TODOS OS CAMINHOS QUE LEVAM A CURITIBA

Curitiba

No post anterior falamos rapidamente dos diversos rios formadores do rio Iguaçu, que ao atravessarem os municípios da Região Metropolitana de Curitiba recebem grandes cargas de esgotos sanitários domésticos e industriais. O rio Iguaçu surge oficialmente a partir da junção dos rios Atuba e Iraí na divisa dos municípios de Curitiba e Pinhais e, infelizmente, já recebe neste ponto o título nada honroso de 2° rio mais poluído do Brasil. Vamos tentar entender como se chegou a este ponto de degradação ambiental.

A cidade de Curitiba tem aproximadamente 1,9 milhão de habitantes, sendo o município mais populoso do Estado do Paraná e da Região Sul do Brasil, e o 8° município mais populoso do país. Oficialmente (há dúvidas sobre a data exata), a cidade de Curitiba foi fundada em 1693 a partir de um pequeno assentamento de bandeirantes paulistas. Como aconteceu com a imensa maioria das cidades brasileiras, um dos principais fatores para a escolha do local mais adequado para a instalação da vila foi a farta disponibilidade de cursos d’água, a começar pela proximidade com o importante rio Iguaçu. Os principais rios que atravessam a cidade de Curitiba são Birigui, o ribeirão dos Padilhas, o Atuba, formador do rio Iguaçu, o Belém e o Passaúna. Na área central de Curitiba existem alguns rios e trechos de rios que foram canalizados ao longo dos anos e muitos dos curitibanos nem sabem da existência sua existência – destaque para os rios Ivo, Belém, Água Verde e Juvevê, além de uma infinidade de córregos já canalizados e há muito esquecidos pela população.

A história de Curitiba, porém, remonta aos tempos mais antigos dos primeiros anos da colonização da costa brasileira. Relatos antigos informam que o comandante da expedição exploradora e fundadora da cidade de São Vicente, Martin Afonso de Sousa, tomou conhecimento da existência de diversas trilhas indígenas que levavam ao interior do continente. Um destes caminhos, a Trilha de Paranapiacaba, usada pelos índios nas comunicações e comércio entre o litoral e o Planalto de Piratininga, foi fundamental tanto para a fundação da Vila de São Vicente no litoral quanto da Vila de São Paulo de Piratininga e outras vilas no planalto. Mais ao sul, no local onde se encontra a cidade de Cananeia, havia uma outra trilha que, segundo os relatos dos índios, levava até às já famosas minas de prata do Potosí, na Bolívia, e aos tesouros do império Inca.

Martin Afonso de Sousa organizou uma primeira expedição sob o comando de Pero Lobo para explorar este caminho – uma das primeiras descobertas da expedição foram os Campos de Curitiba. A expedição de Pero Lobo conseguiu seguir a chamada Trilha do Peabiru até chegar ao rio Paraná, onde infelizmente ele e seus comandados morreram num ataque dos índios guaranis. Foi a partir do conhecimento legado por esta primeira expedição que as trilhas indígenas das terras paranaenses passaram a ser frequentadas por inúmeras expedições de bandeirantes paulistas na busca de ouro e pedras preciosas e também na “caça” de indígenas para a escravização. E foi no cruzamento de vários destes caminhos através dos tempos e dos Campos de Curitiba que aconteceu a fundação da vila que originaria a cidade de Curitiba. Existem várias interpretações para a etimologia da palavra Curitiba – para muitos autores, a palavra é derivada da língua tupi: “Ku’ri” que significa pinheiro e “tüba”, um sufixo coletivo que tem como significado “muito pinheiro, pinhal”, nome que combina muito com a localização da cidade.

Muito do que se sabe sobre os antigos caminhos indígenas está envolto em lendas e mistérios e carecem de documentação escrita. Os peabirus (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado amassado) foram os antigos e extensos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos em suas intensas redes de comunicação e integração. Por esses caminhos eram feitas as migrações, o comércio, as guerras e os intercâmbios culturais e sociais entre os diferentes grupos indígenas. O Professor Reinhard Maack (1892–1969), um naturalista alemão e notório explorador do território paranaense, elaborou em 1952, um mapa mostrando o Caminho do Peabiru, tomando como base os manuscritos do aventureiro alemão Ulrich Schmidel, que percorreu este caminho em 1553. A área abrangida no mapa representa o território paranaense, parte de São Paulo, Santa Catarina, Paraguai, Argentina e Bolívia. Na década de 1970, uma equipe da Universidade Federal do Paraná, identificou cerca de trinta quilômetros remanescentes da trilha na área rural de Campina da Lagoa, no Paraná. Ao longo desse trecho, foram identificados sítios arqueológicos com vestígios de habitações. A maior parte destes caminhos acabou destruída pelo avanço das fronteiras agrícolas e a derrubada das antigas matas de araucárias.

A partir de 1853, com a emancipação da Província do Paraná (até essa data a Província estava integrada a Província de São Paulo), Curitiba assumiu o papel de capital provincial e os paranaenses assumiram as rédeas do seu destino. A cidade de Curitiba passou a receber imensos contingentes de imigrantes europeus, especialmente alemães, ucranianos, poloneses e italianos, transformando a cidade num dos mais vibrantes caldeirões multiétnicos do Brasil. Infelizmente, a infraestrutura básica por baixo de todo esse crescimento foi 100% nacional, com rios e córregos de todos os municípios da atual Região Metropolitana de Curitiba transformados em canais para o escoamento dos esgotos das populações e das empresas. O grau de deterioração que se vê no rio Iguaçu é um reflexo disto e mostra a necessidade urgente de mudanças.

Continuamos no próximo post.

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