UM AÇÚCAR FEITO COM CASCAS DE CAMARÃO: UAU!

Camarões

Entre chuvas de verão, vazamento de rejeitos de mineração em Barcarena, inverno com temperaturas glaciais na Europa e problemas de seca na região da Campanha Gaúcha, vamos dar uma parada para comentar uma daquelas raras boas notícias na área ambiental.

Jovens pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Produtos Naturais da Universidade Federal do Tocantins desenvolveram uma tecnologia que permite produzir açúcar a partir de cascas de camarão. Antes de mais nada, é importante falar que esse açúcar não será usado para adoçar o seu café, mas poderá ser transformado em álcool, o que abre toda uma nova gama de aplicações para a transformação dos resíduos do fruto do mar em um biocombustível já usado largamente em todo o Brasil.

De acordo com informações divulgadas pelos pesquisadores, a casca do camarão possui uma substância conhecida como quitosana. Essa substância é um biopolímero muito utilizado nas áreas farmacêutica, médica e química. A quitosana é, segundo as informações disponíveis, o segundo biopolímero mais abundante do planeta, ficando atrás apenas da celulose vegetal. A equipe de pesquisadores conseguiu degradar a quitosana através de processos químicos até formar um açúcar, que por sua vez pode ser transformado em álcool. O processo de produção tem baixo custo e gera um alto rendimento: uma tonelada de quitosana pode render 250 litros de álcool, enquanto a mesma quantidade de cana-de-açúcar rende apenas 80 litros de álcool.

Além da casca do camarão, a quitosana também pode ser encontrada na casca de outros crustáceos como lagostas, caranguejos e siris. A substância também é abundante no exoesqueleto de insetos como besouros, gafanhotos e baratas (essas existem aos montes em nossas cidades). No processo de produção, as cascas passam primeiro por uma etapa de trituração e depois por um processo químico que separa as proteínas, os minerais e a quitosana. Numa etapa posterior, a quitosana é misturada com dois produtos químicos, que transformam a substância primeiro em um gel e depois em açúcar fermentescível. Este açúcar, além de poder ser transformado em biocombustível, tem inúmeras outras aplicações industriais.

A notícia do desenvolvimento desta nova tecnologia, que talvez não desperte sua curiosidade num primeiro momento, ganha importância quando se considera que só a atual produção nacional de camarões é da ordem de 55 mil toneladas (em 2010, esse volume chegou a 75 mil toneladas) – se admitirmos que as cascas representam 10% deste volume, estamos falando de 5,5 mil toneladas de resíduos que acabam enviados para aterros e lixões por todo o país. O volume de cascas aumenta consideravelmente quando se incluem na lista os siris, caranguejos, pitus, guaiamuns, lagostas e outros crustáceos consumidos pelas populações de norte a sul do país – conseguir transformar todo esse volume de “lixo” em biocombustível é um excelente negócio.

As possibilidades de ganhos econômicos com esta nova tecnologia estimularam a Universidade e o Instituto Federal do Tocantins a fazerem o registro de patente internacional da descoberta sem depender que outros órgãos governamentais, extremamente burocráticos e lentos, o fizessem. Com este registro em mãos, a equipe de pesquisa ganhou prioridade para trabalhar na inovação por 18 meses em 196 países. Qualquer outra equipe científica ou empresa só poderá desenvolver trabalhos nesta área com autorização dos pesquisadores brasileiros.

Esta não é a primeira vez que a quitosana é objeto de pesquisa aqui no Brasil. Pesquisadores da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, já haviam desenvolvido trabalhos para o emprego do biopolímero na retirada de metais pesados da água. Na pesquisa, a quitosana sofreu um processo de alteração química, a partir do qual ela passa a ter a capacidade de fixar metais pesados como o cobre e o chumbo, permitindo assim a limpeza de corpos d’água poluídos. A quitosana, que é lançada na água na forma de pó, passa a se ligar com os metais pesados – uma filtragem da água retira o pó com os metais absorvidos. Após a retirada dos metais pesados, a quitosana em pó pode ser reutilizada.

Uma outra aplicação interessante da quitosana é seu uso para a produção de bolas de golfe, esporte muito popular na Grã-Bretanha e Estados Unidos. Campos de golfe normalmente são construídos em terrenos onde existem rios e lagos, onde um grande número de bolas acaba caindo acidentalmente. Campos de minigolfe também são muito comuns em navios de cruzeiros e as bolas que caem no oceano se transformavam em mais um problema de poluição ambiental.

Pesquisadores da Universidade do Maine, Estados Unidos, resolveram o problema ao buscar uma destinação para milhares de toneladas de casca de lagosta produzidas na região. O Estado do Maine é famoso pelas suas lagostas, que são processadas e exportadas para todas as regiões dos Estados Unidos, especialmente na forma de cauda de lagosta congelada. Os resíduos da produção eram encaminhados para descarte nos já saturados aterros da região Nordeste do país.

Com o desenvolvimento da tecnologia que permitiu a produção das bolas de golfe a partir dos resíduos de crustáceos em 2010, os praticantes do esporte passaram a contar com um produto com as mesmas características do plástico, onde a dureza e a velocidade da bola são fundamentais, porém com a vantagem de serem biodegradáveis – em contato com a água, este tipo de quitosana se desintegra naturalmente em poucas semanas, sem deixar qualquer vestígio ou resíduos.

A produção crescente e o descarte de resíduos sólidos é hoje um dos maiores problemas ambientais de nossa sociedade. Somente no ano de 2017, o Brasil produziu 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos. Apesar do volume crescente, especialmente de resíduos plásticos, nossas cidades não conseguem dar uma destinação adequada a todos os resíduos produzidos e muita coisa acaba sendo descartada de forma inadequada em terrenos baldios, ruas, rios e mares. Qualquer alternativa que venha estimular a redução destes resíduos sólidos será sempre bem-vinda, ainda mais quando trouxer em seu bojo a possibilidade de altos ganhos financeiros como se está projetando com a venda de biocombustíveis feitos a partir da casca de crustáceos (quiçá também com os exoesqueletos de muitos milhões de baratas).

Vamos torcer para que outras universidades brasileiras desenvolvam pesquisas que encontrem aplicações para o reaproveitamento de outros resíduos de nossa sociedade – matéria prima para a realização dos trabalhos é o que não falta em nossas cidades.

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