O PROBLEMÁTICO RIO ITAJAÍ E SUAS ENCHENTES HISTÓRICAS

Em novembro de 2008, após uma sequência de vários dias com chuvas fortíssimas, o vale do rio Itajaí, em Santa Catarina, foi assolado pela maior tragédia ambiental de sua história. As águas do rio subiram mais de 11 metros, deixando cerca de 80 mil pessoas desabrigadas, além de um trágico rastro de destruição e mortes – a Defesa Civil contabilizou um total de 135 mortos nas enchentes.

Somente na cidade de Blumenau, uma das maiores da região, cerca de 103 mil pessoas foram afetadas diretamente pelas enchentes. Em Itajaí, 85% do território urbano foi encoberto pelas águas da enchente e 40 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas. 

A bacia hidrográfica do rio Itajaí ocupa cerca de 16% do território de Santa Catarina, se estendendo por cerca de 15 mil km² em 47 municípios do Estado. O principal curso da bacia hidrográfica é o rio Itajaí-Açu, formado pela junção dos rios Itajaí do Oeste e Itajaí do Sul. Outros importantes tributários são os rios Itajaí do Norte, Itajaí-Mirim, Benedito, Luís Alves e do Testo. 

O nome do rio, Itajaí-Açu, foi dado pelos índios tupis que viviam no litoral e pode estar ligado a uma formação rochosa da Praia de Cabeçudas – a Pedra do Papagaio. Na língua tupi, essa pedra era chamada de itajaí-açu, que significa, literalmente, “pedra do pássaro grande”. Uma outra hipótese para a origem do nome é tajahy, que significa “rio dos taiás”, uma planta comestível abundante nas margens do rio e que era muito apreciada pelos indígenas. Em muitas regiões do Brasil essa planta é conhecida como taioba. 

As enchentes sempre existiram no vale do rio Itajaí, podendo-se até afirmar que elas faziam parte da paisagem. O rio apresenta uma baixa declividade, o que se reflete em uma corrente de águas lentas e a necessidade de grandes áreas alagáveis ou várzeas nas margens para absorver os excessos nos períodos de chuvas. Com a forte colonização em Santa Catarina a partir de meados do século XIX e com a derrubada de grandes extensões de matas para a criação de áreas para a agricultura e pecuária, os problemas só se agravaram. 

De acordo com dados históricos disponibilizados pelo Centro de Operações do Sistema de Alerta da FURB – Universidade Regional de Blumenau, foram registradas 76 grandes enchentes no rio Itajaí desde 1852. Em 66 dessas enchentes, o nível do rio ultrapassou a marca dos 9 metros na cidade de Blumenau. As maiores cheias já registradas foram as de 1852, quando o nível do rio atingiu a marca de 16,3 metros, a de 1880, com 17,1 metros e a de 1911, com a marca de 16,9 metros

Até 1910, eram observadas, em média, duas grandes enchentes por década. A partir dessa data, os dados mostram um aumento gradativo das enchentes no vale do rio Itajaí – ao longo da década de 1970 foram registradas 10 grandes enchentes, uma sequência de desastres naturais que arrasou com a economia da região. Um dos setores mais afetados foi o da indústria têxtil, que ao longo de sua importante história na região assistiu à instalação de inúmeras fábricas nas margens do rio – a água é um insumo essencial para os processos de tecelagem e tingimento de tecidos

Um dos mais antigos núcleos habitacionais da região é Itajaí, que surgiu a partir da sesmaria de terras doadas pela Coroa de Portugal ao bandeirante paulista João Dias de Arzão em 1658. Durante muito tempo, essa região foi uma importante fornecedora de madeiras de boa qualidade, que eram extraídas pelos locais e exportadas para as cidades de Santos e do Rio de Janeiro.

A colonização efetiva começou a partir de 1750, quando colonos portugueses, especialmente os originários dos Arquipélagos da Madeira e dos Açores, começaram a chegar em grande quantidade na região. O rio Itajaí foi transformado na principal via de comunicações e transportes com as povoações que passaram a surgir por todo o vale. 

Um dos principais marcos da colonização do vale do rio Itajaí se deu em 1850, quando foi fundada a Colônia de São Paulo de Blumenau pelo alemão Hermann Blumenau. As primeiras famílias alemãs que desembarcaram na região a partir dessa data iniciaram a ocupação seguindo o modelo alemão de colonização de terras – o stadtplatz.

Esse modelo se baseia na ocupação de terras ao longo do curso de um rio. Gradativamente, as grandes áreas de várzea do rio passaram a ser desmatadas e ocupadas por fazendas, granjas, currais e outras instalações rurais. Já em 1852, uma grande enchente assolou o vale, destruindo todo o trabalho até então realizado por essas famílias. 

Em 1855, o diretor geral da Colônia – Hermann Blumenau, encaminhou uma longa carta ao Imperador Dom Pedro II, o grande incentivador da colonização alemã no Vale do Itajaí, onde detalhava a situação dramática dos colonos e solicitiva apoio da Coroa: 

Menos de 36 horas foram suficientes, para encher o rio até a altura inaudita de mais de 63 palmos além do seu nível ordinário, antes barrancos e as casas nelas estabelecidas e causou tanto na colônia, como em todo o seu comprimento habitado inúmeros males e prejuízos diretos, que em tão pequena distância e população não se podem avaliar em menos de 60 até 80 contos de Reis, e antes em mais do que em menos. […] A situação foi tristíssima em toda a parte, os mantimentos subiram a um preço enorme e se não queria ver perecer os colonos pela fome e perder inteiramente o fruto de anos de trabalho pela sua dispersão não havia remédio, senão sustentá-los de novo, com fortes adiantamentos que abatiam todos os meus cálculos anteriores”. 

As preocupações com as grandes enchentes no vale do rio Itajaí vêm de longa data, porém, nunca se transformaram em ações concretas de prevenção. Os desmatamentos em toda a bacia hidrográfica continuaram e os Governantes locais nunca se esforçaram para coibir a ocupação das margens e áreas de várzea dos rios da região. O modelo de ocupação territorial stadtplatz continuou sendo usado.

Originalmente, 85% do território catarinense era coberto por vegetação de Mata Atlântica. As sucessivas ondas de colonização e ocupação do território de Santa Catarina resultaram na destruição da maior parte dessa cobertura florestal, que atualmente está reduzida a pouco mais de 17% de sua área original. 

Na década de 1920, o Governo local encomendou estudos a dois especialistas, buscando alternativas técnicas para o combate das enchentes. Esses especialistas eram Otto Ronkohl e Adolf Odebrecht. Entre as propostas apresentadas, se incluíam a construção de canais para melhorar o escoamento das águas, a retificação do curso sinuoso do rio Itajaí de forma a aumentar a velocidade do escoamento das águas e também a construção de represas para conter o excesso de águas no período das chuvas.  

Nenhuma dessas propostas foi levada adiante até meados da década de 1960, quando após intensa pressão popular teve início a construção da barragem de Taió, concluída em 1973. Em 1976 foi concluída a barragem de Ituporanga e em 1992 a barragem José Boiteux. Essas barragens ajudaram a reduzir a frequência das enchentes, mas não resolveram o problema.

As enchentes, porém, não são o único problema do rio Itajaí. Suas águas também sofrem com o lançamento de grandes quantidades de esgotos domésticos e industriais, despejos de efluentes de fazendas e sítios de criação de animais, além dos despejos difusos de resíduos sólidos de todos os tipos.

Na cidade de Itajaí, citando um único exemplo, perto de 95% da rede de drenagem de águas pluviais lança seus efluentes diretamente nas águas do rio Itajaí. Essas águas carregam para a calha do rio grandes quantidades de resíduos sólidos (lixo urbano, resíduos da construção civil, etc) despejados de forma irregular pela população por todos os cantos da cidade. 

Um rio que, naturalmente, já criava toda uma série de problemas em momentos de forte chuva, com toda essa “ajuda” humana não teria outro destino a não ser se transformar em uma eterna fonte de catastrófes.

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