GRANDES PLANTAÇÕES DE EUCALIPTO AMPLIFICAM PROBLEMAS CRIADOS PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e franceses confirmou uma suspeita já antiga – grandes plantações florestais comerciais de rápido crescimento podem consumir praticamente todo o volume de água das chuvas de uma determinada região. Aqui no Brasil, o alerta vale para as grandes plantações de eucalipto, espécie que responde por 80% dos plantios comerciais. 

O alerta e algumas das conclusões desse estudo foram publicadas recentemente no portal de notícias da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. 

De acordo com o professor Pedro Brancalion da ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, instituição ligada a USP – Universidade de São Paulo, a falta de planejamento e, obviamente, de estudos de impacto ambientais dessas plantações podem intensificar eventos regionais de secas, um problema grave resultante das mudanças climáticas. 

Segundo informações da FAPESP, o projeto faz parte de uma rede de experimentos que tem como principal objetivo entender os impactos da diversidade de espécies de árvores no funcionamento dos ecossistemas. Além do Brasil, também integram o projeto experimentos da Áustria, Suécia, Bélgica, Alemanha e França. Além de pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa, o projeto também inclui órgãos de fiscalização florestal desses países. 

O plantio comercial de grandes florestas surgiu em resposta ao alto consumo de madeira para usos pelas indústrias de móveis, da construção civil e de papel e celulose. A exemplo do que assistimos aqui no Brasil ao longo de nossa história, grandes florestas nativas em todo o mundo desapareceram por causa das atividades humanas como a agricultura, a pecuária e também pela exploração madeireira. 

A produção em larga escala de madeira em florestas artificiais pareceu, a princípio, ser uma ótima alternativa para atender a alta demanda dos mercados, ao mesmo tempo em que ajudaria a proteger, e até recuperar, os remanescentes florestais das matas nativas. Esses plantios vêm crescendo de maneira exponencial ao longo das últimas décadas. 

Segundo a FAPESP, existem aproximadamente 10 milhões de hectares de plantações comerciais de madeira aqui no Brasil, majoritariamente de eucalipto. Um exemplo já mostrado em postagens aqui no blog é o caso do Espírito Santo, onde extensas regiões de antigos domínios da Mata Atlântica foram tomadas por um “mar” de eucaliptos. 

A produção de madeira dessas florestas tem como destino principal as indústrias de papel e de celulose. De acordo com a FAPESP, mais da metade dessas plantações de eucalipto é formada por plantas criadas a partir de um único clone, ou seja, todas possuem a mesma composição genética. Essa “padronização” genética garante o rápido crescimento das árvores, porém reduz a resiliência das florestas a problemas ambientais. 

Essa equação ambiental tem uma falha grave – essas florestas crescem vigorosamente enquanto se tiver uma farta disponibilidade de água. Entretanto, a falta de água em momentos de seca poderá secar ou até matar as árvores. Muito pior – a floresta poderá consumir toda a água disponível nessa região em prejuízo de outras espécies e populações. 

Em palestra no evento “Climate change and biodiversity scientific cooperation day”, realizado no dia 20 de outubro no IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, o professor Brancalion afirmou que “é preciso buscar meios de tornar as plantações florestais mais resilientes à seca e econômicas no uso da água”. 

De acordo com o pesquisador, ” quanto mais espécies uma floresta (plantio comercial de árvores) tiver, melhor será seu funcionamento e sua resiliência às mudanças climáticas, pois usará de forma mais eficiente recursos ambientais como a água“. 

Os pesquisadores da ESALQ e do CIRAD – Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento, da França, conduzem seu experimento em uma área de seis hectares na cidade de Itatinga, no interior do Estado de São Paulo. A área é denominada Estação Experimental de Ciências Florestais da ESALQ/USP. 

Na área são encontrados 150 diferentes formatos de silvicultura, onde são comparadas as performances das espécies utilizadas. Essa comparação vai do monocultivo (plantio de uma única espécie) até o plantio combinado de até seis espécies diferentes, entre exóticas e espécies nativas da Mata Atlântica e do Cerrado. 

A experimentação científica é sempre o melhor para a solução de problemas ambientais, fugindo da opinião dos “especialistas”, uma verdadeira praga na área ambiental. Os resultados desses estudos também serão fundamentais para o confronto com os grandes grupos multinacionais que dominam o setor da silvicultura. 

Esses grupos costumam afirmar que suas plantações não criam problemas ambientais, não consomem excessos de água e também não prejudicam a biodiversidade. Além disso, suas atividades ajudam a garantir a geração de trabalho e renda para as comunidades rurais. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e que fizer uma rápida incursão pelos ‘mares verde de eucalipto” do Espírito Santo vai perceber que as coisas não são bem assim. 

A “eucaliptização”, neologismo que eu costumo usar, fez desaparecer uma série de terras indígenas no Norte do Espírito Santo. Uma rápida lista: Amarelo, Olho d’Água, Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo, Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê, Gimuhuna, Piranema, Potiri, Sahy Pequeno, Batinga, Santa Joana, Morcego, Garoupas, Rio da Minhoca, Morobá, Rio da Prata, Ambu, Lagoa Suruaca, Cavalhinho, Sauaçu, Concheira, Rio Quartel, São Bento, Laginha, Baiacu, Peixe Verde, Jurumim e Destacamento.   

O avanço das plantações também expulsou pequenos agricultores e comunidades quilombolas. Quem conseguiu resistir, passou a conviver com uma redução drástica da oferta de água nos rios e córregos, o que inviabilizou a agricultura de subsistência. Isso sem falar nos impactos a fauna e flora nativas. Esses problemas em terras capixabas se repetem em todo o mundo nas regiões próximas das florestas comerciais. 

O conhecimento criado por esses estudos é bem-vindo e poderá ajudar bastante nesses novos tempos de mudanças climáticas. 

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