CHUVAS, ENCHENTES E MOSQUITOS, OU RELEMBRANDO A ILÍADA DE HOMERO

Cavalo de Tróia

Fortíssimas chuvas assolaram a Cidade do Rio de Janeiro na última semana e, como forma de justificar o injustificável, autoridades públicas da administração municipal, de todos os níveis, desandaram a falar besteiras. A culpa pelos estragos causados pelas enchentes foi creditada “às mais fortes chuvas em 150 anos”, à São Pedro, à Loira do Banheiro, ao Coelhinho da Páscoa, entre outros – não ouvi nenhuma autoridade fazer um “mea culpa” e assumir seu quinhão de responsabilidade pela tragédia.

A falta de preparo de nossas cidades no controle das águas pluviais extrapola, e muito, os limites da Cidade Maravilhosa – são raros os exemplos de cidades de nosso país que estão, adequadamente, preparadas para suportar chuvas um pouco mais fortes, sem que ocorram transtornos para a população.

Relembrando mais uma vez o conceito, o saneamento básico visa a saúde e o bem-estar da população a partir da criação de um espaço físico saudável para moradia, trabalho e lazer. Para tornar isso possível é necessário que se façam obras e se estruturem serviços que permitam o abastecimento de água potável, a eliminação adequada e o tratamento dos esgotos, o manejo das águas pluviais, a limpeza das áreas públicas e privadas e a correta destinação dos resíduos gerados pela comunidade. Quando se consegue atender a todas estas necessidades com serviços adequados, se consegue também controlar os chamados vetores – ratos, baratas, mosquitos, pulgas, piolhos, sarnas, entre outros transmissores de doenças.

Se prestarmos atenção na realidade de nossas cidades, de todos os tamanhos e das mais diferentes regiões, vamos verificar que apenas o abastecimento de água potável, muitas vezes por razões “eleitoreiras”, aparece como uma prioridade – todos os demais serviços e infraestruturas do saneamento básico são deixadas “meio de lado” e tocadas à base de muito improviso. Por experiência profissional em obras e por formação, foco grande parte das minhas postagens nos problemas de infraestrutura de coleta e tratamento dos esgotos e nas consequências do lançamento destes efluentes nos rios, lagos e demais corpos d’água.

Nestes tempos em que a febre amarela tem obtido grande destaque nos meios de comunicação e causado enorme preocupação para as populações das regiões mais populosas do Brasil, é importante falar dos problemas criados pelas deficiências dos sistemas de drenagem de águas pluviais em nossas cidades. E a razão é bastante simples – além de todos os conhecidos estragos causados pelas chuvas, a formação de poças de águas paradas e o acúmulo de água em recipientes e/ou resíduos descartados sem maiores cuidados criam as condições para a reprodução de um dos mais cruéis vetores de doenças nas áreas urbanas: os mosquitos.

Além do velho conhecido mosquito urbano Aedes Aegypti, citados aqui em inúmeras postagens e transmissor de diferentes doenças, precisamos incluir na lista de vetores os mosquitos silvestres de espécies como o Haemagogus e o Sabethes que, graças a uma série de problemas ambientais, estão vivendo cada vez mais próximos dos núcleos urbanos. Pesquisa recente do Instituto Evandro Chagas em Belém, comprovou a presença do vírus transmissor da febre amarela em uma outra espécie de mosquito – o Aedes albopictus. Esse mosquito é encontrado tanto em áreas urbanas quanto rurais, característica que acrescenta uma dimensão nova à transmissão da febre amarela.

Os mosquitos fazem parte das paisagens de nosso planeta há, pelo menos, 170 milhões de anos. São insetos que passam por uma metamorfose completa durante o seu ciclo de vida, onde uma parte se passa obrigatoriamente dentro da água (fase de larva e de pulpa). E como grande parte de nosso país possui estações onde ocorrem chuvas regulares e existem densas matas onde há inúmeros locais onde a água pode acumular, são muitos os ambientes propícios à reprodução e sobrevivência das mais diferentes espécies silvestres destes insetos. Nas áreas urbanas, onde o meio ambiente foi alterado para o nosso maior conforto, criamos inúmeros “ambientes” adequados à reprodução e a sobrevivência das espécies urbanas de mosquitos.

A febre amarela atinge mais de 200 mil pessoas a cada ano, causando cerca de 30 mil mortes – 90% dos casos ocorrem no continente africano. No Brasil, o vírus transmissor da febre amarela circula livremente em aproximadamente 3.600 municípios, incluindo todos os municípios dos Estados das regiões Norte e Centro-Oeste – inclusive o Distrito Federal; da Bahia, Maranhão e Piauí na Região Nordeste; além de partes das regiões Sudeste e Sul. Desde 1942 não eram registrados casos da doença em áreas urbanas e grande parte da população brasileira, especialmente destas áreas urbanas, raramente ouvia falar da doença – pescadores e turistas que visitavam algumas destas regiões com a presença mais ativa do vírus é que se preocupavam em tomar a vacina contra a doença.

As populações das áreas onde a febre amarela é endêmica são atendidas há muito tempo por programas de cobertura vacinal, o que manteve a doença sob controle até agora. O avanço recente da doença na direção de áreas densamente povoadas do país, especialmente na região Sudeste, onde as populações não estão vacinadas, é altamente preocupante – a febre amarela é letal em 40% dos casos, o que justifica a enorme preocupação das autoridades médicas do país. É aqui que me manifesto – a deficiência em infraestrutura de saneamento básico em nossas cidades, especialmente no manejo de águas pluviais e dos resíduos sólidos, é uma espécie de calcanhar de Aquiles, aquele ponto fraco que nos deixa vulnerável aos ataques das mais diferentes doenças, incluindo-se a febre amarela, Dengue, Chikungunya, Zika, Síndrome de Guillain-Barré, Mayaro, entre outras.

Há um outro lado ainda mais sombrio – criadas as condições ideais para a reprodução e a sobrevivência dos mosquitos em nossas cidades, nada impede que outros mosquitos “imigrantes”, vindos de outras regiões do mundo e hospedeiros de outros vírus, cheguem por aqui e acabem por se instalar em nossas vizinhanças. Lembro que o mosquito Aedes Aegypti é originário da África e chegou ao Brasil em navios mercantes e negreiros ainda no período Colonial. Os portos brasileiros movimentam hoje mais de 5 milhões de contêineres a cada ano, sem falar nas cargas e pessoas transportadas entre países em aviões, ônibus, carros e caminhões – nada impede que um grupo de uma outra espécie de mosquitos, vindos por exemplo das Ilhas Fiji ou de Madagascar, cheguem por aqui, carregando em seus corpos sabe-se lá qual tipo de vírus. São novos e preocupantes tempos.

Num passado remoto, a mitológica cidade de Tróia caiu graças a engenhosidade de Aquiles e de seu pequeno grupo de soldados que, escondidos no interior de um cavalo de madeira (vide imagem), penetrou sorrateiramente na cidade, abrindo os portões para a entrada do grande exército dos gregos. Mosquitos escondidos em um contêiner podem fazer algo semelhante em nossas cidades.

Torço para que superemos da melhor maneira possível essa crise criada pelo avanço da febre amarela e que aprendamos, rapidamente, a resolver de uma vez por todas os problemas primários da infraestrutura de nossas cidades. Nós não podemos mais ficar à mercê de chuvas, enchentes e mosquitos!

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