EXPERIMENTO DEMONSTRA QUE ALGUMAS ESPÉCIES DE RECIFES DE CORAL PODEM RESISTIR AO AQUECIMENTO GLOBAL 

Em meio a uma contínua enxurrada de más notícias na área ambiental, sempre encontramos algo que nos enche de esperança – a boa notícia de hoje fala de um experimento feito por pesquisadores norte-americanos que encontrou algumas espécies de recifes de coral que conseguem resistir a um aumento de até 2º C na temperatura da atmosfera. 

Uma rápida contextualização preliminar: o aumento contínuo da temperatura do planeta tem afetado negativamente os recifes de coral de todo o mundo. Desde os tempos do início da Revolução Industrial em meados do século XVIII, a temperatura média na Terra já subiu 1,1º C. A emissão maciça de GEE – Gases de Efeito Estufa, é apontada como uma das principais vilãs do aquecimento global. 

Os recifes de coral são formações constituídas basicamente por rochas calcárias formadas pelo acúmulo dos restos de organismos vivos como algas, conchas e outros elementos compostos por carbonato de cálcio. Essas formações abrigam uma infinidade de espécies animais e vegetais marinhas, que por sua vez atraem espécies maiores como peixes, moluscos e crustáceos, além de tartarugas e mamíferos marinhos. Essas estruturas vivas são altamente susceptíveis ao aumento das temperaturas da atmosfera. 

De acordo com estimativas feitas pelo IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, um aumento nas temperaturas globais acima de 1,5º C poderá causar danos irreversíveis aos recifes de coral. Se esse aumento for igual ou superior a 2º C, 99% das espécies de corais dos recifes poderão desaparecer

Exemplos desse risco foram vistas entre os anos de 2014 e 2015 nas águas do Havaí, onde ondas de calor marinhas foram responsáveis pela morte de 1/3 dos corais dos recifes da região. Também podemos citar o caso da Grande Barreira de Coral da Austrália, que vem enfrentando a morte em massa de corais por causa do aumento das temperaturas. 

Depois desse cenário sombrio, passemos às boas notícias: um estudo científico publicado no último mês de março na prestigiada regista científica Nature, tendo na liderança o pesquisador Rowan Mclachlan, especialista em corais da Universidade do Oregon, demonstrou que algumas espécies de corais são altamente resilientes ao aumento das temperaturas. 

Mclachlan e sua equipe observaram que algumas espécies de corais do Oceano Pacífico encontradas entre as Ilhas do Havaí e a Samoa Americana pareciam estar resistindo bem aos aumentos da temperatura da atmosfera, muito diferente de outras espécies que estão morrendo. 

Os cientistas vêm observando já há vários anos que as ondas de calor marinhas que estão sendo criadas pelo aumento das temperaturas globais têm levado os recifes de coral a perder as algas simbióticas que lá vivem e os alimentam. Essa perda de algas provoca um efeito chamado branqueamento dos corais. 

Em paralelo a isso, os oceanos vêm absorvendo uma parte do excesso de dióxido de carbono da atmosfera, um dos mais importantes gases de efeito estufa, um fenômeno que está tornando as águas marinhas cada vez mais ácidas – essa acidez está enfraquecendo os esqueletos dos recifes de coral. 

A fim de entender a aparente resiliência dessas espécies de coral, a equipe de pesquisadores visitou quatro recifes em ambientes diferentes ao redor da ilha havaiana de Oahu em 2015. Se valendo de um martelo e de uma talhadeira, eles coletaram amostras de três espécies bastante comuns de coral: Montipora capitata, Porites compressa Porites lobata. 

Essas “mudas” de corais foram colocadas em tanques de 70 litros instalados ao ar livre na Ilha de Cocos, simulado um ambiente bastante próximo ao dos seus ambientes naturais. Esses tanques, num total de 40, receberam areia, cascalho, peixes, plâncton, plantas e outros elementos característicos dos recifes, além de serem alimentados continuamente com a água do mar. O intuito do experimento era simular ao máximo as condições oceânicas e observar o desenvolvimento dos corais. 

Ao longo de 22 meses, os pesquisadores submeteram alguns dos tanques a um aumento de temperatura de 2º C. Alguns tanques passaram a receber água acidificada e outros foram submetidos tanto ao aumento da temperatura quanto a águas acidificadas. Um quarto grupo de tanques foi deixado dentro das condições normais para servir como controle. Todos os indicadores fisiológicos do experimento foram rigorosamente controlados. 

Ao final desse período, os pesquisadores se surpreenderam com a reação dos corais: 46% dos corais da espécie Montipora capitata, 56% dos Porites lobata e 71% dos Porites compressa sobreviveram às mudanças ambientais simuladas. Muito melhor: muitos desses corais estavam prosperando. 

Dentro das limitações de um estudo científico, esse experimento demonstrou que nem tudo está perdido para os corais de nosso mundo. Existem algumas espécies que conseguem se adaptar às mudanças climáticas, o que nos leva a acreditar que, pelo menos num médio prazo, os recifes de coral poderão continuar resistindo em oceanos em constante mudança. 

Apesar destas serem notícias animadoras, é fundamental que se mantenham os esforços multinacionais para uma limitação do aumento das temperaturas globais com o objetivo de amenizar os impactos ao meio ambiente. Lembro que o Acordo de Paris, assinado por 195 países e ratificado por 147 nações – inclusive o Brasil, em 2016, previa, entre muitos outros, um esforço para limitar o aumento das temperaturas do planeta em 2º C até o final deste século. 

Salvar os recifes de coral é essencial para a salvação da própria espécie humana. Estima-se que 50% de todas as espécies de peixes do mundo vivam em formações de coral, onde encontram alimentos e áreas abrigadas para a reprodução.  Ou seja, falamos aqui de salvar os ecossistemas de onde retiramos parte significativa de nossas reservas de alimentos. 

Em um mundo que já vive hoje uma grande crise alimentar, isso é algo realmente relevante para todos nós. 

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