A COLONIZAÇÃO DO OESTE CATARINENSE E A DEVASTAÇÃO DA MATA DAS ARAUCÁRIAS

A história de Santa Catarina não foi tão tranquila como normalmente costuma parecer. Em julho de 1839, como uma espécie de extensão da Revolução Farroupilha que tomava conta do Rio Grande do Sul, revoltosos catarinenses concentrados na região de Laguna, no Sul da Província, declararam a República Juliana.

Ao longo de 4 meses, grande parte de Santa Catarina foi transformada em uma república independente do Império Brasileiro. Alguns personagens marcantes dessa “aventura” de românticos foram Anita e Giuseppe Garibaldi. Por absoluta falta de viabilidade econômica e política, além de uma dramática inferioridade em forças militares, a República Juliana terminou em novembro daquele mesmo ano. 

Um outro caso complicado, esse de ordem diplomática, foi a chamada Questão de Palmas, que se estendeu entre 1890 e 1895, onde a Argentina reivindicava as regiões Oeste dos Estados de Santa Catarina e do Paraná. Alegando que a região pertenceria ao país vizinho de acordo com o Tratado de Madrid de 1750, os argentinos pretendiam estender os limites da sua fronteira até os rios Chapecó, em Santa Catarina, e Chopim, no Paraná. Felizmente, a questão pode ser resolvida diplomaticamente e acendeu um alerta entre os governantes brasileiros para que se estimulasse o povoamento daquelas regiões de fronteira. 

Um outro conflito, esse bem mais violento, foi a Guerra do Contestado, que se arrastou entre os anos de 1912 e 1916, deixando um saldo de mais de 5 mil mortos nos embates. A peleja envolveu posseiros e pequenos proprietários de terras da região conhecida como Contestado, área localizada no Oeste catarinense e que estava em litígio entre Santa Catarina e Paraná. 

O imbrólio começou quando empresário norte-americano Percival Farquhar assumiu o controle da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande em 1908. O empreendimento, com uma extensão total de 1.400 km, começou a ser construído em 1897 e viria a interligar as cidades de Itararé, no interior da Província de São Paulo, a Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A ferrovia atravessava toda a região Oeste dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, área rica em florestas e com grande potencial para exploração madeireira. 

Uma das cláusulas do contrato de concessão previa que a ferrovia deteria os direitos de exploração exclusiva dos recursos florestais ao longo de uma faixa de 15 km de cada lado dos trilhos. Inúmeros posseiros e pequenos proprietários de terras dessas regiões, que viviam da coleta da erva-mate e exploração da madeira, foram fortemente prejudicados. Na região do Contestado, essas populações pegaram em armas e partiram para o confronto. Muitos desses revoltosos foram influenciados pelas pregações de religiosos locais autodenominados “messias”.  

Estudiosos modernos apontam a desigualdade social e a luta de classes como uma das principais razões para a deflagração da Guerra do Contestado. Forças do Governo federal e das polícias militares das Províncias enfrentaram os revoltosos, sendo necessários quatro anos para apaziguar a região. Uma das consequências diretas desse movimento foi um grande esforço do Governo de Santa Catarina na colonização e regularização de terras em todo o Oeste do Estado. 

O Oeste catarinense começou a ser ocupado por exploradores de erva-mate a partir de meados do século XIX. A árvore da erva-mate, a Ilex paraguaiensis, tem sua ocorrência consorciada com as Matas das Araucárias – a planta depende do sombreamento criado por árvores maiores para se desenvolver. A produção de erva-mate em Santa Catarina foi de 5 mil toneladas em 1910 – em 1920, essa produção já chegava a 19 mil toneladas.  

Os exploradores viviam uma vida nômade em busca das “manchas” de erva-mate. Grande parte da produção era escoada através dos rios Negro, Uruguai e Prata até Montevideo, no Uruguai, onde era embalada e exportada para Argentina, Paraguai e de volta para o Brasil. 

A colonização efetiva das terras do Oeste catarinense ganhou força logo após o final da Guerra do Contestado. Diversas companhias de colonização que já atuavam no interior do Rio Grande do Sul começaram a mostrar interesse em expandir suas atividades para Santa Catarina. Além da farta disponibilidade de terras de ótima qualidade, o que por si só já se apresentava como um excelente apelo comercial para a venda dos lotes rurais para os pequenos agricultores, a região tinha um grande potencial de ganhos com a exploração madeireira. 

As companhias colonizadoras contavam com o respaldo e completo apoio do Governo de Santa Catarina, que enxergava a “ocupação territorial, combinada com a ideia de desenvolvimento de uma atividade econômica”. Essa solução resolveria tanto os conflitos pela posse da terra, que ficaram evidentes durante a Guerra do Contestado, quanto as possíveis questões de reivindicações territoriais da Argentina, uma possibilidade que ainda incomodava muita gente. 

Formadas em sua grande maioria por comerciantes e especuladores, as companhias colonizadoras adquiriam grandes extensões de terra junto ao Governo de Santa Catarina e se encarregavam de demarcar os lotes. Essa demarcação respeitava as características dos terrenos, especialmente os cursos d’água e a topografia. As empresas também abriam as estradas vicinais e providenciavam infraestruturas básicas como a construção de pontes. 

Os contratos assinados entre o Governo catarinense e as empresas de colonização estabeleciam uma série de condições para a rápida efetivação dos projetos de colonização e ocupação das terras por colonos. Uma cláusula em um desses contratos chama a atenção – ela determinava que:

as terras adquiridas devam ser cultivadas ou aproveitadas dentro de dois anos, contados da data do título definitivo, sob pena de serem levadas a hasta publica, sem direito a reclamação”. 

Com toda essa pressão governamental, somada à grande demanda de madeiras pelas indústrias moveleiras, por setores como a construção civil e, sobretudo, a forte demanda nos mercados internacionais, a Mata das Araucárias em Santa Catarina rapidamente começou a desaparecer. 

Entre 1930 e 1990, perto de 100 milhões de araucárias foram derrubadas para aproveitamento da sua madeira, principalmente nos Estados da Região Sul do Brasil. Entre as décadas de 1930 e 1960, a madeira de pinho das araucárias esteve no topo da lista das madeiras exportadas pelo Brasil. A antiga região de domínio da Mata das Araucárias em Santa Catarina, que correspondia a cerca de 30 mil km², hoje está reduzida a uma área fragmentada entre 900 e 1.500 km².  

Cerca de 85% dos remanescentes florestais da Mata das Araucárias em Santa Catarina tem área inferior a 50 hectares. Essas “ilhas de vegetação”, além de colocarem em risco a própria sobrevivência das araucárias, também criam enormes problemas para a fauna silvestre – populações animais isoladas têm grandes dificuldades para a reprodução e podem se extinguir em poucas décadas. Os demais sistemas florestais da Mata Atlântica no Estado cobrem uma área equivalente a 17% da cobertura original, também composta por inúmeros fragmentos florestais isolados

Toda essa devastação ambiental traz em seu bojo uma série de problemas para as populações locais, que vão da perda de caudais nos rios e processos erosivos nos campos agrícolas até alterações no clima de várias regiões. Vou citar apenas um desses problemas – a maior parte da erva-mate consumida pelos catarinenses, que até poucas décadas atrás era colhida nas florestas locais, hoje em dia é produzida no Estado do Paraná.

5 Comments

Deixe uma resposta para UM ”CASE” AMBIENTAL CATARINENSE, OU A VINGANÇA DOS PORCOS | ÁGUA, VIDA & CIA – Fernando José de Sousa Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s