O DESPEJO DE LIXO NAS ÁGUAS DO LAGO GUAÍBA, OU RELEMBRANDO AUGUST DE SAINT-HILARIE

Sujeira no Guaíba

Há exatos dois meses, um fenômeno climático provocado por fortes ventos, causou um significativo recuo do mar nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Ventos fortes vindos do Nordeste e soprando em paralelo com o litoral do Brasil, empurraram as águas do mar no sentido Sudoeste. Esse fenômeno coincidiu com o período da lua cheia e intensificou a maré baixa, que em alguns pontos do litoral provocou um recuo do mar da ordem de 50 metros.

Uma das consequências deste fenômeno no mar atingiu o Lago Guaíba e causou muita indignação entre muitos cidadãos Porto-alegrenses: as águas baixaram quase um metro e revelaram uma faixa de areia coberta com uma montanha de lixo.

Em toda a orla de Porto Alegre e também nas inúmeras ilhotas que se formaram sobre os bancos de areia, se avistavam montanhas de lixo e de resíduos de todas as espécies: sacos plásticos, latas, pneus, garrafas Pet, peças de carros, restos de móveis, brinquedos, entre muitos outros.

O Departamento de Limpeza Pública de Porto Alegre aproveitou a oportunidade e despachou equipes de servidores (vide foto) para recolher o lixo à mostra: foram recolhidas 34 toneladas de resíduos apenas no primeiro dia de trabalho – em quatro dias, o volume total de resíduos alcançou a marca de 76 toneladas. A campeã em sujeira foi a região central da cidade.

Apesar do volume de resíduos coletados em um único dia impressionar, esta quantidade representa apenas a ponta de um gigantesco “iceberg” – no fundo do Lago Guaíba, misturado com muito lodo e areia, existe uma camada muito grossa de lixo e entulhos. Em uma publicação anterior, eu comentei sobre as dificuldades que os iatistas dos muitos clubes náuticos do Guaíba enfrentam para navegar no Lago.

Por todos os lados, se avistam extensos bancos de areia, que podem ser fatais para navegantes de primeira viagem no Guaíba. Esportistas mais velhos falam que a profundidade do Lago nos dias atuais é bem menor do que já foi em décadas passadas.

Apesar de parecer um fenômeno recente, o despejo de resíduos no Guaíba é uma prática centenária das populações da região do entorno do Lago. Um dos primeiros registros conhecidos sobre a poluição das águas do Guaíba coube ao cientista francês August de Saint-Hilarie, que esteve em Porto Alegre e em 1822 registrou em seu diário:

Fácil perceber-se, desde o primeiro instante, que Porto Alegre é uma cidade nova; todas as casas são novas, e muitas ainda em construção; mas depois do Rio de Janeiro, não tinha ainda visto uma cidade tão imunda, talvez mesmo a capital não seja tanto…

As encruzilhadas, os terrenos baldios e, principalmente, as margens da lagoa são entulhadas de sujeira; os habitantes só bebem água da lagoa e, continuamente, veem-se negros encher seus cântaros no mesmo lugar em que os outros acabam de lavar as mais emporcalhadas vasilhas.

A cidade de Porto Alegre, sozinha, gera entre 1.600 e 1.800 toneladas de resíduos sólidos a cada dia, considerando o lixo orgânico, os resíduos recicláveis, os resíduos resultantes da varrição das vias e logradouros da cidade e resíduos em geral. Apesar da cidade ter sido uma das pioneiras na implantação da coleta seletiva ainda no início da década de 1990, os serviços de limpeza pública ainda estão longe do ideal.

Um estudo feito em 2016 pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, feito a pedido do Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos, demonstrou que apenas 4,6% dos recicláveis gerados na Capital são efetivamente aproveitados.

Outro dado preocupante: de acordo com Departamento de Limpeza Pública, somente em materiais recicláveis que são descartados indevidamente junto com o lixo comum, são cerca de 260 toneladas a cada dia. O órgão calcula que existem cerca de 1.000 pontos de descarte irregular de resíduos em toda a cidade, especialmente terrenos baldios, que são usados pela população e por empresas, onde toneladas de lixo e entulho são descartados diariamente – muitos destes resíduos acabam carreados para os arroios que cruzam o município e acabam chegando ao Guaíba.

Um projeto piloto criado pelo Departamento de Limpeza Pública, em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o objetivo de monitorar e reduzir a quantidade de lixo arrastado pelas águas, instalou um ecobarreira flutuante no Arroio Dilúvio – diariamente, os resíduos retidos na barreira foram recolhidos e pesados por uma equipe de pesquisadores. Em um ano e meio, o projeto recolheu 250 toneladas de resíduos, onde se incluem: peças de isopor, sacolas plásticas, garrafas Pet, restos de móveis, animais mortos, entre outros. E olhem que estamos falando de um único arroio da cidade de Porto Alegre.

Considerando a quantidade total de cidades da bacia hidrográfica e os inúmeros rios e arroios que desaguam no Guaíba, pode-se imaginar o volume total de lixo que chega diariamente ao Lago. Esse dado vem de encontro a uma pesquisa sobre a percepção ambiental dos pescadores, estudo também realizado por pesquisadores da UFRGS e citado na minha última postagem, onde os pescadores citaram o descarte de lixo nas águas como o segundo maior problema ambiental no Guaíba, ficando atrás apenas do despejo de esgotos.

O lançamento de esgotos domésticos e industriais, combinado com o carreamento de resíduos de agrotóxicos, são, de longe, as maiores fontes de poluição das águas do Lago Guaíba. Entretanto, como mostrado rapidamente neste texto, o descarte de lixo e de outros resíduos sólidos nas águas não é nada desprezível e tem um peso enorme na degradação do Guaíba.

Existe, porém, um grande problema, que talvez não fique tão claro à primeira vista: por maiores que sejam os investimentos em infraestrutura de saneamento básico, onde se incluem redes coletoras e estações de tratamento de esgotos, o despejo irregular de lixo e de resíduos nos corpos d’água é uma questão de educação ambiental – só poderá ser resolvida com a conscientização da população. A questão ganha contornos dramáticos quando se lembra que as águas do Guaíba são fundamentais para o abastecimento de milhões de habitantes em toda a região de entorno do Lago.

Passados quase duzentos anos desde a vista de Saint-Hilarie a Porto Alegre, já não se veem pessoas coletando água em cântaros no Guaíba, mas a sujeira nas águas e nas margens do Lago continuam na mesma…

A POLUIÇÃO DO GUAÍBA, OU AS “GURIAS” DE IPANEMA

Lago Guaíba

A primeira de muitas vezes que estive em Porto Alegre foi em 1980, num voo da hoje lendária Cruzeiro do Sul, com direito a almoço quente e talheres de prata – naqueles tempos voar ainda era uma experiência marcante. Vários amigos fizeram recomendações de pontos turísticos imperdíveis da cidade. Uma senhora, amiga de minha mãe, fez uma indicação que, na hora, pareceu ser uma grande brincadeira: “- não deixe de visitar a Praia de Ipanema!”

E não é que chegando por lá encontrei o calçadão de Ipanema, com praia de rio (naqueles tempos, o Guaíba ainda era considerado um rio), mesinhas nas calçadas com grupos de amigos bebendo cerveja e alguns, mais tradicionalistas, tomando mate. Claro que não poderiam faltar as famosas gurias, forma gaúcha de se referir as garotas, da Ipanema Porto-alegrense.

O bairro de Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, foi criado na década de 1930 e, dada a beleza da orla lacustre e do pôr do sol da região, acabou sendo batizado com o mesmo nome dos famosos bairro e praia da cidade do Rio de Janeiro. O bairro ainda mantém as características da época, com ruas arborizadas e construções baixas e um ar praiano, apesar de estar distante das praias de Tramandaí, Balneário Pinhal e Cidreiras, entre tantas outras do litoral do Rio Grande. O clima de balneário só não é mais completo por que, há muitos anos, as praias estão interditadas para banhos. A razão: os altos índices de poluição das águas do Guaíba.

Durante séculos, o Guaíba foi chamado pelos moradores da região de Lago de Viamão ou Lago de Porto Alegre. O famoso cientista francês Auguste de Saint-Hilarie esteve na região em 1820 e anotou em seu diário que o corpo d’água era um lago. De acordo com registros históricos, durante os séculos XVIII e início do século XIX, o trecho final do rio Jacuí, entre a foz o Delta, era conhecido como rio Guaíba – então, sabe-se lá por qual motivo, todo o lago passou a ser chamado de rio Guaíba. Recentemente, após um grande estudo realizado por especialistas da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a polêmica teve um fim e o Guaíba voltou a ser classificado como um lago.

O Lago Guaíba tem uma área total de 496 km², com um comprimento máximo de 50 km e uma largura que varia entre 900 metros e 19 km. A profundidade média é de 3 metros – os muitos velejadores da cidade afirmam que a profundidade atual é bem menor que esta, com o Lago apresentando inúmeros bancos de areia (vide foto) e de detritos, tornando a prática do esporte arriscada para quem não conhece bem as suas águas. O lago possui ainda um canal de navegação com profundidade entre 4 e 6 metros. Além de Porto Alegre, as águas do Guaíba também banham os municípios de Guaíba, Eldorado do Sul, Barra do Ribeiro e Viamão. O Lago Guaíba desemboca na Lagoa dos Patos e, por fim, as águas vão encontrar o Oceano Atlântico mais ao Sul.

Os principais formadores do Guaíba são os rios Jacuí, dos Sinos, Caí e Gravataí, que contribuem, respectivamente, com volumes de água da ordem de 84,6%, 7,5%, 5,2% e 2,7%, além de receber contribuições de um grande número de arroios. Pelas condições ambientais atuais destes rios, que tratamos ao longo de diversas postagens, fica fácil perceber que a qualidade das águas do Lago Guaíba não é das melhores. A cidade de Porto Alegre, com 1,5 milhão de habitantes, junto com outros municípios do entorno do Lago, também fazem a sua parte, despejando mais de 80% de seus esgotos sem qualquer tipo de tratamento nas águas do Guaíba. O resultado é um Lago com águas altamente poluídas e cada vez menos adequado para o fornecimento de água para o abastecimento das cidades. Aqui vale salientar que, até bem pouco tempo atrás, as águas do Guaíba garantiam 100% do abastecimento da cidade de Porto Alegre e de muitos outros municípios da região.

Quando se analisam as principais fontes de poluição do Lago Guaíba em um mapa, observa-se que os pontos que apresentam águas com as piores qualidades ficam na região do Delta do Jacuí, onde os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul (rios dos Sinos, Gravataí e Caí) desaguam, e ao longo da orla de Porto Alegre, onde inúmeros arroios despejam água contaminada por esgotos e resíduos industriais. Esta é uma situação encontrada com grande frequência na maioria das cidades brasileiras, que cresceram e se desenvolveram sem maiores preocupações em realizar obras de infraestrutura de saneamento básico e que usaram os rios e córregos (chamados de arroios no extremo Sul) como coletores de esgotos.

Na falta de estudos mais atualizados sobre os níveis de poluição no Guaíba, encontrei um interessante estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre a PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS PESCADORES DO LAGO GUAÍBA, que nos dá uma clara visão dos problemas ambientais. Os pescadores estão entre os grupos que mais sofrem com a degradação das águas, fonte do seu trabalho e sustento, e têm observado a redução gradativa da quantidade de peixes no Guaíba. De acordo com a observação dos pescadores, a poluição das águas por esgotos é o principal problema ambiental do Lago Guaíba. O descarte de lixo nas águas vem em segundo lugar, seguido pela extração de areia por dragas em vários pontos do Lago e da contaminação por esgotos de industrias. Pela sua lida diária em embarcações, esses pescadores sabem indicar o local exato onde são feitos os despejos de esgotos e de lixo, além dos locais onde veem os problemas causados pela extração de areia. Os pescadores também entendem que os resíduos de inseticidas, herbicidas e de fertilizantes das muitas plantações ao longo das margens dos rios trazem problemas para o Guaíba.

Um outro problema ambiental importante citado pelos pescadores é o avanço do mexilhão dourado, uma espécie exótica que chegou ao Brasil através da água de lastro despejado por cargueiros estrangeiros em áreas de porto ao longo da costa e que se transformou numa espécie invasora das mais preocupantes. O molusco gruda no casco de seus barcos, muitas vezes entupindo o sistema de refrigeração do motor. O mexilhão dourado também é o responsável pela destruição de extensas áreas de junco, locais onde várias espécies de peixes desovam e onde os alevinos se refugiam – o molusco se fixa na raiz dos juncais, deixando as plantas menos resistentes às forças dos ventos e das ondas. Com a redução da quantidade de peixes no Guaíba, muitos pescadores abandonaram a profissão e passaram a lidar com a terra, especialmente nas ilhas do Delta do Jacuí. Grandes áreas de vegetação nativa foram queimadas para a abertura de campos para a agricultura e a criação de gado; banhados foram drenados e transformados em pequenas áreas de cultivo de arroz – de vítimas da poluição das águas, esses pescadores se transformaram em pequenos agressores ambientais, como tantos outros da grande bacia hidrográfica do Guaíba.

A presença de grandes quantidades de matéria orgânica nas águas devido aos despejos de esgotos gera um outro grande problema: a chamada eutrofização, condição que propicia a superprodução de algas. A eutrofização ocorre quando os níveis de fósforo e nitrogênio, nutrientes naturais dos vegetais, são muito altos – as micro algas presentes na água se multiplicam sem controle deixando grandes regiões do Guaíba com a água na cor verde. Com o processo de fotossíntese destas algas, os níveis de oxigênio dissolvido na água são reduzidos, o que causa a morte das bactérias aeróbias; as bactérias anaeróbias, que retiram o oxigênio que necessitam para sobreviver da putrefação da matéria orgânica, se proliferam – é a decomposição anaeróbia que provoca a liberação do mal cheiro nas águas. Esse mal cheiro liberado pelas águas do Guaíba, juntamente com o aspecto sujo das águas e o lixo flutuante, são as maiores reclamações dos habitantes que vivem perto ou que utilizam sua orla para caminhadas e prática de esportes.

Quanta saudade dos tempos em que programa de Porto-alegrense era pegar uma praia lá em Ipanema…

 

O RIO JACUÍ E O SEU FAMOSO DELTA

Delta do Jacuí

Ao longo de uma sequência de postagens, apresentamos os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul: o rio dos Sinos, o Gravataí e o Caí, respectivamente o 4°, 5° e 8° rios mais poluídos do Brasil. O forte crescimento populacional, industrial e da agricultura nos municípios atravessados por estes rios está na base desta poluição, que têm origens nos grandes volumes de esgotos sanitários e industriais despejados nos cursos d’água sem qualquer tipo de tratamento, em grandes volumes de lixo descartado em suas águas e margens por falhas nas políticas de coleta e destinação final de resíduos sólidos e também na contaminação das águas por resíduos das grandes plantações, particularmente fertilizantes, herbicidas e inseticidas. A todo este conjunto de problemas se soma a ocupação e destruição de áreas de banhados, ecossistema característico do extremo Sul do país e fundamental para a regulação dos níveis das águas destes rios. As consequências de todo este “pacote” de problemas se refletem na dificuldade de captação de águas com boa qualidade para o abastecimento das populações, enchentes, assoreamento de cursos d’água, carreamento de lixo e entulhos, mortandade de peixes e redução dos habitats de animais silvestres, entre outros problemas.

Além de compartilharem águas poluídas e todo um conjunto de agressões ambientais, os rios dos Sinos, Gravataí e Caí tem um outro ponto em comum – todos desaguam na região conhecida como Delta do Jacuí e, como não poderia ser diferente, arrastam milhões de litros de esgotos e poluentes para este ecossistema. Vamos conhecer um pouco desta importante região e entender os impactos da poluição:

O Delta do Jacuí é formado por um conjunto de ilhas, canais, banhados e charcos que se formaram na região a partir dos sedimentos carreados ao longo de muitas eras pelas águas dos rios dos Sinos, Gravataí, Caí e Jacuí. O rio Jacuí é um dos mais importantes do Rio Grande do Sul, com nascentes na região de Passo Fundo, no Norte do Estado, e aproximadamente 800 km de extensão. O rio Jacuí garante uma vazão de 1.900 m³/s em sua foz na região do Delta, sendo o maior contribuidor para a formação do Lago Guaíba. Um dos maiores problemas ambientais da bacia hidrográfica do rio Jacuí é a intensa extração de carvão, principalmente nas regiões de Charqueadas e São Jerônimo, atividade que causa grandes impactos ambientais. A região atravessada pelo rio tem uso intensivo dos solos em agricultura e pecuária, atividades que retiram grandes quantidades de água para irrigação e dessedentação de rebanhos, devolvendo ao rio águas contaminadas por resíduos de produtos químicos e com sedimentos resultantes de desmatamentos e ocupação de áreas úmidas. Na região do Baixo Jacuí, o rio é impactado por despejos do Polo Petroquímico de Triunfo e de inúmeras indústrias dos ramos químico, plástico, metal mecânico e siderúrgico, entre outras atividades.

A soma de todo este volume de águas forma o Lago Guaíba e, na sequência, a Lagoa dos Patos. Pela sua importância ambiental, o Delta do Jacuí foi transformado em um Parque Estadual em 1975, constituindo uma Unidade de Conservação integral. Engloba áreas dos municípios de Porto Alegre, Canoas, Nova Santa Rita, Triunfo, Charqueadas e Eldorado do Sul sob a justificativa de “manter uma área verde próxima à parte mais urbanizada da capital e pelo fato das águas do delta atuarem como um imenso filtro natural, contribuindo para manter a potabilidade das águas do Guaíba e os bons níveis de produtividade de pescado.” Em 1979 o Parque teve sua área ampliada, passando a ocupar 17.245 hectares. Em 2005 foi criada a Área de Proteção Ambiental Delta do Jacuí, que englobou o Parque Estadual do Delta do Jacuí em seus limites. 

O ecossistema do Delta do Jacuí controla o ritmo das cheias e das vazantes através de ambientes naturais que incluem canais, baías rasas, chamadas de sacos na região Sul, ilhas fluviais e trechos de margens formadas por banhados, florestas aluviais (paludosas e ripárias) e áreas de inundação. Estas áreas de proteção ambiental também são fundamentais para a conservação da flora e da fauna, incluindo-se inúmeras espécies raras e sob risco de extinção. A região do Delta do Jacuí também é importante do ponto de vista histórico e cultural, permitindo a preservação de comunidades tradicionais com seus “saberes e fazeres” populares. Os ambientes protegidos também proporcionam ambientes para o lazer e a recreação das populações.

Todo este conjunto de boas intenções decorrentes da transformação da região em uma Área de Conservação não isenta os ecossistemas dos impactos provocados pelo carreamento de milhares de metros cúbicos de esgotos e de toneladas de resíduos descartados nas águas dos rios tributários.

Uma das facetas mais visíveis da poluição das águas do Delta do Jacuí é a redução da produção de pescado, atividade econômica das mais tradicionais entre os habitantes das ilhas. Pescadores mais antigos falam com saudade da fartura de peixes, de inúmeras espécies, retiradas dos canais nas pescarias de tempos antigos. Os pescadores dos tempos atuais sofrem para conseguir retirar das águas quantidades cada vez menores de peixes – muitas espécies como o dourado e jundiá , que eram comuns, há muito não são vistas com frequência nas águas da região. Estudos realizados por pesquisadores do Laboratório de Ictiologia da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no período entre 1992 e 1997, encontrou deformações físicas em algumas espécies de peixe da região, anomalia provavelmente provocada pelos altos índices de poluição das águas. Desde então os pesquisadores vêm mantendo um acompanhamento constante e estabeleceram pontos de coleta de espécimes na região do Delta do Jacuí e em outros pontos da Lagoa do Guaíba.

Com a decadência da pesca, os habitantes das ilhas do Delta, uma população estimada em 15 mil habitantes em 2003 e que desde a transformação da região numa Área de Proteção nunca tiveram sua situação fundiária resolvida, passaram a se dedicar a outras atividades como a agricultura e a pecuária, atividades que têm provocado fortes impactos na região. Áreas de vegetação são queimadas para a ampliação de pastos e de áreas para plantações. Banhados foram drenados e aterrados, transformadas em plantações de arroz e de outras culturas. A degradação das águas dos rios se estendeu também para as matas e áreas úmidas das terras das ilhas, aumentado ainda mais os problemas ambientais em toda a Lagoa do Guaíba – as praias do Guaíba, incluindo-se na lista a famosa Praia de Ipanema na Zona Sul de Porto Alegre, são impróprias para banho e a captação de água para o abastecimento de grande parte da capital gaúcha, que tradicionalmente era feita em diversos pontos da Lagoa, está cada vez mais complicada. A empresa municipal de saneamento de Porto Alegre trabalha para a construção de uma rede de tubulações que permita a captação de água na região na foz do rio Jacuí, que apresenta um qualidade bem superior ao Lago do Guaíba, o que é uma grande ironia para uma cidade cercada de tanta água.

Durante séculos, cidades e populações usaram e abusaram das águas dos cursos em suas vizinhanças, sem nunca mostrarem preocupações com as cidades e populações a jusante, nas partes mais baixas dos rios. O exemplo que mostramos nas últimas publicações, quando falamos dos rios mais poluídos do Rio Grande do Sul, deixou muito claro que continuar agindo desta maneira não é mais possível. As cidades têm todo o direito de usar toda a água que necessitam para abastecer suas populações, indústrias e atividades agropecuárias – respeitando-se é claro alguns limites e evitando-se o desperdício, porém, essas cidades têm a obrigação de coletar e tratar seus esgotos, devolvendo água em condições adequadas de uso pelas populações que vivem rio abaixo. Ficar empurrando a poluição para frente é uma atitude que não tem mais lugar num mundo com recursos hídricos cada vez mais escassos – sempre existirá uma cidade ou um delta como o do Jacuí para arcar com o ônus da poluição criada por outros.

RIO CAÍ, O 8° RIO MAIS POLUÍDO DO BRASIL

Ruo Caí

Nas últimas semanas, minhas postagens têm focado os problemas causados pela poluição de importantes rios do Estado do Rio Grande do Sul – já falamos do rio dos Sinos e rio Gravataí, respectivamente, o 4° e o 5° rios mais poluídos do Brasil. São rios muito próximos geograficamente, que atravessam cidades com histórias muito parecidas e que apresentam problemas muito semelhantes. A cada postagem que escrevo, tenho ficado com a sensação de estar sendo repetitivo, tamanha a semelhança dos problemas. Hoje, infelizmente, vou precisar ser repetitivo e falar dos problemas de um terceiro rio, que junto com os rios dos Sinos e Gravataí, formam a trinca dos três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul – vamos falar do rio Caí.

Com 250 km de extensão, o rio Caí tem nascentes no alto da Serra Gaúcha, no município de São Francisco de Paula, a 1.000 metros de altitude. Sua bacia hidrográfica tem aproximadamente 4.950 km², abrangendo total ou parcialmente 42 municípios, onde vive uma população total estimada em 490 mil pessoas. Entre estes municípios podemos destacar Gramado, Canela, Caxias do Sul e Nova Petrópolis, conhecidos nacionalmente entre os turistas de todo o Brasil que visitam o Rio Grande do Sul. Aproximadamente 400 mil pessoas são abastecidas com as águas da bacia hidrográfica do rio Caí, sendo que existem municípios que captam a água de afluentes e outros, principalmente na região do Baixo Caí, captam água diretamente da calha deste rio. A foz do rio também fica no Delta do rio Jacuí, a exemplo dos rios dos Sinos e Gravataí. O nome do rio deriva do termo em tupi antigo Ka’i e significa algo como “rio dos macacos-pregos.”

O rio Caí possui uma extensa rede de afluentes, destacando-se os arroios Cará, Cadeia, Forromeco, Mauá, Maratá e Piaí, que contribuem com muita água poluída por esgotos domésticos, industriais e resíduos sólidos, e que dão sua contribuição para colocar o rio Caí na lista dos “10 mais” do Brasil. Dos 42 municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do rio Caí, 38 lançam esgotos domésticos sem qualquer tipo de tratamento nas águas de inúmeros pequenos cursos d’água (conhecidos como arroios na região Sul e como córregos em outras partes do país), contaminação que acaba chegando ao canal central do rio Caí. A média do tratamento de esgotos no Rio Grande do Sul é de 15%, o que está abaixo da média nacional de 42,7% – nos municípios que formam a bacia hidrográfica do rio Caí, está média é muito mais baixa, com índices inferiores a 5%.

Para entendermos claramente o problema da poluição do rio Caí, convém analisar os usos das águas ao longo do curso do rio, que é dividido em três partes distintas: Alto Caí, Médio Caí e Baixo Caí. Vejam alguns dados retirados do Relatório Qualidade das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Caí, publicado sob responsabilidade da FEPAM– Fundação Estadual de Proteção Ambiental.

O Alto Caí vai até a foz do Arroio Caracol, em cujo trecho estão as barragens do Salto, Blang e Divisa, destinadas a geração de energia elétrica em 4 unidades do tipo PCH -Pequena Central Hidrelétrica e acumulação de água para transposição para a bacia do rio dos Sinos. As águas destes reservatórios são de boa qualidade, usadas pelas populações para banhos e pesca artesanal, especialmente na barragem do Salto em São Francisco de Paula.

As cidades de Canela e de Gramado captam água no rio Santa Cruz; São Francisco de Paula capta água numa barragem no Arroio Querência. Dos esgotos gerados nestas cidades, apenas Gramado e Canela tratam uma parte dos seus efluentes.

O Médio Caí vai da foz do Arroio Caracol até o município de São Sebastião do Caí, onde estão as áreas mais urbanizadas e industrializadas, especialmente nos municípios de Caxias do Sul e Farroupilha, sendo o trecho mais poluído do rio. Estima-se que a carga de esgotos industriais remanescentes destes municípios que chegam até o rio Caí é de 4.650 toneladas/ano e os esgotos domésticos é da ordem de 3.730 toneladas/ano. Os esgotos domésticos e industriais são lançados sem tratamento em redes de águas pluviais e em cursos d´água que cruzam as cidades, tendo como destino final a calha do rio Caí.

Assim como ocorre com os municípios do trecho Alto, a captação de água para o abastecimento de cidades no Médio Caí também é feita em arroios e barragens. Os principais pontos de captação de água são a Represa de Galópolis em Caxias do Sul, Arroio Feitoria em Dois Irmãos e Arroios Santa Isabel e Ackermann em Nova Petrópolis. Diversas industrias realizam a captação de águas diretamente na calha do rio Caí, destacando-se uma cervejaria no município de Feliz que capta 17 mil m³/mês.

As águas do Médio Caí também têm larga aplicação na irrigação de lavouras, especialmente de hortaliças, morangos, viveiros produtores de mudas de citros e também de produção de flores. Merece destaque também a citação de atividades de mineração em municípios deste trecho do rio, principalmente argila, areia, cascalho, arenito e basalto, com destaque para a mineração de argila em Vale Real e de cascalho em Feliz. Atividades mineradores têm grande potencial para contaminação e poluição de corpos d’água.

O Baixo Caí vai do município de São Sebastião do Caí até a foz no Delta do Jacuí. Este trecho do rio é frequentemente assolado por enchentes, que atingem os municípios de Bom Princípio, Feliz, Harmonia, Montenegro, Pareci Novo, São Sebastião do Caí e Vale Real. As terras planas desta região são usadas principalmente para o plantio de arroz e para pecuária.

Uma característica marcante deste trecho é o grande número de cidades localizadas próximas ao rio Caí. Como consequência desta proximidade, as cidades captam água diretamente do leito do rio, com destaque para as cidades de Montenegro e São Sebastião do Caí, e também o Polo Petroquímico de Triunfo. Inúmeras indústrias e frigoríficos também captam águas diretamente do leito do rio Caí para uso em seus processos de produção após realizar um processo de tratamento e potabilização. O outro lado desta proximidade se reflete num maior lançamento de esgotos, especialmente domésticos, diretamente nas águas do rio Caí – nenhum município do trecho do Baixo Caí trata seus esgotos domésticos e industriais.

Merecem destaque os problemas associados aos esgotos industriais gerados pelos curtumes instalados ao longo dos Arroio Cadeia, atividade geradora de grandes volumes de poluentes químicos como os sais de cromo e resíduos de carne, gordura e pelos, que acabam lançados junto com os efluentes – tratamos longamente deste tema em postagens sobre o rio dos Sinos. Já o Polo Petroquímico de Triunfo é responsável pela geração de uma carga de esgotos industriais equivalente a 800 kg/dia. Neste trecho da bacia hidrográfica também existe mineração intensa de argila, areia e cascalho, principalmente nos municípios de Montenegro e Triunfo.

Esta rápida exposição dos usos das águas do rio Caí mostra que em toda a sua bacia hidrográfica encontramos despejos de grandes volumes de esgotos domésticos e industriais sem qualquer tipo de tratamento, atividades de mineração que geram grandes volumes de sedimentos e que acabam carreados para a calha central do rio, grandes plantações, especialmente de arroz, atividade que retira grandes volumes de água para uso em irrigação e que devolve excedentes de água contaminados com resíduos químicos de fertilizantes, herbicidas e inseticidas, entre outras agressões. Não poderia se esperar um outro resultado senão um rio altamente comprometido pela poluição, sedimentos dos mais diversos tipos e muito lixo.

Até a nossa próxima postagem, quando falaremos do rio Jacuí e do seu famoso Delta.

O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO VALE DO RIO GRAVATAÍ

Tom & Jerry

Abastecer milhões de pessoas com água potável, dia após dia, é um desafio interminável para cidades de todos os tamanhos ao redor do mundo. Com populações aumentando sem parar, tanto pelo crescimento vegetativo quanto pela migração de grandes contingentes que saem do campo em busca de melhores oportunidades de vida nas cidades, as empresas de saneamento buscam incansavelmente por fontes de água – grande parte das fontes de água tradicionais sofrem com a poluição pelos esgotos gerados pelas próprias cidades. A luta pela água lembra aqueles antigos desenhos animados, onde o gato nunca consegue pegar o rato (vide imagem com os já lendários Tom & Jerry) – é uma luta contínua e sem trégua.

O Rio Gravataí é o responsável pelo abastecimento de mais de 1 milhão de pessoas nas cidades de Gravataí, Cachoeirinha, Alvorada, Viamão, Glorinha, Santo Antônio da Patrulha, Canoas (zona Norte) e Porto Alegre (zona Norte). Este é o mesmo rio maltratado, sujo e poluído, sobre o qual estamos tratando nas últimas postagens. Até 50 anos atrás, o Gravataí era um rio de águas cristalinas e volumosas, que escorriam desde as áreas úmidas do Banhado Grande e desciam lentamente na direção das ilhas do Delta do Jacuí. Essas águas eram cheias de vida, com fartos cardumes de peixes, bandos de aves, mamíferos e repteis, além de uma flora exuberante. Em pouco mais de meio século, o crescimento desenfreado das cidades, das indústrias e das plantações, comprometeu a vida e a qualidade ambiental do rio Gravataí, que em muitos trechos agoniza a olhos vistos.

Apesar de complicado e, muitas vezes dramático, o abastecimento de populações é tarefa inadiável e essencial – verdadeiros milagres precisam ser feitos a cada dia para manter torneiras vertendo água. Deixem-me relembrar um exemplo citado em publicações anteriores:

Por várias vezes, ao longo do último ano, fiz referências ao famoso rio Guandu, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O Guandu era um pequeno e pouco importante rio de montanha, com nascentes na Região Serrana e foz na Baia de Sepetiba – graças a todo um conjunto de obras para geração de energia elétrica, o rio Guandu passou a receber grandes volumes de águas transpostas a partir do rio Paraíba do Sul e rapidamente se transformou num importante manancial de abastecimento. Porém, repetindo uma história já muito conhecida, as cidades ao longo de sua bacia hidrográfica cresceram sem planejamento e sem saneamento básico – o insubstituível Guandu entrou na lista dos rios mais poluídos do Brasil – calcula-se que 4 bilhões de litros de esgotos sejam despejados diariamente nas águas da sua bacia hidrográfica. Atualmente, para conseguir tratar e distribuir as águas do rio Guandu para as populações, são utilizadas, diariamente, 140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico, entre outros produtos químicos. Em dias de chuva, com o aumento do carreamento de esgotos e de lixo para o canal do rio e para as áreas de captação da Estação de Tratamento de Água, esse volume de produtos químicos pode até triplicar. “Milagrosamente”, as águas do rio Guandu conseguem abastecer 8 milhões de pessoas a cada dia.

As nascentes de água que alimentam o Banhado Grande, principal formador do rio Gravataí, se espalham por uma extensa área, com altitudes que chegam aos 400 metros. As águas que jorram de inúmeras nascentes se somam as águas das chuvas e correm na direção das terras baixas dos banhados. Funcionando como uma espécie de esponja, os banhados acumulam grandes volumes de água nos períodos chuvosos e liberam gradativamente essa água nos períodos de seca. O Banhado Grande, que originalmente ocupava uma área de 450 km², manteve essa função de regulador das vazões do rio Gravataí até o início da década de 1970, permitindo que os sistemas de abastecimento das cidades da região funcionassem de maneira regular. Conforme comentamos na postagem anterior, foram realizadas obras de drenagem e de construção de um canal de aproximadamente 20 km de extensão, de forma a permitir a liberação de grandes áreas para ampliação de plantações. A perda de água resultante destas obras reduziu a área do Banhado Grande para pouco mais de 50 km² e criou uma série de problemas ambientais para plantas e animais, que perderam grande parte dos seus habitats, e para populações das cidades, que passaram a conviver com as intensas flutuações dos volumes de água do rio Gravataí – nos períodos chuvosos, as águas não encontram mais os obstáculos que existiam no passado, quando a vegetação do banhado absorvia grandes volumes, e liberava a água aos poucos: o nível do rio aumenta drasticamente e, em poucos, dias, toda a água corre na direção da Lagoa do Guaíba. Nos períodos de seca, sem poder contar com as reservas dos banhados, o rio definha e, em muitos trechos, se apresenta como um filete de água altamente poluído.

Estas bruscas oscilações no volume de água e na força das correntezas causam problemas extremos nos principais pontos de captação de água no rio Gravataí: Gravataí, Alvorada e Cachoeirinha. Nos períodos de seca, o nível do rio abaixa muito e os pontos onde é feita a captação da água sofrem com o assoreamento e o acúmulo de lixo e resíduos. O processo inicial do tratamento da água, que se preocupa justamente com a retirada da areia e dos resíduos sólidos grosseiros é bastante prejudicado pelo excesso de materiais sólidos. No ponto de captação de água de Gravataí, que é o mais próximo das áreas de banhados, a água costuma apresentar altos níveis de poluentes químicos, resultantes da presença de resíduos de fertilizantes, de herbicidas e de inseticidas utilizados nas plantações, especialmente nos arrozais. Nos períodos de chuva, a água se apresenta turva, com altos níveis de sedimentos em suspensão, o que cria dificuldades nos processos secundários e terciários do tratamento da água – muitas vezes é necessária a interrupção dos processos de tratamento para a limpeza dos tanques, prejudicando o abastecimento de milhares de residências. A violência das correntezas muitas vezes causa danos nas tubulações de captação de água, também exigindo interrupções para reparos emergenciais.

Nos pontos de captação a jusante, em Alvorada e Cachoeirinha, há o problema adicional da concentração cada vez maior dos esgotos domésticos e industriais, que são lançados pelas cidades sem tratamento nas águas de inúmeros rios e arroios, e que acabam chegando às águas do rio Gravataí. De acordo com dados da FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental, as indústrias da região lançavam uma carga orgânica bruta de aproximadamente 4,3 mil toneladas/ano nas águas do rio Gravataí até 1991 – com fiscalização, controle e tratamento destes efluentes, a carga remanescente caiu para 1,4 mil toneladas/ano. Já os esgotos domésticos continuam, com despejos da ordem de 14 mil toneladas/ano. E assim como acontece com o rio Guandu, citado no início desta postagem, dezenas e mais dezenas de toneladas de produtos químicos precisam ser utilizados nas ETAs – Estações de Tratamento de Água, da região para retirar das águas os esgotos e a sujeira lançados pelas populações das cidades.

Como se já não bastasse tudo isso, há um grave problema adicional: quando o nível do rio Gravataí fica muito baixo, existe a formação de uma correnteza negativa, inundando o canal do rio com as águas poluídas da Lagoa do Guaíba, que vão se juntar com as águas poluídas do rio.

E a luta para o abastecimento de água das cidades continua sem fim, como o gato que persegue o rato nas animações. Porém, há um risco cada vez maior do gato e do rato morrerem envenenados com tanta poluição.

Continuamos no próximo post.

O BANHADO GRANDE, OU AS NASCENTES DO RIO GRAVATAÍ

Banhado Grande

Os banhados são áreas planas e alagadiças, típicas das regiões dos pampas gaúchos. São áreas de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres, que têm uma série de funções ecológicas importantes – uma das mais importantes é a capacidade que as áreas de banhado têm de armazenar grandes quantidades de água nos períodos chuvosos e liberar lentamente essa água acumulada nos períodos de seca. Os banhados são, literalmente, ecossistemas reguladores dos fluxos de água dos rios e abrigam uma grande biodiversidade de espécies animais e vegetais.

O Banhado Grande, localizado entre os municípios de Santo Antônio da Patrulha, Gravataí, Glorinha e Viamão, reúne todas estas características, recebendo contribuições de inúmeros cursos d’água de diversos municípios, inclusive de áreas dos Banhados Chico Lomã e dos Pachecos. O Banhado Grande é o principal formador do rio Gravataí. Por sua importância regional, a região foi elevada a APA – Área de Proteção Ambiental, a partir do Decreto Estadual n° 38.971, de 23 de outubro de 1998. Com uma área total de 133 mil hectares, esta APA reúne áreas do Banhado Grande, Banhado de Chico Lomã e Banhado dos Pachecos, tendo como principais objetivos a proteção dos ecossistemas naturais restantes e a recuperação das áreas degradadas.

Formado pelos biomas Pampa e Mata Atlântica, o Banhado Grande ocupa uma área correspondente a 2/3 da bacia hidrográfica do rio Gravataí. A vegetação original é composta predominantemente por espécies de banhados e de matas de restinga, sobre os solos arenosos da Coxilha das Lombas, que é uma região com as chamadas paleodunas, resquícios de tempos antigos quando a região foi coberta pelas águas do Oceano Atlântico. Entre as espécies vegetais destacam-se a tarumã, árvore símbolo da cidade de Gravataí, o angico, o açoita-cavalo, a guajuvira, os araçás, as pitangueiras, entre outras espécies. Na fauna, são destaques os famosos ratões-do-banhado, as capivaras, os lobos guarás, jacarés-do-papo-amarelo e os cervos-do-pantanal – aliás, a região é o último refúgio destes animais na região Sul do Brasil. Um outro animal, o curioso tuco tuco (Ctenomys lami), é uma espécie de roedor que lembra uma pequena marmota americana e só é encontrada na região da Coxilha das Lombas – a espécie está sob forte ameaça de extinção pela diminuição do seu habitat.  Os terrenos úmidos também possuem uma rica variedade de répteis e anfíbios. Entre as aves merecem destaque o inhambu, a garça branca, a pomba, a saracura e o araquã, uma espécie de faisão, além de uma infinidade de aves migratórias que buscam refúgio e alimentação nos banhados durante as escalas de suas longas jornadas.

Os solos dos banhados possuem grandes volumes de matéria orgânica em decomposição, resultado do acúmulo de folhas, gramíneas e juncos mortos – estas características tornam estes solos altamente férteis e cobiçados pelos agricultores. As áreas de entorno do Banhado Grande vêm sendo ocupadas por grandes extensões de cultivos agrícolas, especialmente arroz, desde a década de 1940. Estes produtores, inicialmente, passaram a abrir redes de canais para a irrigação de suas plantações – esses canais passaram a funcionar como drenos, reduzindo gradativamente as áreas encharcadas e aumentando as áreas agricultáveis, que avançaram sem controle contra as terras dos banhados.

Além dos impactos diretos resultantes da redução das áreas dos banhados, a produção do arroz necessita de grandes volumes de água, que é bombeada ininterruptamente das áreas úmidas e dos rios, geralmente nos meses de janeiro e fevereiro, época de maior demanda pela cultura e, coincidentemente, auge do período das chuvas, quando os banhados acumulam grandes estoques de água. As áreas de banhados, que funcionam como esponjas naturais, acumulam água nos períodos de chuva e fornecem água nos períodos de seca – sem poder acumular a água desviada para os arrozais, os banhados ficarão com estoques muito reduzidos para fornecimento ao meio ambiente no período das secas. Um outro problema grave, resultante do bombeamento de água para os arrozais, são os resíduos de fertilizantes e de pesticidas que são carreados com as águas excedentes e que voltam para as áreas de banhado. Esses produtos químicos interferem com os ciclos de vida de algas, insetos e pequenos crustáceos, que vivem em meio a água e vegetação do banhado, e que estão na base da cadeia alimentar do ecossistema, sendo fundamentais para a alimentação de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis. Estes resíduos químicos também podem ser prejudiciais para as populações que são abastecidas com a água dos rios formados a partir do banhado; no nosso caso falamos do rio Gravataí, responsável pelo abastecimento de mais de um milhão de pessoas na Região Metropolitana de Porto Alegre.

De acordo com dados da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a área original ocupada por esse conjunto de banhados correspondia a 450 km²; a partir da década de 1970, com o sistemático avanço das plantações de arroz e com a implantação dos canais de irrigação, incluindo-se também as obras realizadas pelo DNOS – Departamento Nacional de Obras e Saneamento, as áreas de banhado sofreram uma substancial diminuição – em meados da década de 1980, estas áreas estavam reduzidas a apenas 138 km²; no início da década de 1990, os banhados da região estavam limitados a uma área equivalente a 60 km². Estima-se que a área atual do Banhado Grande corresponda a apenas 10% da área original encontrada na época do início da colonização e povoamento da região.

Um dos maiores responsáveis pela dramática redução do Banhado Grande foi um canal de drenagem com extensão total de 20 km, construído pelo DNOS, uma antiga autarquia do Governo Federal na década de 1970, com o objetivo de ampliar as áreas produtoras de arroz. Com a abertura desse canal principal e de uma série de canais transversais menores, a região ficou livre das enchentes anuais e extensas áreas “secas” foram disponibilizadas aos arrozeiros para o aumento da área plantada. Esses conjunto de canais comprometeu a capacidade do Banhado Grande em acumular grandes volumes de água e alterou consideravelmente os regimes fluviais do rio Gravataí – no período chuvoso, o rio passou a apresentar fortes correntezas e grandes volumes de água; no período da seca, sem o fornecimento de água pelos banhados, o rio se apresenta com baixíssimos níveis de água, comprometendo o abastecimento das populações e dificultando a diluição dos grandes volumes de esgotos lançados in natura na calha do rio. As obras, feitas com o uso de grandes volumes de recursos públicos, beneficiou um pequeno grupo de arrozeiros e causou prejuízos gigantescos para centenas de milhares de habitantes da região, além de danos, muitos irreversíveis, para a vida natural.

Felizmente, dois eventos diferentes contribuíram para preservar o pouco que restou dos banhados: o primeiro, a criação da APA – Área de Proteção Ambiental, a partir de um Decreto Estadual em 1998; o segundo, o assoreamento sistemático do canal principal de drenagem em função da incapacidade dos órgãos públicos em realizar os serviços de limpeza e de manutenção periódicos – com a redução da drenagem artificial, houve uma pequena recuperação das áreas alagadas e um aumento dos habitats para espécies vegetais e animais. Esses eventos são fundamentais para o processo de recuperação ambiental do rio Gravataí.

A ineficiência de um serviço público nunca foi tão festejada. E nossos mais sinceros votos para que esse processo de assoreamento do canal continue avançando.

Até o nosso próximo post.

RIO GRAVATAÍ – O PEQUENO NOTÁVEL

Rio Gravataí

Com aproximadamente 39 km de extensão, o rio Gravataí consegue uma verdadeira proeza: ele é o 5° rio mais poluído do Brasil (extraoficialmente, com o rio Paraíba do Sul subindo da 10° para a 5° posição no ranking nacional, o rio Gravataí caí para a 6° posição). Outra façanha deste pequeno notável: suas águas são usadas para o abastecimento de uma população de mais de 1 milhão de habitantes na Região Metropolitana de Porto Alegre. Antes de conhece-lo melhor, deixem que eu explique o título do post: é uma referência a cantora, portuguesa de nascimento e brasileira de alma, Carmen Miranda (1909-1955) – primeira “pop star” de nossas terras a ganhar fama e reconhecimento mundial. Era conhecida como a “Pequena Notável” – tinha apenas 1,52 m de altura, mas um talento grandioso.

O rio Gravataí é um típico rio gaúcho, com nascentes numa extensa área de banhado – o Banhado Grande, entre os municípios de Santo Antônio da Patrulha, Glorinha, Gravataí e Viamão, onde recebe contribuições de inúmeros cursos d’água destes municípios, inclusive de áreas dos Banhados Chico Lomã e dos Pachecos. Aliás, a extensão do rio citada considera o trecho entre o Banhado Grande e o Delta do Jacuí: algumas fontes consideram a extensão total do rio bem maior, na faixa de 70 km – uma fonte consultada fala de uma extensão total de 100 km. Todas estas fontes estão, é claro, somando o curso de algum afluente à extensão total do rio.

Para falar adequadamente do rio Gravataí e dos seus problemas, é fundamental que se faça uma clara divisão geográfica do corpo d’água: vamos chamar a primeira área de “selvagem”, numa referência ao trecho do Banhado Grande, que apesar de já se encontrar bastante impactado, ainda apresenta muita vida selvagem e paisagens bucólicas e muito próximas do que seria encontrado num passado distante – vamos falar dessa região na próxima postagem. Um outro lado, infelizmente o mais triste, mostra um rio metropolitano que foi sufocado e destruído pelo crescimento descontrolado das cidades. O nome do rio tem origem nas línguas tupi e guarani, fazendo referência ao gravatá, planta da família das bromélias muito comum na região – significando, literalmente, “o rio dos gravatás”.

No seu caminho entre o Banhado Grande e o Delta do Jacuí, o rio Gravataí banha, total ou parcialmente, nove municípios – Gravataí, Cachoeirinha, Santo Antônio da Patrulha, Glorinha, Alvorada, Viamão, Canoas, Porto Alegre e Taquara. Para entender como se deu a formação da maioria destas cidades, é preciso voltar para meados do século XVIII, quando Portugal e Espanha assinaram em 1750 o Tratado de Madrid. Estes dois países travavam na época uma disputa ferrenha pelo estabelecimento das fronteiras entre seus territórios na América. Pelo novo Tratado, Portugal se comprometia a entregar para a Espanha a região de Colônia de Sacramento, no atual território do Uruguai; Portugal ficaria com a posse definitiva da região dos Sete Povos das Missões no Oeste do Rio Grande do Sul. Esse tratado foi retificado anos depois com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso em 1777, onde ficou estabelecida a forma como se faria essa permuta de territórios. Uma das cláusulas deste Tratado estabelecia a desocupação das terras pelos índios Guaranis; o Governo Português pretendia assentar colonos açorianos na Região das Missões e, para que isso fosse possível, as terras deveriam estar “livres” de índios. Os guaranis se recusaram a abandonar seus territórios e o impasse descambou para um conflito armado, conhecido historicamente como Guerra Guaranítica. Uma das consequências da confusão generalizada que se formou nas Missões foi o remanejamento dos colonos açorianos para os vales dos rios Caí, na região central do Rio Grande do Sul, e Gravataí.

Na região do rio Gravataí já existiam algumas sesmarias de terras, que eram concessões de propriedades do Governo Colonial a particulares. Em uma destas sesmarias existia um pequeno assentamento conhecido como Aldeia dos Anjos, embrião da cidade de Gravataí. Além de receber os colonos açorianos, a região abrigou um grupo de mil índios guaranis, refugiados do conflito na região das Missões. Esses índios foram treinados para o trabalho na agricultura e iniciaram o cultivo dos campos de trigo, que passaram a ser introduzidos nas terras férteis da região do vale do rio Gravataí. Aos poucos, a região passou a abastecer Porto Alegre com alimentos, cerâmicas e farinha de trigo, beneficiada em várias moendas que surgiram nas cidades da região. Com o passar dos anos, a região também passou a produzir farinha de mandioca, produto que passou a ser vendido para todo o Estado do Rio Grande do Sul e outras regiões do Brasil e do exterior.

A partir de meados do século XX, os municípios da região do rio Gravataí passaram a abrigar indústrias do segmento metal-mecânico, processo de industrialização que ganhou muito fôlego a partir da década de 1960. A região se consolidou como um dos mais importantes polos de indústrias metal-mecânicas do Brasil. Com a industrialização, as cidades da região passaram a atrair grandes contingentes de migrantes, que trocavam o trabalho no campo pelas fábricas das cidades. Num roteiro já bastante conhecido por todos, as cidades ao longo do rio Gravataí cresceram rápido e sem planejamento – e o rio Gravataí pagou caro por todo este crescimento destas áreas urbanas. Grandes populações necessitam de grandes volumes de água para o seu abastecimento; quando grandes volumes de água são consumidos pelas populações, grandes volumes de esgotos são gerados – o Gravataí ofereceu tanto a água usada no abastecimento quando a sua calha para receber os volumes crescentes de esgotos gerados pelas cidades.

A industrialização e o crescimento urbano precisou de menos de 50 anos para transformar o Gravataí, um rio de águas límpidas, no 5° rio mais poluído do Brasil. Áreas de matas ciliares e de banhados foram destruídas e a calha do rio passou a sofrer um intenso processo de assoreamento e de entulhamento. Lixo e resíduos sólidos de todo o tipo passaram a fazer “parte da paisagem” – margens cobertas por grandes montes de areia e entulho passaram a dividir espaço com restos de móveis, eletrodomésticos e pneus velhos; em muitos trechos, o que sobrou para as águas do rio continuarem a correr foi um pequeno canal espremido entre montes de entulho. A retirada de água do rio para o abastecimento das populações, cuja marca supera 1 milhão de habitantes na Região Metropolitana de Porto Alegre, muitas vezes precisa ser interrompida em vários dos pontos de captação devido ao altíssimo grau de poluição por esgotos.

Uma outra fonte de grandes impactos para o rio Gravataí foi o avanço da rizicultura, a produção de arroz, em toda a região. Essa cultura avançou principalmente sobre as planícies de inundação e banhados, áreas naturais fundamentais para a manutenção da qualidade ambiental de toda a bacia hidrográfica. Essas áreas também são fundamentais para permitir a regulagem da vazão do rio – o uso intensivo das águas para a irrigação das plantações de arroz reduziu as áreas úmidas ao redor do Banhado Grande, que ocupavam originalmente 450 km², para uma área com apenas 50 km². Para forçar ainda mais a perda de água nos banhados, liberando mais áreas para a agricultura, e permitir o uso das águas por plantações de arroz nas margens do rio Gravataí, um canal artificial com aproximadamente 20 km foi construído na década de 1960 entre a região do Banhado Grande e Olaria Velha. Todas essas mudanças e agressões contribuíram para o atual grau de degradação do rio Gravataí, que hoje lembra muito pouco o rio caudaloso e cheio de vida dos tempos antigos.

As águas poluídas por esgotos domésticos e industriais, além de resíduos de fertilizantes e agrotóxicos, chegam em vazões cada vez menores ao Delta do Jacuí, onde se juntam a águas em condições similares dos rios Caí e dos Sinos para formar o Lago do Guaíba que, pelo conjunto da obra de muitos, acabou transformado num depósito de águas sujas e poluídas.

Continuaremos a falar desta saga no nosso próximo post.

O FUTURO DO RIO DOS SINOS EM PERSPECTIVA

Rio dos Sinos

Como uma introdução a esta postagem, deixem-me apresentar um flagrante de crime ambiental recente no rio dos Sinos: uma ação conjunta da Secretaria da Agricultura e Meio Ambiente, da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros, encontrou um descarte irregular de aparas de couro na margem do rio dos Sinos na cidade de Santo Antônio. O volume de resíduos foi estimado em 390 kg e foram necessárias três viagens com o carro da fiscalização para transportar o material, que foi destinado a uma empresa devidamente licenciada para o tratamento deste resíduo. A equipe registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia Civil da cidade, porém, não foi possível a identificação do infrator. Não custa lembrar que o descarte ilegal de resíduos sólidos num corpo hídrico é um crime ambiental e infração administrativa, com multa e pena para o infrator, além de sérias consequências para o meio ambiente e para a população.

Essa ocorrência se deu no início do mês de fevereiro último. É bastante fácil imaginar que estas aparas de couro foram gerados em uma pequena oficina de sapataria, talvez uma empresa familiar informal. Sem qualquer constrangimento ou preocupação com a poluição das águas do rio dos Sinos, alguém que trabalha nesta empresa colocou estes resíduos em um veículo e, às escondidas, descartou os materiais na beira do rio. Talvez a intenção fosse mesmo a de se jogar os resíduos diretamente nas águas do rio, de modo a “encobrir” o crime – eventualmente, o infrator pode ter se assustado com alguma movimentação nas vizinhanças e, por isto, agiu rápido e se limitou a descarregar os resíduos nas margens. Mais uma ocorrência de desrespeito ao meio ambiente, entre milhares de ocorrências diárias. Notem que é uma agressão que parte de um cidadão contra um “bem” comum ou um patrimônio natural público, que é o rio. Por maiores que venham a ser os investimentos dos Governos (em todos os níveis) em redes coletoras e estações de tratamento de esgotos, em programas de recuperação e proteção de banhados e matas ciliares, em controles de fontes poluidoras nas indústrias e tudo mais, não é possível manter um fiscal a cada 200 metros nas margens do rio, encarregado de coibir o descarte de lixo ou resíduos pelos moradores. Aqui, se faz necessário um investimento contínuo e profundo em ações de educação ambiental, conscientizando e despertando nas populações o sentimento de “cuidar” do patrimônio natural. Essa é uma das faces do problema.

Deixem-me mostrar um outro lado do problema:

O Ministério Público do Rio Grande do Sul está apurando as responsabilidades pela má gestão de duas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, na cidade de São Leopoldo. As duas ETEs, localizadas nos bairros Vicentina e Feitoria, foram projetadas para tratar 48% dos esgotos da cidade de São Leopoldo, porém, o nível de tratamento não chega a 10%. O SEMAE – Serviço Municipal de Águas e Esgotos, autarquia municipal responsável pelas unidades, recebeu um volume total de R$ 18 milhões, sendo R$ 10 milhões para as obras na ETE do bairro Feitoria e R$ 8 milhões para as obras na ETE do bairro Vicentina. O Ministério Público apurou que as obras não foram concluídas e que parte dos recursos liberados, simplesmente, sumiu. Em um ofício de resposta, a SEMAE informa que está apurando as responsabilidades e afirma que as obras foram feitas pela “administração municipal anterior”.

Como parte do diagnóstico dos problemas, a SEMAE informa que um dos tanques de uma ETE desmoronou e que a outra ETE foi paralisada devido a atos de vandalismo e depredação de uma EEE – Estação Elevatória de Esgotos (uma unidade que bombeia os esgotos até a ETE). O SEMAE também informou que a gestão anterior, além de não ter concluído as obras em questão, deixou dívidas de R$ 37 milhões. Os responsáveis pela gestão anterior, é claro, se defendem das acusações afirmando que estão criando “factoides” e que tudo não passa de perseguição política. No mundo real, que normalmente fica em algum lugar distante do mundo político, encontramos um volume de esgotos gerados por aproximadamente 40 mil pessoas sendo despejado sem tratamento no rio dos Sinos, apesar de R$ 18 milhões em dinheiro público ter sido investido em duas ETEs que só funcionam parcialmente. Este lado do problema mostra que nem os parcos investimentos em obras de saneamento básico, que estão muito aquém das necessidades reais, conseguem chegar aos devidos fins – os recursos são mal utilizados ou acabam, simplesmente, “desaparecendo” no meio do caminho.

A bacia hidrográfica do rio dos Sinos abrange um total de 32 municípios, onde vive uma população superior a 1,3 milhão de habitantes. Foram citados apenas dois problemas, em duas cidades diferentes, encontrados ao acaso dentro de um universo de problemas: crescimento da população das cidades, com aumento da demanda por água potável e aumento na geração de esgotos domésticos;  falta generalizada de redes coletoras e de estações de tratamento de esgotos em todas as cidades da bacia hidrográfica; crescimento urbano desordenado com invasão e destruição de áreas de banhado e de planícies de inundação; problemas nos serviços públicos de coleta de resíduos sólidos; destruição de matas e de áreas de banhado para permitir o avanço da produção agrícola e pastoril; forte crescimento industrial com produção de efluentes e resíduos de todos os tipos, entre outros problemas. Essa rápida exposição mostra a complexidade dos problemas ambientais numa bacia hidrográfica, que vale tanto para o rio dos Sinos como também para a maior parte das bacias hidrográficas brasileiras.

A pergunta que sempre se faz quando chegamos a este ponto da conversa: o que pode ser feito para resolver os problemas do rio dos Sinos?

Em junho de 2014, como uma resposta a esta pergunta, o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos) lançou o Plano de Gerenciamento de Bacia, um nome bastante pomposo para um conjunto de propostas com 37 ações, divididas em 10 programas de recuperação e conservação da qualidade das águas da região, para implantação ao longo de 25 anos. Este Plano trouxe uma série de orientações para os gestores públicos das cidades da região, informando o que deveria ser feito para preservar a qualidade ambiental dos rios da região, quais os principais problemas e o que deveria ser feito para solucioná-los. Passados 3 anos, dos 25 previstos para a realização do Plano, muita coisa nem saiu do papel, o que mostra as dificuldades para se solucionar, ao menos em parte, os terríveis problemas de degradação ambiental na bacia hidrográfica.

Dentre os itens que já avançaram de alguma maneira no Plano de Gerenciamento, estão questões relacionadas às planícies de inundação, especialmente os licenciamentos de empreendimentos nestas áreas. Apesar de se apresentarem como áreas secas durante grande parte do ano, o que atiça a cobiça da especulação imobiliária, essas várzeas ou planícies são fundamentais para permitir a extravasão das águas nos períodos de cheia dos rios, ajudando a controlar as enchentes em áreas urbanas a jusante. Também foram instaladas duas estações fluviométricas no rio dos Sinos, em Paranhana e Rolante, e o monitoramento da qualidade da água foi retomado em 2016. O cadastramento de poços no sistema de Outorga de Água do Rio Grande do Sul também mostrou avanços. Por fim, a coleta seletiva e a educação ambiental deram uns bons passos para frente.

Por outro lado, a implantação da infraestrutura de coleta e tratamento de esgotos nas cidades, um dos problemas mais críticos de toda a bacia hidrográfica do rio dos Sinos, não conseguiu sair do lugar. O nível de tratamento dos esgotos gerados na região continua na casa dos 5% e não se observam avanços. Tipicamente, os despejos de esgotos domésticos e industriais representam até 2/3 do volume total de poluentes lançados em um corpo d’água, o que demonstra a importância desses sistemas – sem o avanço destas infraestruturas e dos serviços de tratamento dos efluentes, pouca coisa vai mudar.

Resta-nos torcer, no curto prazo, para que as raras Estações de Tratamento de Esgotos já existentes funcionem integralmente e que as pequenas sapatarias familiares não descartem aparas de couros nas margens dos rios…

Que os sinos toquem e os anjos digam amém!

A PECUÁRIA, A AGRICULTURA, OS BANHADOS E A DESTRUIÇÃO DOS RIOS GAÚCHOS

Gado nos Pampas

Durante muito tempo, a economia do extremo Sul do Brasil teve como base a pecuária. Os primeiros rebanhos bovinos chegaram à região no século XVII pelas mãos dos padres Jesuítas espanhóis, fundadores das Missões ou reduções do Rio Grande de São Pedro: São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio.

De acordo com o Tratado de Tordesillas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, todo o território atual do Rio Grande do Sul se encontrava dentro dos domínios da Espanha. As reduções jesuíticas foram criadas para a conversão e educação dos indígenas – durante décadas a fio, os bandeirantes paulistas atacaram estas reduções para a captura dos indígenas “já civilizados”.

Com a destruição sucessiva destes aldeamentos, os rebanhos bovinos acabavam abandonados nos campos e pouco a pouco retornaram ao estado selvagem, se espalhando pelos extensos pampas gaúchos. A captura e domesticação destes rebanhos bovinos a partir do século XVIII acabou por se tornar a base cultural e econômica do povo gaúcho.

A partir do século XIX, num esforço do Governo Imperial em povoar o Rio Grande e proteger Província das sucessivas invasões de Castelhanos, houve um grande estímulo à imigração, quando grandes contingentes de açorianos, italianos e alemães chegaram a Província. Esses novos colonos fundaram diversas cidades e deram início a agricultura em grande escala na região que, pouco a pouco, passou a rivalizar com a pecuária.

A partir de meados do século XX, o Rio Grande do Sul se tornou um dos maiores produtores de grãos do Brasil, passando inclusive a “exportar” agricultores para os novos territórios das Regiões Centro-Oeste e Norte do país.

Esse resumo “resumido” da história do Rio Grande do Sul foi apresentado para complementarmos a postagem anterior, quando falamos da destruição dos banhados do extremo Sul. Esses ecossistemas, ricos em água e em vida, foram fundamentais para a expansão dos rebanhos bovinos nos primeiros séculos da colonização da região.

Estima-se que, originalmente, entre 10 e 20% do território atual do Rio Grande era coberto por áreas de banhado – com o avanço da agricultura, os solos ricos e úmidos dos banhados passaram a ser ocupados por culturas de grãos como o arroz e o trigo. Existe uma grande incerteza sobre o grau de destruição já consolidado nestas áreas de banhado: o avanço da agricultura no Banhado do Taim nos dá uma ideia desta destruição.

Com subsídios governamentais, os agricultores locais eram estimulados a realizar a drenagem de áreas de banhado para ampliar as áreas agricultáveis – o que restou do Banhado do Taim corresponde a menos de 10% da área original ocupada pelo ecossistema.

A expansão da cultura do arroz nas últimas décadas em algumas regiões corrobora a percepção assustadora da destruição dos banhados: da antiga área de mais de 45 mil hectares do Banhado Grande de Gravataí, restou pouco mais de 5 mil hectares; dos antigos 3 mil hectares do Banhado Santa Catarina entre Santa Maria e São Gabriel, encontramos hoje menos de 300 hectares de áreas úmidas selvagens.

Nesta lista de áreas devastadas podemos incluir o Banhado de São Donato, entre Itaqui e São Borja; o Banhado Inhatinhum em São Gabriel; o Banhado Upamaroti entre Dom Pedrito e Santa Vitória do Palmar, entre muitos outros.
 
Os banhados são ecossistemas extremamente ricos em vida, podendo ser comparados aos bancos de corais dos oceanos. Funcionando como uma espécie de “esponja natural”, as áreas de banhado acumulam grandes volumes de água nos períodos de chuva, auxiliando inclusive no controle das cheias dos rios; nos períodos de seca, fornecem água para as lagoas, garantido a sobrevivência de um sem número de espécies animais e vegetais.

Os solos úmidos dos banhados são ricos em matéria orgânica, resultante da decomposição dos juncos e gramíneas – essa excepcional fertilidade dos solos tornou essas áreas em alvo para a expansão das fronteiras agrícolas.

As algas estão na base da cadeia alimentar das áreas de banhado. Estes vegetais se nutrem a partir da filtragem das partículas em suspensão na água, desempenhado um papel de filtro biológico do ecossistema. Diversas espécies de moluscos se alimentam destas algas e, por sua vez, servem de alimento para diversas espécies de peixes – aves locais e migratórias buscam alimento e abrigo nos banhados, assim como toda uma cadeia de animais como capivaras, lontras, ratões-do-banhado e jacarés-do-papo-amarelo. Toda uma frágil teia de vida e de inter-relações entre espécies animais e vegetais sobrevive nos banhados.

Um exemplo da fragilidade do equilíbrio ambiental dos banhados pode ser visto numa espécie de caramujo encontrado nestes locais – a pomácea. Esse caramujo é uma importante fonte de alimento para diversas espécies de aves, sobretudo ao gavião caramujeiro, espécie que se alimenta exclusivamente desta “iguaria”.

A drenagem dos banhados para a implantação de culturas de grãos ou o carreamento de grandes volumes de resíduos de defensivos agrícolas, pode levar à extinção de grandes colônias deste caramujo – a maioria das aves perderá um dos seus alimentos: o gavião caramujeiro, entretanto, perderá a sua única e exclusiva fonte de alimentação.

Um outro exemplo da importância biológica das áreas de banhado, citada na última postagem, tem a ver com uma série de aves migratórias que utilizam estes ecossistemas como áreas de descanso, alimentação e até como territórios de nidificação. Os cisnes-do-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus) tem seu território distribuído desde a Terra do Fogo, no extremo Sul da América do Sul até áreas na região Sudeste do Brasil – esse extenso território inclui, além do nosso território, regiões da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Ilhas Malvinas.

Diversos banhados dos pampas gaúchos ficam no caminho das rotas migratórias da espécie. Uma outra espécie, a coscoroba (Coscoroba coscoroba), também chamada de cisne-coscoroba e capororoca, é uma ave migratória com território indo desde a Patagônia, no sul da Argentina e do Chile, até as regiões Sul do Brasil e Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul. Estas aves utilizam áreas de banhados do extremo Sul para descanso, alimentação e nidificação ao longo de suas migrações.

O comportamento instintivo destas aves é o resultado de milhares de anos de adaptação ao meio ambiente e, quando um dos seus habitats é destruído ou modificado, estes animais não conseguem mudar seus hábitos rapidamente – grupos inteiros de animais podem morrer de fome ou simplesmente não conseguir se reproduzir, colocando a espécie sob pressão e ameaça de extinção.

As áreas de banhado também têm importância ímpar para os rios gaúchos. Conforme já comentamos, eles atuam na regulação dos níveis de água tanto nos períodos de cheias quanto de secas; também são fundamentais para a manutenção da biodiversidade das espécies animais que vivem nos rios, incluindo-se peixes, crustáceos, mamíferos, aves e répteis, que têm nos banhados importantes áreas de alimentação e reprodução.

Uma função crítica desempenhada pela vegetação dos banhados é a retenção e a depuração de sedimentos e despejos que correm na direção da calha dos rios, auxiliando na manutenção da qualidade das águas. Nos banhados também se encontram nascentes que contribuem com substanciais volumes de água, recurso importante nos períodos de seca.

Diversos rios em todo o Estado do Rio Grande do Sul têm sofrido fortes impactos devido a esta sistemática e contínua destruição dos banhados, onde destacamos os problemas dos rios Caí, Gravataí e dos Sinos, corpos d’água que, infelizmente, integram a lista dos dez rios mais poluídos do Brasil.

Até o próximo post.

A DESTRUIÇÃO DOS BANHADOS NO VALE DO RIO DOS SINOS

Ratão-do-banhado

Banhados são paisagens típicas do extremo Sul do Brasil. São áreas planas e alagadiças comuns nos pampas gaúchos, caracterizadas também por serem área de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres. As áreas de banhados têm uma série de funções ecológicas de extrema importância:

– Funcionam como filtros da água, retendo toxinas, esgotos e poluentes, aumentando também a infiltração de água nos solos, ajudando na recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos;

– São áreas fundamentais para a reprodução e alimentação dos peixes, crustáceos e insetos, sendo também áreas de refúgio para diversas espécies de animais silvestres como as capivaras, as lontras e os ratões-do-banhado (vide foto);

– Os banhados atuam no controle de enchentes nos períodos de chuva, acumulando grandes volumes de água e funcionando como barreiras naturais para o controle da velocidade da correnteza destes rios;

– Nos períodos de seca, funcionam como depósitos e fontes de água, utilizadas por diversas espécies de animais, uma vez que são, normalmente, áreas onde se encontram nascentes de água.

Localizado em uma zona de transição entre áreas de Mata Atlântica no Nordeste do Rio Grande do Sul e de Pampas ao Sul e Centro do Estado, o Vale do Rio dos Sinos tinha, até meados da década de 1980, uma área total de banhados equivalente a 11 mil hectares. De acordo com um trabalho de pesquisa feito ao longo de quatro anos pelo biólogo Rafael Gomes de Moura, essa área sofreu uma redução de 70% ao longo dos últimos 30 anos, quando mais de 8 mil hectares de banhados, simplesmente, desapareceram. A perda destes ambientes tem uma série de consequências negativas para o rio dos Sinos, que vão desde a perda de biodiversidade de espécies de peixes, aves, mamíferos, répteis e insetos, além de diversas espécies da flora, até a redução no volume de água na calha do rio em épocas de seca e um aumento substancial na violência das enchentes em períodos chuvosos. Esses problemas vêm se somar aos problemas de poluição das águas por despejos de esgotos domésticos e industriais, de resíduos sólidos e lixo nas águas do rio dos Sinos.

Com o crescimento das cidades do Vale do Rio dos Sinos e a forte valorização dos terrenos disponíveis para a construção civil, os banhados, considerados como uma espécie de “desperdício” de áreas livres, passaram a ser sistematicamente aterrados e transformados em espaços para a especulação imobiliária pelas grandes empresas do setor – esse mesmo movimento aconteceu, para citar alguns exemplos, nas áreas de várzeas dos rios da Região Metropolitana de São Paulo e de manguezais do Recife. Para as populações de baixa renda, estes espaços passaram a ser vistos com uma alternativa para a construção de moradias de baixo padrão, as famosas favelas, onde o avanço dos aterros se dá metro a metro sobre as áreas alagadiças.

Nas áreas rurais, o avanço sobre as áreas de banhado se “justifica” pela necessidade dos produtores em aumentar os espaços cultiváveis e de produção de suas terras. Sistematicamente, áreas vão sendo aterradas para permitir o aumento das lavouras ou ampliação das áreas de pastagens, currais, galinheiros ou chiqueiros, uma prática que se estende também para as áreas de mata ciliar, que são derrubadas sem maiores critérios por muitos agricultores. As áreas de banhados, várzeas e mata ciliares são fundamentais para a manutenção da qualidade ambiental das águas dos rios – sem essas áreas de proteção e de amortecimento, há um aumento do carreamento de resíduos sólidos, lixo, areia e sedimentos para dentro da calha dos rios, além do desaparecimento de nascentes, perda de áreas de refúgio para a vida animal, contenção de enchentes, entre outros impactos negativos.

As consequências desta redução drástica das áreas de banhados podem ser conferidas facilmente observando-se o aumento do número de enchentes nas cidades ao longo das margens do rio dos Sinos e também no número de pessoas atingidas pelos eventos. Em 2015, as enchentes atingiram mais de 70 mil moradores nas cidades de Campo Bom, Esteio, Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo – a Defesa Civil da cidade de São Leopoldo, para citar um único caso, calculou na época prejuízos da ordem de R$ 13 milhões, considerando apenas as perdas das populações atingidas. Quando o cálculo considera a redução da arrecadação de impostos da Prefeitura e as perdas do comércio e das indústrias, esse prejuízo sobe para a casa dos R$ 50 milhões.

Os prejuízos também podem ser vistos na redução da disponibilidade da água potável subterrânea. Com o aterramento das áreas dos banhados e a impermeabilização dos solos com construções, observa-se uma redução substancial da recarga dos depósitos de água, com uma diminuição notável na produção de águas em poços artesianos e também em fontes de água alimentadas a partir destes lençóis subterrâneos. Considerando-se o crescimento das populações das cidades e o comprometimento da qualidade das águas do rio dos Sinos pelo despejo de esgotos e efluentes industriais, essas reservas subterrâneas, que funcionavam como uma reserva estratégica, passam a representar uma perda significativa para muita gente. Essa sensação de perda ganha contornos trágicos quando se observa que a destruição destas áreas de banhados é praticamente irreversível – é muito difícil se imaginar que as prefeituras das cidades tenham recursos financeiros e capital político que permita a desapropriação das áreas ocupadas para uma eventual recomposição destes biomas, ou ainda imaginar que produtores rurais aceitem reduzir as suas áreas de produção. Todos os esforços das autoridades ambientais devem se concentrar na preservação dos banhados restantes.

Do ponto de vista biológico, a situação também não é nada confortável. O rio dos Sinos, juntamente com os rios Gravataí e Caí são os principais formadores do Lago Guaíba – esses três rios estão na lista dos dez rios mais poluídos do Brasil, ocupando, respectivamente, a 4°, 5° e 8° posições. O altíssimo grau de poluição presente nestes corpos d’água, por si só, já é um entrave para a manutenção da biodiversidade de espécies animais e vegetais – com a destruição das áreas de reprodução e de alimentação representada tradicionalmente pelos banhados, a sobrevivência de muitas espécies de peixes, assim como de crustáceos, anfíbios, répteis, mamíferos, aves, insetos e diversas plantas é incerta. Se pararmos para pensar na destruição de toda uma cadeia alimentar consolidada ao longo de milhares de anos de evolução conjunta destas espécies e do equilíbrio ambiental existente, a extinção de espécies associadas a estes rios pode ser uma espécie de “tiro no pé” – imagine que, sem predadores naturais, algumas espécies de animais e de insetos se reproduzam sem controle e passem a atacar as grandes plantações de grãos existentes no Rio Grande do Sul, Estado que se destaca entre os grandes produtores brasileiros. Seria um verdadeiro desastre econômico para uma economia que, há muitos anos, vem acumulando problemas em série.

Além desta importância para a biodiversidade local, os banhados também são de importância ímpar para todo um conjunto de espécies de aves migratórias como o cisne-do-pescoço-preto e a coscoroba (ou capororoca), que usam estas áreas em paradas para descanso, alimentação e nidificação, em suas heroicas jornadas anuais de voos de milhares de quilômetros entre regiões de diversos países. O comportamento instintivo destes animais, adquirido ao longo de centenas de gerações, não pode ser alterado de uma hora para outra – a destruição de uma única área tradicional de descanso e alimentação pode significar a morte de grandes contingentes de indivíduos de uma espécie. Neste caso, temos um impacto num ecossistema local com repercussões a nível internacional – algo, simplesmente, trágico!

Continuaremos na próxima postagem.