mundo, que podem estar vendendo água não potável ou de reuso como água “mineral”.

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