SURUBIM DO IGUAÇU: UM ÍCONE DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DO RIO

Surubim filhote

O Iguaçu é considerado o rio de maior aproveitamento energético da Região Sul do Brasil. Para chegar a essa marca, foram construídas usinas hidrelétricas em série no rio, construções essas que, na sua grande maioria, foram feitas sem qualquer estudo de impacto ao meio ambiente. Apesar de ser um “campeão” em geração hidrelétrica, o rio Iguaçu também ocupa um lugar de destaque em termos de devastação ambiental. Um símbolo desse descaso com o meio ambiente é a situação do surubim do rio Iguaçu, um peixe que chegou bem perto da extinção. 

Os peixes da “família” dos surubins ocorrem nas bacias do rio da Prata, do rio São Francisco e do rio Amazonas. Algumas espécies figuram entre os maiores peixes de água doce do Brasil, ao lado do pirarucu, com exemplares que podem chegar a 100 quilos de peso e atingir mais de 3 metros de comprimento. O surubim é um peixe de couro da família dos pimelodídeos, a mesma dos jaús e dos jundiás, que habita o fundo dos rios e de lagoas. Em muitos lugares do Brasil é conhecido como pintado; na região da bacia Amazônica existe uma espécie muito semelhante ao surubim e também muito apreciada pelos pescadores – o cachara, que ao invés de pintas possui o couro coberto por listas. Segundo os entendidos em culinária, o surubim é um peixe com carne de sabor delicado e sem espinhas, muito apreciado em diferentes culinárias regionais.  

O surubim do rio Iguaçu é um parente bem distante desta família de peixes – e não estamos falando apenas de uma distância física: com a formação das Cataratas do Iguaçu, num evento geológico há cerca de 22 milhões de anos atrás, as populações de surubins que viviam no rio Iguaçu ficaram isoladas e seguiram um caminho evolutivo próprio, se diferenciando das demais espécies dos outros grandes rios brasileiros. O surubim (Steindachneridion melanodermatum) é o maior peixe do rio Iguaçu, alcançando até 70 cm de comprimento e 20 quilos de peso, ocupando o topo da cadeia alimentar do ambiente. O isolamento do Iguaçu, aliás, teve consequências diretas para a maioria dos peixes que habitam o rio – 80% das espécies são endêmicas, ou seja, são exclusivas deste rio. Esses peixes desenvolveram adaptações fisiológicas específicas para viver nas fortes correntezas do Iguaçu, um tipo de meio conhecido na biologia como ambiente lótico, ou seja, de águas rápidas. 

A construção de usinas hidrelétricas em série no rio Iguaçu, a partir da década de 1970, provocou profundas alterações nos ambientes fluviais, causando a interrupção da livre circulação de peixes e prejudicando o seu ciclo natural de vida. Estas barragens criaram obstáculos intransponíveis para as espécies de peixes migradoras e as águas tranquilas represadas, classificadas na biologia como ambientes lênticos, passaram a representar um grande problema para os peixes acostumados a viver em luta permanente contra a correnteza do rio. A soma de todas essas mudanças no habitat dessas espécies endêmicas do rio Iguaçu teve fortes impactos em perda de biodiversidade e passou a representar um sério risco para a sua sobrevivência. 

Na década de 1970, quando foram implantadas as primeiras grandes usinas hidrelétricas do rio Iguaçu, os “estudos científicos” realizados com a fauna aquática local, ou por puro interesse do regime militar que dirigia o país na época ou por simples ignorância científica, afirmavam que o Iguaçu era um rio muito pobre em espécies de peixes, especialmente endêmicas, e que nas suas águas não se encontravam grandes espécies migradoras como as existentes na bacia hidrográfica do rio Paraná como os dourados, pintados, piracanjubas e pacus.  

Logo, as conclusões científicas destes estudos indicavam que o represamento do rio Iguaçu em diversos trechos não criaria problemas mais sérios para os chamados peixes de piracema. Estudos posteriores comprovaram que o rio Iguaçu não era apenas rico em biodiversidade, mas que também apresentava um alto grau de endemismo nas espécies e que a sequência de barragens que foram construídas ao longo de mais de 600 quilômetros do rio criava sérios riscos para a sobrevivência destas espécies – providências urgentes precisavam ser tomadas. 

As características particulares das espécies de peixes do rio Iguaçu passaram a exigir estudos cada vez mais específicos e providencias que iam muito além das preocupações com a construção de escadas para peixes ou a simples captura e soltura dos peixes ou alevinos a montante das barragens. Quando espécies como o surubim são inseridas em um ambiente de águas paradas, os peixes não encontram as condições ambientais em que estavam acostumados a viver, especialmente as fortes correntezas, e muitas vezes não conseguem nem capturar as espécies de peixes menores que compunham a sua dieta usual, correndo sérios riscos de não sobreviver.  

Estudos mais aprofundados sobre os novos ambientes precisaram ser desenvolvidos, especialmente na busca de afluentes do rio Iguaçu que ainda apresentassem as fortes correntezas e que permitiriam a soltura dos espécimes capturados nas bases dos reservatórios ou dos alevinos criados em tanques de reprodução, com condições naturais muito próximas dos ambientes dos seus habitats originais. 

A destruição da vegetação das margens dos rios de toda a bacia hidrográfica do Iguaçu, especialmente pelo avanço das grandes plantações, e também os estragos feitos em grandes extensões das margens pelas cavas de extração de areia, reduziram as antigas áreas de desova e reprodução de inúmeras espécies de peixes endêmicas – isso somado aos obstáculos que foram criados ao longo das últimas décadas com a construção de inúmeras barragens, podem levar inúmeras das espécies únicas do rio Iguaçu a um processo irreversível de redução das populações, com muitas correndo sérios riscos de extinção.  

A sina do surubim do rio Iguaçu, que ao que tudo indicava seria o caminho certo para a extinção, começou a mudar graças aos esforços de pesquisadores do Centro de Estudos de Peixes da Usina Hidrelétrica de Segredo. Pescadores capturaram alguns exemplares da espécie no lago dessa espécie no médio e alto rio Iguaçu, locais onde o peixe havia desaparecido há muito tempo. Alguns desses exemplares foram entregues aos pesquisadores, que iniciaram a criação em tanques com reprodução assistida. Graças a todos esses esforços, cerca de 300 mil alevinos de surubins passaram a ser reinseridos nas águas do rio todos os anos (vide foto), dando uma importante sobrevida à espécie. Isso passou a representar um tempo extra para os pesquisadores entenderem o ciclo de vida do peixe e desenvolverem novas estratégias para a sobrevivência natural da espécie. 

Em uma postagem mais antiga, falamos do desaparecimento do surubim do rio São Francisco, um primo distante do surubim do rio Iguaçu. Esse peixe ocupava o topo da cadeia alimentar do rio São Francisco e era considerado um símbolo do rio e da sua culinária. Como consequência direta da construção de diversas usinas hidrelétricas ao longo do rio, o surubim do rio São Francisco está a um passo da extinção. Muitos restaurantes ribeirinhos das cidades ao longo das margens do rio São Francisco passaram a vender pratos preparados com o cachara, uma espécie muito parecida e importada da região Amazônica. 

O surubim é apenas uma entre mais de 70 espécies de peixes endêmicos do rio Iguaçu sob ameaça (esse número total ainda não está fechado – calcula-se que mais de 70% das espécies do rio sejam endêmicas). Cerca de 40% da extensão total do rio Iguaçu está tomada por reservatórios de usinas hidrelétricas, sem contar com os impactos ambientais criados nas suas águas com a poluição gerada por cidades, plantações, desmatamentos, mineração e cavas de areia. São agressões demais para um único rio. 

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