ORANGOTANGOS, RINOCERONTES, TIGRES E OUTRAS ESPÉCIES AMEAÇADAS NA INDONÉSIA E NA MALÁSIA

Tigre-de-Sumatra

A destruição contínua de florestas – tropicais e boreais entre muitas outras, em todo o mundo causa enormes preocupações devido aos seus impactos diretos no clima e na temperatura do planeta. O aquecimento global, que para muita gente não passa de uma fantasia, já causa estragos em diversas partes do mundo e a tendência, infelizmente, é das coisas piorarem ainda mais.

Existe um outro lado da devastação das florestas que nem sempre é mostrado com a devida importância pelos meios de comunicação – a perda de habitats de diversas espécies animais, algumas em eminente risco de extinção. As florestas tropicais (ou equatoriais) da Indonésia e da Malásia são as líderes proporcionais em perda de cobertura florestal no mundo e, consequentemente, são as que apresentam o maior número de espécies animais em risco iminente de extinção.

Conforme comentamos na postagem anterior, as florestas da Indonésia possuem a segunda maior biodiversidade do mundo, só perdendo neste quesito para o Brasil. Já as florestas da Malásia, que apesar de apresentar um território com apenas 1/6 da área da Indonésia, abrigam perto de 20% de todas as espécies animais do mundo. Uma característica marcante dessas florestas é o elevado grau de endemismo de espécies, ou seja, espécies que são exclusivas de um determinado ecossistema.

A origem desse endemismo de espécies se deve ao fato dessas florestas se encontrarem, majoritariamente, em ilhas – a exceção no caso da Malásia é que parte do país fica na Península Malaia, na Ásia. Sempre que populações de animais são separadas em diferentes ilhas, devido por exemplo à elevação do nível dos mares, há uma tendência natural dos animais evoluírem de forma independente, adaptando-se às características particulares do novo meio ambiente.

Um exemplo clássico da biologia são os tentilhões das Ilhas Galápagos, um ponto chave para a formulação da Teoria da Origem das Espécies de Charles Darwin (1809-1882). Durante a lendária expedição do navio HMS Beagle, entre 1831 e 1836, Darwin pode realizar diversos estudos nas Ilhas Galápagos, na costa do Equador. Entre as diversas espécies de animais coletados e catalogados, Darwin encontrou espécies diferentes de aves da família dos tentilhões em cada uma das ilhas do arquipélago.

Estudos posteriores demonstraram que todas essas aves, apesar de apresentarem formatos de bico diferentes, tinham um ancestral comum. E mais – os diferentes formatos dos bicos foi uma adaptação evolucionária ao meio ambiente de cada uma das ilhas. Outro exemplo que podemos citar é o da jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie de cobra encontrada apenas na Ilha Queimada Grande, no litoral de São Paulo, também conhecida como Ilha das Cobras.

Até cerca de 11 mil anos atrás, época em que o mundo passava pela última Idade do Gelo ou Era Glacial, o Oceano Atlântico estava num nível 160 metros abaixo do atual e a área dessa ilha estava ligada ao continente. Com o aquecimento do planeta, o nível do mar começou a subir e uma população de jararacas comuns (Bothrops jararaca) ficou presa na ilha que surgiu – a jararaca-ilhoa evoluiu a partir dessa espécie e se adaptou à vida no novo meio ambiente que surgiu.

A história geológica das ilhas que formam os arquipélagos da Indonésia e da Malásia nos últimos milhões de anos testemunhou inúmeros eventos de elevação e rebaixamento do nível dos mares, movimentação de placas tectônicas, erupções vulcânicas, terremotos e muitos tsunamis. Esses sucessivos eventos uniram e separaram as diferentes massas de terras por diversas vezes. Inúmeras populações de diferentes espécies de animais também foram unidas e separadas inúmeras vezes, o que levou à formação de diferentes espécies e subespécies nas diferentes ilhas.

Uma das espécies animais mais carismáticas das florestas da Indonésia e da Malásia são os orangotangos, palavra que nas diferentes línguas locais significa “homem da floresta”. Existem três espécies: o orangotango-de-Bornéo (Pongo pygmaeus), o orangotango-de-Sumatra (Pongo abelii) e o orangotango-de-Tapanuli (Pongo tapanuliensis), essa última identificada apenas em 2017. O orangotango-de-Bonéo possui três subespécies: Pongo pygmaeus pygmaeus, Pongo pigmaeus morio e Pongo pigmaeus wurmbii.

Os orangotangos surgiram entre 17 e 19 milhões de anos atrás e são os últimos descendentes ainda vivos dos grandes primatas da subfamília dos Ponginae, onde se inclui o Gigantopithecus blacki, um primata que podia atingir uma altura de 3 metros e mais de 500 kg de peso. Ao longo de todo esse tempo, diferentes populações de orangotangos foram sendo separadas em diferentes ilhas e seguiram por diferentes caminhos evolutivos. A destruição das florestas tropicais na Malásia e na Indonésia estão reduzindo dramaticamente as populações de orangotangos e ameaçando de extinção as diferentes espécies e subespécies.

Outra espécie que merece destaque são os tigres-de-Sumatra (Panthera tigris sondaica). Trata-se de uma subespécie de tigre asiático (Panthera tigris), que ficou restrita à ilha de Sumatra, a maior do arquipélago indonésio. No passado, existiram outras duas subespécies, o tigre-de-Java (Panthera tigris sondaica) e o tigre-de-Bali (Panthera tigris balica), respectivamente da Ilha de Java e da Ilha de Bali. Os últimos exemplares do tigre-de-Bali desapareceram na década de 1930 e os tigres-de-Java na década de 1970. As causas da extinção são bastante conhecidas: destruição de habitats e caça predatória.

O rinoceronte-de-Sumatra (Dicerorhinus sumatrensis) é uma das espécies mais ameaçadas do mundo – em maio de 2019 morreu o último macho da espécie na Malásia, restando apenas duas fêmeas. Na Indonésia existe uma pequena população com cerca de 80 animais vivendo em alguns fragmentos florestais isolados. As principais causas do desaparecimento dessa espécie é a caça para a remoção do chifre, considerado um poderoso afrodisíaco em países como a China, e a destruição dos habitats para a implantação de lavouras, especialmente de palma-da-Guiné.

Os casos mais surpreendentes de endemismo na região ocorreram num passado remoto na Ilha de Flores, localizada no extremo Leste da Indonésia. Diversas pesquisas realizadas nessa ilha ao longo das últimas décadas trouxeram à luz diversos fósseis de animais extintos que tinham uma característica em comum – o nanismo. Em ambientes de ilhas, devido à limitação dos recursos naturais, existe uma tendência natural das espécies animais diminuírem de tamanho como forma de adaptação ao meio ambiente. A jararaca-ilhoa, por exemplo, tem apenas metade do comprimento da jararaca comum.

Na Ilha de Flores foram encontrados fósseis de elefantes e rinocerontes, entre outras espécies animais, muito pequenos e bem adaptados ao ecossistema local. Em 2004, surpreendentemente, foi encontrado um fóssil de um esqueleto humano adulto (uma mulher), quase completo, com cerca de 1,3 metro de altura. Escavações posteriores encontraram fragmentos e ossos humanos de dimensões também pequenas. Essa subespécie de humanos foi batizada de Homo floresiensis, que rapidamente ganhou o apelido de Hobbit, numa alusão aos personagens lendários da saga O Senhor dos Anéis.

Os estudos científicos já concluídos até o momento indicam que essa população humana chegou na Ilha de Flores há cerca de 750 mil anos atrás e, que, gradativamente foi diminuindo de tamanho para se adaptar às restrições do ecossistema local. Essa população se extinguiu entre 13 mil e 50 mil anos atrás por razões ainda desconhecidas. Lendas das populações nativas de Flores falam que ainda existem “pequenos caçadores selvagens” vivendo nas profundezas da floresta.

Além das espécies citadas, existem outras centenas de espécies e subespécies de animais que já desapareceram ou que estão com suas populações reduzidas a números extremamente baixos e que correm riscos iminentes de extinção. É preciso que o mundo deixe de se preocupar exclusivamente com a Floresta Amazônica e que passe a olhar com mais atenção para outros sistemas florestais que estão dizimados ano após ano, sem que se preste atenção ao drama vivido por suas populações de animais selvagens.

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