PASSAÚNA: A CONSTRUÇÃO DA REPRESA E O FIM DA COLÔNIA POLONESA DE TOMÁS COELHO

Bosque Papa Jo‹o Paulo II, Curitiba. Foto: Valdecir Galor/SMCS

O abastecimento de água em Curitiba e em grande parte da Região Metropolitana, que contabiliza uma população total na casa de 3,5 milhões de habitantes, utiliza as águas de três importantes rios: Passaúna, Iraí e Iguaçu. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o crescimento vigoroso da população ao longo das últimas décadas, associado a falhas nas redes coletoras e ao lançamento irregular de esgotos na extensa rede de corpos hídricos da região, tem reflexos diretos no rio Iguaçu, que ostenta o nada honroso título de 2° rio mais poluído do Brasil.

Polêmicas e problemas a parte, o abastecimento de água da população é sempre uma prioridade dos governantes e desde a década de 1970 foi decidida a construção da Represa de Passaúna. Considerado um dos mais selvagens e com melhor qualidade de águas de toda a Região Metropolitana, o rio Passaúna passaria a responder por um terço das águas consumidas pela população de Curitiba. Com aproximadamente 48 km de extensão e nascentes no município de Almirante Tamandaré, o rio tem seu nome derivado da língua tupi e significa “homem preto”. Atualmente, o rio Passaúna fornece uma vazão média de 1.500 litros por segundo para o sistema de abastecimento de água da cidade de Curitiba, que é complementado com vazões de 800 litros por segundo do rio Iraí e 3 mil litros por segundo do rio Iguaçu, que mesmo poluído é o principal manancial de abastecimento da cidade.

A construção de represas, como já comentamos em postagens anteriores, sempre gera uma série de impactos ambientais, sociais e econômicos nas áreas que serão alagadas – a Represa de Passaúna não fugiu à regra e deixou um rastro de problemas sob suas águas. O local para a construção da Represa foi escolhido em 1974, englobando áreas de Tomás Coelho, uma centenária colônia de imigrantes de origem polonesa. Um decreto publicado em 1977 declarou uma área de 10 km² como de Utilidade Pública e os terrenos foram desapropriados para permitir a construção da Represa. A cidade de Curitiba enfrentava na época sérios problemas de falta de água, especialmente no período da seca, e já estava na hora de se construir um grande reservatório que permitisse a regularização e o abastecimento contínuo da cidade.

A Colônia de Tomás Coelho foi criada em 1876 para permitir o assentamento de imigrantes de origem polonesa que estavam chegando ao Paraná. Diferente de outros Estados, onde os imigrantes eram encaminhados aleatoriamente para empregos em diferentes cidades em função da demanda, o Governo do Paraná desenvolveu uma política própria, conhecida como Lamenha Lins, que buscava fundar colônias de imigrantes nos arredores de Curitiba para abastecê-la de gêneros alimentícios. Essa política deu origem aos diversos núcleos de imigrantes poloneses, italianos, alemães, ucranianos e tantos outros que encontramos até os nossos dias. A Colônia de Tomás Coelho, que recebeu este nome em homenagem ao Ministro da Agricultura da época, foi instalada a 17 km do centro da cidade de Curitiba, nas proximidades dos vales dos rios Barigui e Poça Una, cujo nome acabou mudado para Passaúna, na atual divisa entre Curitiba, Araucária e Campo Largo. As terras da região pertenciam na época ao município de São José dos Pinhais, passando a constituir, a partir de 1889, o município independente de Araucária. As famílias polonesas que se instalaram na região tinham uma forte ligação com a terra e com a produção agrícola, além de um intenso sentimento religioso, demonstrado por uma forte devoção à religião católica e tendo a igreja de São Miguel como seu ponto de reunião. Durante décadas, os Colonos mantiveram vivas as tradições, a língua e a cultura da Polônia, sendo facilmente identificáveis nas ruas e avenidas pelo uso dos grandes carroções típicos puxados a cavalo, onde levavam seus produtos para venda nas feiras e mercados de Curitiba, especialmente as batatas, cebolas, verduras, trigo, centeio, linguiças e pães típicos.

A partir da década de 1950, com o crescimento e a urbanização de Curitiba, particularmente por causa do asfaltamento das principais avenidas da cidade, a circulação dos carroções dos “polacos” passou a ser sistematicamente proibida, reduzindo o acesso destes produtores ao seu mercado consumidor. A chegada das indústrias também passou a funcionar como um atrativo para os membros mais jovens da Colônia, que buscavam uma nova forma de vida, enfraquecendo ainda mais a importância da produção agrícola local. Porém, foi a construção da Represa do Passaúna a causa principal da desagregação social e econômica da Colônia de Tomás Coelho. O baixo valor pago pela desapropriação das terras que seriam encobertas pelas águas da Represa forçou muitos dos proprietários a vender o resto das suas terras, que ficaram com áreas pequenas demais para garantir uma produção agrícola minimamente sustentável. Também, como sempre acontece com as terras com testada de frente para as belas represas, a especulação imobiliária tratou de transformar a região em objeto de desejo para os “amantes da natureza”, que buscavam terras próximas de Curitiba para formação de suas chácaras de lazer para os finais de semana – muitos dos antigos Colonos acabaram transformados em caseiros destas chácaras.

A partir de 1990, com a finalização do enchimento da Represa de Passaúna, os poucos produtores rurais que restavam na região passaram a enfrentar uma série de restrições ambientais com vistas à preservação da qualidade das águas: proibição do uso de fertilizantes e agrotóxicos, restrições ao cultivo em determinadas regiões e a desmatamentos, além da proibição da coleta de lenha para uso nos seus fornos e fogões tradicionais. Para completar a desagregação social da comunidade, a formação da Represa significaria a divisão da comunidade ao meio, com parte dos antigos moradores isolados no lado de Curitiba e os demais no município de Araucária. A época da construção, as autoridades chegaram a prometer a construção de uma passarela com extensão de 400 metros, permitindo assim a ligação das duas comunidades polonesas – como sempre acontece com as “miraculosas” promessas feitas por políticos, essa foi mais uma que não foi cumprida.

Se você visitar o Parque João Paulo II em Curitiba, poderá ver algumas das típicas casas polonesas construídas com troncos de árvores encaixados, que foram transferidas das áreas que foram alagadas em Tomás Coelho e reconstruídas no Bosque do Papa (vide foto). Infelizmente, muito da cultura, da língua e das tradições culturais da Polônia não tiveram a mesma sorte e acabaram “encobertas” para todo o sempre pelas águas da Represa de Passaúna.

As sempre bem-intencionadas construções de represas têm esse dom de destruir vidas e culturas por todos os lugares do mundo…

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5 Comments

    1. Olá Bruna: infelizmente, não conheço a Represa de Passaúna em detalhes para responder a sua pergunta. Imagino que suas preocupações estão relacionadas ao rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho. O que posso lhe dizer é que as duas barragens são muito diferentes – a de Brumadinho foi construída com terra e resíduos minerais compactados; a de Passaúna é de concreto, um material muito mais resistente e bem menos propenso a sofre rupturas. Espero ter ajudado.

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