POLUIÇÃO EXTREMA DO AR FORÇA O FECHAMENTO DE ESCOLAS EM NOVA DÉLHI  

O Governo da Índia anunciou, mais uma vez, o fechamento de todas as escolas da capital do país – Nova Délhi, a partir de sábado, dia 5 de novembro. De acordo com as autoridades locais, os níveis de poluição do ar atingiram “níveis perigosos”. Além da forte poluição do ar provocada pelo caótico trânsito de uma das maiores regiões metropolitanas do mundo, existem as emissões de inúmeras centrais termelétricas a carvão e, especialmente, as queimadas agrícolas em todo o norte da Índia. 

De acordo com informações da empresa suíça IQAir, especialista no monitoramento da qualidade do ar, o nível de partículas de poluição do tipo PM2,5 na cidade alcançou uma marca 25 vezes superior ao máximo estabelecido pela OMS – Organização Mundial da Saúde.  

Em decisão recente, A OMS reviu suas recomendações para os níveis máximos de concentração dessas partículas – os novos limites são 5 micro gramas e 15 micro gramas por metro cúbico de ar, respectivamente, para a PM2,5 e PM10.   

Toda a faixa que engloba o Norte da Índia e o Sul do Paquistão é considerada como uma das áreas com o ar mais poluído do mundo. No final de 2021, Lahore, uma cidade paquistanesa de 11 milhões de habitantes e localizada muito próxima da fronteira com a Índia, foi declarada como a cidade com o ar mais poluído do mundo pela iniciativa Monitor da Qualidade do Ar. 

Com a chegada do inverno, quando o ar fica mais frio, a dispersão dos poluentes é dificultada e a concentração de poluição do ar nas cidades indianas aumenta vertiginosamente. O problema é amplificado pelo início da colheita de culturas como a da cana-de-açúcar, onde os agricultores locais ainda utilizam da queima da palha para facilitar o corte das plantas. 

Essa situação é particularmente grave no Estado indiano do Punjab, considerado como um dos celeiros agrícolas da Índia. Parte do Punjab acabou ficando do lado do Paquistão durante o processo de partilha do antigo território do Vice Reino Britânico da Índia em 1947. 

De acordo cm informações do Governo da Índia, cerca de 1/3 da poluição de Nova Délhi tem como origem as queimadas nas áreas agrícolas. Numa tentativa de combater essa poluição, o Governo Central e também os Governos Estaduais proibiram as queimadas, porém, são muitos os agricultores que persistem com essa técnica tradicional de colheita. 

A situação também está ganhando contornos de crise política – tanto a prefeitura de Nova Délhi quanto o Governo do Punjab são de partidos de oposição ao Primeiro-ministro Narendra Modi. Está se desenrolando uma guerra de críticas entre os dois lados, sem que se resolva a situação. 

Conforme já tratamos em outras postagens, a Índia é fortemente dependente do carvão mineral, combustível essencial para a geração de energia elétrica e também para uso em processos industriais. O carvão responde por 40% da matriz energética do país – a índia queima cerca de 600 milhões de toneladas de carvão pa cada ano. Some-se a isso uma gigantesca frota de veículos antigos com motores de combustão interna e indústrias de todos os tipos 

Mais de 60% da geração de energia elétrica da Índia é feita em centrais termelétricas à carvão, uma das fontes energéticas mais sujas e poluentes do mundo. Cerca de 300 milhões de indianos, ou cerca de 20% da população, não tem acesso ao uso de eletricidade, o que sinaliza que as coisas ainda podem piorar muito. 

A maior parte dessa população marginal pertence às classes mais pobres do país e passa suas noites sob a luz de velas, lampiões e fogueiras, além de não ter acesso ao uso de quaisquer equipamentos eletrônicos, eletrodomésticos e outros confortos da sociedade moderna.  O Governo da Índia está fazendo pesados esforços para aumentar a oferta de energia elétrica no país, o que, em tempos de crise mundial de energia, poderá significar mais queima de carvão. 

Outra questão complicada e difícil de resolver no país é a renovação da frota de veículos, outra importante fonte de poluição do ar das cidades indianas. Incentivar o uso de veículos elétricos, a exemplo de muitos países industrializados vinham fazendo, é inviável na Índia – mais consumo de energia elétrica significa mais carvão sendo queimado em centrais termelétricas. 

Uma boa opção para o país seria o incentivo ao uso de biocombustíveis como o etanol, muito utilizado aqui no Brasil. Grande produtor de açúcar, a Índia tem a opção de instalar destilarias para a produção de etanol, podendo utilizar, inclusive, a queima do bagaço da cana-de-açúcar para a geração de energia. Várias montadoras já exportaram veículos com motor flex para o país para testes e tem planos para fabricar localmente esses veículos. 

Já para o problema das queimadas agrícolas, esse é bem mais complexo. A agricultura é o maior empregador de mão de obra da Índia, especialmente em pequenas propriedades. Como essa mão de obra é extremamente barata, os agricultores preferem utilizar as técnicas mais arcaicas de colheita. 

Além de sua aplicação no corte da cana, as queimadas também são largamente utilizadas para a limpeza e preparação de solos para o cultivo, nada muito diferente do que feito por pequenos agricultores aqui no Brasil que se valem da tradicional coivara. 

Com uma população superior a 1,3 bilhão de habitantes e com a necessidade de gerar cerca de 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver a mão de obra dos jovens que estão entrando no mercado de trabalho, é muito difícil imaginar que a Índia vá tomar maiores medidas para resolver o grave problema da poluição do ar no país. 

Finalizando, um dado que mostra a situação caótica do país: das 100 cidades com o ar mais poluído do mundo, 46 ficam na Índia. 

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