AS BADALADAS “PRAIAS” E O TURISMO NO LAGO DE ITAIPU

Costanera Hernandarias

Se você ainda se lembra das aulas de geografia do ensino fundamental, o Paraguai e a Bolívia são os únicos países da América do Sul que não tem fachada oceânica e, consequentemente, não possuem praias com coqueiros, ondas e areias brancas. Na formação das novas gerações, muito provavelmente, será necessário se repensar esse conceito – as “praias” do Paraguai recebem um número cada vez maior de turistas, não só do país, mas também da Argentina, da Bolívia e até do Brasil. Costanera Hernandárias, uma “legítima” praia paraguaia, é um exemplo dessa nova geografia.

A orla dessa “praia” teve suas obras concluídas em 2015, quando uma grande avenida foi inaugurada na beira do lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu, com quadras de esporte, anfiteatro, praças e estacionamentos. Para deixar a beira do lago com cara de praia, foram despejados mais de 7.500 metros cúbicos de areia nas margens e foram plantados coqueiros. O clima “oceânico” do lugar é completado com um centro gastronômico paraguaio completo, com quiosques e restaurantes com vista para o lago.  

A culinária do Paraguai é considerada a mais subestimada da América do Sul, apesar de muitos críticos de gastronomia afirmarem que é uma das mais saborosas. Entre os destaques há o mbejú, uma mistura de omelete com panqueca; a chipa guazú, um bolo de milho com queijo, ovos e azeite; o bori bori, uma sopa de carne, legumes e bolinhos de milho, além das sempre deliciosas empanadas. Para acompanhar, um tererê, o chimarrão gelado à moda local. 

Distante mais de mil quilômetros da praia mais próxima no Oceano Atlântico, essa praia artificial e muito badalada está localizada em Hernandárias, uma cidade da região metropolitana de Ciudad de Leste, um centro de compras no Paraguai muito conhecido dos sacoleiros brasileiros. 

O lago formado após a conclusão das obras da Usina Hidrelétrica de Itaipu cobriu uma área com 1.350 km², o que o coloca como o sétimo maior lago artificial do Brasil. Esse lago encobriu áreas produtivas, matas (que tiveram a vegetação suprimida antes do alagamento), casas, vilas e cidades, impactando negativamente a vida de dezenas de milhares de pessoas, que foram obrigadas a mudar para outros locais. Por outro lado, a construção da hidrelétrica também gerou expressivos impactos positivos – na última postagem falamos de diversos ganhos econômicos. 

As margens do lago de Itaipu, que têm 1.395 quilômetros de extensão no lado brasileiro e 1.524 quilômetros no lado paraguaio, formaram inúmeras praias fluviais, que acabaram sendo transformadas em uma grande atração turística da região Oeste do Paraná. O sucesso dessas praias é tão grande, que os jornais locais costumam publicar roteiros com a lista das melhores praias de cada temporada, detalhando as principais atrações de cada local e os custos com estacionamento e hospedagem, por exemplo. Esse “fenômeno” turístico segue as mesmas tendências de outros reservatórios de hidrelétricas de áreas interioranas e distantes da orla oceânica, que acabaram transformados em “mares” internos do país. Como exemplos podemos citar o Lago de Furnas, em Minas Gerais, considerado o maior espelho d’água do Estado; os lagos das Usina de Sobradinho, na Bahia, e de Serra Mesa, em Goiás, também entram nessa lista. 

Itaipu começou a chamar a atenção dos turistas ainda durante as obras de construção. Muitos dos visitantes das mundialmente famosas Cataratas do Iguaçu acabavam esticando os seus roteiros e iam visitar o gigantesco canteiro de obras da usina hidrelétrica. De acordo com cálculos da Itaipu Binacional, mais de 17 milhões de turistas, vindos de 197 países diferentes, já passaram pelo circuito de vista interna da usina desde 1977. Além de conhecer os detalhes de funcionamento da hidrelétrica, os turistas podem conhecer o Ecomuseu de Itaipu, o Polo Astronômico Casimiro Montenegro Filho, que fica dentro do Parque Tecnológico de Itaipu, e também o Refúgio Bela Vista

Mas, foi após o enchimento do lago que o turismo deslanchou em toda a região, surgindo praias artificiais, hotéis, pousadas e clubes ao longo de todas as áreas lindeiras às águas. Os principais destinos com praias artificiais são os municípios de São Miguel do Iguaçu, Santa Helena, Marechal Cândido Rondon, Missal, Itaipulândia, Santa Terezinha do Itaipu e Entre Rios do Oeste. Além do indispensável banho, os turistas se divertem com competições de pesca esportiva, onde o dourado é o peixe mais desejado, competições náuticas, atividades de ecoturismo e de aventura. A região também conta com um disputado circuito gastronômico, onde as estrelas são pratos típicos como a costela ao fogo de chão, o boi no rolete e peixes como o dourado preparado na telha, no carrossel e no forno. 

Nas cidades de Foz do Iguaçu e de Santa Terezinha de Itaipu encontramos exemplos da estrutura típica que os turistas dispõem para desfrutar das águas do lago de Itaipu. Em Foz do Iguaçu, foi construída uma orla de balneário com 400 metros de extensão, onde existe uma área coberta para lazer, bebedouros, banheiros, espaço para caminhada e academias ao ar livre. O balneário também possui uma área de camping, 8 quiosques e 82 churrasqueiras, além de 600 vagas de estacionamento. Em Santa Terezinha de Itaipu, a orla da praia artificial tem 180 metros de extensão, contando com 50 quiosques, 200 churrasqueiras e 800 vagas de estacionamento. 

Em outras cidades, como Santa Helena, foi feita a opção por infraestruturas maiores e com maior potencial para receber visitantes. A prefeitura local construiu duas praias artificiais, uma no lago de Itaipu e outra em um açude isolado. Juntas, estas duas praias artificiais possuem uma orla com 1.200 metros de extensão. O balneário também possui 3 barracões para shows e eventos, banheiros, quadras poliesportivas e calçadão. Completam a infraestrutura 400 mesas com churrasqueiras e 93 quiosques com pia. 

Nos períodos de férias, festas e feriados, essas praias artificias recebem milhares de turistas, multidões comparáveis àquelas encontradas nas mesmas datas nas mais badaladas praias da costa brasileira. O grande diferencial, é que estes turistas não precisaram cruzar grandes extensões do país e enfrentar as intermináveis filas nas estradas de acesso ao litoral. Para os municípios, especialmente aqueles que perderam áreas para o lago de Itaipu, esse forte fluxo de turistas faz a economia local se movimentar. 

Sempre que uma obra desse porte era planejada no passado, todas as atenções acabavam se concentrando nos benefícios econômicos diretos que seriam proporcionados pela geração e distribuição da energia elétrica, um insumo cada vez mais essencial na nossa vida moderna. As consequências, positivas ou negativas, eram consideradas com “um custo do progresso”. Eu imagino que, nos idos tempos da década de 1960, quando a Usina Hidrelétrica de Itaipu começou a ser planejada, ninguém imaginou que o lago se transformaria numa grande atração turística da região.  

Uma grande sorte para todos. 

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