O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO VALE DO RIO GRAVATAÍ

Tom & Jerry

Abastecer milhões de pessoas com água potável, dia após dia, é um desafio interminável para cidades de todos os tamanhos ao redor do mundo. Com populações aumentando sem parar, tanto pelo crescimento vegetativo quanto pela migração de grandes contingentes que saem do campo em busca de melhores oportunidades de vida nas cidades, as empresas de saneamento buscam incansavelmente por fontes de água – grande parte das fontes de água tradicionais sofrem com a poluição pelos esgotos gerados pelas próprias cidades. A luta pela água lembra aqueles antigos desenhos animados, onde o gato nunca consegue pegar o rato (vide imagem com os já lendários Tom & Jerry) – é uma luta contínua e sem trégua.

O Rio Gravataí é o responsável pelo abastecimento de mais de 1 milhão de pessoas nas cidades de Gravataí, Cachoeirinha, Alvorada, Viamão, Glorinha, Santo Antônio da Patrulha, Canoas (zona Norte) e Porto Alegre (zona Norte). Este é o mesmo rio maltratado, sujo e poluído, sobre o qual estamos tratando nas últimas postagens. Até 50 anos atrás, o Gravataí era um rio de águas cristalinas e volumosas, que escorriam desde as áreas úmidas do Banhado Grande e desciam lentamente na direção das ilhas do Delta do Jacuí. Essas águas eram cheias de vida, com fartos cardumes de peixes, bandos de aves, mamíferos e repteis, além de uma flora exuberante. Em pouco mais de meio século, o crescimento desenfreado das cidades, das indústrias e das plantações, comprometeu a vida e a qualidade ambiental do rio Gravataí, que em muitos trechos agoniza a olhos vistos.

Apesar de complicado e, muitas vezes dramático, o abastecimento de populações é tarefa inadiável e essencial – verdadeiros milagres precisam ser feitos a cada dia para manter torneiras vertendo água. Deixem-me relembrar um exemplo citado em publicações anteriores:

Por várias vezes, ao longo do último ano, fiz referências ao famoso rio Guandu, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O Guandu era um pequeno e pouco importante rio de montanha, com nascentes na Região Serrana e foz na Baia de Sepetiba – graças a todo um conjunto de obras para geração de energia elétrica, o rio Guandu passou a receber grandes volumes de águas transpostas a partir do rio Paraíba do Sul e rapidamente se transformou num importante manancial de abastecimento. Porém, repetindo uma história já muito conhecida, as cidades ao longo de sua bacia hidrográfica cresceram sem planejamento e sem saneamento básico – o insubstituível Guandu entrou na lista dos rios mais poluídos do Brasil – calcula-se que 4 bilhões de litros de esgotos sejam despejados diariamente nas águas da sua bacia hidrográfica. Atualmente, para conseguir tratar e distribuir as águas do rio Guandu para as populações, são utilizadas, diariamente, 140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico, entre outros produtos químicos. Em dias de chuva, com o aumento do carreamento de esgotos e de lixo para o canal do rio e para as áreas de captação da Estação de Tratamento de Água, esse volume de produtos químicos pode até triplicar. “Milagrosamente”, as águas do rio Guandu conseguem abastecer 8 milhões de pessoas a cada dia.

As nascentes de água que alimentam o Banhado Grande, principal formador do rio Gravataí, se espalham por uma extensa área, com altitudes que chegam aos 400 metros. As águas que jorram de inúmeras nascentes se somam as águas das chuvas e correm na direção das terras baixas dos banhados. Funcionando como uma espécie de esponja, os banhados acumulam grandes volumes de água nos períodos chuvosos e liberam gradativamente essa água nos períodos de seca. O Banhado Grande, que originalmente ocupava uma área de 450 km², manteve essa função de regulador das vazões do rio Gravataí até o início da década de 1970, permitindo que os sistemas de abastecimento das cidades da região funcionassem de maneira regular. Conforme comentamos na postagem anterior, foram realizadas obras de drenagem e de construção de um canal de aproximadamente 20 km de extensão, de forma a permitir a liberação de grandes áreas para ampliação de plantações. A perda de água resultante destas obras reduziu a área do Banhado Grande para pouco mais de 50 km² e criou uma série de problemas ambientais para plantas e animais, que perderam grande parte dos seus habitats, e para populações das cidades, que passaram a conviver com as intensas flutuações dos volumes de água do rio Gravataí – nos períodos chuvosos, as águas não encontram mais os obstáculos que existiam no passado, quando a vegetação do banhado absorvia grandes volumes, e liberava a água aos poucos: o nível do rio aumenta drasticamente e, em poucos, dias, toda a água corre na direção da Lagoa do Guaíba. Nos períodos de seca, sem poder contar com as reservas dos banhados, o rio definha e, em muitos trechos, se apresenta como um filete de água altamente poluído.

Estas bruscas oscilações no volume de água e na força das correntezas causam problemas extremos nos principais pontos de captação de água no rio Gravataí: Gravataí, Alvorada e Cachoeirinha. Nos períodos de seca, o nível do rio abaixa muito e os pontos onde é feita a captação da água sofrem com o assoreamento e o acúmulo de lixo e resíduos. O processo inicial do tratamento da água, que se preocupa justamente com a retirada da areia e dos resíduos sólidos grosseiros é bastante prejudicado pelo excesso de materiais sólidos. No ponto de captação de água de Gravataí, que é o mais próximo das áreas de banhados, a água costuma apresentar altos níveis de poluentes químicos, resultantes da presença de resíduos de fertilizantes, de herbicidas e de inseticidas utilizados nas plantações, especialmente nos arrozais. Nos períodos de chuva, a água se apresenta turva, com altos níveis de sedimentos em suspensão, o que cria dificuldades nos processos secundários e terciários do tratamento da água – muitas vezes é necessária a interrupção dos processos de tratamento para a limpeza dos tanques, prejudicando o abastecimento de milhares de residências. A violência das correntezas muitas vezes causa danos nas tubulações de captação de água, também exigindo interrupções para reparos emergenciais.

Nos pontos de captação a jusante, em Alvorada e Cachoeirinha, há o problema adicional da concentração cada vez maior dos esgotos domésticos e industriais, que são lançados pelas cidades sem tratamento nas águas de inúmeros rios e arroios, e que acabam chegando às águas do rio Gravataí. De acordo com dados da FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental, as indústrias da região lançavam uma carga orgânica bruta de aproximadamente 4,3 mil toneladas/ano nas águas do rio Gravataí até 1991 – com fiscalização, controle e tratamento destes efluentes, a carga remanescente caiu para 1,4 mil toneladas/ano. Já os esgotos domésticos continuam, com despejos da ordem de 14 mil toneladas/ano. E assim como acontece com o rio Guandu, citado no início desta postagem, dezenas e mais dezenas de toneladas de produtos químicos precisam ser utilizados nas ETAs – Estações de Tratamento de Água, da região para retirar das águas os esgotos e a sujeira lançados pelas populações das cidades.

Como se já não bastasse tudo isso, há um grave problema adicional: quando o nível do rio Gravataí fica muito baixo, existe a formação de uma correnteza negativa, inundando o canal do rio com as águas poluídas da Lagoa do Guaíba, que vão se juntar com as águas poluídas do rio.

E a luta para o abastecimento de água das cidades continua sem fim, como o gato que persegue o rato nas animações. Porém, há um risco cada vez maior do gato e do rato morrerem envenenados com tanta poluição.

Continuamos no próximo post.

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