A ”COLEÇÃO” DE PROBLEMAS AMBIENTAIS DA BACIA HIDROGRÁFICA DOS RIOS TAQUARI E DAS ANTAS

A forte seca que se abateu sobre o Estado do Rio Grande do Sul e sobre a qual falamos na última postagem também atingiu em cheio os rios Taquari e das Antas. Em muitos trechos, o nível do rio baixou tanto que ficou mais parecido com um riacho. Por toda a calha desses rios passou a ser possível observar grandes trechos tomados por grandes ilhas de areia e entulhos, sinais que mostram claramente os problemas enfrentados por toda a sua bacia hidrográfica. A chegada do período das chuvas, gradativamente, está ajudando a melhorar a situação dos rios. 

O rio das Antas nasce em São José dos Ausentes, na região Nordeste do Rio Grande do Sul, e segue por 390 km até desaguar no rio Taquari. Essas águas seguirão por mais 140 km até atingir sua foz no rio Jacuí. A bacia hidrográfica dos rios Taquari e das Antas drena uma área com mais de 26 mil km², englobando um total de 110 municípios e onde vive uma população de 1 milhão de habitantes. Essa é uma região com forte predomínio industrial e que concentra 20% do PIB – Produto Interno Bruto, do Rio Grande do Sul. 

O rio das Antas recebeu esse nome dos primeiros colonos que chegaram à região e que ficaram impressionados com as grandes manadas desses animais ao longo das margens do rio. Curiosamente, o rio era chamado de Mboapari ou Mborebi pelos indígenas que habitavam a região – esses nomes significam, literalmente, “lugar de pouso das antas”. Ao longo dos primeiros anos da colonização, a carne e o couro das antas foram fundamentais para a subsistência dessas populações.

Já o rio Taquari tem seu nome derivado da antiga denominação indígena – Tibiquari. Existem diversas interpretações para o nome: “rio das traíras”, “rio das taquaras” e ainda “rio do barranco fundo”. Cerca de 95% da área da bacia hidrográfica fica dentro do bioma da Mata Atlântica e o restante no domínio dos Pampas.

O trecho alto da bacia hidrográfica no Extremo Nordeste é formado por municípios que tem sua principal base econômica na pecuária extensiva, atividade que gera uma grande carga de efluentes poluidores. Na região que se estende a partir do Médio Taquari-Antas passa a existir um predomínio de pequenas propriedades que se dedicam a agricultura, onde se destacam a produção do milho, da soja e, principalmente, do arroz.  

De acordo com um relatório apresentado em 2011 pelo Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do rio Taquari-Antas, cerca de 65% dos rios formadores da bacia apresentam altos níveis de poluição. Essa análise vem de encontro aos estudos mais recentes realizados pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler. Em muitos trechos, esses rios são classificados como Classe 4, onde as águas só podem ser utilizadas para navegação e harmonia paisagística.  

Um dos parâmetros mais críticos para essa avaliação negativa da qualidade das águas é a alta concentração de fósforo. Também influenciaram muito nessa classificação a DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio e a alta concentração de coliformes fecais, indicativos claros da grande quantidade de esgotos domésticos e efluentes orgânicos gerados pela criação de animais nas águas.

A concentração de matéria orgânica nas águas estimula o crescimento de colônias de bactérias aeróbicas (que consomem oxigênio), o que leva a um alto consumo do gás dissolvido na água. Esse tipo de problema só se revolve com investimentos em obras de infraestrutura de saneamento básico e tratamento dos esgotos, além da implantação de sistemas para a contenção de efluentes orgânicos nas fazendas de criação de animais.  

Outra fonte importante de poluentes nas águas da bacia hidrográfica e que aparece com destaque nesse estudo são os resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos. As atividades rurais também apresentam problemas ligados a erosão de solos e ocupação de áreas inadequadas como as encostas de morros, o que resulta no carreamento de grandes volumes de sedimentos para as calhas dos rios. 

Outra fonte importante de problemas são os despejos de origem industrial. Até a década de 1920, uma parte importante da economia do Rio Grande do Sul era formada pelas atividades ligadas a produção e exportação da carne de charque, uma atividade tradicional do Estado. A partir dessa data, o Estado passa a assistir o crescimento de indústrias ligadas à produção de produtos relacionados ao setor agropecuário. Entre esses produtos se incluem alimentos, têxteis, bebidas, vinhos e banha.  

Data desse mesmo período o crescimento da produção de arroz no Rio Grande do Sul, o que levou à instalação de indústrias para o beneficiamento do cereal e de produtos derivados como os óleos. A partir da década de 1930, o Estado assistiu à chegada de grandes frigoríficos de capital estrangeiro, que passaram a diversificar os produtos à base de carne. Grande parte dessas indústrias se instalou dentro da bacia hidrográfica dos rios Taquari e das Antas. 

Até a década de 1980, quando foi instituída a Política Nacional do Meio Ambiente, havia uma espécie de “vale tudo” nas indústrias, onde a produção não era seguida por boas práticas no controle de efluentes e de resíduos sólidos. Desde então, os órgãos ambientais passaram a fiscalizar e exigir a implantação de planos para o gerenciamento de resíduos e para o tratamento de efluentes industriais. Passados quase quarenta anos, houve uma grande melhora nessa situação, porém, ainda existem problemas ambientais “camuflados” por todos os lados. 

Em janeiro desse ano, citando um exemplo, foi detectada uma grande faixa de espuma branca na calha principal do rio Taquari (vide foto). Essa espuma se espalhou por sete cidades da região: Estrela, Lajeado, Encantado, Muçum, Santa Tereza, Arroio do Meio e Roca Sales. O Ministério Público e o órgão ambiental do Estado instalaram procedimentos para apurar a ocorrência, mas até o momento o responsável ainda não foi identificado. 

Outro problema originado nas indústrias são os resíduos sólidos. Apesar do rigor atual no controle do descarte dos rejeitos, durante muito tempo esses materiais foram depositados em terrenos inadequados e sem a menor infraestrutura para a contenção de efluentes lixiviados pelas chuvas. Muitos resíduos, inclusive metais pesados, continuam sendo arrastados para a calha dos rios. 

Os lixões e “aterros” usados para o descarte dos resíduos gerados pelas populações das cidades também têm uma importante participação na poluição das águas da bacia hidrográfica. Muitas cidades não conseguiram se adaptar à nova legislação que previa o fim dos lixões já em 2014.  

Esses depósitos irregulares de resíduos geram grandes volumes de chorume, que escorre na direção de riachos e córregos, chegando por fim na calha dos grandes rios. Resíduos diversos como embalagens e restos da construção civil, descartados nas ruas das cidades e em terrenos baldios, também acabam sendo arrastados pelas enxurradas e chegam até as águas da bacia hidrográfica. 

Dentro desse cenário nada animador, encontramos dezenas de cidades, plantações, indústrias e fazendas de criação de animais que dependem das águas da bacia hidrográfica para os mais diferentes usos. Voltamos aqui a mesma situação citada na postagem anterior – cidades e populações dependem das águas dos rios formadores da bacia hidrográfica Taquari-Antas, porém, não “poupam” esforços no sentido da degradação ambiental dessas águas. 

Em tempos de forte estiagem e de dificuldades cada vez maiores no acesso às fontes de água potável, é bastante difícil entender a lógica dessa situação dramática. 

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