A DESERTIFICAÇÃO E A RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DESERTIFICADAS NO NORTE DA CHINA

Notícias sobre a China ocupam espaços cada vez maiores nos portais de notícias na internet, nos jornais, em revistas e também nos canais de televisão. Essas notícias falam do impressionante crescimento econômico do país nas últimas décadas, da sua expansão militar pela Ásia, da importação crescente de alimentos de países como o Brasil, da absurda poluição e degradação ambiental, da epidemia da Covid-19, que muitos chamam de “vírus chinês”, entre muitas outras informações. 

Os registros sobre o início da civilização chinesa remontam há mais de 8 mil anos atrás e, há pelo menos 4 mil anos, o país é considerado como uma grande potência regional – o Reino do Meio, como é chamado em chinês. O brilho milenar dessa civilização foi bastante ofuscado a partir do século XIX por grandes potências estrangeiras como a Inglaterra, a França, a Rússia e os Estados Unidos, porém, desde meados do século XX, o país não tem poupado esforços para reassumir o seu grande papel em nosso mundo. 

Uma história tão longeva, é claro, teve graves impactos sobre os recursos naturais do país. Por causa da superexploração, a China perdeu grande parte da sua cobertura florestal, principalmente no Norte do país – no final da década de 1970, restava apenas 5% da cobertura vegetal da região Norte da China; na década de 1990, após uma série de programas de reflorestamento, a situação havia melhorado um pouco e a cobertura florestal do Norte do país se aproximou dos 10%. 

O país também se destaca pelos altos níveis de poluição do ar em suas cidades. Relatórios com dados sobre a qualidade do ar em 2018, mostraram que o índice médio de partículas mais finas, conhecidas como PM2.5, nas 338 maiores cidades chinesas ficou em 60 microgramas por metro cúbico de ar. O valor máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde, é de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Em grandes regiões metropolitanas da China como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis dessas partículas até 40 vezes acima do nível recomendado pela OMS. 

Quando se fala em recursos hídricos, a situação não é muito melhor – calcula-se que entre 60 e 70% dos rios chineses estejam poluídos, com níveis de degradação que transformam os poluídos rios brasileiros em “regatos das montanhas”. Um relatório oficial do governo chinês, divulgado em 2012, informava que “cerca de 40% dos rios chineses estão seriamente poluídos” e “20% estão tão poluídos que suas águas são tóxicas e impróprias ao contato humano”.   

Desde 2014, felizmente, vem ocorrendo uma verdadeira guinada nos rumos das políticas ambientais da China e o antigo “vale tudo em prol do desenvolvimento” parece ter ficado para trás. O país vem adotando políticas rígidas para a proteção ambiental. Um exemplo dessa mudança pode ser observado no aumento das emissões de Certificações Ambientais ISO 14000 – empresas da China são as líderes mundiais na obtenção dessa certificação. Apesar das ótimas intenções, os passivos ambientais são gigantescos e serão necessárias muitas décadas para colocar “alguma ordem na casa”. 

Uma área altamente problemática na China é a agricultura. O país abriga a maior população do mundo – cerca de 1,4 bilhão de habitantes, e alimentar tantas bocas é um desafio contínuo. Apesar de possuir a terceira maior extensão territorial do mundo, com 9,6 milhões de km², pouco mais de 14% desse território é formado por terras agricultáveis. A maior parte dos solos na China são áridos, semiáridos ou rochosos. Apesar da produção agrícola chinesa ser maior que a dos Estados Unidos, ela ainda é insuficiente para atender a demanda da população. 

Além da pouca disponibilidade de áreas agrícolas, parte importante dos solos ocupados pela agricultura sofre com a degradação. De acordo com informações da agência de notícias oficial do país, a Xinhua, de 2014, mais de 40% das terras agricultáveis da China estavam em processo de degradação. Entre os problemas podemos citar a poluição, a erosão de solos e a desertificação

A maior parte das regiões Noroeste, Norte e Nordeste da China são ocupadas por grandes desertos, como é o caso do Deserto de Gobi. Esse deserto se divide entre a China e a Mongólia, ocupando uma área com 1,3 milhão de km². Também merecem destaques o Deserto de Taklamakan, com cerca de 270 mil km², o Deserto de Baidan Jaran, com 50 mil km², e o Deserto de Mu Us, com 32 mil km². Além desses, existem alguns desertos menores como Lop, Dsootoyn Elisen, Hami e Tengger

O Deserto de Gobi, citando apenas um exemplo, está em expansão e avança cerca de 3.600 km² rumo ao Sul a cada ano. As grandes tempestades de areia que ocorrem nessa região de deserto lançam sedimentos a distâncias de até 2.000 km ao Sul, atingindo importantes áreas agrícolas

Parte desse problema teve sua origem em grandes desmatamentos feitos numa extensa faixa entre Noroeste e o Nordeste da China. Além da derrubada de florestas para o aproveitamento da madeira ao longo da grande história da China, é preciso destacar épocas mais recentes, quando houve um verdadeiro ataque frontal a esses recursos florestais. Falo aqui dos tempos do Grande Salto Adiante, um conjunto de políticas iniciadas em 1958, que tinham como objetivo transformar a China em um país desenvolvido em tempo recordo. 

Essas políticas resultaram em verdadeiros fracassos e, entre outras graves consequências, criaram a chamada Grande Fome de Mao, que levou a um número de mortos por inanição entre 15 e 55 milhões entre 1959 e 1961 (lembro aqui que as estatísticas oficiais na China são um problema – o “sistema” esconde dados negativos). Existem imagens registradas há época que mostram verdadeiros “exércitos” de trabalhadores derrubando e carregando troncos de árvores nessas regiões. 

Ciente da gravidade do avanço do Deserto de Gobi e dos problemas criados pela desertificação em extensas faixas de terras nas regiões Noroeste, Norte e Nordeste, o Governo Central da China lançou ainda em 1978, o Programa da Grande Muralha Verde (三 北 防護林 em chinês tradicional), que tinha como objetivo o aumento da cobertura florestal dessas regiões, passando de 5% para 15%. Esse programa deverá estar concluído em 2050, quando se terá plantado uma faixa de floresta com 4.500 km de extensão. Em 2009, a área plantada já cobria cerca de 500 mil km², formando a maior floresta artificial do mundo.  

Apesar dos aparentes ótimos resultados, o projeto apresenta uma série de problemas. Em 2008, por exemplo, as fortes tempestades de inverno destruíram 1/10 das árvores plantadas naquele ano. Já em 2009, foram plantados 53 mil hectares de floresta e cerca de ¼ das plantas morreram. Outro grave problema é o aumento do consumo das águas do subsolo pelas árvores em crescimento. Um exemplo é a região de Minqin, no Noroeste do país – estudos feitos em 2016, indicavam que o nível do lençol freático havia baixado de 12 para 19 metros

Outro problema apontado por especialistas estrangeiros é o plantio de espécies de rápido crescimento como os choupos (gênero Popolus) e que resultam na formação de florestas com baixa biodiversidade e suscetíveis ao ataque de pragas e fungos. No ano 2000, cerca de 1 bilhão de choupos plantados foram atacados por uma doença e morreram, uma perda que deverá resultar em um atraso de 20 anos no projeto

Os especialistas chineses afirmam que existem cerca de 1,7 milhão de km² de terrenos com solos desertificados em toda a China e cerca de 530 mil km² desses solos podem ser recuperados. Apesar das críticas, esses especialistas acreditam que o grande “quebra vento” que está sendo criado com o plantio da Grande Muralha Verde ajudará na contenção das areias dos desertos e na recuperação desses solos. Além disso, o Governo Central da China não admite críticas aos seus projetos – ou se segue com o plantio das árvores ou se segue com o plantio das árvores: simples assim e sem opções! 

Como diz um velho ditado: só quem viver, verá! 

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