A TRAGÉDIA NO LAGO DE FURNAS, OU FALANDO DAS FORTES CHUVAS DE VERÃO 

O verão é sinônimo de calor e de muitas chuvas em grande parte do Brasil, especialmente na Região Centro-Sul. Tradicionalmente, as primeiras postagens publicadas aqui no blog no início de cada ano são recheadas de notícias sobre os problemas causados por chuvas e enchentes. 

Infelizmente, a primeira postagem publicada em 2022 não fugirá a esta regra – extensas regiões no Sul da Bahia, em Minas Gerais e no Tocantins, entre outras áreas, estão sofrendo com volumes de chuvas bem acima da média histórica. Depois de um período de forte seca e de reservatórios com baixíssimos níveis de água, essas chuvas seriam consideradas uma benção. Porém, esse excesso de águas não costuma combinar com a nossa precária infraestrutura urbana. 

Um acidente dramático que resume o poder de destruição das águas foi o que assistimos ontem na represa do Lago de Furnas, no Sul de Minas Gerais. Uma imensa coluna de pedra de um dos paredões dos canyons de Capitólio, uma importante cidade turística da região, se despendeu abruptamente e atingiu ao menos duas lanchas repletas de turistas. De acordo com as últimas informações do Corpo de Bombeiros, 10 pessoas morreram e 31 ficaram feridas. 

Uma filmagem do desmoronamento, feita por turistas que estavam no local e que circulou rapidamente pelas redes sociais e pela imprensa, mostrou como foi rápida a queda das rochas e que as lanchas não tiveram maiores chances de escapar. Vendo as imagens, lembrei imediatamente dos desmoronamentos de paredes de geleiras como a Perito Moreno na Patagônia argentina – a diferença é que as embarcações e os turistas por lá ficam bem longe dos paredões de gelo. 

Uma outra filmagem que está circulando pelas redes sociais, feita pouco tempo antes do acidente, mostra que houve um abrupto aumento do fluxo de águas nas cachoeiras do local. Esse fenômeno é conhecido como “cabeça d`água” e decorre de fortes chuvas em trechos mais altos do terreno. Ainda é cedo para tirarmos conclusões, mas esse evento pode ter contribuído para o desprendimento do bloco de rochas do paredão. 

O Lago da Usina Hidrelétrica de Furnas, chamado por muita gente de “Mar de Minas”, foi concluído em 1961, e inundou uma área total de 1.440 km2, equivalente a três vezes o tamanho da Baía da Guanabara. Esse reservatório, que é o maior corpo de água de Minas Gerais, se estende por 34 municípios e causou enormes polemicas durante a sua construção – mais de 35 mil pessoas tiveram de ser deslocadas há época por causa das obras

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, elevando a potência total para 1.216 MW. 

Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e Furnas foi se transformando em uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado de Minas Geais. Suas águas tranquilas são ideais para banhos, prática de esportes, pesca e navegação. As terras ao redor das margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório.   

Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras. Em muitos lugares, o reservatório criou condições para o desenvolvimento de projetos de piscicultura. 

As margens do Lago de Furnas se estendem por um perímetro com cerca de 3 mil km, apresentando inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Foi justamente em uma dessas impressionantes formações geológicas onde o trágico acidente ocorreu. 

Vítima dos efeitos da fortíssima seca que atingiu toda a Região do Brasil Central, o Lago de Furnas atingiu um volume inferior a 15% de sua capacidade máxima no final de 2021. Essa seca, inclusive, chegou a provocar uma inédita tempestade de areia em cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo, e também na região do Triangulo Mineiro, bem próxima de Furnas, no final do mês de setembro.  

Com a chegada da temporada das chuvas de verão, o volume do Lago começou a se recuperar gradualmente, atraindo como de costume um número cada vez mais expressivo de turistas. O que ninguém esperava era a ocorrência de um deslizamento de rochas dessa magnitude, que desgraçadamente foi fatal para muita gente. 

Desde a sua formação há mais de 4 bilhões de anos, a superfície da Terra está em contínua movimentação e transformação. Apesar de não nos darmos conta, todos nós vivemos sobre grandes blocos de rochas “flutuantes” – as Placas Tectônicas, que além de se movimentarem horizontalmente, também sofrem oscilações de sua altitude em relação ao nível do mar. Esses solos sofrem processos erosivos naturais continuamente pela força das águas – das chuvas, dos rios e dos mares, dos ventos e das geleiras, além de mudanças provocadas por terremotos. 

O trágico desmoronamento dessa coluna de rochas no Lago de Furnas faz parte desses processos erosivos naturais. De acordo com o relato de autoridades locais, esse foi o primeiro desmoronamento de uma encosta já registrado na represa. Resta saber se não era possível diagnosticar os riscos desse desmoronamento através de vistorias previas, o que poderia ter restringido o acesso das lanchas àquele trecho dos canyons. Espero que as investigações policiais e as perícias encontrem essas respostas. 

Além de toda a nossa solidariedade às famílias das vítimas, precisamos cobrar ações das autoridades envolvidas no sentido de se evitar que tragédias parecidas voltem a acontecer. Todas as áreas desses paredões rochosos precisam ser periciadas por geólogos e outros profissionais especializados e sinalizadas adequadamente, inclusive com a proibição do acesso de embarcações para os casos mais críticos. 

Aquele velho e surrado ditado sempre precisa ser repetido – prevenir é melhor que remediar! 

4 Comments

Deixe uma resposta para UMA TÍPICA TARDE DE VERÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO | ÁGUA, VIDA & CIA – Fernando José de Sousa Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s