O BANHADO GRANDE, OU AS NASCENTES DO RIO GRAVATAÍ

Banhado Grande

Os banhados são áreas planas e alagadiças, típicas das regiões dos pampas gaúchos. São áreas de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres, que têm uma série de funções ecológicas importantes – uma das mais importantes é a capacidade que as áreas de banhado têm de armazenar grandes quantidades de água nos períodos chuvosos e liberar lentamente essa água acumulada nos períodos de seca. Os banhados são, literalmente, ecossistemas reguladores dos fluxos de água dos rios e abrigam uma grande biodiversidade de espécies animais e vegetais.

O Banhado Grande, localizado entre os municípios de Santo Antônio da Patrulha, Gravataí, Glorinha e Viamão, reúne todas estas características, recebendo contribuições de inúmeros cursos d’água de diversos municípios, inclusive de áreas dos Banhados Chico Lomã e dos Pachecos. O Banhado Grande é o principal formador do rio Gravataí. Por sua importância regional, a região foi elevada a APA – Área de Proteção Ambiental, a partir do Decreto Estadual n° 38.971, de 23 de outubro de 1998. Com uma área total de 133 mil hectares, esta APA reúne áreas do Banhado Grande, Banhado de Chico Lomã e Banhado dos Pachecos, tendo como principais objetivos a proteção dos ecossistemas naturais restantes e a recuperação das áreas degradadas.

Formado pelos biomas Pampa e Mata Atlântica, o Banhado Grande ocupa uma área correspondente a 2/3 da bacia hidrográfica do rio Gravataí. A vegetação original é composta predominantemente por espécies de banhados e de matas de restinga, sobre os solos arenosos da Coxilha das Lombas, que é uma região com as chamadas paleodunas, resquícios de tempos antigos quando a região foi coberta pelas águas do Oceano Atlântico. Entre as espécies vegetais destacam-se a tarumã, árvore símbolo da cidade de Gravataí, o angico, o açoita-cavalo, a guajuvira, os araçás, as pitangueiras, entre outras espécies. Na fauna, são destaques os famosos ratões-do-banhado, as capivaras, os lobos guarás, jacarés-do-papo-amarelo e os cervos-do-pantanal – aliás, a região é o último refúgio destes animais na região Sul do Brasil. Um outro animal, o curioso tuco tuco (Ctenomys lami), é uma espécie de roedor que lembra uma pequena marmota americana e só é encontrada na região da Coxilha das Lombas – a espécie está sob forte ameaça de extinção pela diminuição do seu habitat.  Os terrenos úmidos também possuem uma rica variedade de répteis e anfíbios. Entre as aves merecem destaque o inhambu, a garça branca, a pomba, a saracura e o araquã, uma espécie de faisão, além de uma infinidade de aves migratórias que buscam refúgio e alimentação nos banhados durante as escalas de suas longas jornadas.

Os solos dos banhados possuem grandes volumes de matéria orgânica em decomposição, resultado do acúmulo de folhas, gramíneas e juncos mortos – estas características tornam estes solos altamente férteis e cobiçados pelos agricultores. As áreas de entorno do Banhado Grande vêm sendo ocupadas por grandes extensões de cultivos agrícolas, especialmente arroz, desde a década de 1940. Estes produtores, inicialmente, passaram a abrir redes de canais para a irrigação de suas plantações – esses canais passaram a funcionar como drenos, reduzindo gradativamente as áreas encharcadas e aumentando as áreas agricultáveis, que avançaram sem controle contra as terras dos banhados.

Além dos impactos diretos resultantes da redução das áreas dos banhados, a produção do arroz necessita de grandes volumes de água, que é bombeada ininterruptamente das áreas úmidas e dos rios, geralmente nos meses de janeiro e fevereiro, época de maior demanda pela cultura e, coincidentemente, auge do período das chuvas, quando os banhados acumulam grandes estoques de água. As áreas de banhados, que funcionam como esponjas naturais, acumulam água nos períodos de chuva e fornecem água nos períodos de seca – sem poder acumular a água desviada para os arrozais, os banhados ficarão com estoques muito reduzidos para fornecimento ao meio ambiente no período das secas. Um outro problema grave, resultante do bombeamento de água para os arrozais, são os resíduos de fertilizantes e de pesticidas que são carreados com as águas excedentes e que voltam para as áreas de banhado. Esses produtos químicos interferem com os ciclos de vida de algas, insetos e pequenos crustáceos, que vivem em meio a água e vegetação do banhado, e que estão na base da cadeia alimentar do ecossistema, sendo fundamentais para a alimentação de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis. Estes resíduos químicos também podem ser prejudiciais para as populações que são abastecidas com a água dos rios formados a partir do banhado; no nosso caso falamos do rio Gravataí, responsável pelo abastecimento de mais de um milhão de pessoas na Região Metropolitana de Porto Alegre.

De acordo com dados da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a área original ocupada por esse conjunto de banhados correspondia a 450 km²; a partir da década de 1970, com o sistemático avanço das plantações de arroz e com a implantação dos canais de irrigação, incluindo-se também as obras realizadas pelo DNOS – Departamento Nacional de Obras e Saneamento, as áreas de banhado sofreram uma substancial diminuição – em meados da década de 1980, estas áreas estavam reduzidas a apenas 138 km²; no início da década de 1990, os banhados da região estavam limitados a uma área equivalente a 60 km². Estima-se que a área atual do Banhado Grande corresponda a apenas 10% da área original encontrada na época do início da colonização e povoamento da região.

Um dos maiores responsáveis pela dramática redução do Banhado Grande foi um canal de drenagem com extensão total de 20 km, construído pelo DNOS, uma antiga autarquia do Governo Federal na década de 1970, com o objetivo de ampliar as áreas produtoras de arroz. Com a abertura desse canal principal e de uma série de canais transversais menores, a região ficou livre das enchentes anuais e extensas áreas “secas” foram disponibilizadas aos arrozeiros para o aumento da área plantada. Esses conjunto de canais comprometeu a capacidade do Banhado Grande em acumular grandes volumes de água e alterou consideravelmente os regimes fluviais do rio Gravataí – no período chuvoso, o rio passou a apresentar fortes correntezas e grandes volumes de água; no período da seca, sem o fornecimento de água pelos banhados, o rio se apresenta com baixíssimos níveis de água, comprometendo o abastecimento das populações e dificultando a diluição dos grandes volumes de esgotos lançados in natura na calha do rio. As obras, feitas com o uso de grandes volumes de recursos públicos, beneficiou um pequeno grupo de arrozeiros e causou prejuízos gigantescos para centenas de milhares de habitantes da região, além de danos, muitos irreversíveis, para a vida natural.

Felizmente, dois eventos diferentes contribuíram para preservar o pouco que restou dos banhados: o primeiro, a criação da APA – Área de Proteção Ambiental, a partir de um Decreto Estadual em 1998; o segundo, o assoreamento sistemático do canal principal de drenagem em função da incapacidade dos órgãos públicos em realizar os serviços de limpeza e de manutenção periódicos – com a redução da drenagem artificial, houve uma pequena recuperação das áreas alagadas e um aumento dos habitats para espécies vegetais e animais. Esses eventos são fundamentais para o processo de recuperação ambiental do rio Gravataí.

A ineficiência de um serviço público nunca foi tão festejada. E nossos mais sinceros votos para que esse processo de assoreamento do canal continue avançando.

Até o nosso próximo post.

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