CURITIBA E SEUS RIOS “INVISÍVEIS”

Rio Água Verde

Ao longo do mês de outubro de 2016, publiquei aqui no blog uma série de postagens falando dos rios “invisíveis” da cidade de São Paulo e dos problemas de enchentes que surgiram ao longo de várias décadas, provocadas em grande parte pela canalização desenfreada destes cursos d’água. De acordo com informações do Professor Alexandre Deliajaicov, arquiteto e urbanista da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, somente na gestão do Prefeito Prestes Maia (1938-1945), foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, criando espaços para a implantação do seu famoso plano viário – o Plano de Avenidas de Fundo de Vale. Entre as justificativas, usadas desde o final do século XIX, citavam questões sanitárias, controle das enchentes e problemas ligados ao lixo e resíduos que a população despejava nos corpos d’água. Também se procurava esconder as águas já contaminadas pelos esgotos da cidade, que eram despejados descaradamente nos rios, riachos e córregos desde muito tempo atrás.

O município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000, se considerados os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem, pois, ao longo de décadas a fio, a cidade escondeu seus córregos e rios nas profundezas do subsolo. A cidade de Curitiba, que frequentemente aparece nos meios de comunicação sob a égide de “capital mais ecológica do Brasil”, também tem sua cota de rios invisíveis, que jogam para “debaixo do tapete” uma série de problemas de saneamento básico, que se manifestam explicitamente na poluição do rio Iguaçu nos “fundos” da cidade.

A cidade de Curitiba ocupa uma área de 432 km², o que corresponde a um quarto da superfície da cidade de São Paulo, e possui 6 bacias hidrográficas:

Rio Iguaçu: com uma área de drenagem de 68 km² dentro da cidade, ocupa o triste posto de segundo rio mais poluído do Brasil;

Rio Barigui: é a maior bacia hidrográfica da cidade, com uma área de drenagem de 150 km²;

Rio Passaúna: responsável pelo abastecimento de água da maior parte da cidade através da Represa do Passaúna, é a bacia hidrográfica com as águas mais limpas de Curitiba, com uma área de drenagem total de 38 km;

Ribeirão dos Padilhas: com área de drenagem de 39 km², está localizado na região com a menor quantidade de áreas verdes da cidade e com o maior número de construções e ocupações irregulares;

Rio Belém: localizada na área central de Curitiba, ocupa uma área de drenagem de 88 km² e é considerada a bacia hidrográfica mais poluída da cidade;

Rio Atuba: com uma área de drenagem de 23 km² em Curitiba, atravessa áreas densamente povoadas e recebe uma grande carga de esgotos domésticos e industriais.

Como aconteceu com São Paulo e outras grandes cidades brasileiras, conforme Curitiba foi crescendo, muitos rios e córregos da cidade foram sendo canalizados para liberar áreas para a construção de imóveis e avenidas. Na área central de Curitiba, para citar um exemplo, existem alguns rios e trechos de rios que foram canalizados e só são lembrados pela população quando alguma galeria desaba e suas águas são expostas à luz do dia – destaque para os rios Ivo, Belém, Água Verde (a foto que ilustra este post mostra a canalização deste rio em 1940) e Juvevê, além de uma infinidade de córregos já canalizados e há muito esquecidos.

Uma das funções mais elementares dos córregos, riachos e rios de uma bacia hidrográfica é permitir o escoamento das águas excedentes nos períodos das chuvas – a famosa drenagem das águas pluviais. Ao longo de milhões de anos, a erosão provocada pelas águas destes cursos foi a responsável pela construção de uma complexa rede de canais de drenagem, o que criou toda a “face” do relevo da região. Quando construímos as nossas cidades nestes terrenos, alteramos completamente a configuração destes canais de drenagem, eliminamos áreas de mata ciliar e impermeabilizamos os solos, o que em algum momento vai resultar nas famosas enchentes que vemos nas grandes cidades. A canalização desenfreada de cursos d’água nas áreas urbanas amplifica todos estes problemas, uma vez que as calhas não recebem trabalhos de limpeza e manutenção e acabam assoreadas com resíduos sólidos de todos os tipos, areia e pedras. Há um outro agravante – esses rios “invisíveis” recebem grandes despejos irregulares de esgotos, que dificilmente são detectados pelas autoridades responsáveis pelo saneamento básico.

Dados oficiais da empresa responsável pelo saneamento básico de Curitiba afirmam que 100% dos esgotos da cidade são coletados por suas redes de esgotos e 91,26% deste volume é tratado (2016) – porém, quando analisamos a situação ambiental do rio Iguaçu, percebemos que existe alguma coisa errada com estes números. Considerando que o rio mais poluído do país, o Tietê, atravessa uma região metropolitana com 16 milhões de habitantes e com graves problemas de lançamento de esgotos in natura na extensa rede hidrográfica regional, é uma verdadeira façanha o rio Iguaçu ocupar o posto de segundo rio mais poluído do país. Se, numa conta rápida, se descontar o volume de esgotos tratados em Curitiba e se considerar, hipoteticamente, que todo o restante da população da Região Metropolitana (3,5 milhões de habitantes em 2016) não possui nenhuma coleta, são os esgotos gerados por pouco mais de 1,5 milhão de habitantes os responsáveis por toda a poluição do rio Iguaçu. Esse número me leva a uma dúvida cruel: ou os números do saneamento básico na Região Metropolitana de São Paulo são muito melhores do que se anuncia ou existe alguma coisa muito “estranha” com os dados divulgados da coleta e tratamento de esgotos em Curitiba – a conta não fecha!

Matemágicas” à parte, o mapeamento e o conhecimento da rede de rios “invisíveis” é o melhor caminho para a solução dos problemas de drenagem pluvial e de lançamento de esgotos de forma difusa e clandestina em uma cidade como Curitiba. Melhor ainda: seguindo uma nova tendência mundial – a reabertura ou, como costumo chamar, a “descanalização” de rios e córregos urbanos, é uma das melhores formas de expor os problemas das águas subterrâneas para a população e permitir que se realize a recuperação integral dos problemas ambientais que foram varridos para o subsolo das cidades.

Poluição que os olhos não veem, o nariz, normalmente, sente…

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