A SUPEREXPLORAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA

Canal do Rio São Francisco

Na última semana, dia 22 de março, foi comemorado o Dia da Água, data criada pela ONU – Organização das Nações Unidas após a Conferência do Rio de Janeiro em 1992, quando as discussões sobre o tema qualidade dos recursos hídricos entrou em definitivo na pauta das autoridades mundiais. Também, há cerca de duas semanas, foi inaugurado no sertão da Paraíba o Ramal Leste do Projeto de Transposição do Rio São Francisco: esta inauguração oficial contou com a presença do Presidente da República – alguns dias depois, a obra foi inaugurada extraoficialmente (chamaram de “inauguração popular”) por dois ex-presidentes da República, atitude que mostra como o tema ainda é tratado com populismo aqui no Brasil.

Os recursos hídricos ocupam parcela importante das publicações deste blog e, alternadamente, tratamos do tema ao lado de discussões sobre os problemas dos resíduos, infraestrutura urbana e saneamento básico. Pela junção de todos os fatos citados, vamos discutir ao longo de várias publicações um dos problemas mais urgentes da atualidade: a superexploração preocupante dos recursos hídricos.

Vamos começar falando do tema jornalístico da moda: a chegada das águas do Rio São Francisco na sofrida região do semiárido da Paraíba – são imagens maravilhosas de crianças mergulhando na água dos canais, idosos falando da “riqueza” de se possuir uma fonte de água permanente ao lado de casa e trabalhadores rurais fazendo planos de plantio irrigado em seus sítios. Para quem conhece de perto o drama dos sertanejos ou que já leu clássicos de nossa literatura como Vidas Secas de Graciliano Ramos ou o Quinze de Rachel de Queiroz sabe do que estou falando. Porém, a euforia inicial precisa ser vista com reservas pelas autoridades responsáveis – estamos falando de água, um recurso cada vez mais raro (a situação do semiárido nordestino que o diga) e é preciso desde já criar mecanismos realistas para a gestão racional deste recurso: o perigoso populismo precisa ser deixado de lado. Vamos entender onde estão os riscos:

Dados oficiais do Governo Federal estimam o atendimento de 12 milhões de habitantes nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará com as águas do Rio São Francisco quando todo o sistema estiver em operação plena. Considerando-se a recomendação da OMS – Organização Mundial da Saúde, serão 100 litros de água ao dia para cada habitante. Numa conta rápida chegaremos a um volume diário de água de 1,2 milhão de metros cúbicos para que se atenda a esta demanda.

É aqui que começam os problemas: estudos técnicos indicam que o consumo de água exclusivamente humano no Brasil corresponde a apenas 6% do consumo total – a indústria consome 22% e a agropecuária 72%. Admitindo que esse índice de consumo se consolide no semiárido nordestino ao longo dos anos, a demanda por água ao longo do Sistema de Transposição do Rio São Francisco vai saltar para 20 milhões de metros cúbicos por dia. Minhas perguntas: a já estressada e maltratada Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco vai dar conta dessa sangria de recursos hídricos? Aberta a “caixa d’água de Pandora”, resistirão os gestores do Sistema à pressão de políticos populistas do sertão por volumes cada vez maiores de água para a “dessedentação dos seus currais eleitorais”? Estão em andamento projetos de recuperação dos afluentes do Velho Chico (replantio de matas ciliares, coleta e tratamento de esgotos das cidades, controle de barragens de rejeitos de mineração etc), de forma a, pelo menos, estabilizar a já reduzida vazão atual?

Para muitos de vocês posso até parecer insensível com a questão, mas é justamente o contrário: a história mostra que, em situações semelhantes, a má gestão dos recursos hídricos resultou em falta de água generalizada para todos. O desperdício de água, só para citar um exemplo, é um indício do que poderá acontecer: atividades de irrigação na agricultura chegam a desperdiçar 90% da água; nas cidades, entre perdas por vazamentos e desperdício nas casas, as perdas ultrapassam os 50%.

Na sequência das publicações vamos apresentar a história do Mar de Aral na Ásia Central, que em oitenta anos passou da posição de quarto maior lago do planeta a deserto salgado graças a superexploração das suas águas para irrigação de plantações em antigas Repúblicas da antiga União Soviética – um alerta doloroso do que poderá acontecer por aqui.

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