A DESTRUIÇÃO DAS MATAS NO ESTADO DO PARANÁ

Araucárias

Na última postagem falamos da destruição da Mata das Araucárias na região Sul do Brasil e do risco de extinção da gralha-azul, uma carismática ave que encontrava nessas matas um habitat perfeito para viver. A sinergia entre as araucárias (vide foto) e a gralha-azul se completava com um curioso hábito alimentar: as aves “estocavam” as sementes das araucárias, os pinhões, em áreas delimitadas dentro do seu território, tanto nos solos quantos em troncos de árvores caídas – muitas dessas sementes acabavam esquecidas e brotavam, ajudando na renovação das matas. 

A Mata das Araucárias, porém, não foi a única vítima da destruição das matas para abertura de campos agrícolas e exploração madeireira na região Sul – todos os sistemas naturais, incluindo-se as florestas úmidas, pampas, banhados e cerrado, entre outros, sucumbiram igualmente diante do avanço do “progresso”. E o Estado do Paraná, que está na lista dos que mais destruíram a sua cobertura florestal nas últimas décadas, é um grande exemplo disso. 

O Estado do Paraná tem uma área total de pouco mais de 199 mil km². Até o final do século XIX, a cobertura florestal original do Estado estava praticamente intocada, apresentando uma área total com, aproximadamente, 168 mil km² ou algo em torno de 83% do território paranaense. Essa cobertura florestal original era formada pela Floresta Estacional Semidecidual ou Florestal Pluvial, concentrada nas faixas Norte e Oeste, a Mata das Araucárias, concentrada nas áreas Central e Sul, e a Floresta Ombrófila Densa, mais conhecida como Mata Atlântica, na faixa Leste. Além dessas formações florestais, eram encontradas áreas de Campos Naturais em regiões do Sul e do Centro Leste, algumas pequenas manchas de Cerrado dispersas ao Norte, além de áreas de manguezais e de restinga no litoral. 

O marco inicial dos desmatamentos no Paraná está diretamente associado à inauguração da Ferrovia Curitiba-Paranaguá em 1888, quando a logística do transporte das madeiras até as áreas portuárias foi imensamente facilitada. Rapidamente, o Paraná se transformou em um grande exportador de madeiras, com destaque para o pinho das araucárias e de outras espécies nobres como a imbuia, a peroba, o marfim, o cedro e a canela. De acordo com informações disponíveis, o Planalto de Curitiba já estava completamente devastado no ano de 1900, tamanha a “fúria” das empresas madeireiras. Em 1910, com a conclusão do trecho conhecido como Linha-Sul da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a exploração madeireira avançou rapidamente para a região entre Ponta Grossa e União da Vitória. 

A partir da década de 1920, a derrubada de áreas de matas para a implantação de grandes campos agrícolas veio se juntar ao processo de devastação florestal já em andamento há várias décadas por conta da exploração madeireira. Reinhard Maack (1892-1969), um geólogo e explorador alemão que viveu grande parte da sua vida no Brasil e foi um dos maiores estudiosos das florestas primitivas do Estado do Paraná, escreveu um artigo em 1931, mostrando-se completamente assombrado com o avanço dos desmatamentos no Planalto Paranaense. Vejam esse trecho: 

O que os homens do Paraná executaram pelas derrubadas e queimadas da floresta não pode ser descrito. Em nenhum outro país do mundo a floresta é tão absurdamente destruída como aqui e enormes áreas cobertas de matas, que no ano de 1926 me impressionaram pela sua primitiva grandiosidade, encontrei em 1930 como capoeira. 

Os dados disponíveis endossam esse choque de Maack: em 1930, uma larga faixa de matas já havia desaparecido no Leste do Paraná, reduzindo a área florestal para aproximadamente 64% da cobertura original; em 1937, o avanço dos desmatamentos já reduzia essa cobertura florestal para 58% e para 23,92% em 1965. A redução da cobertura florestal continuou avançando ao longo dos anos e, atualmente, restam entre 5 e 17% das matas originais do Estado (há divergências entre as fontes pesquisadas)

Um capítulo trágico da destruição das matas paranaenses e que merece destaque nesta postagem foi o grande incêndio florestal de 1963, que durou cerca de quatro meses e que consumiu cerca de 1 milhão de hectares de matas nativas, áreas de capoeira e também áreas de reflorestamento na região conhecida como Segundo Planalto do Paraná. Das exuberantes matas encontradas no Estado nos primeiros tempos da colonização da Brasil, restam hoje remanescentes florestais na Serra do Mar e no Parque Nacional do Iguaçu, respectivamente no Leste e Oeste do Paraná, além de outros fragmentos florestais transformados em parques e Unidades de Conservação. Essa drástica redução das áreas de florestas teve profundos impactos na fauna nativa, nos solos e nas águas. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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