A EXTRAÇÃO DE AREIA NO RIO IGUAÇU, OU NÃO É SÓ A POLUIÇÃO POR ESGOTOS QUE DESTRÓI UM RIO

Cavas no Rio Iguaçu

“A areia é um dos sedimentos mais importantes, pelas suas múltiplas utilidades, para a construção civil – ela é essencial para a produção de argamassa para o assentamento de tijolos e blocos; para chapisco, emboço e reboco de paredes; como aglomerado na produção de peças de concreto, vigas, colunas e lajes; como matéria prima para a produção dos diversos tipos de vidro, usados não apenas na construção civil, mas em múltiplos produtos consumidos pela nossa sociedade.”

Esse longo parágrafo faz parte de uma postagem anterior, publicada no mês de julho, onde tratei dos problemas ambientais criados pelas cavas de extração de areia no rio Paraíba do Sul (que assumiu o papel de fornecedor após a extração de areia nas margens do rio Tietê se tornar inviável com o crescimento da mancha urbana de São Paulo), areia esta que abastece a indústria da construção civil, especialmente nas Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Mudando a latitude alguns graus mais para o Sul, encontraremos exatamente os mesmos problemas na Região Metropolitana de Curitiba e nas margens do rio Iguaçu, inclusive porque a história geológica das duas Regiões é muito similar. O rio Iguaçu, assim como o Tietê e Paraíba do Sul, há milhões de anos vem transportando a areia e os sedimentos resultantes da erosão das montanhas da Serra do Mar, montanhas que no passado já foram tão altas como a Cordilheira do Andes. Toda essa massa de areia e sedimentos se espalhou e se acumulou por extensas áreas do território brasileiro, mas estão mais acessíveis para a exploração nas margens e várzeas destes rios.

Na Região Metropolitana de Curitiba, a exploração de areia e argila vem de cavas em áreas de diversos rios, principalmente das várzeas do rio Iguaçu. Existem aproximadamente 40 pontos de extração de areia oficialmente registrados na Região Metropolitana, de onde são extraídos 100 mil metros cúbicos de areia a cada mês. Porém, ao longo de várias décadas, antigas cavas de extração de areia, a grande maioria clandestinas, foram abertas, exploradas e depois abandonadas, sem que se fizesse nenhum trabalho de recuperação ambiental – se apresentam hoje como imensas crateras cheias de água, que representam riscos ao meio ambiente e as populações: nos últimos 10 anos, foram registradas 13 mortes de pessoas por afogamento nas cavas da Região Metropolitana de Curitiba.

Nestas últimas postagens tenho falado muito dos problemas da poluição no rio Iguaçu, especialmente dos problemas ligados ao lançamento de esgotos de maneira clandestina nas águas dos inúmeros rios e córregos que cruzam as cidades da Região Metropolitana e que acabam na calha deste rio.  Porém, não são apenas os esgotos os responsáveis pela degradação do rio – as cavas de extração de areia também contribuem com sua cota de destruição das águas. De acordo com dados de ONGs – Organizações Não Governamentais, 40% da calha do rio Iguaçu dentro da Região Metropolitana de Curitiba está cheia de cavas abandonadas e apresentando inúmeros problemas de degradação ambiental. Estes problemas começam com a remoção da mata das margens, que todos sabem funcionar como uma barreira contra a entrada de sedimentos e lixo na calha do rio; essa vegetação marginal também tem um importante papel ecológico para as espécies que vivem nas águas dos rios – elas ajudam a formar pequenas lagoas e áreas de remanso, protegidas da correnteza, onde as espécies aquáticas – peixes, anfíbios, répteis e até mesmo aves, se reproduzem. As espécies se valem, conforme sua própria fisiologia, das raízes submersas, das áreas de solo protegidas pela vegetação e dos altos galhos dos arbustos e das árvores. A destruição das matas e a escavação das áreas nas margens altera completamente o ciclo de vida destas espécies e, pior, o assoreamento que é provocado na calha do rio, entre outros gravíssimos problemas, soterra as comunidades bênticas ou bentônicas do fundo rio – nestas comunidades vivem plantas, vermes, moluscos e crustáceos de tamanhos variados (a maioria muito pequena e microscópica). Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar (também chamada de cadeia trófica) do rio e sustentam todas as formas de vida superiores – inclusive a dos seres humanos (especialmente os ribeirinhos) que se alimentam com os peixes pescados no rio.

De acordo com a legislação vigente, a extração de areia só pode ser feita a partir de 500 metros de distância das margens dos rios e as empresas mineradoras são responsáveis pela recuperação ambiental das áreas após o esgotamento ou a impossibilidade da escavação prosseguir (a partir de certa profundidade, a retirada da areia fica mais difícil e existe o risco do desmoronamento das paredes da cava). Nem a distância mínima das margens dos rios nem a recuperação das áreas degradadas são respeitadas pelos exploradores, que alegam que não tem outro material para usar no preenchimento das cavas após a extração da areia. Duas opções rápidas de materiais de preenchimento que me vêm à memória: as montanhas de entulhos que são geradas diariamente e que, em grande parte das vezes, acaba descartada de maneira irregular em áreas ermas das cidades e os sedimentos resultantes de escavações de obras e de serviços de terraplenagem – lembrando que estes resíduos são gerados pela indústria da construção civil, a mesma que consome os milhões de metros cúbicos de areia retirados das cavas das margens dos rios.

Concluindo, tenho ainda duas observações: primeira – os resíduos da construção civil podem ser reciclados, produzindo uma areia de boa qualidade: esta areia não pode ser usada na fabricação de concreto para fins estruturais (a areia possui contaminantes que reduzem a resistência final do concreto), porém é ideal para a fabricação de peças estruturais e argamassa para assentamento de tijolos e blocos, além de chapisco, emboço e reboco; a reciclagem desta areia vai evitar a extração do agregado na natureza e gerar inúmeros benefícios ambientais. Segundo – um exemplo do reaproveitamento ecologicamente correto dos sedimentos de escavações é a Ilha de Notre Dame, na cidade de Montreal, Canadá, onde encontramos um charmoso parque: a ilha foi formada artificialmente a partir dos despejos das rochas e sedimentos da escavação dos túneis do metrô da cidade nas décadas de 1960 e 1970.

Com boa vontade e criatividade, é possível resolver e remediar muitos dos atuais problemas ambientais. E rios como o Iguaçu serão eternamente gratos.

O PARQUE E A APA DO PASSAÚNA, OU BUSCANDO PRESERVAR AS ÁGUAS DE CURITIBA

Represa do Passaúna

Na nossa última postagem falamos rapidamente da construção da Represa do Passaúna e dos inevitáveis problemas socioambientais gerados pela desapropriação das terras nas áreas alagáveis – apesar de serem absolutamente necessárias para garantir o abastecimento de água para as cidades e a geração da energia elétrica, a construção de represas sempre gera enormes prejuízos para muita gente. No caso de Passaúna, significou a desagregação social de Tomás Coelho, uma centenária Colônia de imigrantes de origem polonesa.

A construção das represas para o abastecimento garante a formação de grandes reservas de água, porém, resolve apenas uma parte do problema – é preciso que se desenvolvam ações práticas que garantam a futura preservação da qualidade ambiental das águas do reservatório. Se estas providências não são tomadas logo início da formação do lago, corre-se o risco de ver repetida a história de grandes represas como a Guarapiranga ou a Billings, represas da Região da Grande São Paulo que, por absoluta falta da criação de mecanismos legais que garantissem a proteção das áreas de mananciais, tiveram as margens ocupadas por centenas de loteamentos clandestinos e passaram a abrigar populações gigantescas. Por falta da mais elementar infraestrutura de saneamento básico, essas populações passaram a despejar volumes substanciais de esgotos nas águas usadas no seu próprio abastecimento.

Com vistas a garantir a preservação das águas da Represa do Passaúna, foi criada a Área de Proteção Ambiental (APA) do Passaúna, com o perímetro delimitado a partir do Decreto Estadual número 458 de 1991 e englobando uma área total de 15,6 mil hectares nos municípios de Almirante Tamandaré, Araucária e Curitiba. Essa legislação já passou por várias atualizações e foram criadas leis complementares nos municípios, disciplinando o uso e a ocupação do solo e estabelecendo as atividades proibidas na área de influência da APA. Em Curitiba, também com vistas à preservação ambiental da Represa, foi criado em 1991 o Parque Municipal do Passaúna.

Com uma área total de 6,5 milhões de metros quadrados, correspondente a quatro vezes o tamanho do Parque do Ibirapuera de São Paulo, o Parque Municipal do Passaúna é um dos maiores parques de Curitiba e abriga uma rica fauna representada por canários, biguás, garças, mergulhões, capivaras, tatus, jaçanãs e, eventualmente, até jaguatiricas podem ser avistadas na mata. O parque possui uma Estação Biológica e uma trilha de mais de 3 quilômetros beirando a represa, além de equipamentos para o conforto dos visitantes como parque infantil, pontes de madeira, churrasqueiras e ancoradouros para barcos – a Represa do Passaúna, inclusive, se transformou no ambiente ideal para a prática de esportes aquáticos como stand-up paddle (vide foto), caiaque e navegação a vela – a prática de natação na represa é proibida.

Infelizmente, apesar de todas as boas intenções, existem problemas ligados a falta de fiscalização e uma série de agressões ambientais vem sendo relatadas pela população aos meios de comunicação, tanto em áreas dentro do Parque Municipal do Passaúna quanto em áreas da APA do Passaúna: as margens da represa são invadidas por pescadores e caçadores ilegais, que cortam a vegetação para fazer fogueiras – inclusive há relatos de roubos de animais domésticos das chácaras como ovelhas, que são abatidos e assados na beira da represa. Também há relatos de desmatamentos e despejo irregular de lixo e entulho nas áreas de mata, o que comprova que não bastam as boas intensões e a publicação de decretos criando áreas de proteção ambiental – os esforços para a preservação de áreas de mananciais devem ser diários e efetivos, tanto das autoridades governamentais como de toda a população.

Um outro problema sério encontrado dentro dos limites da APA do Passaúna é a existência de uma lagoa de chorume no bairro Lamenha, na divisa dos municípios de Curitiba e Almirante Tamandaré. O chorume é um líquido escuro e malcheiroso, formado a partir da decomposição de lixo orgânico e transportado pela percolação de água da chuva até a lagoa. De acordo com relatos de antigos moradores, um lixão a céu aberto funcionou no local até o final da década de 1980. Segundo informações disponíveis, o local recebia grandes volumes de lixo de Curitiba e de outros municípios da Região Metropolitana, incluindo-se resíduos de produtos químicos, lixo orgânico e entulhos da construção civil – com a formação da represa, essa montanha de resíduos simplesmente foi “esquecida” e acabou encoberta pela vegetação que cresceu no local. A lagoa de chorume que se formou no local extravasa frequentemente, despejando contaminantes de todo o tipo – inclusive metais pesados, nas águas do rio Passaúna, responsável por um terço do abastecimento da cidade de Curitiba. Subindo-se o Passaúna na direção das nascentes existem outros inúmeros problemas, que vão do lançamento de esgotos nas águas do rio ao descarte de lixo e resíduos, desmatamentos e construções irregulares nas margens, além de plantações muito próximas do leito do rio, de onde escorrem resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos que contaminam as águas.

A destruição e contaminação de mananciais utilizados para o abastecimento das cidades não é nenhuma novidade e, frequentemente, são comentadas nas postagens deste blog: além das já citadas represas Guarapiranga e Billings na Região Metropolitana de São Paulo, já falamos, do caótico rio Guandu, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro; do Rio das Velhas, que abastece Belo Horizonte e do Rio Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de diversos municípios nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde é o maior e mais importante rio. O rio Passaúna não está livre de todo um conjunto de agressões ambientais e, pela sua importância como manancial de abastecimento, merece atenção especial das autoridades e populações da Região Metropolitana de Curitiba.

Preservar a qualidade ambiental das fontes de abastecimento é muito mais inteligente e barato do que investir muito dinheiro em produtos químicos e equipamentos para o tratamento da água que irá abastecer a população das cidades.

PASSAÚNA: A CONSTRUÇÃO DA REPRESA E O FIM DA COLÔNIA POLONESA DE TOMÁS COELHO

Bosque Papa Jo‹o Paulo II, Curitiba. Foto: Valdecir Galor/SMCS

O abastecimento de água em Curitiba e em grande parte da Região Metropolitana, que contabiliza uma população total na casa de 3,5 milhões de habitantes, utiliza as águas de três importantes rios: Passaúna, Iraí e Iguaçu. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o crescimento vigoroso da população ao longo das últimas décadas, associado a falhas nas redes coletoras e ao lançamento irregular de esgotos na extensa rede de corpos hídricos da região, tem reflexos diretos no rio Iguaçu, que ostenta o nada honroso título de 2° rio mais poluído do Brasil.

Polêmicas e problemas a parte, o abastecimento de água da população é sempre uma prioridade dos governantes e desde a década de 1970 foi decidida a construção da Represa de Passaúna. Considerado um dos mais selvagens e com melhor qualidade de águas de toda a Região Metropolitana, o rio Passaúna passaria a responder por um terço das águas consumidas pela população de Curitiba. Com aproximadamente 48 km de extensão e nascentes no município de Almirante Tamandaré, o rio tem seu nome derivado da língua tupi e significa “homem preto”. Atualmente, o rio Passaúna fornece uma vazão média de 1.500 litros por segundo para o sistema de abastecimento de água da cidade de Curitiba, que é complementado com vazões de 800 litros por segundo do rio Iraí e 3 mil litros por segundo do rio Iguaçu, que mesmo poluído é o principal manancial de abastecimento da cidade.

A construção de represas, como já comentamos em postagens anteriores, sempre gera uma série de impactos ambientais, sociais e econômicos nas áreas que serão alagadas – a Represa de Passaúna não fugiu à regra e deixou um rastro de problemas sob suas águas. O local para a construção da Represa foi escolhido em 1974, englobando áreas de Tomás Coelho, uma centenária colônia de imigrantes de origem polonesa. Um decreto publicado em 1977 declarou uma área de 10 km² como de Utilidade Pública e os terrenos foram desapropriados para permitir a construção da Represa. A cidade de Curitiba enfrentava na época sérios problemas de falta de água, especialmente no período da seca, e já estava na hora de se construir um grande reservatório que permitisse a regularização e o abastecimento contínuo da cidade.

A Colônia de Tomás Coelho foi criada em 1876 para permitir o assentamento de imigrantes de origem polonesa que estavam chegando ao Paraná. Diferente de outros Estados, onde os imigrantes eram encaminhados aleatoriamente para empregos em diferentes cidades em função da demanda, o Governo do Paraná desenvolveu uma política própria, conhecida como Lamenha Lins, que buscava fundar colônias de imigrantes nos arredores de Curitiba para abastecê-la de gêneros alimentícios. Essa política deu origem aos diversos núcleos de imigrantes poloneses, italianos, alemães, ucranianos e tantos outros que encontramos até os nossos dias. A Colônia de Tomás Coelho, que recebeu este nome em homenagem ao Ministro da Agricultura da época, foi instalada a 17 km do centro da cidade de Curitiba, nas proximidades dos vales dos rios Barigui e Poça Una, cujo nome acabou mudado para Passaúna, na atual divisa entre Curitiba, Araucária e Campo Largo. As terras da região pertenciam na época ao município de São José dos Pinhais, passando a constituir, a partir de 1889, o município independente de Araucária. As famílias polonesas que se instalaram na região tinham uma forte ligação com a terra e com a produção agrícola, além de um intenso sentimento religioso, demonstrado por uma forte devoção à religião católica e tendo a igreja de São Miguel como seu ponto de reunião. Durante décadas, os Colonos mantiveram vivas as tradições, a língua e a cultura da Polônia, sendo facilmente identificáveis nas ruas e avenidas pelo uso dos grandes carroções típicos puxados a cavalo, onde levavam seus produtos para venda nas feiras e mercados de Curitiba, especialmente as batatas, cebolas, verduras, trigo, centeio, linguiças e pães típicos.

A partir da década de 1950, com o crescimento e a urbanização de Curitiba, particularmente por causa do asfaltamento das principais avenidas da cidade, a circulação dos carroções dos “polacos” passou a ser sistematicamente proibida, reduzindo o acesso destes produtores ao seu mercado consumidor. A chegada das indústrias também passou a funcionar como um atrativo para os membros mais jovens da Colônia, que buscavam uma nova forma de vida, enfraquecendo ainda mais a importância da produção agrícola local. Porém, foi a construção da Represa do Passaúna a causa principal da desagregação social e econômica da Colônia de Tomás Coelho. O baixo valor pago pela desapropriação das terras que seriam encobertas pelas águas da Represa forçou muitos dos proprietários a vender o resto das suas terras, que ficaram com áreas pequenas demais para garantir uma produção agrícola minimamente sustentável. Também, como sempre acontece com as terras com testada de frente para as belas represas, a especulação imobiliária tratou de transformar a região em objeto de desejo para os “amantes da natureza”, que buscavam terras próximas de Curitiba para formação de suas chácaras de lazer para os finais de semana – muitos dos antigos Colonos acabaram transformados em caseiros destas chácaras.

A partir de 1990, com a finalização do enchimento da Represa de Passaúna, os poucos produtores rurais que restavam na região passaram a enfrentar uma série de restrições ambientais com vistas à preservação da qualidade das águas: proibição do uso de fertilizantes e agrotóxicos, restrições ao cultivo em determinadas regiões e a desmatamentos, além da proibição da coleta de lenha para uso nos seus fornos e fogões tradicionais. Para completar a desagregação social da comunidade, a formação da Represa significaria a divisão da comunidade ao meio, com parte dos antigos moradores isolados no lado de Curitiba e os demais no município de Araucária. A época da construção, as autoridades chegaram a prometer a construção de uma passarela com extensão de 400 metros, permitindo assim a ligação das duas comunidades polonesas – como sempre acontece com as “miraculosas” promessas feitas por políticos, essa foi mais uma que não foi cumprida.

Se você visitar o Parque João Paulo II em Curitiba, poderá ver algumas das típicas casas polonesas construídas com troncos de árvores encaixados, que foram transferidas das áreas que foram alagadas em Tomás Coelho e reconstruídas no Bosque do Papa (vide foto). Infelizmente, muito da cultura, da língua e das tradições culturais da Polônia não tiveram a mesma sorte e acabaram “encobertas” para todo o sempre pelas águas da Represa de Passaúna.

As sempre bem-intencionadas construções de represas têm esse dom de destruir vidas e culturas por todos os lugares do mundo…

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OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA, OU LEMBRANDO MANUEL BANDEIRA

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A postagem de hoje de hoje começa com os primeiros versos da poesia do grande mestre pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) – Os sapos:

“Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra…”

Conforme se avança nas pesquisas sobre a hidrologia e os problemas ambientais de Curitiba e região, vão surgindo algumas alcunhas que reforçam as características físicas da região – dois destes apelidos são bastante significativos: Sapolândia e Chuviritiba.

A região onde se encontra a atual cidade de Curitiba era formada originalmente por uma imensa teia de rios, riachos e arroios, como se diz na região Sul do Brasil – os pequenos cursos d’água que se encontravam por todos os lados. Algumas fontes afirmam que, somando-se tudo, chegaremos próximo de 5.000 cursos d’água de todos os tamanhos como os formadores do famoso rio Iguaçu (palavra que, não por acaso, significa “rio grande” em língua tupi). Em uma região tão úmida, os anfíbios encontram um habitat perfeito. Conta-se que, por estas razões, a cidade de Curitiba era conhecida no século XIX como Sapolândia – a terra dos sapos; inclusive, o curitibano na época era chamado de “o sapo” (justifico aqui a escolha da poesia de Bandeira). Outro apelido bastante simpático e que não requer maiores explicações, é associado ao grande número de dias chuvosos na cidade: Chuviritiba.

Uma região com tanta disponibilidade e tantas referências à água, faz supor que não esteja sujeita a problemas para o abastecimento da sua população, problema que realmente inexiste na cidade nos dias atuais – como toda grande Região Metropolitana, há problemas pontuais e intermitentes de infraestrutura que não comprometem o “conjunto da obra”. Porém, como já apresentado em posts anteriores, a cidade e a Região Metropolitana de Curitiba apresentam sérios problemas de poluição difusa na rede regional de corpos d’água, que se refletem diretamente no principal manancial da região – o rio Iguaçu é o 2° mais poluído do Brasil, uma verdadeira façanha se comparado ao enorme esforço que a maior Região Metropolitana do Brasil – São Paulo, com uma população quase cinco vezes maior, faz para colocar o rio Tietê na primeira posição deste ranking.

Um estudo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, divulgado em 2015, fez um diagnóstico da situação das sub-bacias de Curitiba: 96 das 120 sub-bacias da cidade foram monitoradas e analisadas, recebendo uma pontuação com o nome de IQA – Índice de Qualidade das Águas. O principal parâmetro utilizado no cálculo foram os índices de contaminação das águas por despejos de esgotos domésticos. E os resultados não foram nada animadores: 62,5% das sub-bacias receberam a indicação de IQA ruim, 14,5% IQA péssimo, 21,8% IQA razoável e apenas uma sub-bacia, a nascente do Rio Tapajós, conseguiu receber uma avaliação de IQA boa – nenhuma sub-bacia da cidade conseguiu atingir a avaliação IQA ótimo. Confesso que a divulgação deste relatório é bastante decepcionante para uma cidade que se vende nos meios de comunicação como a Capital Mais Ecológica do Brasil – como deve ser fácil de notar pelos meus textos, sou paulistano e minha cidade está a anos-luz (é na realidade uma medida de distância, mas estou “forçando” o uso dentro do contexto) de ousar ostentar tal título; porém, mesmo dentro de São Paulo, é possível encontrar sub-bacias que podem receber a avaliação IQA ótimo: um exemplo é a do rio Capivari, no extremo Sul do município, que só não receberia um IQA perfeito por que os milhares de macacos, pássaros, jaguatiricas e sapos que vivem nas matas fazem cocô nas margens e dentro do rio…

A constatação, através de um estudo publicado por um órgão da própria Prefeitura da cidade, de que a imensa maioria dos corpos d’água de Curitiba, e por extensão de toda a Região Metropolitana, apresentam altos índice de contaminação por despejos de esgotos é preocupante, uma vez que a água usada para o abastecimento da população é captada dentro deste meio ambiente poluído. Se hoje a Região Metropolitana pode se vangloriar de possuir grandes fontes de água para o abastecimento da população, é preciso cuidado com o andor por que pode faltar barro para fazer o santo amanhã: a cidade de Curitiba tinha 180 mil habitantes em 1950 e hoje já se aproxima dos 2 milhões de habitantes, sem considerarmos o crescimento vigoroso das demais cidades da Região Metropolitana – quanto mais gente, mais água se faz necessária; quando mais água fornecida para a população maiores serão os despejos irregulares de esgoto nos corpos d’água, o que resultará em maiores níveis de poluição nas fontes de abastecimento de água – é um círculo extremamente danoso para todos.

A contaminação das fontes superficiais de água tem reflexos diretos na contaminação das águas subterrâneas, que podem estar recebendo cargas de contaminantes a partir dos pontos de recarga dos aquíferos. A exploração do potencial das águas subterrâneas para abastecimento das cidades, que existe num bom tamanho em Curitiba, normalmente é uma garantia de águas de ótima qualidade, especialmente para as indústrias. Caso se identifique qualquer grau de contaminação, o uso destas águas poderá necessitar de algum tipo de tratamento prévio – dependendo dos custos deste tratamento, o uso destas águas subterrâneas pode até deixar de ser vantajoso do ponto de vista econômico, sendo mais barato “comprar” água da rede pública de abastecimento. A água potável, como todos devem saber, é o recurso natural mais escasso do planeta e uma região com tanta abundância de recurso hídricos como a Região Metropolitana de Curitiba, não tem, forçando um pouco as palavras, o direito de tratar suas águas tão mal.

Sem querer ofender ninguém da Região, inclusive por que os problemas e as responsabilidades com os recursos hídricos são difusos, é preciso mais ação dos governantes e autoridades e menos marketing: os índices oficiais do saneamento básico de Curitiba falam de 100% de coleta de esgotos e 91,26% deste volume sendo tratado (dados de 2016), ao mesmo tempo em que estudo da Prefeitura da cidade, feito em 2015, indica a contaminação das águas da imensa maioria das sub-bacias por esgotos – tem “sapo” nesta tuba…

Continuamos no próximo post.

OS PROBLEMAS DA POLUIÇÃO HÍDRICA DIFUSA EM CURITIBA

Parque Ibirapuera, São Paulo, Brasil

Na minha última postagem falamos da aparente incoerência entre a cobertura universal de redes coletoras de esgotos na cidade de Curitiba e o fato do rio Iguaçu ocupar a segunda posição no ranking dos rios mais poluídos do Brasil. Deixem-me explicar isto antes que curitibanos raivosos comecem a me mandar mensagens de protesto: a simples presença de uma rede coletora na porta dos imóveis de uma localidade não é garantia de que todos os esgotos do local estão sendo despejados de forma regular – muitos imóveis antigos, construídos antes da construção da rede pública de esgotamento sanitário, já estavam ligados a antigos sistemas particulares de manilhas que despejavam os efluentes do imóvel em algum curso d’água próximo. É muito comum que estes imóveis estejam no segundo ou terceiro dono, dono esse que desconhece a infraestrutura de tubulações do imóvel, escondida sob pisos cerâmicos ou de pedra, ou ainda sob vistosos jardins. A época da conclusão da rede coletora pública de esgotos, esses imóveis foram ligados à rede, porém, muitas vezes em condições onde não é possível afirmar que todos os efluentes gerados na rede hidráulica interna estão sendo lançados neste ramal de saída – efluentes de edículas nos fundos dos terrenos podem estar lançando esgotos nas águas de córregos e rios canalizados sem que os proprietários do imóvel saibam. Vou descrever uma situação que vivi aqui em São Paulo que ilustra muito bem esse problema:

Entre os anos de 2013 e 2014 trabalhei em um escritório no charmoso bairro do Jardim Paulista, a 300 metros de um dos portões do Parque do Ibirapuera – para quem não conhece a cidade de São Paulo, trata-se do parque urbano mais importante da cidade, com quase 1,6 milhão de metros quadrados, e listado como uma das melhores áreas verdes urbanas do mundo. Nesta área do Jardim Paulista não existem edifícios, mas apenas casarões e mansões centenárias da antiga elite da cidade. Na primeira semana de trabalho neste escritório, caiu uma daquelas famosas tempestades de fim de tarde, típicas do Verão paulistano. Terminada a chuva, na saída para a volta ao lar com o carro que estava estacionado na frente do escritório, observei que as duas rodas que estavam sobre a sarjeta pareciam estar cobertas com “lama” – ao me aproximar para conferir, rapidamente percebi pelo cheiro que aquilo, na realidade, eram resíduos de fezes. Outros carros estacionados ali apresentavam os mesmos resíduos – aliás, a rua ficou com o cheiro “característico” por vários dias. Prestando um pouco mais de atenção na inclinação da rua e na elevação dos terrenos, entendi rapidamente que existia ali um córrego canalizado e que inúmeras daquelas mansões estavam despejando seus esgotos nas suas águas.

As áreas de entorno do Parque do Ibirapuera, especialmente o Jardim Paulista e a Vila Nova Conceição, é onde se encontram os imóveis mais caros da cidade de São Paulo, com preços entre R$ 12 e R$ 14 mil por metro quadrado, em média – somente em áreas de Copacabana, Leblon e Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro, você vai encontrar imóveis mais caros. Esta região, mais conhecida como Jardins, é disparada a que tem a melhor infraestrutura da cidade, com ruas arborizadas, imóveis elegantes, restaurantes caríssimos e, algo que anda muito em falta nas nossas cidades: muita segurança. Mesmo com todos esses invejáveis pontos positivos, trata-se de uma região onde “fezes afloram” das redes coletoras de águas pluviais em dias de chuva forte. Para todos entenderem a complexidade do problema, vou citar o exemplo dos lagos do famoso Parque do Ibirapuera (vide foto) – esses lagos foram formados a partir do represamento do Córrego do Sapateiro. Esse corpo d’água se forma na área do Parque do Ibirapuera a partir da junção das águas de diversos córregos, hoje canalizados, que drenam os bairros do entorno. A Prefeitura de São Paulo, há várias décadas, vem tentando despoluir as águas destes lagos e ainda não conseguiu solucionar totalmente o problema – o motivo: os lançamentos irregulares de esgotos nos córregos da região pelas mansões e por muitos edifícios de luxo dos Jardins e da Vila Nova Conceição. A única forma possível de se identificar os imóveis irregulares é através do uso de corantes especiais, lançados nos vasos sanitários destes imóveis – após a descarga ser acionada, uma equipe de técnicos posicionada nas margens do lago verifica se a mancha de corante aparece na superfície – se isto acontecer, bingo: uma ligação irregular foi localizada. Mas, vai conseguir autorização de um destes “ricaços” para entrar no imóvel e fazer este teste…

Na cidade de Curitiba e dos muitos rios “invisíveis”, são esses lançamentos irregulares de esgotos, semelhantes aos da região dos Jardins em São Paulo, os “prováveis” responsáveis pela poluição difusa que se vê na rede de corpos d’água da cidade e que chegam ao rio Iguaçu. Como demonstrei no caso de São Paulo, a identificação dos imóveis e a localização dos pontos de descarga destes efluentes nos corpos d’água é um trabalho extremamente complicado, especialmente quando estão os córregos e rios receptores dos efluentes estão canalizados e esquecidos a muito tempo e, muitas vezes, nem a Prefeitura da cidade nem os moradores mais velhos sabem ao certo onde estão localizados.

A localização, reabertura e a recuperação ambiental e paisagística destes rios invisíveis, e também dos inúmeros canais de córregos e rios poluídos em áreas urbanas, é um movimento interessante e que vem ganhando força nos últimos anos em importantes cidades mundo afora. É uma ideia que poderá ajudar muito na resolução deste grave problema em Curitiba. Exemplos que podem ser citados são o do rio Cheonggyecheon  em Seul, na Coréia do Sul, e do Córrego Pirarungáua em São Paulo – corpos d’água que estavam soterrados e esquecidos a várias gerações e que voltaram a vida e a luz do sol para o deleite das populações. Caso seja do seu interesse, neste link você encontrará um excelente artigo que trata deste atualíssimo e importante tema. 

Que “faça-se a luz” sobre as águas destes rios e córregos invisíveis da bela cidade de Curitiba. Continuamos no próximo post.

CURITIBA E SEUS RIOS “INVISÍVEIS”

Rio Água Verde

Ao longo do mês de outubro de 2016, publiquei aqui no blog uma série de postagens falando dos rios “invisíveis” da cidade de São Paulo e dos problemas de enchentes que surgiram ao longo de várias décadas, provocadas em grande parte pela canalização desenfreada destes cursos d’água. De acordo com informações do Professor Alexandre Deliajaicov, arquiteto e urbanista da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, somente na gestão do Prefeito Prestes Maia (1938-1945), foram canalizados 4.000 km lineares de córregos, riachos e ribeirões por toda a cidade, criando espaços para a implantação do seu famoso plano viário – o Plano de Avenidas de Fundo de Vale. Entre as justificativas, usadas desde o final do século XIX, citavam questões sanitárias, controle das enchentes e problemas ligados ao lixo e resíduos que a população despejava nos corpos d’água. Também se procurava esconder as águas já contaminadas pelos esgotos da cidade, que eram despejados descaradamente nos rios, riachos e córregos desde muito tempo atrás.

O município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000, se considerados os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem, pois, ao longo de décadas a fio, a cidade escondeu seus córregos e rios nas profundezas do subsolo. A cidade de Curitiba, que frequentemente aparece nos meios de comunicação sob a égide de “capital mais ecológica do Brasil”, também tem sua cota de rios invisíveis, que jogam para “debaixo do tapete” uma série de problemas de saneamento básico, que se manifestam explicitamente na poluição do rio Iguaçu nos “fundos” da cidade.

A cidade de Curitiba ocupa uma área de 432 km², o que corresponde a um quarto da superfície da cidade de São Paulo, e possui 6 bacias hidrográficas:

Rio Iguaçu: com uma área de drenagem de 68 km² dentro da cidade, ocupa o triste posto de segundo rio mais poluído do Brasil;

Rio Barigui: é a maior bacia hidrográfica da cidade, com uma área de drenagem de 150 km²;

Rio Passaúna: responsável pelo abastecimento de água da maior parte da cidade através da Represa do Passaúna, é a bacia hidrográfica com as águas mais limpas de Curitiba, com uma área de drenagem total de 38 km;

Ribeirão dos Padilhas: com área de drenagem de 39 km², está localizado na região com a menor quantidade de áreas verdes da cidade e com o maior número de construções e ocupações irregulares;

Rio Belém: localizada na área central de Curitiba, ocupa uma área de drenagem de 88 km² e é considerada a bacia hidrográfica mais poluída da cidade;

Rio Atuba: com uma área de drenagem de 23 km² em Curitiba, atravessa áreas densamente povoadas e recebe uma grande carga de esgotos domésticos e industriais.

Como aconteceu com São Paulo e outras grandes cidades brasileiras, conforme Curitiba foi crescendo, muitos rios e córregos da cidade foram sendo canalizados para liberar áreas para a construção de imóveis e avenidas. Na área central de Curitiba, para citar um exemplo, existem alguns rios e trechos de rios que foram canalizados e só são lembrados pela população quando alguma galeria desaba e suas águas são expostas à luz do dia – destaque para os rios Ivo, Belém, Água Verde (a foto que ilustra este post mostra a canalização deste rio em 1940) e Juvevê, além de uma infinidade de córregos já canalizados e há muito esquecidos.

Uma das funções mais elementares dos córregos, riachos e rios de uma bacia hidrográfica é permitir o escoamento das águas excedentes nos períodos das chuvas – a famosa drenagem das águas pluviais. Ao longo de milhões de anos, a erosão provocada pelas águas destes cursos foi a responsável pela construção de uma complexa rede de canais de drenagem, o que criou toda a “face” do relevo da região. Quando construímos as nossas cidades nestes terrenos, alteramos completamente a configuração destes canais de drenagem, eliminamos áreas de mata ciliar e impermeabilizamos os solos, o que em algum momento vai resultar nas famosas enchentes que vemos nas grandes cidades. A canalização desenfreada de cursos d’água nas áreas urbanas amplifica todos estes problemas, uma vez que as calhas não recebem trabalhos de limpeza e manutenção e acabam assoreadas com resíduos sólidos de todos os tipos, areia e pedras. Há um outro agravante – esses rios “invisíveis” recebem grandes despejos irregulares de esgotos, que dificilmente são detectados pelas autoridades responsáveis pelo saneamento básico.

Dados oficiais da empresa responsável pelo saneamento básico de Curitiba afirmam que 100% dos esgotos da cidade são coletados por suas redes de esgotos e 91,26% deste volume é tratado (2016) – porém, quando analisamos a situação ambiental do rio Iguaçu, percebemos que existe alguma coisa errada com estes números. Considerando que o rio mais poluído do país, o Tietê, atravessa uma região metropolitana com 16 milhões de habitantes e com graves problemas de lançamento de esgotos in natura na extensa rede hidrográfica regional, é uma verdadeira façanha o rio Iguaçu ocupar o posto de segundo rio mais poluído do país. Se, numa conta rápida, se descontar o volume de esgotos tratados em Curitiba e se considerar, hipoteticamente, que todo o restante da população da Região Metropolitana (3,5 milhões de habitantes em 2016) não possui nenhuma coleta, são os esgotos gerados por pouco mais de 1,5 milhão de habitantes os responsáveis por toda a poluição do rio Iguaçu. Esse número me leva a uma dúvida cruel: ou os números do saneamento básico na Região Metropolitana de São Paulo são muito melhores do que se anuncia ou existe alguma coisa muito “estranha” com os dados divulgados da coleta e tratamento de esgotos em Curitiba – a conta não fecha!

Matemágicas” à parte, o mapeamento e o conhecimento da rede de rios “invisíveis” é o melhor caminho para a solução dos problemas de drenagem pluvial e de lançamento de esgotos de forma difusa e clandestina em uma cidade como Curitiba. Melhor ainda: seguindo uma nova tendência mundial – a reabertura ou, como costumo chamar, a “descanalização” de rios e córregos urbanos, é uma das melhores formas de expor os problemas das águas subterrâneas para a população e permitir que se realize a recuperação integral dos problemas ambientais que foram varridos para o subsolo das cidades.

Poluição que os olhos não veem, o nariz, normalmente, sente…

TODOS OS CAMINHOS QUE LEVAM A CURITIBA

Curitiba

No post anterior falamos rapidamente dos diversos rios formadores do rio Iguaçu, que ao atravessarem os municípios da Região Metropolitana de Curitiba recebem grandes cargas de esgotos sanitários domésticos e industriais. O rio Iguaçu surge oficialmente a partir da junção dos rios Atuba e Iraí na divisa dos municípios de Curitiba e Pinhais e, infelizmente, já recebe neste ponto o título nada honroso de 2° rio mais poluído do Brasil. Vamos tentar entender como se chegou a este ponto de degradação ambiental.

A cidade de Curitiba tem aproximadamente 1,9 milhão de habitantes, sendo o município mais populoso do Estado do Paraná e da Região Sul do Brasil, e o 8° município mais populoso do país. Oficialmente (há dúvidas sobre a data exata), a cidade de Curitiba foi fundada em 1693 a partir de um pequeno assentamento de bandeirantes paulistas. Como aconteceu com a imensa maioria das cidades brasileiras, um dos principais fatores para a escolha do local mais adequado para a instalação da vila foi a farta disponibilidade de cursos d’água, a começar pela proximidade com o importante rio Iguaçu. Os principais rios que atravessam a cidade de Curitiba são Birigui, o ribeirão dos Padilhas, o Atuba, formador do rio Iguaçu, o Belém e o Passaúna. Na área central de Curitiba existem alguns rios e trechos de rios que foram canalizados ao longo dos anos e muitos dos curitibanos nem sabem da existência sua existência – destaque para os rios Ivo, Belém, Água Verde e Juvevê, além de uma infinidade de córregos já canalizados e há muito esquecidos pela população.

A história de Curitiba, porém, remonta aos tempos mais antigos dos primeiros anos da colonização da costa brasileira. Relatos antigos informam que o comandante da expedição exploradora e fundadora da cidade de São Vicente, Martin Afonso de Sousa, tomou conhecimento da existência de diversas trilhas indígenas que levavam ao interior do continente. Um destes caminhos, a Trilha de Paranapiacaba, usada pelos índios nas comunicações e comércio entre o litoral e o Planalto de Piratininga, foi fundamental tanto para a fundação da Vila de São Vicente no litoral quanto da Vila de São Paulo de Piratininga e outras vilas no planalto. Mais ao sul, no local onde se encontra a cidade de Cananeia, havia uma outra trilha que, segundo os relatos dos índios, levava até às já famosas minas de prata do Potosí, na Bolívia, e aos tesouros do império Inca.

Martin Afonso de Sousa organizou uma primeira expedição sob o comando de Pero Lobo para explorar este caminho – uma das primeiras descobertas da expedição foram os Campos de Curitiba. A expedição de Pero Lobo conseguiu seguir a chamada Trilha do Peabiru até chegar ao rio Paraná, onde infelizmente ele e seus comandados morreram num ataque dos índios guaranis. Foi a partir do conhecimento legado por esta primeira expedição que as trilhas indígenas das terras paranaenses passaram a ser frequentadas por inúmeras expedições de bandeirantes paulistas na busca de ouro e pedras preciosas e também na “caça” de indígenas para a escravização. E foi no cruzamento de vários destes caminhos através dos tempos e dos Campos de Curitiba que aconteceu a fundação da vila que originaria a cidade de Curitiba. Existem várias interpretações para a etimologia da palavra Curitiba – para muitos autores, a palavra é derivada da língua tupi: “Ku’ri” que significa pinheiro e “tüba”, um sufixo coletivo que tem como significado “muito pinheiro, pinhal”, nome que combina muito com a localização da cidade.

Muito do que se sabe sobre os antigos caminhos indígenas está envolto em lendas e mistérios e carecem de documentação escrita. Os peabirus (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado amassado) foram os antigos e extensos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos em suas intensas redes de comunicação e integração. Por esses caminhos eram feitas as migrações, o comércio, as guerras e os intercâmbios culturais e sociais entre os diferentes grupos indígenas. O Professor Reinhard Maack (1892–1969), um naturalista alemão e notório explorador do território paranaense, elaborou em 1952, um mapa mostrando o Caminho do Peabiru, tomando como base os manuscritos do aventureiro alemão Ulrich Schmidel, que percorreu este caminho em 1553. A área abrangida no mapa representa o território paranaense, parte de São Paulo, Santa Catarina, Paraguai, Argentina e Bolívia. Na década de 1970, uma equipe da Universidade Federal do Paraná, identificou cerca de trinta quilômetros remanescentes da trilha na área rural de Campina da Lagoa, no Paraná. Ao longo desse trecho, foram identificados sítios arqueológicos com vestígios de habitações. A maior parte destes caminhos acabou destruída pelo avanço das fronteiras agrícolas e a derrubada das antigas matas de araucárias.

A partir de 1853, com a emancipação da Província do Paraná (até essa data a Província estava integrada a Província de São Paulo), Curitiba assumiu o papel de capital provincial e os paranaenses assumiram as rédeas do seu destino. A cidade de Curitiba passou a receber imensos contingentes de imigrantes europeus, especialmente alemães, ucranianos, poloneses e italianos, transformando a cidade num dos mais vibrantes caldeirões multiétnicos do Brasil. Infelizmente, a infraestrutura básica por baixo de todo esse crescimento foi 100% nacional, com rios e córregos de todos os municípios da atual Região Metropolitana de Curitiba transformados em canais para o escoamento dos esgotos das populações e das empresas. O grau de deterioração que se vê no rio Iguaçu é um reflexo disto e mostra a necessidade urgente de mudanças.

Continuamos no próximo post.

IGUAÇU: O RIO MAIS POLUÍDO DO PARANÁ

Rio Iguaçu

Ele é o maior rio do seu Estado, com nascentes nos contrafortes da Serra do Mar na região Leste e curso seguindo na direção Oeste, até o encontro da sua foz com o grande rio Paraná. Ao atravessar a Região Metropolitana, as águas dos seus principais afluentes recebem grandes quantidade de esgotos domésticos e industriais in natura, transformando as águas límpidas num curso de esgotos a céu aberto. Ao longo do seu curso de mais de 1.300 km, a natureza se encarrega de depurar e recuperar a qualidade das suas águas, que lentamente voltam a se encher de vida…

Olhando rapidamente para esta introdução, um leitor mais desatento certamente irá se lembrar de outras descrições que fiz aqui falando do Rio Tietê, aquele que é considerado o rio mais poluído do Brasil, especialmente num trecho de aproximadamente 150 km entre a Região Metropolitana de São Paulo e o município de Itu. Mas hoje, como já denuncia o título do post, estamos falando do rio Iguaçu, o vice-campeão brasileiro na categoria “rios mais poluídos”. Os rios Tietê e Iguaçu são muito semelhantes por que foram formados no mesmo período geológico, quando a porção de terra que formaria a atual América do Sul começou a se separar do trecho que formou o continente Africano há, aproximadamente, 135 milhões de anos atrás – o movimento da Placa Tectônica Sul-Americana provocou o soerguimento de uma extensa faixa do litoral na borda Leste, levando a formação da Serra do Mar e forçando vários rios, como o Tietê e o Iguaçu, a correr no sentido Oeste.

Oficialmente, o rio Iguaçu surge a partir da junção dos rios Atuba e Iraí na divisa dos municípios de Curitiba e Pinhais. O rio Iraí, que tem as suas nascentes na Serra do Mar e é chamado inicialmente de rio Irazinho até a junção com o rio Palmital, atravessa os municípios de Piraquara e Pinhais na Região Metropolitana, onde recebe uma intensa carga de despejos de esgotos sem tratamento. O outro rio formador do Iguaçu, o Atuba, tem nascentes localizadas no município de Colombo e percorre 23 km até chegar em Curitiba, atravessando extensas áreas densamente povoadas e recebendo grandes despejos de esgotos neste trajeto. Um outro afluente, o rio Belém, também despeja suas águas repletas de resíduos nas águas do rio Iguaçu – pode-se afirmar então, com muita tristeza, que a nascente oficial do rio Iguaçu já apresenta um rio com águas mortas e sem condições de sustentar de vida.

A história da poluição no rio Iguaçu segue o mesmo roteiro da saga de outros rios que atravessam grandes áreas urbanas: além do já citado rio Tietê em São Paulo, podemos falar do rio Guandu, que atravessa a região da Baixada Fluminense no Estado do Rio de Janeiro; o rio das Velhas na Região Metropolitana de Belo Horizonte; o rio dos Sinos na Região Metropolitana de Porto Alegre e o pernambucano rio Ipojuca – não por acaso, todos estes rios entram na lista dos 10 rios mais poluídos do Brasil. No rio Iguaçu, a poluição está concentrada na Região Metropolitana de Curitiba, um aglomerado de cidades que concentra uma população na casa de 3,5 milhões de habitantes. Aproximadamente 80% da poluição do Rio Iguaçu é gerada por esgotos domésticos e poluição difusa e 20% por esgotos industriais. Se você navegar ou andar por este trecho inicial do rio, vai se deparar com todo o tipo de lixo e resíduos descartados pela população: móveis, entulhos e restos da construção civil, eletrodomésticos, pneus, carcaças de automóveis e tudo mais que puder imaginar.

A receita da tragédia ambiental é a mesma de sempre – as cidades passaram a crescer fortemente a partir da década de 1960, quando imensos contingentes de agricultores resolveram trocar a vida sofrida no campo pelas promessas de uma vida melhor nas cidades. A Região Metropolitana de Curitiba, da mesma forma que outras importantes cidades brasileiras, começou a experimentar taxas de crescimento urbano fortíssimas, que nem de longe foram acompanhadas pelo crescimento da infraestrutura urbana, especialmente com a criação de redes de abastecimento de água potável e redes coletoras de esgotos com estações de tratamento.

Diferente de outras grandes cidades brasileiras, que cresceram sem controle como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e se fundiram às cidades vizinhas formando uma única mancha urbana, a cidade de Curitiba se cercou de grandes áreas verdes para evitar o fenômeno da conurbação com as cidades vizinhas. Quem visita a cidade de Curitiba se surpreende com a grande beleza do lugar, se impressionando com a imensa quantidade de áreas verdes existentes e pelo fato de não encontrar um grande rio poluído como o Tietê ou um Ribeirão dos Arrudas cortando a cidade de um lado a outro. Mas o grande problema da poluição das águas existe e se mostra especialmente nos municípios vizinhos, onde grandes bairros surgiram sem a menor infraestrutura e a grande rede de cursos d’água da região acabou transformada num extenso sistema de esgotos a céu aberto. O rio Iguaçu, que corre discretamente nos limites do município de Curitiba, se transformou no destino de todo esse volume de esgotos como sempre acontece com o principal curso d’água de uma bacia hidrográfica. Também passou a receber grande parte do lixo e dos entulhos descartados em terrenos baldios e ruas, que sempre acabam sendo carreados para dentro dos canais de água pelas fortes chuvas.

O caminho para resolver o problema não requer nenhuma mágica ou habilidade especial: investimentos contínuos na implantação de redes coletoras de esgotos, construção de ETE’s – Estações de Tratamento de Esgotos, investimentos em coleta e disposição final adequada dos resíduos sólidos urbanos e programas de educação ambiental para a toda a população. Essa é a mesma receita que tem de ser replicada e aplicada na maioria das cidades brasileiras, em especial nas de grande e médio portes.

Vamos continuar a explorar os problemas do rio Iguaçu em nosso próximo post.

A CRISE NO RIO DOCE E O USO DE BARRAGENS PARA O ARMAZENAMENTO DE ÁGUA PARA ABASTECIMENTO DAS CIDADES: UMA OPINIÃO

Represa em Jundiaí

Como muitos de vocês devem se lembrar, a Região Metropolitana de São Paulo viveu uma forte seca entre os anos de 2014 e 2016, período em que o Sistema Cantareira, o maior conjunto regional de mananciais de abastecimento, entrou no chamado Volume Morto, operando nos mais baixos níveis de água de sua história e obrigando toda a população a um esforço sem paralelo para a economia de água. Muitas especulações foram feitas na época, especialmente durante o período eleitoral de 2014, com muitos “especialistas” falando dos cenários mais tenebrosos possíveis, inclusive sobre o eminente colapso total do abastecimento de água na Região Metropolitana. Felizmente, as “profecias dos capadócios” não se confirmaram e, a partir do Verão de 2016, as chuvas voltaram com uma ótima intensidade e os diversos mananciais que atendem a Região Metropolitana foram se recuperando lentamente – o colapso do abastecimento regional ficou para uma “próxima” ocasião.

Um fato que não ficou muito claro para a população, em parte graças à guerra de notícias eleitoreiras, é que haviam substanciais reservas de água nos reservatórios de outros Sistemas, especialmente no Rio Grande e no Guarapiranga – aliás, no auge da crise hídrica, o Sistema Guarapiranga passou a responder por 50% do abastecimento regional de água. O grande problema é que as autoridades responsáveis pela infraestrutura do saneamento básico “esqueceram” de construir sistemas de adutoras que permitissem a interligação e a transferência de água entre os Sistemas em casos de crises localizadas. A empresa responsável pelo abastecimento de água na maior parte da Região Metropolitana de São Paulo, a Sabesp, precisou realizar uma série de obras emergenciais para interligação de redes de abastecimento de água, inclusive com a montagem de uma grande adutora que permitiu a transferência de água da Represa Billings para o Sistema Alto Tietê, que também entrou em colapso e ameaçava o abastecimento da zona Leste da Região Metropolitana. A incompetência de umas poucas autoridades teve um alto custo para todas as populações das cidades afetadas pela crise.

Esta crise deixou muitos ensinamentos para todos nós – a construção e a manutenção de reservatórios de água para o abastecimento de cidades nos momentos de grandes crises, como a seca que se abateu sobre a região do Sistema Cantareira, foi o principal destes ensinamentos.

No primeiro documento conhecido com um descritivo das riquezas naturais de nosso país, a carta escrita por Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor da esquadra de Pedro Álvares Cabral, o autor deixou um claro registro da abundância de fontes de água em nossas terras: “Águas são muitas; infinitas.” E foram essas águas abundantes (especialmente ao longo da faixa litorânea, onde se concentra até hoje a maior parte da população do nosso país), a referência maior para a construção de nossas cidades – antes da construção de qualquer vila ou assentamento, era preciso que se comprovasse a existência de uma fonte de água permanente e com boa qualidade, para que se garantisse o atendimento das necessidades atuais e futuras da população. Em São Paulo, assim como em todas muitas outras cidades, aconteceu exatamente isso: a Vila de São Paulo de Piratininga foi fundada sobre um morro, exatamente ao lado do rio Tamanduateí, corpo d’água que garantiu o abastecimento da população até meados do século XIX, quando a poluição das águas por esgotos tornou inviável seu uso. Na antiga cidade de São Paulo, foi o crescimento desordenado e sem infraestrutura de saneamento básico o que impediu a continuidade da captação de água diretamente dos rios urbanos – desde as últimas décadas do século XIX, a cidade vem captando água em mananciais distantes do núcleo central urbano, usando inicialmente as fontes de água da Serra da Cantareira e, depois, construindo ou alterando o uso de reservatórios para a função específica de armazenamento de água para abastecimento. A Represa de Guarapiranga é um exemplo desta preocupação: criada inicialmente para regularizar o fluxo de água do rio Tietê para fins de geração de energia elétrica, a represa foi declarada manancial de abastecimento da cidade na década de 1920.

Diversos vazamentos de produtos químicos e de rejeitos de mineração em ocasiões diferentes no rio Paraíba do Sul e, mais recentemente, o grande desastre com a barragem de rejeitos de mineração na cidade de Mariana, que contaminou uma extensão de aproximadamente 700 km do rio Doce e provocou a suspensão da captação de água para o abastecimento de dezenas de cidades nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, vêm demonstrar a necessidade da construção e manutenção de reservatórios estratégicos de água para o abastecimento das cidades. Os prejuízos sistemáticos à quantidade e qualidade das águas dos grandes rios, resultado de diferentes agressões ao meio ambiente e a possibilidade de ocorrência de grandes acidentes industriais ou de mineração, tornam a dependência da captação direta de água dos rios pelas cidades um grande risco para as populações. No caso do rio Doce, por exemplo, uma das primeiras consequências do desastre foi a interrupção da captação de água para o abastecimento de, pelo menos, 500 mil pessoas e uma fonte de incertezas para mais de 1,5 milhão de pessoas que vivem nos municípios atravessados pelo rio Doce. O que se viu a seguir foram improvisos de todos os tipos para se garantir, ao mínimo, as necessidades de abastecimento da população – em diversos relatos, para citar um exemplo de amadorismo, diversos carregamentos de água foram descartados por apresentar cheiro e gosto de combustíveis como gasolina e querosene, o que demonstra o uso de caminhões e tanques inadequados para o transporte de água potável.

A construção de represas, por outro lado, gera uma série de problemas onde se incluem: os altos custos para a compra e a desapropriação de terras, os prejuízos econômicos provocados pela inundação de áreas produtivas, as alterações na dinâmica natural das águas e das espécies que nela vivem, a necessidade de derrubada de matas de galeria (muitas vezes as únicas remanescentes florestais de uma região), entre outros problemas. Os estudos de impacto e de licenciamento ambiental para esse tipo de obra também são complexos e demorados. Por outro lado, estamos falando da segurança hídrica de grandes populações e de grandes impactos econômicos que podem ser gerados com acidentes de grandes proporções em rios e outras fontes de abastecimento. É preciso que se encontre um ponto de equilíbrio entre o meio ambiente, as sociedades e a economia, e que se garanta o suprimento contínuo de água de boa qualidade.

Agora, o que não é possível é que continuemos de braços cruzados esperando o rompimento de uma outra barragem como a de Mariana (o que é muito provável dada as condições de inúmeras barragens de rejeitos espalhados pelo país), quando improvisos de todos os tipos precisarão ser feitos para que se garanta o abastecimento de cidades afetadas por rios de lama tóxica.

A DESTRUIÇÃO DOS ECOSSISTEMAS NA CALHA E NA FOZ DO RIO DOCE

Pesca Colatina

O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da empresa Samarco em Mariana, Minas Gerais, ocorrido no dia 5 de novembro de 2015, despejou 62 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos de metais pesados, contaminando um trecho de 700 km do rio Doce.

Você conhece bem estas cifras, citadas inúmeras vezes aqui neste blog e nos meios de comunicação. Deixem-me apresentar os números num formato um pouco diferente, de forma que todos entendam perfeitamente o que este desastre significou para todas as comunidades de seres vivos da calha e da região da foz do rio Doce.

Imagine que a largura do fundo da calha do rio Doce seja equivalente a 250 metros (a largura do rio varia bastante ao longo do leito total e este seria uma espécie de valor médio) – observe que não estou falando da largura entre as margens, que seria medida em linha reta entre dois pontos nas margens. Estamos falando de uma linha imaginária que segue por toda a superfície do fundo do rio, acompanhando o sobe e desce de todas as reentrâncias e pedras depositadas no leito.

Se multiplicarmos esta largura de 250 metros pelo comprimento total da calha do rio comprometida pelo vazamento da lama tóxica – 700 km aproximadamente, nós encontraremos uma superfície total equivalente de 175 km², ou simplificando mais, uma área igual a de um quadrado com laterais de 12,25 km.

Considerando que, devidamente convertido, vazaram 62 bilhões de litros de lama tóxica sobre esta superfície, nós podemos calcular que cada quilômetro quadrado recebeu um volume de lama equivalente a 354 milhões de litros. Simplificando ainda mais este raciocínio, cada metro quadrado da superfície do fundo do rio Doce foi, teoricamente, encoberto por um volume equivalente a 354 litros de lama – traduzindo isto para um equivalente métrico: uma camada de lama com 35,4 cm cobriu cada metro quadrado do fundo do rio Doce.

É evidente que este cálculo é especulativo – muita lama ficou em suspensão na água e foi arrastada na direção do Oceano Atlântico; grandes volumes ficaram nas margens ou presos na barragem da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves. O ponto chave do raciocínio é que uma camada substancial de lama encobriu instantaneamente o fundo do rio Doce (estou considerando aqui o tempo geológico, calculado em dezenas de milhões de anos).

Complementando esse rápido raciocínio matemático, deixem-me expor uma definição biológica: as comunidades de organismos bentônicos:

A palavra bentos (usada sempre no plural) é de origem grega e significa profundidade ou inferior. Ela é usada para definir as comunidades de organismos bênticos ou bentônicos formadas pelos seres que vivem associados ao substrato do solo do fundo, seja em ambientes marinhos, salobros ou dulcícolas (de água doce). Esses organismos vivem no interior e na superfície dos sedimentos e incluem bactérias, fungos, plantas e animais, com tamanhos indo desde valores microscópicos até algumas espécies de algas com vários metros de comprimento.

Para que todos entendam a complexidade destes ecossistemas, algumas criaturas marinhas microscópicas têm a incrível densidade de 5 indivíduos vivendo em um único grão de areia. Apesar de, na maioria das vezes, não serem notados por olhos não treinados, esses organismos representam uma parte importante da cadeia trófica aquática.

Falando de uma forma bem direta – a maior parte das comunidades de organismos bentônicos que vivia nas áreas do fundo da calha e na região da foz do rio Doce foram “instantaneamente” encobertas por uma camada de lama tóxica com espessura média de 35,4 cm e, simplesmente, se viram extintas. Sem a presença destes organismos, que estão na base da cadeia alimentar das águas do rio e de influência na foz, os predadores superiores – peixes e crustáceos especialmente, que conseguiram sobreviver à onda de lama, ficaram sem suas fontes de alimentos.

Se não conseguiram encontrar fontes alternativas de nutrientes, todas essas criaturas ou morreram de fome ou, com muita sorte, migraram para outras regiões. Pior – sem a recuperação destas comunidades, a recolonização das águas do rio Doce por novas criaturas ficará bastante prejudicada ao longo do tempo.

As notícias referentes aos estoques pesqueiros na região da foz do rio Doce e que vêm sendo divulgadas confirmam isso: espécies de peixes que eram capturados em grandes quantidades como robalos, tucunarés e bagres amarelos praticamente desapareceram. A presença de tainhas e tilápias diminuiu muito e, quando são avistadas, apresentam a pele deformada e cheia de machucados. Em situação um pouco melhor se encontram espécies como cascudo, manjubinha e carapeba.

Apesar de não ser respeitada por muitos pescadores, a Justiça Federal do Espírito Santo mantém a proibição da pesca na região da foz do rio Doce, entre Aracruz e Linhares. Na calha do rio Doce em Minas Gerais, o governo estadual liberou em maio último a pesca de espécies exóticas, mantendo a proibição da pesca das espécies nativas da bacia hidrográfica.

Testes laboratoriais que vem sendo feitos sistematicamente em peixes e camarões coletados nas áreas afetadas pelo derrame de lama apontam para uma redução nas concentrações de chumbo, cromo e arsênico, metais pesados que estavam misturados na lama que vazou – os níveis de ferro encontrados, ao contrário, aumentaram. Isto indica que a recuperação biológica plena dos ecossistemas aquáticos das águas do rio Doce e também da região de influência na foz no Oceano Atlântico, incluindo-se a recolonização de extensas áreas “mortas”, vai demorar bastante. O drama de comunidades e grupos de pescadores que, tradicionalmente, retiravam seu sustento das águas do rio e da foz vai continuar…

Os relatos de algumas testemunhas, que acompanharam de perto a ruptura da barragem em Mariana, falam que a tragédia levou menos de 60 segundos para acontecer – alguns especialistas afirmam que a recuperação do rio Doce poderá levar até 100 anos. São números e dados demais para descrever, simplesmente, a maior tragédia ambiental já ocorrida no Brasil.

Resumindo: as águas vão continuar ruins para peixes e pescadores ainda por muito tempo.