ÁGUAS ESPRAIADAS: UMA AVENIDA MULTIBILIONÁRIA DA CIDADE DE SÃO PAULO

Pancadas de chuvas fortíssimas, vento, árvores caídas, queda da energia elétrica, enchentes, transito caótico e tudo o mais que o pacote de uma típica tarde de verão na cidade de São Paulo pode oferecer aos seus habitantes. 

Em resumo, esse foi o conteúdo da última postagem aqui do blog. Guardadas as particularidades geográficas da minha cidade e de suas fortes chuvas de final de tarde, os problemas causados não devem ter ficado muito distantes daqueles vividos por muitos dos leitores em suas próprias cidades. 

Verão e chuvas fazem parte das paisagens de um país como o Brasil e contra isso existe pouca coisa a se fazer. Agora, muitos dos problemas que essas chuvas provocam em nossas cidades ano após ano, aí tem marca das mãos humanas – falando isso num “sentido” mais amplo da palavra. 

No caso da cidade de São Paulo, a origem das enchentes está diretamente ligada à ocupação de extensas áreas das várzeas dos grandes rios do Planalto de Piratininga. Esses terrenos baixo e planos recebiam o excesso de água das chuvas nos meses de verão e ficavam alagados, formando pequenos pantanais por vários meses. 

Também podemos incluir na lista de obras das mãos humanas a construção de uma infinidade de avenidas de fundo de vale por toda a mancha urbana paulistana. Os córregos eram primeiro canalizados e no lugar do seu leito e margens surgia uma grande avenida, o que era essencial para uma metrópole que cresceu a altas taxas nas primeiras décadas do século XX.  

Um exemplo clássico é o do rio Anhangabaú, no centro da cidade, que foi canalizado para a construção de parte da Avenida 9 de Julho e do Parque do Anhangabaú. Também se inclui aqui a importante interligação do corredor Norte Sul no trecho da Avenida Tiradentes, que vem da Zona Norte da Cidade, e da Avenida 23 de Maio – que ocupou parte do antigo Ribeirão do Itororó, que vem da Zona Sul. 

Além dos aspectos técnicos, a questão também incluiu muito do que nós aqui chamamos de “mão grande”, ou seja, desvio de dinheiro público em muitas dessas obras. A construção de uma grande avenida, envolve muito dinheiro, indo desde a desapropriação de imóveis, serviços de terraplenagem e escavação, construção de galerias, asfalto e muitas outras obras complementares. Muita gente ganhou muito dinheiro com isso (honesta e desonestamente). E na pressa, muitos estudos sobre o impacto das obras na dinâmica das águas pluviais sequer foram cogitados. 

Um exemplo bastante atual de como se fazer uma obra para desviar muito dinheiro dos cofres da cidade foi o que aconteceu com a Avenidas das Águas Espraiadas, na Zona Sul da Cidade de São Paulo. Só para constar: o Prefeito da cidade há época era famoso entre a população pelo slogan informal – rouba, mas faz! 

O Córrego das Águas Espraiadas ficava na metade do caminho entre São Paulo e Santo Amaro, cidadezinha foi incorporada pela grande metrópole na década de 1930. Ele tinha um leito extremamente pedregoso e largo – daí a origem do nome, e nunca despertou maiores interesses do poder público. 

Com o intenso processo de crescimento da cidade de São Paulo, que foi marcado pela falta de preocupação de casas de baixo custo para as populações mais pobres, a várzea do córrego passou a ser ocupada por moradias “populares”, ou seja, por favelas. Em 1980 já existiam 68 núcleos habitacionais ao longo dos pouco mais de 5 km do Córrego das Águas Espraiadas. A população chegou a ser estimada em 80 mil habitantes. 

Depois de algumas tentativas frustradas por outras administrações, os Prefeitos Paulo Maluf (1993-1996) e seu sucessor Celso Pitta (1997-2000), levaram a cabo as obras de retificação do córrego e pavimentação de uma avenida de aproximadamente 5 km, ligando a Marginal Pinheiros até a região do Aeroporto de Congonhas. Após a conclusão das obras, a valorização imobiliária das áreas circunvizinhas às antigas favelas foi de quase 1.000%. 

Sem entrar em maiores detalhes – clique aqui para ver uma postagem completa sobre esse caso, a obra custou a bagatela de US$ 600 milhões. Considerando-se a extensão de 5 km, o custo por quilômetro linear chega aos impressionantes US$ 120 milhões, o que faz da Avenida a mais cara do mundo, com um custo por quilômetro equivalente ao do Eurotunnel, famoso túnel que liga a França à Inglaterra sob o Canal da Mancha. 

Um detalhe curioso dessa grande avenida com três faixas de rolamento em cada uma das margens do córrego é que ela terminava em um grande muro nas proximidades do Aeroporto de Congonhas – os carros precisam desviar para pequenas ruas laterais para prosseguir. O projeto original previa uma extensão de mais 3 km até uma outra grande avenida já existente, mas faltou dinheiro para isso… 

O Ministério Público Federal denunciou 11 pessoas por desvio de recursos públicos, peculato, superfaturamento de obra e lavagem de dinheiro. Entre os acusados estão os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta (morto em 2009), diversos agentes públicos e funcionários de grandes empreiteiras. Os processos seguem a passos de tartaruga, com inúmeras apelações e outras jogadas jurídicas muito bem arquitetadas.   

Não é necessário ser um gênio em matemática para concluir que os cofres públicos de uma cidade – mesmo se tratando da maior e mais rica cidade do país, não suportam uma sangria tão grande de recursos públicos. Em qualquer administração pública séria e honesta, esse dinheiro ajudaria a resolveu o problemas de enchentes em dezenas de córregos, beneficiando milhares e milhares de moradores. 

Mas a saga da Avenida das Águas Espraiadas não termina aqui – em 2012, tendo em vista melhorar a infraestrutura de transportes da cidade de São Paulo para a Copa do Mundo de Futebol em 2014, o Governo do Estado iniciou a construção de uma linha de monotrilho nessa avenida. O objetivo era ligar o Aeroporto de Congonhas a outras linhas do sistema metropolitano de transportes. 

A maior parte dos viadutos do monotrilho seriam instalados no canteiro central da Avenida das Águas Espraiadas. O custo total da obra foi estimado em R$ 3 bilhões há época, um valor que seria justificado pela grande velocidade da construção e pelo atendimento de mais de 200 mil passageiros por dia. 

Pois bem: estamos às vésperas do início da Copa do Mundo 2022, no Qatar, e o tal do monotrilho ainda não está em operação – aliás, ainda faltam muitas obras a serem concluídas. O custo total já passa dos R$ 4 bilhões, sendo que a extensão original da linha, que seria de 12 km, foi reduzida a pouco mais de 6 km

Esse é ou não é um grande exemplo de como se gastar (e de desviar) dinheiro público, sem resolver os problemas da população. Já as enchentes… bem, isso já faz parte das paisagens paulistanas. 

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