OS ÍNDIOS “INCENDIÁRIOS” DE FLORESTAS NA AMÉRICA DO NORTE

Pilgrims

Quando os primeiros navegadores/exploradores europeus começaram a chegar a diferentes partes do continente americano, isso a partir da última década do século XV, lentamente começaram a perceber que aquelas terras faziam parte de um Novo Mundo, completamente desconhecido das grandes nações europeias de então. Além de apresentar uma nova geografia, o grande continente americano se mostrava cheio de novas e desconhecidas espécies animais e vegetais, além de novas gentes, muitas gentes. 

Existem diversas controvérsias sobre a real cifra de habitantes nas Américas daqueles primeiros anos. Conforme a fonte que você pesquisar, poderá encontrar números entre 90 e 112,5 milhões de habitantes. Tzvetan Todorov, filósofo e linguista búlgaro, autor do famoso livro A Conquista da América: a questão do outro, trabalha com uma cifra de 70 milhões de habitantes. No Brasil, os números também são vários – o antropólogo Darcy Ribeiro, em seu livro O Povo Brasileiro, falava que existiam perto de 1 milhão de indígenas no país à época do desembarque de Pedro Álvares Cabral; outros historiadores falam de populações originais entre 2 e 4,8 milhões de indígenas vivendo no Brasil. Qualquer que fossem as cifras reais, era muita gente. 

Ainda há muita controvérsia sobre a data da chegada desses grupos de seres humanos nas Américas – a migração de grupos de caçadores asiáticos através do Estreito de Bering, localizado entre o extremo Leste da Rússia e o Oeste do Alasca, entre 15 mil e 20 mil anos atrás, está entre as teorias mais aceitas. Isolados do resto do mundo, esses grupos humanos passaram a ocupar grandes territórios de Norte a Sul do continente e a desenvolver suas culturas, línguas e modos de vida. Infelizmente, esse longo isolamento de populações do resto do mundo acabaria sendo fatal para esses indígenas: doenças e vírus como os da varíola, da sífilis, e da gripe, entre outros, trazidos involuntariamente pelos europeus, seriam mortais para grande parte das populações americanas. Existem casos documentados que falam da morte de 80% dos membros de algumas tribos após o contato com os primeiros europeus – sem anticorpos contra as doenças mais comuns como uma gripe, os indígenas morriam rapidamente. O poeta chileno Pablo Neruda usou as seguintes palavras para descrever a tragédia: “la espada, la cruz y el hambre iban diezmando la familia salvage”.   

Nesse longo período em que reinaram sozinhos em nossos extensos territórios, os indígenas das três Américas se valeram do poder do fogo para abrir espaços dentro das grandes áreas florestais para a criação de áreas abertas para a prática da agricultura e para criação de áreas de caça; algumas vezes, os incêndios florestais foram provocados acidentalmente a partir de fogueiras de grupos de caça, largadas acesas nas matas. Vamos começar falando dos indígenas da América do Norte: 

Espanhóis, ingleses e franceses tomaram posse de diferentes regiões do continente norte-americano já no início do século XVI. A colonização efetiva das terras do Novo Mundo teve início no século XVII – um marco dessa colonização aconteceu em 1620, com a chegada do lendário navio Mayflower, que trazia a bordo os 102 primeiros peregrinos protestantes (pilgrims), fundadores daquele que, anos depois, seria os Estados Unidos da América. A pintura que ilustra esse post – The First Thanksgiving in 1621, de autoria de Jean Leon Jerome Ferris, nos dá uma visão “idealizada” dos primeiros contatos entre os colonos europeus e os indígenas americanos. Relatos deixados por esses mesmos colonos falam de grandes incêndios florestais provocados pelos indígenas. Veja esse testemunho de 1654, escrito pelo colono inglês Edward Johnson

“A queima frequente dos bosques pelos índios tornou as florestas a leste do Mississipi tão abertas e ralas de arboredos que eram como os nossos parques da Inglaterra”.  

Os indígenas das etnias Choctaw e Iroquois eram muito conhecidos por seus hábitos de cortar e queimar grandes áreas florestais, abrindo assim espaço para a criação de campos agrícolas, onde era cultivado o milho, o alimento mais importante dos indígenas norte-americanos. Sempre que os solos em uso apresentavam sinais de esgotamento, esses indígenas se mudavam para outras regiões e abriam espaços para novos campos agrícolas a base da queima da vegetação. Outra preocupação desses indígenas era a criação artificial de grandes áreas abertas com pastagens, que tinham como objetivo atrair grandes animais como veados, alces e bisões, que eram assim caçados com maior facilidade. Estudos realizados por diversas universidades dos Estados Unidos e do Canadá comprovaram que grande parte das Pradarias do Meio Oeste, extensos campos abertos cobertos por pastagens, não são de origem natural, mas sim resultado de um contínuo processo de queima de florestas. 

Outros povos nativos da América do Norte que podem ser incluídos na lista de “incendiários de florestas” são: Ojibwa, Cree, Mandam, Araphoe, Gros Ventres, Shosbone, Blackfeet, Assiniboine e várias tribos Athapaskan do Norte. Um colono americano, que foi testemunha ocular de um desses grandes incêndios florestais no Norte dos Estados Unidos no início do século XIX, deixou um dramático relato sobre os danos provocados aos rebanhos de búfalos da região: 

As pobres bestas têm todos os pelos chamuscados; mesmo o couro em muitas partes está enrugado e terrivelmente queimado, e seus olhos estão inchados e quase fechados. É realmente digno de pena vê-los cambaleantes, às vezes correndo em direção a uma enorme pedra, e outras vezes tombando colinas abaixo ou afundando em riachos ainda não completamente congelados. Em um certo lugar nós encontramos uma manada inteira morta.” 

Finalizando, vejam as conclusões de um estudo sobre esse assunto realizado pela Universidade de Visconsin, nos Estados Unidos: 

“O impacto causado pelo índio (sobre o meio ambiente) não era nem benigno nem localizado nem efêmero, nem eram os recursos utilizados em um modo notoriamente ecológico… O tamanho das populações nativas, o deflorestamento associado e a prolongada agricultura intensiva levaram a uma severa degradação da terra em algumas regiões. “ 

Observem que essas conclusões do estudo americano lembram muito algumas postagens publicadas aqui no blog, onde tratamos de queimadas e desmatamentos feitos por “gente civilizada” aqui no Brasil.

Continuaremos na próxima postagem. 

AGRICULTURA, CIVILIZAÇÃO E POPULAÇÕES INDÍGENAS

Agricultura Indígena

ÁGUA, VIDA & CIA (que agora tem um domínio próprio – ferdinandodesousa.com) é um blog onde apresentamos e discutimos diariamente problemas ambientais associados aos recursos hídricos. A água, que é um elemento essencial à vida, a cada dia está ficando mais rara, cara e poluída. Sistematicamente, um determinado tema dentro desse verdadeiro universo é escolhido e as ideias para postagens vão surgindo e sendo escritas ao longo de várias semanas. 

Água e agricultura é o tema que vem sendo desenvolvido nas últimas semanas e, nas postagens mais recentes, discutimos sobre os problemas associados à atividade na região da Caatinga nordestina. E conforme as postagens vão sendo publicadas, novas ideias e linhas de pesquisa vão aparecendo – no caso da Caatinga, avançamos um pouco na temática e falamos do avanço da pecuária no bioma. Na última postagem, onde fizemos uma espécie de resumo dos problemas de água, agricultura, pecuária e superpopulação na Caatinga, surgiu uma dúvida: os indígenas que vivem na região a milhares de anos, conforme citamos no texto, provocaram ou não impactos ambientais? E a resposta que surgiu é Sim – vamos entender isso: 

Apesar de a maioria de nós não gostar muito da ideia, os seres humanos são animais (bem inteligentes, é claro) com necessidades básicas como todos os outros – a alimentação é uma delas. Para se manter vivo, um homem adulto precisa consumir, em média, entre 2.500 e 3.000 calorias/dia em alimentos; no caso das mulheres, esse consumo médio é um pouco menor, ficando numa faixa entre 2.000 e 2.500 calorias/dia. A origem dos alimentos e/ou das matérias primas usadas na sua produção vêm, é claro, do meio ambiente

Uma pequena população, como a de uma tribo indígena isolada no meio da Caatinga, provocará um impacto ambiental relativamente pequeno ao caçar, pescar ou plantar alimentos para seu consumo; numa cidade grande como a minha – São Paulo, as necessidades calóricas de uma população de mais de 11 milhões de habitantes são gigantescas e vão provocar enormes impactos ambientais locais, regionais e até nacionais. Esses impactos começam em pequenas propriedades rurais em áreas nos extremos da cidade, onde se produzem verduras e legumes no chamado “cinturão verde”,  e vão até regiões distantes do Brasil e de países vizinhos, onde grande parte da produção de alimentos é exportada para a grande cidade do Planalto de Piratininga. 

Observem nessa exposição que os “paulistanos”, tanto os nativos quanto os que foram adotados pela grande cidade, não saem por aí queimando matas, abrindo campos agrícolas, destruindo solos e fontes de água ou assoreando as calhas dos rios. Porém, indiretamente, existem centenas de milhares de trabalhadores rurais fazendo todas essas “coisas” em nome das necessidades calóricas das pessoas que vivem na Pauliceia. Um outro exemplo dessa “delegação” dos serviços de devastação ambiental para terceiros é o que ocorre com a soja, uma das commodities mais importantes do Brasil – mercados como a China e a Alemanha pagam verdadeiras fortunas pelos nossos serviços e produtos, que terão um “fim” muito nobre: a maior parte da soja comprada por esses países é transformada em ração para alimentar porcos – ou seja, destruímos algumas das florestas mais ricas em biodiversidade do mundo, consumindo solos e poluindo águas, para garantir que chineses e alemães tenham bacon e salsicha de qualidade em suas mesas. 

Aqui chegamos a um ponto de reflexão – a prática agrícola em larga escala é uma das marcas da “civilização” humana, ou seja, ser civilizado é destruir e queimar matas, plantar e produzir grãos e outros cultivares em larga escala, gastando para isso a maior parte das reservas de água de uma determinada região. De quebra, solos, fontes de água e rios acabam destruídos. Seguindo essa linha de raciocínio, os chamados “povos das florestas”, que vivem à margem da “civilização”, são defensores e protetores incondicionais das matas – os indígenas americanos, do Alasca até a Terra do Fogo, se enquadrariam nessa categoria. Ecologistas e ambientalistas de todo o mundo se valem dessa mítica relação entre esses povos e o meio ambiente e a usam como um mantra em suas “pregações” em defesa da natureza. 

Com o devido respeito a todos esses colegas ecologistas e ao seu trabalho, a história não é exatamente essa: vários grupos de “bons selvagens” queimaram e destruíram grandes áreas florestais nas três Américas e, com isso, provocaram grandes impactos nos solos,  nas águas e nas populações de inúmeras espécies animais e vegetais. A razão para essa destruição é bem simples: algumas dessas regiões chegaram a abrigar grandes populações, com dezenas de milhares ou até centenas de milhares de indígenas e, para se sustentar tantas bocas, grandes esforços agrícolas se fizeram necessários.

Na próxima postagem vamos detalhar melhor algumas histórias desses “índios destruidores de florestas”. 

OS LIMITES AMBIENTAIS DA CAATINGA

Bioma Caatinga

Nas últimas postagens, resumimos a saga da ocupação de gados e gentes na região do Semiárido nordestino, uma história que já se desenrola há quatro séculos e que já marcou (negativamente) o bioma para sempre. A região hoje apresenta inúmeros problemas ambientais, que incluem a falta de água, a perda de solos e a desertificação, destruição de fragmentos florestais restantes e perda de biodiversidade e, um problema muito pouco comentado, a superpopulação

Estudos antropológicos e arqueológicos indicam que a ocupação humana em áreas do Semiárido é um processo contínuo, iniciado à, pelo menos, 15 mil anos. Esses grupos humanos, ancestrais de muitos dos povos indígenas que ainda resistem na região, nunca representaram uma ameaça para o bioma e viveram suas vidas se valendo dos recursos que a natureza lhes proporcionava. Os verdadeiros impactos ambientais negativos no bioma só passariam a ser sentidos a partir do século XVI, quando teve início o processo de colonização das terras brasileiras. Em pouco mais de 400 anos, esse processo de ocupação desordenada e de destruição sistemática do bioma pode ser comparado ao que ocorreu na África e na Europa, continentes que tiveram suas paisagens totalmente alteradas pela ocupação e pelas atividades humanas. Existe, porém, uma enorme diferença nesse processo de ocupação – o tempo: o que foi destruído em quatro séculos na Caatinga levou cerca de 500 mil anos na África e, pelo menos, 200 mil anos na Europa (considerando uma ocupação por espécies do gênero Homo mais próximas de nós, humanos modernos). 

Na região do Semiárido brasileiro vivem, aproximadamente, 23,5 milhões de pessoas, o que faz dessa região a mais superpopulosa entre todas as regiões semiáridas do mundo. Para efeito de comparação, a região do deserto do Saara tem 9,2 milhões de km² (quase dez vezes maior que o nosso Semiárido) e uma população de apenas 2,5 milhões de pessoas. O Saara, que se estende por todo o Norte da África, apresenta diversos tipos de paisagens, onde se incluem dunas de areia, montanhas, savanas e algumas áreas com vegetação muito parecida com a nossa Caatinga. 

Além desse imenso contingente de seres humanos, o Semiárido também abriga enormes rebanhos de animais. A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região. O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e com 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. Algo entre 15% e 20% destes rebanhos vivem na região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco. 

Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio; há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores; os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer; para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos do semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações. 

Caatinga

É essa imensa pressão sobre os recursos naturais do bioma Caatinga a responsável pela crescente perda e desertificação de solos férteis, desaparecimento e redução dos caudais de fontes de água, assoreamento e entulhamento das calhas de rios importantes como o São Francisco, agravamento de fenômenos naturais como as secas da região, perda de biodiversidade e risco de extinção de inúmeras espécies vegetais e animais, entre outros problemas. Jogar a culpa de todos esses problemas única e exclusivamente sobre o clima semiárido da região, o que é feito frequentemente, é uma simplificação muito perigosa. 

O bioma Caatinga está no topo da lista dos sistemas florestais brasileiros mais ameaçados – calcula-se que perto de 50% de sua área já foi destruída pelas atividades humanas; algumas fontes, mais pessimistas, chegam a afirmar que 75% da Caatinga já foi comprometida ou alterada pelas atividades humanas. Sem nos prendermos muito a esses detalhes, é importante lembrarmos que, a essa altura de nossa história, não há como juntar todas essas populações de bichos e gentes e os mudarmos para outras regiões do país – mesmo que isso fosse possível, estaríamos apenas mudando os problemas de lugar. 

Nosso planeta e seus recursos naturais são finitos – não podemos continuar gastando e desperdiçando áreas florestais, solos e águas, imaginando que eles são infinitos, uma ideia que muita gente ainda parece ter. Precisamos, sim, aprender a conviver com os recursos naturais disponíveis, usando-os e consevando-os da melhor maneira possível – isso é o que se chama sustentabilidade.

O AVANÇO DA DESERTIFICAÇÃO NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO

Desertificação de solos

Nessa série de postagens estamos falando dos conflitos entre a agricultura e o uso de grandes volumes de água. Cerca de 70% da água doce disponível em uma região acaba sendo consumida pela agricultura – em países com forte dependência da agricultura, esse uso pode chegar a 84%, um consumo que compromete os demais usos da água pelas populações. Falamos também da destruição de matas e da degradação dos solos, problemas que terão reflexos diretos nas fontes de água. Seguindo o embalo desses assuntos, acabamos entrando num tema mais específico, onde todos esses problemas se juntam e atingem um novo patamar – os riscos de desertificação dos solos. 

A região conhecida como Semiárido brasileiro ocupa uma área com quase 1 milhão de km² dentro de Estados da região Nordeste, além de uma faixa ao Norte do Estado de Minas Gerais. O bioma Caatinga é o maior sistema florestal que cobre toda essa imensa região, dividindo espaço com o Agreste, formação intermediária entre a Caatinga e a Zona da Mata, e o Alto Sertão, localizado entre a Caatinga e o Cerrado. A Caatinga é o ambiente mais alterado e degradado, onde os problemas estão atingindo uma proporção catastrófica em várias regiões: a desertificação. 

De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a definição deste fenômeno “é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas.”. Em diversas regiões do mundo estão ocorrendo diversos processos de desertificação – no Brasil, a Região Nordeste é a que apresenta um maior número de áreas afetadas gravemente por processos de desertificação, onde se estima um total de 230 mil km² de áreas da Caatinga em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri. Para que você tenha ideia da área total destas duas regiões em risco graves ou muito graves de desertificação, ela é maior que a soma das áreas dos Estados de São Paulo (248 mil km²) e Rio de Janeiro (43,7 mil km²). Se consideradas todas as áreas do país em risco de desertificação, incluindo-se aquelas em risco inicial, baixo e intermediário, chegamos aos 900 mil km². 

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação, sendo que os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. No Estado da Bahia, uma área com extensão de 300 mil km² no sertão do São Francisco tem solos que já não conseguem reter água, sinal de alerta para o risco de desertificação; os municípios ribeirinhos do Rio São Francisco de Petrolina, em Pernambuco, e de Paulo Afonso, na Bahia, têm áreas mapeadas em estado crítico de desertificação, que ameaçam, respectivamente, 290 mil e 108 mil habitantes. Estes são apenas alguns números deste gravíssimo processo de destruição dos solos. 

Além das áreas nos antigos domínios da Zona da Mata nordestina, o desmatamento afetou fortemente as áreas da Caatinga e do Agreste, onde as árvores foram queimadas sucessivamente para ampliação dos campos para a pastagem dos bois, tema que tratamos em postagens anteriores. Além dessa destruição progressiva e histórica, a vegetação restante continua sofrendo sistematicamente desmatamentos para exploração da madeira, usada como material para a construção de casas e para a fabricação de móveis, portas e janelas; como lenha (que responde por 30% da energia utilizada na Região Nordeste) e até mesmo para uso como mourões de cercas de arame farpado. Em décadas passadas, milhares de árvores da região da Caatinga foram derrubadas para a fabricação de dormentes para as ferrovias construídas na região – para que você tenha ideia do que foi a destruição causada por essas obras, calcula-se que cada quilômetro de trilhos assentados utilizou dormentes construídos com a madeira de 500 árvores. 

Além dos impactos causados pela destruição das matas a “ferro e a fogo”, como costuma se dizer, existe uma causa importante de desertificação nem sempre levada muito a sério: os rebanhos de cabras e bodes do sertão. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

Além da retirada de lenha e das cabras, a degradação dos biomas que levam à desertificação continua a ocorrer diariamente: vegetação e terra sofrem com queimadas frequentes para preparação dos solos para agricultura e para pecuária, destruição de matas que protegem as nascentes e os rios do assoreamento e até os sistemas de irrigação, que captam água em excesso, comprometendo cursos d’água e causando salinização do solo, além da mineração e extração de argila do leito de rios para abastecer a indústria de cerâmica. Os solos desertificados que surgem, tem suas areias carregadas pelos ventos e pelas águas das poucas chuvas, contribuído cada vez mais para o assoreamento dos raros rios permanentes da região, como o Rio São Francisco. 

Apesar de ser um problema gravíssimo no Semiárido, os processos de desertificação estão em andamento em todas as regiões do Brasil. Trataremos disso em futuras postagens. 

OS GADOS E AS GENTES DO SERTÃO NORDESTINO

Boi magro na caatinga

Prosseguindo como tema que abordamos na última postagem, a invasão das áreas de vegetação de caatinga pelos bois expulsos do litoral, precisamos falar dos diversos desdobramentos dessa nova realidade ecológica, que passou a mudar substancialmente as condições do bioma. 

Existiam dois “caminhos” principais dessa rota dos bois rumo aos sertões,  um caminho em Pernambuco e outro na Bahia, que também era a rota dos bois gordos que eram trazidos de volta ao litoral para serem vendidos nas feiras livres. Toda a energia das populações litorâneas estava concentrada no plantio da cana e na produção do açúcar – essas pessoas precisavam comer, mas não havia produção de alimentos em larga escala na faixa litorânea. Os moradores das cidades tinham suas próprias hortas de fundo de quintal, onde se conseguia produzir alguma mandioca, verduras e legumes, além da criação de aves e suínos. Os pobres escravos que trabalhavam nos canaviais, muitas vezes eram obrigados a usar o pouco tempo de folga das suas exaustivas jornadas de trabalho, para plantar algum roçado às escondidas em algum canto das terras dos patrões, conseguindo assim algumas calorias extras. O sertão nordestino, especialmente a região do Agreste, acabou transformado num importante centro de produção de alimentos para as populações do litoral – farinhas de madioca, carne seca, queijos, mel, entre outros alimentos, além é claro dos bois vivos.

Essa circulação de boiadas pelos longos caminhos dos sertões começou a estimular alguns empreendedores, sem espaço para trabalhar no litoral, a montar pequenas pousadas e empórios voltados para os vaqueiros – muitas vezes eram as suas próprias casas que eram abertas para hospedar esses viajantes, onde os serviços eram trocados por algumas moedas ou até mesmo por um novilho. Com o tempo, muitas dessas paradas acabaram se transformando em cidades – de memória posso citar Caruaru, no Agreste pernambucano, e Feira de Santana, na Bahia. Além das pequenas cidades e vilas que surgiam por todos os lados, muitas famílias buscavam o sertão para conseguir um espaço para viver e produzir alguma cultura ou produto que pudesse ser vendido nas cidades. Não tardou muito para o Sertão ficar cheio de gentes e de gados. 

A palavra gado, normalmente, é usada para falar de rebanhos de bovinos – porém, ela também descreve rebanhos de cabras, bodes, ovelhas, cavalos, burros, galinhas e outros animais criados pelo homem. A queima dos caatingais, que começou a ser feita pelos criadores de gado para a ampliação dos campos, agora também passou a ser uma rotina para esses pequenos agricultores, que precisam abrir áreas para os seus roçados de subsistência e para a criação de pastagens e espaços para seus animais domésticos. A Caatinga também passou a fornecer lenha para os fogões, madeira para a construção de casas, cercas, móveis e demais utensílios. Um bioma reconhecidamente com baixa disponibilidade de água e de recursos naturais, a Caatinga passou a sustentar cada vez mais bocas, de gentes e de animais domésticos. Uma pequena amostra dessa sobrecarga:

De acordo com informações de especialistas em zootecnia e em agronomia, é necessário 1 hectare de pastagem para atender as necessidades nutricionais de 5 a 15 kg de peso vivo – isso significa que uma cabra com um peso de 60 kg vai necessitar de, pelo menos, 4 hectares ou 40 mil m² de pastagem para sobreviver – isso corresponde a área de 4 campos de futebol no padrão FIFA. Essa grande área é necessária para que o ambiente tenha tempo para se recuperar, ou seja, enquanto a cabra come a vegetação em um lado deste campo, a vegetação do outro lado terá tempo para crescer e se regenerar. Um boi magro, para efeito de comercialização, tem um peso de 360 kg e vai necessitar de uma área de pastagem bem maior – 24 hectares ou 244 mil m². Observe que este cálculo foi feito usando o valor mais baixo do consumo – 5 kg de peso vivo/hectare: o valor mais alto é três vezes maior. Se você por acaso já teve oportunidade de viajar pela região do semiárido nordestino, lembrará de ter visto rebanhos com dezenas e mais dezenas de cabras, bodes, carneiros e bois pastando em áreas bem menores do que a recomendação dos especialistas, o que lhe dá uma ideia da sobrecarga no bioma.

Há um outro detalhe importante – a região do Semiárido está sujeita a secas sistemáticas. Nessas ocasiões, a vegetação e os pastos secam, deixando a maioria dos animais domésticos sem ter o que comer. Os bois, nessas ocasiões, definham lentamente (vide foto) e acabam por morrer de fome. Os caprinos, ao contrário, começam a comer qualquer coisa mastigável que apareça pela frente, inclusive a raiz de plantas e de gramas. Os expertos animais cavam o solo e saem roendo as raízes com muito gosto.

Os solos finos e já esgotados de muitas regiões do Semiárido, acabam ficando estéreis e sujeitos aos processos de desertificação. Aqui é importante lembrar que os solos férteis combinam matéria orgânica, minerais, água e ar – sem a presença de vegetação para formar a matéria orgânica e sem água, o que resta nos solos são os resíduos minerais como a areia, o silte e a argila. Mesmo com a volta das chuvas, esses trechos estéreis não apresentam mais as condições para suportar qualquer vida vegetal, ficando assim sujeitos à erosão pelas águas das chuvas e pelos ventos.

Estimativas indicam que uma área total de 230 mil km² da Caatinga (1/4 do bioma) está em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri.

Vamos falar desse gravíssimo problema em detalhes na próxima postagem.

AS BOIADAS DO SERTÃO NORDESTINO E A QUEIMA DOS CAATINGAIS

Gado na Caatinga 1

O plantio intensivo da cana-de-açúcar para a produção do valioso açúcar foi a primeira atividade econômica relevante em terras brasileiras. As primeiras mudas de cana e os primeiros exemplares de gado vacum chegaram ao Brasil nas mesmas naus que trouxeram os primeiros Donatários das Capitânias Hereditárias, no início da década de 1530. Foi esse plantio intensivo de cana-de-açúcar nas terras do litoral do Nordeste, especialmente no trecho entre o Recôncavo Baiano e o Rio Grande do Norte, o principal responsável pela destruição do trecho de Mata Atlântica que cobria originalmente essas terras.  

Conforme já apresentamos em postagem anterior, a destruição da floresta pela força dos machados e do fogo das grandes queimadas, levou junto os preciosos e profundos solos de massapê, que, expostos às chuvas e às enxurradas e usados com técnicas agrícolas das mais inadequadas, resultaram esgotados ou foram carregados para o leito dos rios e depois para o mar. Destruiu-se a mata, enfraqueceu-se os solos e perderam-se muitos rios – os grandes senhores da terra e os nobres de Portugal ganharam montanhas de dinheiro; para as sucessivas gerações de brasileiros que ali nasceram, restou um enorme passivo ambiental e muita pobreza vindoura. Esse foi um processo que durou cerca de dois séculos e que teve muitas facetas – uma delas foram os sucessivos conflitos entre os plantadores de cana-de-açúcar e os criadores de bois, embate esse que acabou desencadeando um processo de destruição de outro bioma – a Caatiga. 

Os problemas entre a criação de gado bovino e as plantações de cana-de-açúcar nos tempos do Brasil colonial são bem fáceis de entender: esses animais se alimentam basicamente da grama das pastagens, mas, dada a oportunidade de se invadir um campo agrícola com brotos tenros e açucarados de cana-de-açúcar, os rebanhos faziam a festa. E como o açúcar era o produto mais valioso daqueles tempos, os grandes senhores dos engenhos não ficavam nem um pouco satisfeitos com essas “quebras” de produção de cana-de-açúcar. Com o poder econômico e social que tinham, os donos dos engenhos tudo faziam para manter as boiadas o mais longe possível de suas terras. Conforme a área de plantio de cana se expandia, ocupando cada vez mais a faixa da Mata Atlântica, esse “longe” ficava cada vez mais sertões a dentro

O conflito entre os criadores de gado e os senhores dos grande engenhos de açúcar atingiu seu ápice em 1701, quando foi editada uma Carta Régia pelo rei de Portugal, Dom Pedro II (que não tem nada a ver com Dom Pedro II, o último Imperador brasileiro), proibindo a criação de gado a menos de 10 léguas do litoral. Existem diversas medidas para a légua antiga, tanto para uso terrestre quanto marítimo, com valores entre 6 e 7 km – considerando esses valores, temos que as criações de bois teriam que ficar entre 60 e 70 km do litoral, já entrando nos domínios do Semiárido. Através dos termos dessa Carta Régia, o Rei de Portugal deixava muito claro que as terras do litoral estavam reservadas exclusivamente para o plantio da cana e a produção do açúcar – os incomodados que se mudem, como se diria numa linguagem bem popular. 

E, literalmente, foi isso o que aconteceu – cada vez mais, os criadores e suas boiadas tomavam o rumo em direção aos sertões do Nordeste, buscando os locais mais adequados para viver. É aí que começaram os problemas das terras cobertas por vegetação de caatinga, com suas árvores de galhos retorcidos e com muitas espécies de cactáceas – entre as matas com esse tipo de vegetação, existiam poucos campos abertos com gramas para a pastagem dos animais. Se você já viu um boi de perto, deve ter uma ideia da quantidade diária de grama que esse animal precisa comer para sobreviver. 

Além da falta de pastagens, os caatingais formavam verdadeiros labirintos, com galhos espinhentos e de difícil travessia, onde os animais se perdiam e/ou se machucavam. Essa vegetação é tão “agressiva” que os vaqueiros nordestinos acabaram desenvolvendo uma vestimenta de trabalho de couro grosso, que é uma verdadeira armadura – o gibão. A solução encontrada para ampliar artificialmente os campos de pastagem e abrir os caminhos foi o início de um processo contínuo de queimada dos caatingais

A queima da vegetação para a preparação de campos agrícolas é uma técnica milenar, usada por povos de todo o mundo. Os indígenas brasileiros usavam o fogo para limpar grandes trechos de mata, técnica chamada por eles de coivara, onde eram plantadas culturas de milho e mandioca nas áreas limpas, alimentos de subsistência desses povos, que se juntavam ao que se obtinha com a caça e com a pesca. As cinzas resultantes dessa queima da caatinga proporcionava uma adubação temporária dos solos, que ajudava no crescimento da grama e de outras vegetações rasteiras que o gado consumia. Sistematicamente, novas áreas de caatinga precisavam ser queimadas para a renovação dos pastos e para comportar o crescimento contínuo dos rebanhos. De campo em campo, imensas regiões do Semiárido viram suas paisagens transformadas em campos gramados. 

E como tudo na vida e na ecologia tem um preço, muitas dessas áreas de caatingais que foram transformadas em campos, agora estão se transformando em desertos. Falaremos desse processo de desertificação de terras na nossa próxima postagem. 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DE UM BIOMA CHAMADO CAATINGA

Caatinga

A Caatinga é o único bioma ou sistema florestal totalmente brasileiro, com plantas e animais perfeitamente adaptados a um clima sujeito a longos períodos de estiagem (vide foto). A Caatinga ocupa uma área com aproximadamente 1 milhão de km² dentro da região conhecida por Semiárido Brasileiro. Apesar de todo esse orgulho por sua brasilidade, a Caatinga figura na primeira posição entre os nossos biomas mais ameaçados – mais de 50% de sua área original já foi perdida e a parte restante segue sob forte ameaça. Grande parte dessa destruição foi feita por queimadas propositais, que tinham como objetivo o aumento das áreas de campos para o pastoreio de bois, cabras, bodes, ovelhas e outros animais. A história da destruição da Caatinga é bastante rica e didática. Conhecê-la vai ajudar você a entender a relação entre fogo, solos e águas, e, de quebra, entender o problema da desertificação de solos. 

Para quem não está acostumado, a visão da vegetação de caatinga completamente seca e sem uma única folha verde é algo desesperador. Em duas ocasiões diferentes, em anos de forte estiagem nos Estados de Pernambuco e de Sergipe, eu passei por essa angustia – muito calor, ar extremamente seco, uma poeira fina sob os pés que se levantava como uma nuvem a cada passo e um tom ocre monocromático por todos os lados. Em contraste a toda essa desolação (pelo menos no meu ponto de vista) sertanejos simpáticos e muito hospitaleiros, que se esforçavam em me receber em suas casas da melhor maneira possível. A paisagem que eu via ali fazia parte das suas vidas e era algo temporário – assim que as chuvas chegassem, e elas sempre chegam, seu mundo mudaria rápida e completamente. 

A Região do Semiárido (ou Domínio da Caatinga) compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 30 milhões de pessoas habite a região. A Caatinga é uma região semiárida única no mundo, sendo considerado o bioma brasileiro mais ameaçado e já transformado pela ação humana (o Cerrado “corre” para tomar essa primeira colocação). Engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do estado de Minas Gerais, também de clima semiárido, é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas

A vegetação, em função do clima e dos tipos de solos, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. Pela sua maior extensão e importância, vamos nos concentrar nas zonas da Caatinga. Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do sertão é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água: quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade. Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias após as primeiras chuvas pinta o chão da Caatinga de verde, a cor da esperança, e faz surgir toda uma infinidade de flores coloridas – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix

As primeiras expedições exploratórias organizadas nos pioneiros tempos do período colonial, as bandeiras (não foram só os paulistas que organizaram essas expedições), não encontraram ouro ou qualquer tipo de pedras preciosas – acharam uma vegetação e um clima “muito inóspitos e bem diferentes do luxuriante litoral, e também repleto de índios perigosos” – essa é uma descrição aproximada do que aparece nos relatórios das expedições e que foram encaminhados ao Governador Geral. Nenhuma expedição geográfica ou científica foi organizada naqueles primeiros tempos – é por isso que ninguém sabe ao certo a extensão original da Caatinga e o quanto desse bioma já foi destruído ou alterado. Relatos dispersos de alguns viajantes solitários e religiosos que se aventuram por esses sertões, citam algumas matas e rios de bom porte, porém, sem maiores informações, é difícil saber se essas informações se referem mesmo a áreas da Caatinga ou a faixas interioranas da Mata Atlântica. 

Durante muito tempo, somente os escravos africanos que conseguiam escapar das senzalas dos grandes engenhos de cana-de-açúcar do litoral é que se aventuravam pelos sertões dos caatingais nordestinos. Surpreendentemente, muitos acabaram acolhidos pelos indígenas e passaram a viver livremente em suas tribos. Foi, porém, um outro trabalhador incansável dos canaviais, parceiro de vida de muitos desses escravos, que acabou expulso das terras do litoral e que acabou encontrando um lugar para viver nos campos ralos das matas de caatinga – falamos dos bois (gado vacum para sermos mais precisos). 

Os bois foram trazidos para as terras brasileiras para trabalharem como animais de carga nos canaviais. As canas cortadas precisavam ser transportadas para os engenhos em carroças e eram os bois os responsáveis pela força bruta; onde não era possível o uso de moendas de cana movidas pela força hidráulica dos rios, eram esses bois que faziam as engrenagens trabalharem. O abate de bois para o consumo de sua carne era, nesse período, uma “utilidade” secundária para os animais. Com o passar dos anos e com o crescimento vegetativo das boiadas, esses animais passaram de aliados a vilões. 

Explicaremos tudo isso e a sua relação com as queimadas da caatinga e os problemas de solo e água na nossa próxima postagem. 

A “ECOLOGIA” DO FOGO, OU FALANDO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS

Incêndio no Cerrado

Caso você tenha prestado atenção nos noticiários nesse último mês, com certeza vai se recordar de inúmeras matérias falando das altas temperaturas no verão deste ano do Hemisfério Norte. Temperaturas superiores aos 40° C se tornaram “comuns” em extensas áreas da Europa, América do Norte e Ásia. No Sul de Portugal, na região do Algarve, chegaram a ser divulgadas notícias que davam conta de temperaturas na casa do 46° C – esse patamar de temperaturas, encontrando com certa facilidade em algumas áreas de deserto, estão muito acima das médias climáticas dessas regiões. E uma das graves consequências dessas altas temperatura é o aumento da frequência e da intensidade dos incêndios florestais. Na última postagem, inclusive, reproduzimos um artigo que comentava a solução da administração do Presidente americano Donald Trump para o combate aos incêndios florestais – aumentar a exploração madeireira e, assim, se conseguirá controlar melhor os grandes incêndios florestais nos Estados Unidos. 

O fogo é uma das forças da natureza e sua fúria e energia vêm, há milhões de anos, ajudando a modelar as paisagens naturais de nosso planeta. Originalmente, os incêndios florestais eram provocados por erupções vulcânicas, que lançavam pedras incandescentes a quilômetros de distância em áreas cobertas por matas, onde o fogo poderia se iniciar e destruir grandes volumes de vegetação. Também poderiam ter sua origem nos raios que atingiam árvores secas ou ainda pelos raios solares sol, que teriam o poder de iniciar o fogo incidindo sobre folhas secas. Um exemplo do poder desses incêndios é o Cerrado brasileiro (vide foto), onde a ação do fogo nos últimos 25 milhões de anos forçou as espécies vegetais a evoluirem  – algumas plantas se adaptaram tanto às queimadas frequentes que suas sementes dependem do fogo para germinar. Espécies animais que vivem nesses habitats também se adaptaram e desenvolveram suas estratégias de fuga e sobrevivência durante esses grandes eventos catastróficos. 

Evidências fósseis indicam que o ser humano se utiliza do poder do fogo há aproximadamente 500 mil anos. Incialmente, esses humanos criavam suas fogueiras a partir de madeiras em chamas ou por meio de brasas coletadas em matas onde incêndios de origem natural se alastraram. Com o passar do tempo, os humanos desenvolveram suas próprias técnicas para a criação do fogo e passaram a ter domínio pleno desse grande “poder” da natureza. Diversos estudos evolutivos afirmam que o uso do fogo na preparação dos alimentos foi um elemento fundamental para a evolução anatômica do ser humano – a carne preparada no fogo ficava mais macia e fácil de comer, eliminando assim a necessidade de mandíbulas extrafortes e dentes grandes, como aqueles encontrados em fósseis de hominídeos como o homo erectus, espécie que viveu entre 1,8 milhão e 300 mil anos atrás. O aumento do consumo de proteínas também teria sido fundamental para o maior desenvolvimento do cérebro humano – ou seja, segundo esses estudos, nós, seres humanos modernos, devemos muito do que somos ao uso do fogo por nossos ancestrais

As técnicas agrícolas e o uso do fogo também têm ligações bastante antigas: a queima de áreas cobertas por vegetação vem sendo usada a milhares de anos para a formação de campos agrícolas. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a agricultura é, em grande parte, uma prática que se realiza em campos abertos como as estepes e as várzeas dos grandes rios, locais onde a agricultura foi desenvolvida inicialmente. Áreas cobertas por florestas, a grosso modo, não eram adequadas para as práticas agrícolas e o fogo acabou sendo usado como uma eficiente “ferramenta” para a remoção dessa vegetação e formação dos campos agrícolas. Foi assim que antigas áreas cobertas originalmente por florestas na Ásia, Europa e nas Américas foram transformadas artificialmente pelo fogo em campos. 

Um exemplo recente (falando em termos históricos) do uso do fogo para a alteração de uma paisagem ecológica aqui no Brasil foram as grandes queimadas de áreas da Caatinga no sertão nordestino para a formação de pastagens para o gado, fato citado em inúmeras postagens aqui deste blog. Expulsos do litoral pelos grandes senhores dos canaviais, os criadores de bois passaram a buscar espaços nas áreas de caatinga dos sertões. A fim de aumentar artificialmente as áreas de campos com pastagens para os animais, esses criadores de gado passaram a queimar sistematicamente as áreas com vegetação de caatinga. Muitos dos efeitos da seca e da desertificação de terras nessas regiões (por falta de estudos anteriores não é possível se afirmar exatamente o tamanho desses impactos) se deveu ao uso dessas práticas. 

Encerrando esta postagem, peço que prestem atenção nesse relato de Euclides da Cunha (1866-1909), militar e escritor brasileiro, autor de um dos grandes livros sobre a nossa história: Os Sertões. Nesse relato, Euclides da Cunha se refere a essas queimadas nas áreas dos caatingais nas primeiras décadas do século XIX: 

“Ainda em meados deste século, no atestar de velhos habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente, alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante meses seguidos viu-se no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.” 

Continuaremos falando sobre os impactos do fogo sobre as matas, as águas e os solos na próxima postagem. 

“O PLANO DA CASA BRANCA PARA COMBATER INCÊNDIOS? EXPLORAÇÃO MADEIREIRA”

incendio-california

Na mesma semana em que tratamos da intensa devastação das florestas do Estado do Paraná, onde a derrubada de árvores para a criação de campos agrícolas e também para a exploração madeireira já consumiu quase 84% das florestas e matas nativas, criando todo um “pacote” de problemas ambientais no Estado, somos surpreendidos por mais uma das mais mirabolantes ideias do Governo de Donald Trump: aumentar a exploração madeireira para conter o avanço e a intensidade dos incêndios florestais nos Estados Unidos.

Veja o texto completo da reportagem, publicado pela edição eletrônica da Revista Exame em 17/08/2018, e tire suas próprias conclusões:

 

“Os ambientalistas têm afirmado que o governo Trump agravou problema dos incêndios ao cancelar políticas para redução do efeito estufa

O governo Trump anunciou uma nova política de combate aos incêndios florestais, reiterando sua afirmação de que a melhor resposta é um gerenciamento mais eficaz das florestas, e não o foco nas mudanças climáticas.

O secretário de Agricultura, Sonny Perdue, disse na quinta-feira que o Serviço Florestal dos EUA ampliaria a exploração madeireira e a queima controlada em terras federais para reduzir a quantidade de combustível disponível que provoca incêndios florestais cada vez mais severos. Ele ignorou questionamentos sobre se as mudanças climáticas estavam piorando os incêndios.

“Muita gente, quando se fala em mudança climática, quer debater a respeito das causas”, disse Perdue. “Nós estamos tentando falar sobre o impacto.”

Ryan Zinke, secretário do Departamento do Interior, disse que a remoção das árvores mortas que alimentam incêndios é a melhor abordagem. “Independentemente de você ser ativista ou negar o aquecimento global”, disse, no início de uma reunião de gabinete na Casa Branca, na quinta-feira, não importa se há madeira apodrecendo nas florestas.

Zinke reconheceu que o aquecimento global contribui para os incêndios florestais. “As temperaturas estão subindo”, disse Zinke, que respondeu “é claro” quando indagado se aceitava que a mudança climática era parte do problema.

Os ambientalistas têm afirmado que o governo Trump agravou o problema ao cancelar políticas para redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. Depois que Zinke afirmou, na semana passada, que políticas apoiadas por “ambientalistas radicais” tinham parte da culpa pelos incêndios florestais, o Sierra Club reagiu.

“Zinke, assim como Trump, continua negando o óbvio”, disse Kirin Kennedy, diretora legislativa associada para terras e vida selvagem do Sierra Club, por e-mail. “São as mudanças climáticas que estão piorando a temporada de incêndios florestais na região oeste.”

A estratégia anunciada na quinta-feira gerou reações divergentes dos ambientalistas — incluindo Kennedy.

O problema dos incêndios florestais exige “mais proteção perto de residências e empresas, e menos exploração madeireira em áreas selvagens, onde não oferece proteção adicional contra incêndios”, disse Kennedy.

Kameran Onley, diretora de relações com o governo dos EUA da Nature Conservancy, disse em comunicado que “reduzir os combustíveis e melhorar as condições das florestas são as melhores estratégias para diminuir a ameaça dos incêndios florestais catastróficos, e nós apoiamos as estratégias delineadas pelo secretário”.

No início da reunião de gabinete, o presidente Donald Trump criticou as políticas da Califórnia para a água, destinadas a proteger o suprimento de água potável e os habitats dos peixes limitando desvios de água para uso agrícola. As autoridades da Califórnia responsáveis pelo combate aos incêndios têm afirmado que não falta água para apagar os incêndios.

“Ryan estava dizendo que não é uma questão de aquecimento global, é uma questão de gestão”, disse Trump.”

Por Christopher Flavelle e Justin Sink, da Bloomberg

OS RIOS DO PARANÁ E SEUS PROBLEMAS

Rio Tibagi

Nas últimas postagens falamos do intenso desmatamento ocorrido em todo o território do Paraná, Estado que, em pouco mais de um século, viu suas paisagens originais com matas, florestas e campos praticamente intocados se transformarem em imensos campos agricultáveis. Além da agricultura, foi a intensa exploração madeireira a outra grande responsável pela transformação do Paraná em um dos Estados mais devastados do Brasil. 

Como estamos discutindo ao longo dessa série de postagens, há uma relação direta entre a preservação de matas, solos e águas – sem a proteção da cobertura vegetal, removida normalmente para a criação de campos agrícolas, os solos passam a sofrer com as erosões provocadas pelas chuvas e pelos ventos, que passam a arrastar grandes volumes de solo fértil. Os corpos d’água – córregos, rios, lagos e represas, entre outros, acabam transformados em receptores desses sedimentos e passam a sofrer diretamente com os problemas criados pelo assoreamento e entulhamento. Excedentes e resíduos de defensivos agrícolas também acabam sendo transportados para as águas, adicionando-se à contaminação química originada pelos despejos irregulares de lixo e resíduos das cidades. A destruição da cobertura florestal também reduz a produção de água nas nascentes, que também podem desaparecer, o que reduz gradualmente o volume dos caudais dos rios e cria problemas para todos os seres vivos que dependem das suas águas – seres humanos e suas cidades estão no topo da lista de afetados. 

O Paraná, é claro, foi contemplado com o pacote completo de problemas ambientais criados pelos intensos desmatamentos e os rios do Estado sofrem com todos os tipos de males. Vamos analisar a situação de três dos mais importantes rios do Estado – o Iguaçu, o Ivaí e o Tibagi

O Iguaçu é o maior rio do Paraná, percorrendo mais de 1.300 km desde as suas nascentes nos contrafortes da Serra do Mar, no Leste do Estado, até sua foz no rio Paraná, no extremo Oeste. O rio Iguaçu se forma oficialmente na divisa dos municípios de Curitiba e Pinhais, onde as águas dos rios Atuba e Iraí se juntam. Como é usual nas cidades brasileiras, o rio Iguaçu é o destino final de grandes volumes de esgotos domésticos e industriais, além de lixo e detritos descartados de forma inadequada pela população da Região Metropolitana de Curitiba, calculada em 3,5 milhões de habitantes, além de outras inúmeras cidades de sua bacia hidrográfica. Na lista dos 10 rios mais poluídos do Brasil, o Iguaçu ocupa a nada honrosa 2ª posição, ficando atrás apenas do famoso e superpoluído rio Tietê de São Paulo

Além da intensa poluição no seu trecho inicial na Região Metropolitana, o rio Iguaçu sofre com a retirada de grandes volumes de areia, usada no abastecimento da indústria da construção civil. A extração intensa de areia reduz ainda mais os parcos fragmentos sobreviventes das matas ciliares e de galerias, vegetação que tem a função de proteger as águas dos rios da entrada de sedimentos e resíduos. A extração de areia, aliás, é uma atividade corriqueira em toda a calha do rio Iguaçu, amplificando ainda mais todos os problemas criados pela derrubada das matas e florestas por todo o Paraná. Outro problema bem característico do rio Iguaçu é a sucessão de barragens de usinas hidrelétricas ao longo do seu curso, fato que cria inúmeras dificuldades para o livre fluxo de espécies aquáticas – o surubim do Iguaçu, espécie endêmica da ictiofauna do rio, corre sérios riscos de extinção por causa desse intenso represamento das águas. 

Outro importante rio paranaense é o Tibagi (vide foto), que tem uma extensão total de 550 km desde suas nascentes na região Centro-Sul do Estado e foz no rio Paranapanema ao Norte. O rio Tibagi atravessa a antiga região de domínio da Floresta Pluvial, onde as grandes manchas de terra-roxa, um dos solos mais férteis do Brasil, levaram à derrubada das matas para, inicialmente, abrigar a expansão dos cafezais que avançavam rumo ao Sul desde as terras paulistas. Além da gigantesca perda de cobertura vegetal nativa em toda a região da sua bacia hidrográfica, que traz no seu encalço os já citados problemas de assoreamento e entulhamento da calha do rio, resíduos químicos de todos os tipos e extração de areia, o Tibagi também sofre com a poluição urbana. Um exemplo é a cidade de Telêmaco Borba, que despeja grande parte dos seus esgotos domésticos residenciais e industriais in natura nas águas do rio. Esses despejos, é claro, são seguidos por lançamentos de lixo e outros resíduos. Em vários trechos do rio Tibagi, como em Jataizinho, o drama fica por conta das violentas enchentes nos períodos de chuva. 

Fechando essa rápida análise, precisamos falar do rio Ivaí, importante curso d’água do Paraná, com extensão total de 685 km, que segue seu curso a partir de nascentes na região Centro-Sul e tem sua foz no rio Paraná. Além de compartilhar a maioria dos problemas do Iguaçu e Tibagi, o rio Ivaí apresenta uma característica um pouco mais exclusiva – relatórios de acompanhamento da qualidade ambiental de suas águas mostram altos níveis de fósforo (a famosa eutrofização das águas) em vários trechos do seu curso. O fósforo é um elemento encontrando tanto em águas residuárias das cidades (a urina humana, por exemplo, é rica em fósforo) quanto em agrotóxicos usados nas plantações – isso indica que o rio Ivaí está sitiado entre os esgotos das cidades e os resíduos químicos dos inúmeros e imensos campos agrícolas do Paraná

Em uma época onde a água está se tornando um dos recursos naturais mais raros e caros em todo o mundo, a situação das águas nos rios do Paraná não é das melhores.