O BRANQUEAMENTO DOS ARRECIFES DO LITORAL DO NORDESTE BRASILEIRO

O aquecimento global, onde grande parte do problema está ligado as grandes emissões de gases de efeito estufa, está ameaçando recifes de coral em todo o mundo. Um dos principais problemas está ligado ao crescimento da absorção de dióxido de carbono pelas águas marinhas – esse é um dos principais gases de efeito estufa e provoca um aumento da acidez da água, o que enfraquece os esqueletos dos recifes de coral. 

Outro problema sério é o chamado branqueamento dos corais – o aumento da temperatura das águas faz com que os recifes percam as suas colônias de algas, principal fonte de alimento do coral e base da cadeia alimentar de muitas criaturas que lá vivem. Um exemplo gravíssimo desse problema é o que está ocorrendo na Grande Barreira da Austrália, o maior sistema de corais do mundo com cerca de 2,3 mil km de extensão. 

Essas também são ameaças aos recifes de corais aqui do Brasil, que ficam localizados em uma extensa faixa ao longo do litoral da Região Nordeste e que são mais conhecidos entre nós pelo nome de arrecifes. Recentemente, foi comprovada a existência de uma faixa de sistemas de recifes de corais nas proximidades da foz do rio Amazonas, ainda bem pouco estudados e em fase de mapeamento. 

De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, as formações de recifes de coral no litoral brasileiro se estendem ao longo de uma faixa não contínua de 3 mil km entre o litoral do Maranhão e o Sul da Bahia. De acordo com o órgão, uma em cada quatro espécies marinhas brasileiras vive nesses ecossistemas, incluindo-se aí 65% das espécies de peixes. 

Uma curiosidade – o litoral da Região Nordeste possui a segunda maior extensão de corais no mundo. Somente o trecho entre os Estados de Pernambuco e Alagoas tem uma extensão contínua de 130 km. Uma das áreas mais ricas do mundo em biodiversidade de corais é o Arquipélago de Abrolhos, localizado ao largo da costa Sul da Bahia, sendo considerado o maior santuário de vida marinha do Atlântico Sul.   

A visita aos arrecifes é passeio obrigatório em inúmeras praias do litoral nordestino. Um exemplo fácil é Porto de Galinhas, um distrito do município de Ipojuca localizado a pouco mais de 70 km da cidade do Recife. Essa praia de 6 km é considerada por muitos como a mais famosa de Pernambuco. A visita de jangada aos arrecifes é um dos pontos altos de qualquer visita ao lugar. 

Outra citação obrigatória é o Atol das Rocas, localizado a cerca de 150 km da costa do Rio Grande do Norte. Ele é o único atol, uma formação circular de recifes no topo de uma montanha submarina, do Oceano Atlântico Sul. O Atol das Rocas tem uma importância biológica ímpar, sendo o local de reprodução de diversas aves migratórias e tartarugas, além de diversas espécies marinhas. 

A exemplo do que está ocorrendo com corais de todo o mundo, toda essa beleza pode estar ameaçada – pesquisadores brasileiros vêm observando ciclos de branqueamento em recifes de coral desde o norte da Bahia até o Rio Grande do Norte. A temperatura das águas nesse trecho do nosso litoral tem atingido temperaturas até 2° C acima da média em alguns períodos.  

A NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, também já observou esses eventos. Em 2020, inclusive, a NOAA chegou a emitir o Alerta 2, usado para os casos mais graves de branqueamento, onde existem riscos de morte dos corais. 

A agência norte-americana vem monitorando o aquecimento das águas dos mares e oceanos em todo o mundo e também acompanhando a situação dos sistemas de corais. A agencia mantém sete estações virtuais de monitoramento via satélite no litoral do Brasil. 

Uma região onde o problema do branqueamento tem se mostrado preocupante é na chamada Costa dos Corais, uma APA – Área de Proteção Ambiental, que se estende entre o Sul de Pernambuco e Alagoas, onde se localizam importantes cidades turísticas. O problema também é visível no Arquipélago de Fernando de Noronha e em trechos do litoral do Rio Grande do Norte. 

Outro exemplo do problema foi observado em 2019, quando os pesquisadores observaram uma grande ocorrência de branqueamento em arrecifes ao Norte da cidade de Salvador. Em pelo menos metade das formações dessa região foi observado algum grau de branqueamento. Há época foi sugerido que o fenômeno foi resultado de um longo período com águas mais quentes nessa região. 

Os recifes de coral, conforme comentamos na última postagem, são formações constituídas basicamente por rochas calcárias formadas pelo acúmulo dos restos de organismos vivos como corais, algas, conchas e outros elementos compostos por carbonato de cálcio. Sobre essas estruturas vivem em simbiose os corais, que são animais cnidários que possuem um exoesqueleto calcário, e algas como as zooxantelas, entre outras dezenas de espécies de animais marinhos. 

Com o aquecimento das águas do oceano essas algas são expelidas ou morrem e os corais, que se alimentam de subprodutos da fotossíntese das algas, perdem a sua fonte de alimentação. A perda das algas compromete todo o ecossistema, uma vez que elas formam a base da cadeia alimentar de outras espécies que vivem no recife. 

De acordo com os pesquisadores, o branqueamento dos corais pode ter outras origens além do aquecimento das águas. Fontes de estresse podem ser causadas pela poluição das águas por esgotos, produtos químicos e petróleo, ou ainda pela presença de resíduos sólidos como plásticos. 

Em 2019, como muitos de vocês devem se lembrar, uma faixa de costa de mais de 2 mil km entre o Maranhão e o Sul da Bahia foi atingida por misteriosas manchas de petróleo durante várias semanas. Alguns fragmentos de óleo chegaram a ser encontrados no litoral Norte do Estado do Rio de Janeiro. Essa agressão ambiental pode ter provocado sérios prejuízos aos arrecifes da região. 

A situação dos arrecifes do litoral do Nordeste Brasileiro ainda não é tão grave como o de outras formações de corais do mundo, mas existem razões de sobra para nos preocuparmos. Metade da Grande Barreira da Austrália já foi comprometido pelo branqueamento e morte dos corais. Isso nos dá uma perfeita noção do que poderá acontecer por aqui. 

Como eu sempre costumo repetir, vivemos em tempos bastante complicados para a natureza. 

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