AS MANCHAS DE ÓLEO NAS PRAIAS DO NORDESTE E OS RISCOS AOS MANGUEZAIS E ARRECIFES DA REGIÃO

Arrecifes

Misteriosas manchas de óleo começaram a aparecer em praias do litoral do Nordeste desde o dia 30 de agosto e, hoje, já se estendem por cerca de 2 mil km da costa brasileira desde o Maranhão até o Sul da Bahia. De acordo com as investigações em andamento, as suspeitas recaem sobre um navio de bandeira grega – o Boubolina, de propriedade da empresa Delta Tankers. Procurada, a empresa vem negando qualquer irregularidade. 

Apesar de um acidente com petróleo com essas proporções ser inédito aqui no Brasil, eles costumam ocorrer com alguma frequência em mares e rios de todo o mundo. O petróleo é uma das mais importantes fontes de energia e de diversas matérias-primas industriais do mundo, e seu uso em grandes quantidades é imprescindível para a nossa vida moderna. O petróleo vem sendo usado pela humanidade desde tempos imemoriais, principalmente como impermebizante de construções e embarcações. Foi, porém, a partir das últimas décadas do século XIX, quando o uso do querosene para a iluminação doméstica e pública começou a se popularizar em todo o mundo, que a importância do petróleo se tornou cada vez maior. 

Essa importância atingiu novos e mais altos patamares após a invenção dos motores de combustão interna, coração dos automóveis, caminhões, motocicletas, máquinas agrícolas, aviões e, mais recentemente, dos navios. Inúmeras guerras pelo controle de áreas de produção de petróleo já mancharam grandes territórios com sangue. Já o petróleo, esse tem manchado terras e águas com sua cor escura e sua composição tóxica. 

O petróleo é o resultado da decomposição de matéria orgânica sob pressão e alta temperatura, num processo de milhões de anos. O óleo resultante desse processo têm em sua composição uma grande diversidade de elementos químicos e metais pesados, grande parte tóxica para os seres vivos. Entre essas substâncias destacamos o benzeno, tolueno e xileno, substâncias que podem provocar doenças no sistema nervoso central de seres humanos e de animais, entre outros problemas. Derramamentos de petróleo sempre são problemáticos para o meio ambiente, fauna e flora, mas quando ele ocorre nas águas, principalmente as marinhas, seus efeitos são devastadores.  

Os mares e oceanos abrigam uma gigantesca biodiversidade, que se apresenta na forma de cadeias tróficas – uma criatura menor é comida por outra maior, até se chegar aos grandes predadores do topo da cadeia alimentar. Uma contaminação das águas do mar por petróleo começa afetando as criaturas microscópicas dos bentos marinhos, que é o fundo do oceano, podendo chegar através da cadeia trófica até as grandes baleias, num efeito cumulativo de toxinas e elementos químicos. 

No cenário dessa tragédia nas praias da Região Nordeste, existem dois biomas fundamentais para a vida marinha e que estão sendo atingidos em cheio pelas manchas de óleo – os manguezais e os arrecifes. Esses dois biomas são as “maternidades” do oceano e a maior parte das espécies marinhas dependem de sua preservação para continuar sobrevivendo. 

Os manguezais ou mangues, como são chamados popularmente, são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes marinhos e terrestres. São encontrados nas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, sendo encontrados em enseadas, barras, lagunas, foz de rios, baías e em outras formações costeiras onde as águas doces de rios e lagos se encontram com as águas marinhas, formando um ambiente de águas salobras. 

As áreas de mangues possuem uma vegetação adaptada ao regime das marés, são plantas com raízes bem desenvolvidas, conhecidas como halófilas, e perfeitamente adaptadas às águas salobras. Os solos dos manguezais recebem e acumulam grandes quantidades de sedimentos e de matéria orgânica em decomposição, sendo considerados um dos mais férteis do planeta. Essa característica transforma os manguezais em importantes “exportadores” de matéria orgânica, algo essencial para a produtividade das áreas costeiras. Esse ecossistema rico em alimentos abriga centenas de espécies de peixes, moluscos, crustáceos, verme, aves, mamíferos e, também, populações humanas.  

Segundo estudos científicos, cerca de 70% das espécies marinhas utilizadas para alimentação humana, onde se incluem peixes, siris, camarões, lagostins, caranguejos, entre outras espécies, dependem das áreas de mangue para a sua reprodução. Um exemplo são os alevinos de diversas espécies de peixes, que passam a fase inicial de suas vidas abrigados entre as raízes do mangue, só migrando para as águas abertas dos oceanos após atingirem um tamanho maior e mais adequado para fugir dos predadores. Em regiões onde as áreas de mangue foram destruídas ou ocupadas, a produtividade pesqueira é cada vez menor. 

Os recifes de coral ou arrecifes, como são chamados no Nordeste brasileiro, tem uma função biológica semelhante. Essas formações são constituídas basicamente por rochas calcárias formadas pelo acúmulo dos restos de organismos vivos como algas, conchas e outros elementos compostos por carbonato de cálcio. Essas formações abrigam uma infinidade de espécies animais e vegetais marinhas, que por sua vez atraem espécies maiores como peixes, moluscos e crustáceos, além de tartarugas e mamíferos marinhos. Estima-se que 50% de todas as espécies de peixes do mundo vivam em formações de coral, onde encontram alimentos e áreas abrigadas para a reprodução

O litoral da Região Nordeste é famoso por suas grandes formações de barreiras de corais ou arrecifes, que ocupam a segunda maior extensão desse tipo de formação no mundo. Somente o trecho que se estende entre os Estados de Pernambuco e Alagoas tem uma extensão contínua de 130 km. Uma das áreas mais ricas do mundo em biodiversidade de corais é o Arquipélago de Abrolhos, localizado ao largo da costa Sul da Bahia, sendo considerado o maior santuário de vida marinha do Atlântico Sul. 

O trecho da costa nordestina impactado até o momento por esse grande derramamento de petróleo sobrepõe importantes áreas remanescentes de manguezais com áreas de arrecifes, o que, no médio e longo prazo, poderá resultar em graves perdas para a importante indústria da pesca local. As áreas de mangue do Nordeste são exploradas desde os primeiros tempos da colonização, fornecendo importantes fontes de proteína para as populações mais pobres. Exemplos são os caranguejos e outros crustáceos, que fazem parte da tradicional culinária regional. Outro exemplo é o sururu, um molusco bivalve comum nas áreas lagunares, e que depende da vegetação dos mangues para a sua reprodução. 

Apesar de sua importância, as áreas de manguezais sofrem com a pressão criada pela expansão de áreas urbanas e agrícolas, onde grandes áreas alagadas acabam sendo aterradas. Outro sério problema enfrentado por muitas áreas remanescentes de manguezais no Nordeste é a expansão dos tanques de carcinicultura – a criação de camarões em cativeiro, uma atividade em franca expansão na Região e que vem ocupando cada vez mais as áreas dos manguezais. 

Os arrecifes também vêm sofrendo fortes impactos com a sobrepesca, especialmente pelo uso de rede de arrastro, que destroem as formações de coral. Outra fonte de pressão é o turismo descontrolado em algumas áreas de arrecife. Sendo uma das principais atrações turísticas de algumas praias, os arrecifes são muito procurados pelos banhistas, que acabam pisoteando e destruindo suas formações. 

Apesar de todos esses problemas já existentes nos manguezais e arrecifes da Região, nada se comparara ao potencial de danos que podem ser desencadeados por esses imensos volumes de óleo, que segundo temores de algumas autoridades, ainda poderão aumentar daqui para a frente. Uma verdadeira catástrofe ambiental sem previsão para acabar… 

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