UMA SECA DEVASTADORA NA ARGENTINA

Seca em La Pampa

Na última postagem falamos rapidamente das loucuras do inverno europeu, que nos últimos dias quebrou todos os recordes de baixas temperaturas e tem causado transtornos e problemas a centenas de milhões de pessoas. Aeroportos de inúmeras cidades estão fechados, rodovias e ferrovias bloqueadas, serviços públicos em colapso e as autoridades recomendando que a população só saia de casa em casos de absoluta necessidade. Até mesmo o acesso ao abastecimento de água de muitas residências está complicado – as baixas temperaturas congelaram a água nas tubulações. Doses de paciência e de perseverança tem sido exigida de muita gente. O frio intenso ainda deve continuar castigando todo o continente entre 10 e 15 dias. 

Mas não precisamos ir até o Hemisfério Norte para assistirmos os extremos do clima nestes nossos tempos complicados – bem aqui do nosso lado, uma seca fortíssima está assolando toda a região da Pampa argentina, podendo reduzir a produção desta safra agrícola em até 30%. A situação é tão grave que fez a cotação da saca da soja subir no Brasil e nos Estados Unidos, dois grandes produtores do grão junto com a Argentina. A soja é uma matéria prima fundamental para a produção do farelo e ração usados na alimentação animal – as perspectivas de queda na produção argentina e as projeções de alta na demanda do grão já elevaram o preço da soja em 4,3% (em algumas regiões do Brasil esse aumento chegou a 8%), fazendo o grão atingir o maior patamar desde 2016 – R$ 70,00 a saca de 60 kg

A notícia causou euforia entre os produtores brasileiros que, na última safra, colheram 114 milhões de toneladas de soja e vêm com bons olhos a valorização do seu produto. Esse aumento de ganho dos produtores, que é uma notícia excelente no curto prazo, carrega toda uma carga de problemas no médio e longo prazo – com a valorização do grão, os fabricantes de farelo e de ração animal irão, inevitavelmente, subir os preços dos seus produtos. Quem trabalha com a criação de animais, especialmente com suínos e aves, terá um aumento nos seus custos – 70% do custo de produção é gasto com a compra de ração para os animais; logo, o preço final destas carnes e dos seus derivados nos supermercados subirá e acabará por atingir toda a população. Resumindo – todos nós vamos ter de ajudar a pagar a conta dos problemas criados pela seca na Argentina. 

Os Pampas ou La Pampa, nome em castelhano, ocupa uma área de aproximadamente 750 mil km², abrangendo o extremo Sul do Brasil, todo o território do Uruguai e as províncias de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Córdoba, Entre Rios e Corrientes na Argentina. A vegetação nativa é formada por campos naturais, com ótimos níveis de umidade e excepcional fertilidade. É considerado um dos melhores solos do mundo para a agricultura e pecuária. Na Argentina, o bioma La Pampa se distribui ao longo de diferentes padrões climáticos, criando as condições para a produção dos mais diferentes tipos de cultivares: grãos, flores e frutos, além de rebanhos de bovinos e de ovinos. A produção e a exportação de grãos e carnes é, desde da década de 1860, um dos pilares da economia da Argentina. A produção de soja e milho estão entre as mais importantes do país

O último relatório semanal da BCBA – Bolsa de Cereais de Buenos Aires, reduziu a expectativa de produção da soja do país para 44 milhões de toneladas, um valor com 3 milhões de toneladas a menos que a estimativa anterior. A estimativa está 10 milhões de toneladas abaixo das estimativas projetadas no início da safra e cerca de 13,5 milhões de toneladas abaixo da safra de 2017. Muitas das regiões que estão sofrendo com a forte seca deste ano, no ano passado foram castigas com fortes chuvas e enchentes. A quebra da safra de milho deste ano está estimada em 26%

As exportações de soja e milho correspondem a 36% da pauta de exportações da Argentina – a quebra da safra de grãos deste ano poderá representar um prejuízo financeiro de US$ 2 bilhões, o que é muito para um país que vem enfrentando sérias dificuldades para controlar a inflação e o quadro fiscal. A previsão de crescimento do PIB – Produto Interno Bruto, da Argentina, que estava estimado em 2,9% para este ano, já foi revisado para 2,5%. É importante lembrar que a Argentina é o maior parceiro comercial do Brasil e esta redução na projeção do crescimento é uma péssima notícia para nós, que sentiremos seus reflexos em nossas exportações para aquele país. 

Considerada a pior seca em La Pampa em 30 anos, o fenômeno climático atingiu as plantações em um momento crítico – na floração e formação dos grãos em algumas regiões, o que pode comprometer definitivamente a safra, ou na fase do crescimento dos grãos em outras regiões, o que significa um comprometimento da qualidade da soja (produção de grãos pequenos, de menor valor comercial). Na safra de 2009, a Argentina enfrentou uma quebra de safra por causa do excesso de chuvas – as projeções iniciais falavam de uma produção acima de 46 milhões de toneladas de soja, mas que acabou em apenas 39,9 milhões de toneladas. Essa quebra de safra levou a Argentina a uma recessão, tamanha a dependência do país na exportação de grãos

Essa estiagem, que está afetando em graus diferentes perto de 80% de La Pampa argentina, também está atingindo a região da Campanha no Rio Grande do Sul. O bioma Pampa ocupa aproximadamente 62% do território do Rio Grande do Sul, sendo considerado o segundo menor bioma do Brasil – o menor é o Pantanal Mato-grossense. A região da Campanha se estende ao longo da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e é uma das principais regiões vinícolas do Brasil. Seis cidades da região já declararam situação de emergência por causa da seca. Considerando que estamos caminhando para o final da temporada de chuvas deste verão, podemos afirmar que os problemas na região da Campanha Gaúcha só estão começando. 

Como comentei em postagens anteriores, o grande problema das mudanças climáticas globais e de suas consequências regionais é justamente o fato dos problemas não respeitarem nenhuma fronteira entre países. No caso do louco inverno europeu, países e populações de Norte a Sul e de Leste a Oeste do continente estão sofrendo com as baixas temperaturas. Neste caso da seca em La Pampa argentina, os problemas econômicos decorrentes da quebra de safra por lá vão acabar nos atingindo em cheio. É um jogo sem vencedores – a Argentina perde e nós brasileiros também perdemos. 

Novos tempos, novos problemas – é a humanidade “progredindo” como nunca dantes…

 

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