OS SISTEMAS DE NAVEGAÇÃO FLUVIAIS, OU FALANDO DO CANAL DO MIDI

Canal do Midi

Se você consultar os arquivos de postagens publicadas aqui no blog, já são quase 450 publicações, verá que a maioria esmagadora dos temas abordados envolvem problemas ligados à poluição das águas pelo lançamento de esgotos e resíduos sólidos, secas e problemas para o abastecimento de populações, usos da água na agricultura e pecuária, enchentes e infraestruturas para a drenagem de águas pluviais, vazamentos de resíduos de mineração, além de uma infinidade de conceitos técnicos ligados aos sistemas de abastecimento de água, tratamento de esgotos e efluentes, além de hidrologia. Também falamos muito de doenças de veiculação hídrica e de vetores associados à água, especialmente os mosquitos. Há um importante tema associado aos corpos d’agua sobre o qual falamos muito pouco – o uso da água de rios, canais, represas e lagos para a navegação e o transporte de cargas e de pessoas. Vamos tratar deste tema ao longo das próximas publicações. Vamos começar com alguns conceitos básicos:

As águas são divididas em dois grupos em função do tipo de uso: quando há necessidade de se retirar volumes do líquido de corpos d’água para uso no abastecimento de cidade e de populações, usos industriais e agrícolas, entre outros, onde parte da água retorna para o corpo d’água após o uso (normalmente poluída ou contaminada com todo o tipo de efluentes), diz-se que estes são usos consuntivos; quando o uso da água não implica na necessidade de sua retirada, como no caso da navegação, é chamado de uso não consuntivo. Além disso, se você consultar a Resolução 357/2005 do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, vai encontrar uma série de classificações e enquadramentos para os diferentes tipos e usos da água.

Qualquer tipo de água, poluída ou não, desde tenha profundidade adequada ao calado das embarcações, pode ser utilizada para a navegação; já para os usos consuntivos, a água precisa ter um nível mínimo de qualidade. Calado é a medida da parte submersa de uma embarcação, entre a linha d’água e a parte mais baixa da quilha. É importante lembrar que o volume e a profundidade de rios e lagos variam em função dos períodos de chuvas, quando há bastante água, e de seca, quando os baixos níveis da água expõem pedras submersas e bancos de areia que podem inviabilizar a navegação.

A depender das características físicas e hidrológicas do corpo d’água, a construção de barragens e eclusas será necessária para permitir a superação de obstáculos naturais e a manutenção de uma lâmina d’água com uma profundidade adequada para o fluxo das embarcações. As atividades de navegação podem apresentar riscos à qualidade da água devido a problemas de vazamento ou perda de cargas, e também ao derramamento de óleos e combustíveis. Em resumo: a operação de sistemas de navegação fluvial e lacustre exigem infraestrutura, logística e muito planejamento, sem haver qualquer tipo de restrição quanto a qualidade da água. Os baixos custos e a possibilidade de se transportar grandes volumes de carga por grandes distâncias dentro de territórios, porém, tornam esse tipo de navegação extremamente importantes sob os pontos de vista econômica, social e ambiental.

As primeiras civilizações da humanidade surgiram após o assentamento das populações em áreas adequadas à produção agrícola, em regiões com clima ameno ou temperado e grande disponibilidade de água. Os vales dos rios Tigre e Eufrates, na região conhecida como Mesopotâmia; do rio Nilo, no Egito; dos rios Hindu e Ganges no subcontinente indiano e também dos rios Yangtzé (rio Azul), Huang Ho (rio Amarelo) e o Zhu Jiang (rio das Pérolas), na China, estão entre as mais importantes do ponto de vista histórico. Muito provavelmente, foram nessas regiões que surgiram as primeiras experiências humanas no campo da navegação fluvial, onde se dependia exclusivamente das variações naturais do nível das águas para a navegação.

Para não nos alongarmos muito em questões históricas, gostaria de usar como exemplo de navegação fluvial o Canal do Midi na França (vide foto), conhecido originalmente como Canal Real em Languedoc, um dos mais antigos canais artificiais de navegação já construído e ainda em operação. Construído entre 1666 e 1681, o Canal do Midi tem aproximadamente 240 km de extensão e permitiu a ligação do Rio Garonne, nas proximidades da cidade de Toulouse e que é navegável até Bordeaux no Oceano Atlântico, a Sète, no Mar Mediterrâneo. É considerado o maior projeto de engenharia europeu do século XVII, onde estão incluídas cerca de 350 obras de arte, nome dado em engenharia para pontes, eclusas e aquedutos.

Em meados do século XIX, foi construído um segundo canal, conhecido como Canal Lateral a La Garonne, com extensão total de 193 km, que facilitou ainda mais a navegação entre Toulouse e Castets-em-Dorthe, que antes era feita pelo rio Garonne e ficava sujeita aos altos e baixos naturais das águas. A ligação do trecho final de 54 km até a cidade de Bordeaux continuou sendo feita através do rio Garonne. Esses canais passaram a ser conhecidos como Le Canal des Deux-Mers ou Canal dos Dois Mares. Em 1996, eles passaram a ser considerados como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura.

Antes inauguração do Canal do Midi, a maior parte do transporte de cargas entre o Sul e o Norte da França, especialmente do valioso trigo, só podia ser feito através da navegação de cabotagem pelo Mar Mediterrâneo e Oceano Atlântico, contornando a Península Ibérica e o poderoso Reino da Espanha (Portugal nunca foi um problema), que historicamente se alternou entre rival e arqui-inimigo ferrenho da França. Além de expor as embarcações a confrontos com a Armada Espanhola, os marinheiros e as cargas ficavam sujeitos aos ataques de piratas e ladrões, que infestavam os mares e as costas desde a antiguidade clássica.

Além de significativos ganhos econômicos e logísticos, a construção do Canal do Midi ajudou a resolver parte de uma séria questão política da França – a integração da região Sul, conhecida como Occitânia, ao restante do país. Com língua (na realidade trata-se de um conjunto de línguas bastante próximas) e cultura própria, a Occitânia, ou Pays D’Oc, resistiu por séculos ao avanço dos Francos pelo Norte. Em 1208, por ordem do Papa Inocêncio III, foi organizada uma cruzada religiosa para conter o avanço do catarismo, um movimento religioso cristão da Occitânia que discordava da autoridade da Igreja Católica. A nobreza francesa se aproveitou dessa situação para subjugar politicamente a região.

Em 1209, os cruzados destruíram a importante cidade de Bèziers e, sucessivamente avançaram tomando cidade após cidade, até que em 1229 os condes e barões dos Pays D’Oc reconheceram a autoridade do rei da França. Gradativamente, as províncias passaram a ser incorporadas ao Reino da França. Passados mais de 800 anos, a questão da Occitânia ainda não está totalmente resolvida e existem diversos movimentos populares que lutam pela autonomia das regiões ao Sul do rio Loire.

A partir do final do século XIX, com a construção de sistemas de transporte ferroviário, muito mais rápidos e eficientes, esses Canais passaram a perder relevância econômica no transporte de cargas. Foi somente a partir da década de 1960 que esses canais foram redescobertos pela indústria do turismo e voltaram a ter grande importância econômica regional. Atualmente, são realizadas mais de 10 mil viagens de embarcações turísticas pelos canais a cada ano, empregando aproximadamente 2.000 pessoas diretamente na operação do sistema de navegação, sem contar com outras dezenas de milhares de empregos nas áreas de hotelaria, comércio e serviços.

Considerando que a França é altamente dependente do turismo, os Canais do Midi e do La Garonne  continuam a ser um excelente e rentável negócio para todo o país.

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