O COMPLEXO LAGUNAR GUAÍBA / LAGOA DOS PATOS

Junqueiro do bico reto

Quando olhamos a região das planícies úmidas onde está inserida a Lagoa do Patos e o Lago Guaíba a partir de uma certa altitude – imagine que você está usando um software como o Google Earth, percebemos claramente que a região inteira forma um grande mosaico de ecossistemas interdependentes, com rios, arroios, lagos, banhados, campos e dunas. Sob este ponto de vista, você irá verificar que os poluídos rios dos Sinos, Gravataí e Caí, além do importante rio Jacuí, são os grandes fornecedores de água do sistema. Uma enorme mancha urbana na porção Norte da área representará a Região Metropolitana de Porto Alegre. Observando com um pouco mais de atenção, você vai verificar que a área onde fica o município de Porto Alegre forma uma espécie de “ilha”, cercada pelas águas do Guaíba, Delta do Jacuí, rio Gravataí e áreas úmidas no trecho que segue em direção ao Oceano Atlântico – minha última postagem, quando falei da perda de biodiversidade no Lago Guaíba, se concentrou nesta área. Os problemas de perda de biodiversidade, infelizmente, são muito maiores e ocorrem em toda essa macrorregião lagunar. As alterações observadas nas populações de aves da região sintomatizam os problemas.

O Estado do Rio Grande do Sul possui um total de 661 espécies de aves catalogadas, sendo que, desse total, cerca de 130 estão ameaçadas de extinção. As causas do desaparecimento das espécies se devem, especialmente, à destruição dos habitats pelo desmatamento e avanço das fronteiras agrícolas, poluição das águas e impactos de todos os tipos em antigos refúgios naturais como as planícies úmidas entre o Lago Guaíba, a Lagoa dos Patos e os campos e dunas ao longo do litoral – nesta extensa região, há registros de mais de 250 espécies de aves.

Numa rápida consulta a Lista das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção no Rio Grande do Sul, encontramos diversas espécies que tem habitat fixo ou temporário (no caso das espécies migratórias), na região das planícies úmidas: maçarico-acanelado (Calidris subruficollis) – migratória, Gaivota-de-rabo-preto (Larus atlanticus), curiango-do-banhado (Hydropsalis anômala), Junqueiro-de-bico-reto (Limnornis rectirostris), Boininha (Spartonoica maluroides), Estalador (Corythopis delalandi), noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicanus), coleiro-do-brejo (Sporophila collaris), veste-amarela (Xanthopsar flavus), albatroz-de-tristão (Diomedea dabbenena), albatroz-errante (Diomedea exulans) – migratória, albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos) – migratória, Petrel-gigante-do-sul (Macronectes giganteus) – migratória, pardela-preta (Procellaria aequinoctialis), pardela-de-óculos (Procellaria conspicillata), gavião-cinza (Circus cinereus), entre outras.

Além dos problemas associados à poluição das águas, com todos os impactos na vida das criaturas aquáticas, tema que já tratamos em sucessivas postagens, as ameaças a avifauna tem outros componentes – a destruição e redução de habitats é uma das principais. Dois exemplos:

– O Mexilhão Dourado (Limnoperna fortunei), sobre o qual já falamos em postagens anteriores, é um molusco originário de rios do sudeste asiático e que chegou na América do Sul na década de 1990, muito provavelmente na água de lastro de cargueiros lançadas nas águas do rio da Prata. A espécie invasora rapidamente colonizou os rios Uruguai, Paraná, Paraguai, Grande e Parnaíba, além de invadir a Lagoa dos Patos e o Lago Guaíba – já existem registros do mexilhão dourado nas ilhas do Delta do Jacuí.

Uma característica do mexilhão dourado é a sua preferência pelas raízes das plantas aquáticas, onde se fixa e passa a se alimentar de plâncton e fitoplanton que filtra das águas. A presença do molusco nas raízes enfraquece as plantas, que sucumbem à força dos ventos e das ondas. Um exemplo são os juncos, encontrados em grande quantidade nas margens dos corpos d’água e áreas úmidas. Com a redução das áreas de juncos, várias espécies de aves perdem suas áreas de nidificação e alimentação – um exemplo é o Junqueiro-de-bico-reto (Limnornis rectirostris – vide foto).

– Um outro problema que vem causando forte impacto neste complexo ecossistema é a perda contínua de áreas para a agricultura. Vou citar como exemplo a Reserva Ecológica do Taim, localizada entre a Lagoa Mirim e o Oceano Atlântica. A área ocupada pela reserva é de 10.938 hectares – a área original do banhado já foi 10 vezes maior e sucumbiu diante do avanço dos cultivos de arroz.

O avanço do mexilhão dourado e a destruição dos juncais lembra um caso parecido – a caça indiscriminada da lontra marinha (Enhydra lutris), prima da nossa lontra (Lontra longicaudis), no Nordeste do Oceano Pacífico e a morte das florestas de kelps, uma espécie de alga gigante. A espessa pele da lontra marinha era muito cobiçada em épocas passadas e o animal foi caçado entre 1741 e 1911 até beirar a extinção. Com o desaparecimento das lontras, os ouriços-do-mar, um dos alimentos preferidos das lontras, começaram a se multiplicar sem controle – o animal passou a comer as raízes dos kelps, o que reduziu imensamente as suas florestas. Os kelps eram áreas de abrigo e reprodução de peixes e crustáceos, que simplesmente desapareceram da região, com fortíssimos impactos na pesca regional. Quando a caça à lontra foi proibida, a espécie se recuperou e voltou a manter os ouriços-do-mar sob controle – as florestas de kelps voltaram a se expandir, para a alegria de milhares de pescadores. Observem que houve uma verdadeira “reação em cadeia” de ida e volta. É exatamente isto que está acontecendo com diversas espécies de aves nas regiões lacustres do Rio do Grande do Sul com o avanço do mexilhão dourado e a destruição dos juncais, sem que tenhamos descoberto uma forma de controlar a expansão do molusco.

O controle das fontes de poluição das águas e impedimento do avanço da agricultura nas áreas úmidas representam uma parte importante para solução dos problemas da avifauna nas planícies úmidas do extremo Sul. Já o controle do avanço do mexilhão dourado ainda não é possível, justamente pela falta de um predador natural como as lontras marinhas comedoras dos ouriços.

Faço votos que, enquanto escrevo está postagem, em algum lugar nas margens do Guaíba, uma lontra gordinha e dentuça descubra um jeito de dar uma “coelhada” para quebrar a casca de um mexilhão dourado e que goste do petisco. Como não há, acredito eu, uma Universidade das Lontras, essa técnica de caça será passada apenas para os descentes desta lontra, que ao longo de muitas gerações poderá até formar uma nova espécie – a Lontra monicaes (estou, é claro, fazendo referência neste comentário à impagável Mônica do desenhista Maurício de Sousa). Quando algo parecido com isso acontecer, o descontrole das populações do mexilhão dourado estará com seus dias contados.

Já existem muitas iniciativas para a preservação da região: o Parque Estadual de Itapuã, no encontro das águas do Guaíba com a Lagoa dos Patos é uma delas. O Parque apresenta ambientes de morros, praias, dunas, lagoas e banhados dentro da Região Metropolitana de Porto Alegre. Entre as espécies protegidas estão o bugio-ruivo (Aloutatta guariba), ameaçado de extinção, a nossa lontra (Lontra longicaudis), o gato-maracajá (Leopardus wiedii), e também aves migratórias como o maçarico-acanelado (Tryngites subruficollis) e o suiriri (Tyrannus melancholicus). Outro exemplo é a Reserva Biológica do Lami. Localizada a cerca de 50km da área central Porto Alegre, a Reserva margeia o Guaíba e protege uma área de transição entre a Mata Atlântica e os Campos Sulinos. Entre algumas raridades destaca-se a Ephedra, uma planta que foi a motivação inicial para criação da reserva na década de 1970.

Que surjam muitas outras iniciativas como essas enquanto a nossa Lontra monicaes não desponta…

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AINDA FALANDO DA PERDA DE BIODIVERSIDADE NO GUAÍBA

Lontra

Na nossa última postagem, começamos a falar da perda de biodiversidade nas águas do Lago Guaíba e falamos dos problemas enfrentados pelas espécies de peixes. Vamos prosseguir avaliando a situação de outras espécies animais e vegetais que vivem em ambientes semiaquáticos e terrestres ligados diretamente ao Lago Guaíba. Peço que vocês prestem atenção nesta verdadeira “colcha-de-retalhos” de inter-relações entre as espécies vivas, ambientes e as ações antrópicas. 

Entre as causas antrópicas que provocam a perda de biodiversidade destacam-se a expansão das áreas urbanas e as atividades produtivas como a agricultura, pecuária e mineração. O crescimento das cidades se dá pela transformação de áreas rurais e naturais em áreas chamadas urbanizadas – isto significa a derrubada de matas e sua substituição por edificações, aterramento e ocupação de áreas de banhado e de inundação, a impermeabilização de solos para a formação de quintais, pátios de estacionamentos, pavimentação de ruas e avenidas, entre outras. A cidade de Porto Alegre, a maior da região do Lago Guaíba, possui uma população de mais de 1,5 milhão de habitantes e ocupa uma área superior a 500 km², área urbana que foi tomada sistematicamente dos antigos refúgios e áreas naturais. Além de substituir ambientes naturais por edificações e ruas pavimentadas, as cidades funcionam como obstáculos para a migração e movimentação de espécies dentro do território, problema que trará dificuldades para a reprodução de espécies animais e para a dispersão de sementes de inúmeras plantas – espécies animais e vegetais restritas a um território reduzido têm menores chances de sobrevivência no longo prazo. A conurbação, processo de fusão de cidades resultante do crescimento contínuo das manchas urbanas, é um complicador maior da divisão e fragmentação de habitats aquáticos e terrestres na Região Metropolitana de Porto Alegre – uma extensa faixa que começa nas margens do Guaíba e segue até Campo Bom ao Norte e até Gravataí a Leste, é, praticamente, uma única cidade. Essa extensa mancha urbana interrompeu “caminhos” naturais que ligavam, por via terrestre e aquática, as margens do Lago Guaíba com as margens dos rios Gravataí, dos Sinos e Caí. Animais terrestres, que ocupam nichos ecológicos entre as áreas úmidas, campos e as matas da região como o bugio-ruivo (Aloutatta guariba), ameaçado de extinção, o gato-maracajá (Leopardus wiedii), gambá-de-orelha-branca (Didelphis Albiventris), ouriço-cacheiro (Sphiggurus villosus), gato-do-mato (Leopardus tigrinus), entre outros, sofrem imensamente com essa fragmentação, com isolamento de populações e falta de acesso a áreas de alimentação e de reprodução.

Dentro do nosso processo histórico de crescimento das cidades, cursos d’água foram transformados em coletores de esgotos e são muitas vezes os responsáveis pelos despejos de poluentes em rios e lagos de maior porte, criando toda uma série de problemas ambientais – nas regiões de entorno do Lago Guaíba foi isso que aconteceu. Na esteira dos esgotos, como todos sabemos, sempre vem o lixo e os resíduos. Populações necessitam de água e alimentos – fontes de água são represadas e sistemas de tratamento e de distribuição têm de ser construídos, aumentando ainda mais os desmatamentos e a impermeabilização de solos. Cidades normalmente são cercadas por áreas agrícolas conhecidas como “cinturão verde”, onde tradicionalmente são produzidos verduras e legumes frescos – a criação destas áreas agrícolas forçará ainda mais o avanço contra as área naturais remanescentes. Também há o problema dos resíduos, especialmente os chamados entulhos da construção civil que, por falta de conscientização das populações, são descartados em áreas ermas, na beira de corpos d’água ou em matas, e que acabam carreados para o canal dos arroios e rios. Além das populações de peixes, comentadas em nossa última postagem, espécies semiaquáticas como as capivaras (Hydrochoerus hidrochaeris), lontras (Lontra longicaudis – vide foto) e ratões-do-banhado (Myocastor coypus), além de répteis aquáticos como jacarés-do-papo-amarelo (Caiman latilostris), cágado-de-barbelas-cinzento (Phynops hilarii) e tigres d´água ou tartaruga-verde-amarela (Trachemys dorbigni), entre outros, sofrem imensamente com a contaminação dos ambientes aquáticos e também com a fragmentação dos seus habitats e a destruição da vegetação das margens, locais onde algumas espécies encontram parte da sua alimentação.

As áreas do cinturão verde, por preservarem algumas características que lembram as antigas áreas naturais, poderão atrair, em maior ou menor escala, algumas espécies de animais silvestres, que estarão sujeitas a contatos com agrotóxicos (fertilizantes, pesticidas e herbicidas), produtos químicos que, a partir de uma certa dosagem, podem ser fatais. Essa interface entre as áreas urbanas e as áreas naturais também podem colocar animais domésticos, especialmente cães, em contato com espécies selvagens – animais de pequeno porte como répteis, aves e pequenos mamíferos podem acabar mortos por ataques de cães ou transformados em “lanches” por gatos. Espécies classificadas como caça podem acabar abatidas “discretamente” por moradores e transformadas em pratos principais de almoços e jantares. Algumas espécies consideradas perigosas, nocivas ou que simplesmente causam pavor em algumas pessoas, são simplesmente exterminadas – citamos as cobras, aranhas, répteis e morcegos. Existe um caso que classifico como trágico: filhotes pequenos de ratões-do-banhado, uma espécie nativa do Guaíba e de outras áreas úmidas, são muito parecidos com as grandes ratazanas ou ratos-de-esgoto – se eventualmente entrarem em áreas urbanas, poderão ser mortos pela população devido a esta trágica semelhança.

Além dos animais domésticos tradicionais, populações humanas também trazem sob suas “carroças” uma série de animais domesticados involuntariamente – o maior exemplo é o rato ou ratazana (Rattus norvergicus), mamífero originário das estepes da Ásia Central, que se habituou ao convívio com agrupamentos humanos e suas sobras de comida: desde tempos pré-históricos, os ratos vem acompanhando as populações humanas em suas contínuas migrações ao redor do mundo. A lista destes animais também inclui o camundongo-doméstico (Mus musculus), o rato-negro (Rattus rattus), os pombos (Columba livia), o pardal (Passer domesticus), a lebre (Lepus europaeus), o porco-mateiro (Sus scrofa), a rã-touro (Rana catesbeiana), a lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia), a carpa-cabeçuda (Anstichtys nobilis) e a tilápia-do-nilo (Sarotherodon niloticus), entre outras. Todas estas espécies domésticas e domesticadas costumam invadir e ocupar nichos ecológicos de espécies selvagens, competindo por espaço e alimentos, sob risco de levar as espécies nativas ao declínio populacional.

Quanto às atividades de produção – agricultura, pecuária e criação de animais, além da mineração, impactam diretamente as áreas naturais – matas, campos e banhados passam por alterações significativas de todos os tipos para permitir seu uso em atividade humanas: flora e fauna silvestres, simplesmente, perdem seus espaços e precisam migrar para sobreviver. As espécies vegetais têm grande desvantagem neste quesito e, caso não consigam dispersar sementes, frutos e brotos na direção de outras terras, estarão fadadas a desaparecer.

Manchas urbanas são consumidoras vorazes de energia e combustíveis, que são transformados em luz, calor, alimentos, produtos e transporte – a iluminação noturna das ruas e avenidas, citando um exemplo, podem confundir espécies de hábito diurno como os pássaros e alterar os seus ciclos de atividade. A queima de lenha em lareiras ou a fumaça liberada por carros, caminhões e ônibus provocam a poluição do ar, levando a fuga de diversas espécies das proximidades dos centros urbanos. Os ruídos excessivos nas cidades, estradas, ferrovias, portos e também os ruídos produzidos pelas embarcações, também espantam populações de animais e provocam alterações importantes nos habitats.

No próximo post falaremos das aves do Guaíba.

A BIODIVERSIDADE AMEAÇADA DO LAGO GUAÍBA, OU OS PESCADORES DO DOURADO “PERDIDO”

Dourado no Guaíba

O Oceano Pacífico, com uma área total de 180 milhões de km², é, disparado, o maior ecossistema do planeta Terra. A área do Oceano Pacífico cobre quase 1/3 da superfície terrestre e suas águas equivalem a quase metade do volume e da superfície de todos os oceanos do planeta. Em meio a tanta água, ilhas vulcânicas distantes de qualquer continente surgiram ao longo das eras – de massas estéreis de rocha ígnea, essas ilhas passaram a ser colonizadas inicialmente por líquens e, em sequência, por arbustos, coqueiros e árvores de grande porte. Aves, pequenos répteis, crustáceos e insetos foram chegando aos poucos. Os fortes ventos alísios e as correntes oceânicas que circundam os oceanos foram as responsáveis pelo transporte de sementes, larvas, cocos e vegetação flutuante – sistemas de transporte dos mais eficiente. 

O explorador e cartógrafo inglês James Cook (1728-1779), no comando do navio HMS Endeavour, realizou uma extensa expedição científica em toda a região do Oceano Pacífico a partir de 1768, sob patrocínio da Royal Society. No total, foram três viagens até a fatídica morte do Capitão Cook em uma luta com nativos nas ilhas do Havaí. Nestas viagens, os expedicionários descobriram e visitaram inúmeras ilhas oceânicas isoladas – os cientistas ficaram surpresos ao encontrar inúmeros animais domésticos conhecidos desde longa data pelos europeus como galinhas e porcos. Entre as espécies vegetais, uma das mais surpreendentes descobertas foi a batata-doce, uma espécie originária da América do Sul. Estudos realizados posteriormente revelaram que essas espécies animais e vegetais foram introduzidas nas ilhas a partir da colonização pelos povos polinésios, que iniciaram uma das maiores sagas migratórias da história da humanidade a partir de 1.200 a.C, inclusive visitando as Américas e tendo contatos com os indígenas locais. 

Usei esta breve citação do Oceano Pacífico para lembrar que não existe nenhum ecossistema isolado em nosso planeta, por mais distante que possa estar. Quando falamos do Lago Guaíba, temos de ter em mente que as relações ecológicas e físicas do corpo d’água vão muito além de suas margens. O Guaíba faz a ligação entre as ilhas do Delta do Jacuí e a Lagoa dos Patos, centro do maior e mais complexo sistema lagunar do Brasil. Por sua vez, esse complexo lacustre funciona como uma ligação natural entre o Oceano Atlântico e todo o sistema de rios e arroios que desaguam no Guaíba. Seguindo essa visão sistêmica, que enxerga todo esse complexo conjunto de corpos d’água como uma “entidade” única, quando um morador de São Francisco de Paula, no alto da Serra Gaúcha, dá descarga no banheiro da sua casa ou quando um curtume em Novo Hamburgo despeja algum efluente industrial num arroio, esses contaminantes podem afetar diretamente um pinguim de Magalhães, espécie que vive na Patagônia, no Sul do continente, mas que, em certas épocas do ano, passa meses nas águas oceânicas das costas da região Sul Brasil, se alimentando de peixes e crustáceos. A surpreendente ligação pode estar no linguado (Paralichthys orbignyanus) ou no dourado (Salminus brasiliensis – vide foto), espécies marinhas que frequentam (atualmente com uma frequência bem menor) a Lagoa dos Patos e o Guaíba – alevinos destes peixes, nascidos nos juncais dos lagos e que migram para as águas do Oceano Atlântico quando já estão crescidos, são um apetitoso petisco para os pinguins esfomeados: qualquer contaminante presente nas águas doces poderá acabar carregado para as águas salgadas pelos peixinhos. 

A região hidrográfica do Lago Guaíba compreende uma área total de 84.700 km², onde vive uma população de 7 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 250 municípios, sendo que a população urbana corresponde a 83,5% e a população rural 16,5%. São 9 bacias hidrográficas e 30 microbacias (que correspondem aos arroios ou pequenos cursos d’água que desaguam diretamente no Lago Guaíba). A região responde por 86% do PIB – Produto Interno Bruto do Estado do Rio Grande do Sul. Vejam que são números altamente relevantes
 
Estima-se que, usando-se dados de um relatório do Pró-Guaíba do ano 2.000, 960 mil m³ de esgotos domésticos, 890 m³ de esgotos e resíduos industriais, 16.500 litros de agrotóxicos e 3.700 toneladas de lixo são despejados ou lançados nas águas da região hidrográfica do Guaíba diariamente. A conta também precisa incluir uma grande quantidade de sedimentos resultantes do carreamento de solos expostos por desmatamentos e queimadas, além dos danos biológicos provocados pela destruição de banhados e matas ciliares, que afetam diretamente toda a rica biodiversidade associada aos corpos d’água do sistema hidrográfico. Evidentemente, todo este “conjunto da obra” têm repercussões na biodiversidade específica do Lago Guaíba. 

Vamos começar falando dos peixes – as águas do Lago Guaíba são o habitat de cerca de 56 espécies de peixes residentes permanentes, sendo que 10 espécies são classificadas com valor econômico, ou seja, são as espécies mais buscadas pelos pescadores. A lista inclui: branca, peixe-cachorro ou tambicu (Oligosarcus jenynsii e Oligosarcus robustus), pintado (Pimelodus pintado), jundiá (Rhamdia quelen), grumatã (Prochilodus lineatus), piava (Leporinus obtusidens), traíra (Hoplias malabaricus) e voga (Schizodon jacuiensis). Também existem as espécies migratórias, que utilizam o Guaíba como um corredor de passagem para acesso ao Delta do Jacuí e cabeceiras dos rios formadores das diferentes bacias e microbacias. Um grande exemplo já citado é o dourado, uma espécie que já foi uma das mais apreciadas na culinária gaúcha, que hoje é raríssima nas águas do Lago Guaíba. 

A redução dos estoques pesqueiros e o desaparecimento de espécies, conforme já comentamos em postagem anterior, tem inviabilizado o trabalho de milhares de pescadores tradicionais, que a várias gerações tiravam o seu sustento das águas do Delta do Jacuí e do Lago Guaíba. Além dos níveis extremos de poluição e de lixo nas águas, que atingem diretamente os peixes, existem outros fatores que impactam diretamente a sobrevivência de inúmeras espécies: 

  • Nos sedimentos rasos de oceanos, lagos e rios, sobrevivem comunidades de algas, crustáceos, moluscos e vermes conhecidos como comunidades bênticas ou bentônicas. Essas criaturas e plantas, grande parte de dimensões microscópicas, formam a base da cadeia alimentar das águas. Para que todos tenham ideia do tamanho destas criaturas, algumas espécies tem uma densidade de 5 indivíduos por grão de areia. A sedimentação fora de controle, as cavas de areia e a poluição das águas são fatais para as comunidades bentônicas – sem o alimento proporcionado por estes sistemas, toda a cadeia alimentar do Guaíba fica prejudicada;
  • Outra fonte importante de problemas ambientais está ligada a invasão do mexilhão dourado nas águas do Guaíba e dos rios e arroios de toda a região hidrográfica. O mexilhão dourado é uma espécie exótica que chegou ao continente americano através da água de lastro de navios cargueiros que, para equilibrar a carga, bombeiam água do oceano e enchem tanques de lastro ao longo da embarcação – quando chegam ao porto de destino, esses cargueiros esvaziam os tanques e liberam junto com a água qualquer espécie marinha que foi aprisionada nestes tanques. O mexilhão dourado se fixa na raiz dos juncos e outras plantas aquáticas do Lago, reduzindo a resistência das plantas à força dos ventos e das ondas. As áreas de juncais e de outras espécies vegetais aquáticas são berçários naturais de peixes e crustáceos – sem estes ambientes, há um forte declínio populacional de espécies;
  • A pesca e a sobre pesca dão o golpe final, reduzindo ainda mais o número de indivíduos, levando espécies inteiras ao risco iminente de extinção; 
  • Esse conjunto de agressões pode levar ao isolamento de grupos de peixes de uma espécie em um determinado rio, o que ao longo do tempo pode levar a uma redução da diversidade genética e enfraquecimento reprodutivo dos indivíduos, o que pode levar o grupo à extinção. 

Continuamos na próxima postagem.

O DESPEJO DE LIXO NAS ÁGUAS DO LAGO GUAÍBA, OU RELEMBRANDO AUGUST DE SAINT-HILARIE

Sujeira no Guaíba

Há exatos dois meses, um fenômeno climático provocado por fortes ventos, causou um significativo recuo do mar nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Ventos fortes vindos do Nordeste e soprando em paralelo com o litoral do Brasil, empurraram as águas do mar no sentido Sudoeste. Esse fenômeno coincidiu com o período da lua cheia e intensificou a maré baixa, que em alguns pontos do litoral provocou um recuo do mar da ordem de 50 metros. Uma das consequências deste fenômeno no mar atingiu o Lago Guaíba e causou muita indignação entre muitos cidadãos Porto-alegrenses: as águas baixaram quase um metro e revelaram uma faixa de areia coberta com uma montanha de lixo.

Em toda a orla de Porto Alegre e também nas inúmeras ilhotas que se formaram sobre os bancos de areia, se avistavam montanhas de lixo e de resíduos de todas as espécies: sacos plásticos, latas, pneus, garrafas Pet, peças de carros, restos de móveis, brinquedos, entre muitos outros. O Departamento de Limpeza Pública de Porto Alegre aproveitou a oportunidade e despachou equipes de servidores (vide foto) para recolher o lixo à mostra: foram recolhidas 34 toneladas de resíduos apenas no primeiro dia de trabalho – em quatro dias, o volume total de resíduos alcançou a marca de 76 toneladas. A campeã em sujeira foi a região central da cidade.

Apesar do volume de resíduos coletados em um único dia impressionar, esta quantidade representa apenas a ponta de um gigantesco “iceberg” – no fundo do Lago Guaíba, misturado com muito lodo e areia, existe uma camada muito grossa de lixo e entulhos. Em uma publicação anterior, eu comentei sobre as dificuldades que os iatistas dos muitos clubes náuticos do Guaíba enfrentam para navegar no Lago. Por todos os lados, se avistam extensos bancos de areia, que podem ser fatais para navegantes de primeira viagem no Guaíba. Esportistas mais velhos falam que a profundidade do Lago nos dias atuais é bem menor do que já foi em décadas passadas.

Apesar de parecer um fenômeno recente, o despejo de resíduos no Guaíba é uma prática centenária das populações da região do entorno do Lago. Um dos primeiros registros conhecidos sobre a poluição das águas do Guaíba coube ao cientista francês August de Saint-Hilarie, que esteve em Porto Alegre e em 1822 registrou em seu diário:

Fácil perceber-se, desde o primeiro instante, que Porto Alegre é uma cidade nova; todas as casas são novas, e muitas ainda em construção; mas depois do Rio de Janeiro, não tinha ainda visto uma cidade tão imunda, talvez mesmo a capital não seja tanto…

As encruzilhadas, os terrenos baldios e, principalmente, as margens da lagoa são entulhadas de sujeira; os habitantes só bebem água da lagoa e, continuamente, veem-se negros encher seus cântaros no mesmo lugar em que os outros acabam de lavar as mais emporcalhadas vasilhas.

A cidade de Porto Alegre, sozinha, gera entre 1.600 e 1.800 toneladas de resíduos sólidos a cada dia, considerando o lixo orgânico, os resíduos recicláveis, os resíduos resultantes da varrição das vias e logradouros da cidade e resíduos em geral. Apesar da cidade ter sido uma das pioneiras na implantação da coleta seletiva ainda no início da década de 1990, os serviços de limpeza pública ainda estão longe do ideal. Um estudo feito em 2016 pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, feito a pedido do Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos, demonstrou que apenas 4,6% dos recicláveis gerados na Capital são efetivamente aproveitados. Outro dado preocupante: de acordo com Departamento de Limpeza Pública, somente em materiais recicláveis que são descartados indevidamente junto com o lixo comum, são cerca de 260 toneladas a cada dia. O órgão calcula que existem cerca de 1.000 pontos de descarte irregular de resíduos em toda a cidade, especialmente terrenos baldios, que são usados pela população e por empresas, onde toneladas de lixo e entulho são descartados diariamente – muitos destes resíduos acabam carreados para os arroios que cruzam o município e acabam chegando ao Guaíba.

Um projeto piloto criado pelo Departamento de Limpeza Pública, em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o objetivo de monitorar e reduzir a quantidade de lixo arrastado pelas águas, instalou um ecobarreira flutuante no Arroio Dilúvio – diariamente, os resíduos retidos na barreira foram recolhidos e pesados por uma equipe de pesquisadores. Em um ano e meio, o projeto recolheu 250 toneladas de resíduos, onde se incluem: peças de isopor, sacolas plásticas, garrafas Pet, restos de móveis, animais mortos, entre outros. E olhem que estamos falando de um único arroio da cidade de Porto Alegre. Considerando a quantidade total de cidades da bacia hidrográfica e os inúmeros rios e arroios que desaguam no Guaíba, pode-se imaginar o volume total de lixo que chega diariamente ao Lago. Esse dado vem de encontro a uma pesquisa sobre a percepção ambiental dos pescadores, estudo também realizado por pesquisadores da UFRGS e citado na minha última postagem, onde os pescadores citaram o descarte de lixo nas águas como o segundo maior problema ambiental no Guaíba, ficando atrás apenas do despejo de esgotos.

O lançamento de esgotos domésticos e industriais, combinado com o carreamento de resíduos de agrotóxicos, são, de longe, as maiores fontes de poluição das águas do Lago Guaíba. Entretanto, como mostrado rapidamente neste texto, o descarte de lixo e de outros resíduos sólidos nas águas não é nada desprezível e tem um peso enorme na degradação do Guaíba. Existe, porém, um grande problema, que talvez não fique tão claro à primeira vista: por maiores que sejam os investimentos em infraestrutura de saneamento básico, onde se incluem redes coletoras e estações de tratamento de esgotos, o despejo irregular de lixo e de resíduos nos corpos d’água é uma questão de educação ambiental – só poderá ser resolvida com a conscientização da população. A questão ganha contornos dramáticos quando se lembra que as águas do Guaíba são fundamentais para o abastecimento de milhões de habitantes em toda a região de entorno do Lago.

Passados quase duzentos anos desde a vista de Saint-Hilarie a Porto Alegre, já não se veem pessoas coletando água em cântaros no Guaíba, mas a sujeira nas águas e nas margens do Lago continuam na mesma…

A POLUIÇÃO DO GUAÍBA, OU AS “GURIAS” DE IPANEMA

Lago Guaíba

A primeira de muitas vezes que estive em Porto Alegre foi em 1980, num voo da hoje lendária Cruzeiro do Sul, com direito a almoço quente e talheres de prata – naqueles tempos voar ainda era uma experiência marcante. Vários amigos fizeram recomendações de pontos turísticos imperdíveis da cidade. Uma senhora, amiga de minha mãe, fez uma indicação que, na hora, pareceu ser uma grande brincadeira: “- não deixe de visitar a Praia de Ipanema!”

E não é que chegando por lá encontrei o calçadão de Ipanema, com praia de rio (naqueles tempos, o Guaíba ainda era considerado um rio), mesinhas nas calçadas com grupos de amigos bebendo cerveja e alguns, mais tradicionalistas, tomando mate. Claro que não poderiam faltar as famosas gurias, forma gaúcha de se referir as garotas, da Ipanema Porto-alegrense.

O bairro de Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, foi criado na década de 1930 e, dada a beleza da orla lacustre e do pôr do sol da região, acabou sendo batizado com o mesmo nome dos famosos bairro e praia da cidade do Rio de Janeiro. O bairro ainda mantém as características da época, com ruas arborizadas e construções baixas e um ar praiano, apesar de estar distante das praias de Tramandaí, Balneário Pinhal e Cidreiras, entre tantas outras do litoral do Rio Grande. O clima de balneário só não é mais completo por que, há muitos anos, as praias estão interditadas para banhos. A razão: os altos índices de poluição das águas do Guaíba.

Durante séculos, o Guaíba foi chamado pelos moradores da região de Lago de Viamão ou Lago de Porto Alegre. O famoso cientista francês Auguste de Saint-Hilarie esteve na região em 1820 e anotou em seu diário que o corpo d’água era um lago. De acordo com registros históricos, durante os séculos XVIII e início do século XIX, o trecho final do rio Jacuí, entre a foz o Delta, era conhecido como rio Guaíba – então, sabe-se lá por qual motivo, todo o lago passou a ser chamado de rio Guaíba. Recentemente, após um grande estudo realizado por especialistas da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a polêmica teve um fim e o Guaíba voltou a ser classificado como um lago.

O Lago Guaíba tem uma área total de 496 km², com um comprimento máximo de 50 km e uma largura que varia entre 900 metros e 19 km. A profundidade média é de 3 metros – os muitos velejadores da cidade afirmam que a profundidade atual é bem menor que esta, com o Lago apresentando inúmeros bancos de areia (vide foto) e de detritos, tornando a prática do esporte arriscada para quem não conhece bem as suas águas. O lago possui ainda um canal de navegação com profundidade entre 4 e 6 metros. Além de Porto Alegre, as águas do Guaíba também banham os municípios de Guaíba, Eldorado do Sul, Barra do Ribeiro e Viamão. O Lago Guaíba desemboca na Lagoa dos Patos e, por fim, as águas vão encontrar o Oceano Atlântico mais ao Sul.

Os principais formadores do Guaíba são os rios Jacuí, dos Sinos, Caí e Gravataí, que contribuem, respectivamente, com volumes de água da ordem de 84,6%, 7,5%, 5,2% e 2,7%, além de receber contribuições de um grande número de arroios. Pelas condições ambientais atuais destes rios, que tratamos ao longo de diversas postagens, fica fácil perceber que a qualidade das águas do Lago Guaíba não é das melhores. A cidade de Porto Alegre, com 1,5 milhão de habitantes, junto com outros municípios do entorno do Lago, também fazem a sua parte, despejando mais de 80% de seus esgotos sem qualquer tipo de tratamento nas águas do Guaíba. O resultado é um Lago com águas altamente poluídas e cada vez menos adequado para o fornecimento de água para o abastecimento das cidades. Aqui vale salientar que, até bem pouco tempo atrás, as águas do Guaíba garantiam 100% do abastecimento da cidade de Porto Alegre e de muitos outros municípios da região.

Quando se analisam as principais fontes de poluição do Lago Guaíba em um mapa, observa-se que os pontos que apresentam águas com as piores qualidades ficam na região do Delta do Jacuí, onde os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul (rios dos Sinos, Gravataí e Caí) desaguam, e ao longo da orla de Porto Alegre, onde inúmeros arroios despejam água contaminada por esgotos e resíduos industriais. Esta é uma situação encontrada com grande frequência na maioria das cidades brasileiras, que cresceram e se desenvolveram sem maiores preocupações em realizar obras de infraestrutura de saneamento básico e que usaram os rios e córregos (chamados de arroios no extremo Sul) como coletores de esgotos.

Na falta de estudos mais atualizados sobre os níveis de poluição no Guaíba, encontrei um interessante estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre a PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS PESCADORES DO LAGO GUAÍBA, que nos dá uma clara visão dos problemas ambientais. Os pescadores estão entre os grupos que mais sofrem com a degradação das águas, fonte do seu trabalho e sustento, e têm observado a redução gradativa da quantidade de peixes no Guaíba. De acordo com a observação dos pescadores, a poluição das águas por esgotos é o principal problema ambiental do Lago Guaíba. O descarte de lixo nas águas vem em segundo lugar, seguido pela extração de areia por dragas em vários pontos do Lago e da contaminação por esgotos de industrias. Pela sua lida diária em embarcações, esses pescadores sabem indicar o local exato onde são feitos os despejos de esgotos e de lixo, além dos locais onde veem os problemas causados pela extração de areia. Os pescadores também entendem que os resíduos de inseticidas, herbicidas e de fertilizantes das muitas plantações ao longo das margens dos rios trazem problemas para o Guaíba.

Um outro problema ambiental importante citado pelos pescadores é o avanço do mexilhão dourado, uma espécie exótica que chegou ao Brasil através da água de lastro despejado por cargueiros estrangeiros em áreas de porto ao longo da costa e que se transformou numa espécie invasora das mais preocupantes. O molusco gruda no casco de seus barcos, muitas vezes entupindo o sistema de refrigeração do motor. O mexilhão dourado também é o responsável pela destruição de extensas áreas de junco, locais onde várias espécies de peixes desovam e onde os alevinos se refugiam – o molusco se fixa na raiz dos juncais, deixando as plantas menos resistentes às forças dos ventos e das ondas. Com a redução da quantidade de peixes no Guaíba, muitos pescadores abandonaram a profissão e passaram a lidar com a terra, especialmente nas ilhas do Delta do Jacuí. Grandes áreas de vegetação nativa foram queimadas para a abertura de campos para a agricultura e a criação de gado; banhados foram drenados e transformados em pequenas áreas de cultivo de arroz – de vítimas da poluição das águas, esses pescadores se transformaram em pequenos agressores ambientais, como tantos outros da grande bacia hidrográfica do Guaíba.

A presença de grandes quantidades de matéria orgânica nas águas devido aos despejos de esgotos gera um outro grande problema: a chamada eutrofização, condição que propicia a superprodução de algas. A eutrofização ocorre quando os níveis de fósforo e nitrogênio, nutrientes naturais dos vegetais, são muito altos – as micro algas presentes na água se multiplicam sem controle deixando grandes regiões do Guaíba com a água na cor verde. Com o processo de fotossíntese destas algas, os níveis de oxigênio dissolvido na água são reduzidos, o que causa a morte das bactérias aeróbias; as bactérias anaeróbias, que retiram o oxigênio que necessitam para sobreviver da putrefação da matéria orgânica, se proliferam – é a decomposição anaeróbia que provoca a liberação do mal cheiro nas águas. Esse mal cheiro liberado pelas águas do Guaíba, juntamente com o aspecto sujo das águas e o lixo flutuante, são as maiores reclamações dos habitantes que vivem perto ou que utilizam sua orla para caminhadas e prática de esportes.

Quanta saudade dos tempos em que programa de Porto-alegrense era pegar uma praia lá em Ipanema…

 

O RIO JACUÍ E O SEU FAMOSO DELTA

Delta do Jacuí

Ao longo de uma sequência de postagens, apresentamos os três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul: o rio dos Sinos, o Gravataí e o Caí, respectivamente o 4°, 5° e 8° rios mais poluídos do Brasil. O forte crescimento populacional, industrial e da agricultura nos municípios atravessados por estes rios está na base desta poluição, que têm origens nos grandes volumes de esgotos sanitários e industriais despejados nos cursos d’água sem qualquer tipo de tratamento, em grandes volumes de lixo descartado em suas águas e margens por falhas nas políticas de coleta e destinação final de resíduos sólidos e também na contaminação das águas por resíduos das grandes plantações, particularmente fertilizantes, herbicidas e inseticidas. A todo este conjunto de problemas se soma a ocupação e destruição de áreas de banhados, ecossistema característico do extremo Sul do país e fundamental para a regulação dos níveis das águas destes rios. As consequências de todo este “pacote” de problemas se refletem na dificuldade de captação de águas com boa qualidade para o abastecimento das populações, enchentes, assoreamento de cursos d’água, carreamento de lixo e entulhos, mortandade de peixes e redução dos habitats de animais silvestres, entre outros problemas.

Além de compartilharem águas poluídas e todo um conjunto de agressões ambientais, os rios dos Sinos, Gravataí e Caí tem um outro ponto em comum – todos desaguam na região conhecida como Delta do Jacuí e, como não poderia ser diferente, arrastam milhões de litros de esgotos e poluentes para este ecossistema. Vamos conhecer um pouco desta importante região e entender os impactos da poluição:

O Delta do Jacuí é formado por um conjunto de ilhas, canais, banhados e charcos que se formaram na região a partir dos sedimentos carreados ao longo de muitas eras pelas águas dos rios dos Sinos, Gravataí, Caí e Jacuí. O rio Jacuí é um dos mais importantes do Rio Grande do Sul, com nascentes na região de Passo Fundo, no Norte do Estado, e aproximadamente 800 km de extensão. O rio Jacuí garante uma vazão de 1.900 m³/s em sua foz na região do Delta, sendo o maior contribuidor para a formação do Lago Guaíba. Um dos maiores problemas ambientais da bacia hidrográfica do rio Jacuí é a intensa extração de carvão, principalmente nas regiões de Charqueadas e São Jerônimo, atividade que causa grandes impactos ambientais. A região atravessada pelo rio tem uso intensivo dos solos em agricultura e pecuária, atividades que retiram grandes quantidades de água para irrigação e dessedentação de rebanhos, devolvendo ao rio águas contaminadas por resíduos de produtos químicos e com sedimentos resultantes de desmatamentos e ocupação de áreas úmidas. Na região do Baixo Jacuí, o rio é impactado por despejos do Polo Petroquímico de Triunfo e de inúmeras indústrias dos ramos químico, plástico, metal mecânico e siderúrgico, entre outras atividades.

A soma de todo este volume de águas forma o Lago Guaíba e, na sequência, a Lagoa dos Patos. Pela sua importância ambiental, o Delta do Jacuí foi transformado em um Parque Estadual em 1975, constituindo uma Unidade de Conservação integral. Engloba áreas dos municípios de Porto Alegre, Canoas, Nova Santa Rita, Triunfo, Charqueadas e Eldorado do Sul sob a justificativa de “manter uma área verde próxima à parte mais urbanizada da capital e pelo fato das águas do delta atuarem como um imenso filtro natural, contribuindo para manter a potabilidade das águas do Guaíba e os bons níveis de produtividade de pescado.” Em 1979 o Parque teve sua área ampliada, passando a ocupar 17.245 hectares. Em 2005 foi criada a Área de Proteção Ambiental Delta do Jacuí, que englobou o Parque Estadual do Delta do Jacuí em seus limites. 

O ecossistema do Delta do Jacuí controla o ritmo das cheias e das vazantes através de ambientes naturais que incluem canais, baías rasas, chamadas de sacos na região Sul, ilhas fluviais e trechos de margens formadas por banhados, florestas aluviais (paludosas e ripárias) e áreas de inundação. Estas áreas de proteção ambiental também são fundamentais para a conservação da flora e da fauna, incluindo-se inúmeras espécies raras e sob risco de extinção. A região do Delta do Jacuí também é importante do ponto de vista histórico e cultural, permitindo a preservação de comunidades tradicionais com seus “saberes e fazeres” populares. Os ambientes protegidos também proporcionam ambientes para o lazer e a recreação das populações.

Todo este conjunto de boas intenções decorrentes da transformação da região em uma Área de Conservação não isenta os ecossistemas dos impactos provocados pelo carreamento de milhares de metros cúbicos de esgotos e de toneladas de resíduos descartados nas águas dos rios tributários.

Uma das facetas mais visíveis da poluição das águas do Delta do Jacuí é a redução da produção de pescado, atividade econômica das mais tradicionais entre os habitantes das ilhas. Pescadores mais antigos falam com saudade da fartura de peixes, de inúmeras espécies, retiradas dos canais nas pescarias de tempos antigos. Os pescadores dos tempos atuais sofrem para conseguir retirar das águas quantidades cada vez menores de peixes – muitas espécies como o dourado e jundiá , que eram comuns, há muito não são vistas com frequência nas águas da região. Estudos realizados por pesquisadores do Laboratório de Ictiologia da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no período entre 1992 e 1997, encontrou deformações físicas em algumas espécies de peixe da região, anomalia provavelmente provocada pelos altos índices de poluição das águas. Desde então os pesquisadores vêm mantendo um acompanhamento constante e estabeleceram pontos de coleta de espécimes na região do Delta do Jacuí e em outros pontos da Lagoa do Guaíba.

Com a decadência da pesca, os habitantes das ilhas do Delta, uma população estimada em 15 mil habitantes em 2003 e que desde a transformação da região numa Área de Proteção nunca tiveram sua situação fundiária resolvida, passaram a se dedicar a outras atividades como a agricultura e a pecuária, atividades que têm provocado fortes impactos na região. Áreas de vegetação são queimadas para a ampliação de pastos e de áreas para plantações. Banhados foram drenados e aterrados, transformadas em plantações de arroz e de outras culturas. A degradação das águas dos rios se estendeu também para as matas e áreas úmidas das terras das ilhas, aumentado ainda mais os problemas ambientais em toda a Lagoa do Guaíba – as praias do Guaíba, incluindo-se na lista a famosa Praia de Ipanema na Zona Sul de Porto Alegre, são impróprias para banho e a captação de água para o abastecimento de grande parte da capital gaúcha, que tradicionalmente era feita em diversos pontos da Lagoa, está cada vez mais complicada. A empresa municipal de saneamento de Porto Alegre trabalha para a construção de uma rede de tubulações que permita a captação de água na região na foz do rio Jacuí, que apresenta um qualidade bem superior ao Lago do Guaíba, o que é uma grande ironia para uma cidade cercada de tanta água.

Durante séculos, cidades e populações usaram e abusaram das águas dos cursos em suas vizinhanças, sem nunca mostrarem preocupações com as cidades e populações a jusante, nas partes mais baixas dos rios. O exemplo que mostramos nas últimas publicações, quando falamos dos rios mais poluídos do Rio Grande do Sul, deixou muito claro que continuar agindo desta maneira não é mais possível. As cidades têm todo o direito de usar toda a água que necessitam para abastecer suas populações, indústrias e atividades agropecuárias – respeitando-se é claro alguns limites e evitando-se o desperdício, porém, essas cidades têm a obrigação de coletar e tratar seus esgotos, devolvendo água em condições adequadas de uso pelas populações que vivem rio abaixo. Ficar empurrando a poluição para frente é uma atitude que não tem mais lugar num mundo com recursos hídricos cada vez mais escassos – sempre existirá uma cidade ou um delta como o do Jacuí para arcar com o ônus da poluição criada por outros.

RIO CAÍ, O 8° RIO MAIS POLUÍDO DO BRASIL

Ruo Caí

Nas últimas semanas, minhas postagens têm focado os problemas causados pela poluição de importantes rios do Estado do Rio Grande do Sul – já falamos do rio dos Sinos e rio Gravataí, respectivamente, o 4° e o 5° rios mais poluídos do Brasil. São rios muito próximos geograficamente, que atravessam cidades com histórias muito parecidas e que apresentam problemas muito semelhantes. A cada postagem que escrevo, tenho ficado com a sensação de estar sendo repetitivo, tamanha a semelhança dos problemas. Hoje, infelizmente, vou precisar ser repetitivo e falar dos problemas de um terceiro rio, que junto com os rios dos Sinos e Gravataí, formam a trinca dos três rios mais poluídos do Rio Grande do Sul – vamos falar do rio Caí.

Com 250 km de extensão, o rio Caí tem nascentes no alto da Serra Gaúcha, no município de São Francisco de Paula, a 1.000 metros de altitude. Sua bacia hidrográfica tem aproximadamente 4.950 km², abrangendo total ou parcialmente 42 municípios, onde vive uma população total estimada em 490 mil pessoas. Entre estes municípios podemos destacar Gramado, Canela, Caxias do Sul e Nova Petrópolis, conhecidos nacionalmente entre os turistas de todo o Brasil que visitam o Rio Grande do Sul. Aproximadamente 400 mil pessoas são abastecidas com as águas da bacia hidrográfica do rio Caí, sendo que existem municípios que captam a água de afluentes e outros, principalmente na região do Baixo Caí, captam água diretamente da calha deste rio. A foz do rio também fica no Delta do rio Jacuí, a exemplo dos rios dos Sinos e Gravataí. O nome do rio deriva do termo em tupi antigo Ka’i e significa algo como “rio dos macacos-pregos.”

O rio Caí possui uma extensa rede de afluentes, destacando-se os arroios Cará, Cadeia, Forromeco, Mauá, Maratá e Piaí, que contribuem com muita água poluída por esgotos domésticos, industriais e resíduos sólidos, e que dão sua contribuição para colocar o rio Caí na lista dos “10 mais” do Brasil. Dos 42 municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do rio Caí, 38 lançam esgotos domésticos sem qualquer tipo de tratamento nas águas de inúmeros pequenos cursos d’água (conhecidos como arroios na região Sul e como córregos em outras partes do país), contaminação que acaba chegando ao canal central do rio Caí. A média do tratamento de esgotos no Rio Grande do Sul é de 15%, o que está abaixo da média nacional de 42,7% – nos municípios que formam a bacia hidrográfica do rio Caí, está média é muito mais baixa, com índices inferiores a 5%.

Para entendermos claramente o problema da poluição do rio Caí, convém analisar os usos das águas ao longo do curso do rio, que é dividido em três partes distintas: Alto Caí, Médio Caí e Baixo Caí. Vejam alguns dados retirados do Relatório Qualidade das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Caí, publicado sob responsabilidade da FEPAM– Fundação Estadual de Proteção Ambiental.

O Alto Caí vai até a foz do Arroio Caracol, em cujo trecho estão as barragens do Salto, Blang e Divisa, destinadas a geração de energia elétrica em 4 unidades do tipo PCH -Pequena Central Hidrelétrica e acumulação de água para transposição para a bacia do rio dos Sinos. As águas destes reservatórios são de boa qualidade, usadas pelas populações para banhos e pesca artesanal, especialmente na barragem do Salto em São Francisco de Paula.

As cidades de Canela e de Gramado captam água no rio Santa Cruz; São Francisco de Paula capta água numa barragem no Arroio Querência. Dos esgotos gerados nestas cidades, apenas Gramado e Canela tratam uma parte dos seus efluentes.

O Médio Caí vai da foz do Arroio Caracol até o município de São Sebastião do Caí, onde estão as áreas mais urbanizadas e industrializadas, especialmente nos municípios de Caxias do Sul e Farroupilha, sendo o trecho mais poluído do rio. Estima-se que a carga de esgotos industriais remanescentes destes municípios que chegam até o rio Caí é de 4.650 toneladas/ano e os esgotos domésticos é da ordem de 3.730 toneladas/ano. Os esgotos domésticos e industriais são lançados sem tratamento em redes de águas pluviais e em cursos d´água que cruzam as cidades, tendo como destino final a calha do rio Caí.

Assim como ocorre com os municípios do trecho Alto, a captação de água para o abastecimento de cidades no Médio Caí também é feita em arroios e barragens. Os principais pontos de captação de água são a Represa de Galópolis em Caxias do Sul, Arroio Feitoria em Dois Irmãos e Arroios Santa Isabel e Ackermann em Nova Petrópolis. Diversas industrias realizam a captação de águas diretamente na calha do rio Caí, destacando-se uma cervejaria no município de Feliz que capta 17 mil m³/mês.

As águas do Médio Caí também têm larga aplicação na irrigação de lavouras, especialmente de hortaliças, morangos, viveiros produtores de mudas de citros e também de produção de flores. Merece destaque também a citação de atividades de mineração em municípios deste trecho do rio, principalmente argila, areia, cascalho, arenito e basalto, com destaque para a mineração de argila em Vale Real e de cascalho em Feliz. Atividades mineradores têm grande potencial para contaminação e poluição de corpos d’água.

O Baixo Caí vai do município de São Sebastião do Caí até a foz no Delta do Jacuí. Este trecho do rio é frequentemente assolado por enchentes, que atingem os municípios de Bom Princípio, Feliz, Harmonia, Montenegro, Pareci Novo, São Sebastião do Caí e Vale Real. As terras planas desta região são usadas principalmente para o plantio de arroz e para pecuária.

Uma característica marcante deste trecho é o grande número de cidades localizadas próximas ao rio Caí. Como consequência desta proximidade, as cidades captam água diretamente do leito do rio, com destaque para as cidades de Montenegro e São Sebastião do Caí, e também o Polo Petroquímico de Triunfo. Inúmeras indústrias e frigoríficos também captam águas diretamente do leito do rio Caí para uso em seus processos de produção após realizar um processo de tratamento e potabilização. O outro lado desta proximidade se reflete num maior lançamento de esgotos, especialmente domésticos, diretamente nas águas do rio Caí – nenhum município do trecho do Baixo Caí trata seus esgotos domésticos e industriais.

Merecem destaque os problemas associados aos esgotos industriais gerados pelos curtumes instalados ao longo dos Arroio Cadeia, atividade geradora de grandes volumes de poluentes químicos como os sais de cromo e resíduos de carne, gordura e pelos, que acabam lançados junto com os efluentes – tratamos longamente deste tema em postagens sobre o rio dos Sinos. Já o Polo Petroquímico de Triunfo é responsável pela geração de uma carga de esgotos industriais equivalente a 800 kg/dia. Neste trecho da bacia hidrográfica também existe mineração intensa de argila, areia e cascalho, principalmente nos municípios de Montenegro e Triunfo.

Esta rápida exposição dos usos das águas do rio Caí mostra que em toda a sua bacia hidrográfica encontramos despejos de grandes volumes de esgotos domésticos e industriais sem qualquer tipo de tratamento, atividades de mineração que geram grandes volumes de sedimentos e que acabam carreados para a calha central do rio, grandes plantações, especialmente de arroz, atividade que retira grandes volumes de água para uso em irrigação e que devolve excedentes de água contaminados com resíduos químicos de fertilizantes, herbicidas e inseticidas, entre outras agressões. Não poderia se esperar um outro resultado senão um rio altamente comprometido pela poluição, sedimentos dos mais diversos tipos e muito lixo.

Até a nossa próxima postagem, quando falaremos do rio Jacuí e do seu famoso Delta.