TEIMOSO, O LENDÁRIO JACARÉ DO RIO TIETÊ

Teimoso

Uma das histórias mais surpreendentes e até folclóricas sobre a resiliência da vida no poluído rio Tietê é a saga do jacaré Teimoso, que mobilizou Bombeiros, Polícia Florestal,  Guarda Civil Metropolitana, grupos ambientais e de proteção aos animais e, sobretudo, toda a população da cidade de São Paulo em 1992. Foram mais de dois meses de busca e tentativas de captura ao animal. 

O rio Tietê, para quem não conhece a cidade de São Paulo, atravessa a mancha urbana no sentido Leste-Oeste. Durante grande parte da história da cidade, o rio Tietê foi uma importante via de transporte de cargas e pessoas por todo o Planalto de Piratininga, ligando toda uma série de pequenas cidades do entorno ao centro da cidade de São Paulo. Na região onde encontramos hoje a Rua 25 de Março, um dos mais importantes centros comerciais da cidade, funcionou um movimentado porto fluvial até o início do século XX. O chamado Porto Geral ficava no rio Tamanduateí, o principal afluente do rio Tietê na região. 

Com o forte crescimento da cidade e com uma utilização cada vez maior dos transportes rodoviários, a navegação no rio Tietê foi sendo gradativamente abandonada. A partir da década de 1920, a calha irregular do rio Tietê passou a ser retificada, com vistas a permitir o avanço da cidade sobre as antigas áreas de várzea. Na década de 1950, foi inaugurado o primeiro trecho da Marginal Tietê, isolando ainda mais a calha do rio. A intensa urbanização também se refletiu em um aumento cada vez maior da poluição nas águas do rio, que cada vez mais foi relegado a um plano secundário na vida da cidade. O antigo rio, cheio de vida, acabou transformado em uma imensa vala de esgotos a céu aberto. 

A percepção negativa (e até repulsiva) da população em relação ao rio Tietê mudou abruptamente em meados do ano de 1992, quando começaram a circular vários relatos de avistamentos de um jacaré nadando nas águas poluídas, entre as pontes da Vila Maria e da Vila Guilherme, na Zona Norte da cidade. A surpreendente notícia passou a atrair um grande número de moradores da região para as margens e pontes do rio Tietê – todos queriam ver o jacaré, que rapidamente ganhou o “carinhoso” nome de Teimoso. Não tardou muito para as autoridades confirmarem que era um jacaré-do-papo-amarelo, uma espécie nativa da Mata Atlântica e que há várias décadas não era visto nas águas do rio Tietê. 

As primeiras tentativas de busca e captura ao jacaré Teimoso foram feitas por Bombeiros da cidade de São Paulo, que passaram a vasculhar as águas e margens em um bote, com apoio de equipes em terra. Os Bombeiros pretendiam lançar uma rede para capturar o jacaré – o esperto animal sempre mergulhava nas águas escuras e assim conseguia driblar os caçadores. É interessante comentar que todas as tentativas de captura do jacaré eram acompanhadas por uma verdadeira multidão de curiosos, o que, em vários momentos, chegou a paralisar o tráfego de veículos em trechos da Marginal (vide foto). Um batalhão de fotógrafos e jornalistas dos principais jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, em carros, motos e até em helicópteros, acompanhavam atentamente cada uma dessas operações. 

Depois de duas semanas de buscas ao jacaré, dois Bombeiros em um bote e mais uma equipe em terra finalmente conseguiram cercar o animal – uma rede com cerca de 40 metros foi lançada nas águas do rio Tietê e o animal foi aprisionado contra uma das margens. Foi então que um helicóptero apareceu bruscamente e assustou o animal, que mergulhou e conseguiu escapar por baixo da rede. A “plateia” foi à loucura após essa fuga espetacular do Teimoso. Os constrangidos Bombeiros passaram a se desculpar pelas falhas na captura do jacaré, alegando que não tinham nenhuma prática nesse tipo de atividade. 

As operações de buscas feitas pelos Bombeiros receberam reforços da Polícia Florestal e da Guarda Civil Metropolitana da cidade de São Paulo, e se estenderam por mais dois meses. O jacaré foi finalmente capturado por uma equipe da Polícia Florestal enquanto nadava nas águas do rio Pinheiros, um afluente do rio Tietê na Zona Sul de São Paulo. Na realidade, foram capturados sete jacarés nessa operação, o que levantou a suspeita dos animais terem sido libertados nas águas do rio por algum criador clandestino. Todos os animais foram levados para o Parque Ecológico do Tietê, na Zona Leste de São Paulo. 

O jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris) é amplamente distribuído pelas bacias hidrográficas dos rios Paraná, Paraguai, Uruguai e São Francisco, além de ser encontrado em ecossistemas costeiros como os manguezais e estuários de rios. Em média, os jacarés dessa espécie têm cerca de 2,5 metros de comprimento, mas já foram encontrados espécimes com até 3,5 metros. Os animais adultos apresentam uma cor verde-oliva, que passa a um tom quase negro conforme os animais ficam mais velhos; os filhotes apresentam uma coloração em tons de marrom, com listas e pontos negros pelo corpo. Durante a fase de acasalamento, os animais costumam ficar com a região do papo amarelada, o que deu origem ao seu nome popular. A espécie é carnívora e se caracteriza por ter uma mordida extremamente forte. De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, os jacarés dessa espécie pesam entre 45 e 80 kg, o que nos dá uma ideia das suas necessidades calóricas diárias. 

A presença de um grupo de jacarés na calha do rio Tietê, onde os níveis de oxigênio dissolvido na água eram, na época, próximos de zero, intrigam os especialistas até hoje. Com essas condições, as águas do rio não podiam suportar praticamente nenhuma forma de vida e não há como saber como os jacarés conseguiram se alimentar por tanto tempo. O cardápio de um jacaré-do-papo-amarelo pode incluir moluscos, crustáceos, peixes, aves, morcegos, répteis, anfíbios e até animais maiores como antas e capivaras. A exceção de uma ou outra ave desavisada que posou numa das margens do rio ou de algum rato de passagem pela calha, praticamente nenhuma outra forma de vida podia ser encontrada nas águas do rio.  

O jacaré Teimoso colocou o rio Tietê em evidência na grande mídia e foi fundamental para despertar a atenção da população da cidade de São Paulo para os problemas de poluição nas águas do rio – de uma hora para outra, descobriu-se que aquela grande vala de esgotos poderia abrigar vida. O animal foi transformado na mascote de uma campanha que foi criada por grupos ambientalistas para pressionar as autoridades locais a realizarem investimentos na limpeza e despoluição do rio Tietê. 

Apesar de ainda ocupar a primeira posição na lista dos rios brasileiros mais poluídos, a situação do rio Tietê melhorou muito depois da aparição do jacaré Teimoso. Em 1999, teve início um grande conjunto de obras para o aprofundamento da calha e urbanização das margens do rio, com vistas a um maior controle das inundações na cidade. De acordo com dados da CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, mais de 90% das fontes de poluição industrial do rio Tietê já foram controladas. Também houve um substancial aumento nos volumes de esgotos coletados e tratados em toda a Região Metropolitana de São Paulo, o que reduziu o volume de poluentes que chega na calha do rio. A mancha de poluição, que antes chegava até 530 km e atingia a região de Barra Bonita,  recuou para pouco mais de 120 km. 

Jacarés e capivaras, além de ratões-do-banhado, guarás e garças, entre outras espécies animais que teimam em sobreviver nas águas e margens dos poluídos rios da Região Metropolitana de São Paulo, são exemplos da determinação e resiliência da vida animal, que, apesar das dificuldades criadas pela humanidade, ainda insistem em sobreviver nos ambientes altamente degradados dos nossos recursos hídricos. 

Que seus exemplos nos inspirem a cuidar melhor de nossas águas. 

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