A VIOLÊNCIA DAS TEMPESTADES DE VERÃO, OU A CIDADE DO RIO DE JANEIRO DEBAIXO D’ÁGUA

Enchentes Rio de Janeiro

Na noite da última quarta-feira e madrugada da quinta-feira, entre os dias 14 e 15 de fevereiro, uma poderosa formação de nuvens de chuva atingiu o litoral Norte do Estado de São Paulo e as regiões do litoral Sul e Central do Rio de Janeiro, provocando imensos prejuízos para as populações locais.

Em São Paulo, onde as fortes chuvas começaram a cair ainda na manhã do dia 14 de fevereiro, as tempestades causaram fortes estragos nas cidades de São Sebastião, Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba. A Rodovia Mogi-Bertioga, uma das ligações entre o Planalto Paulista e o litoral teve diversos escorregamentos de encostas, que bloquearam completamente a rodovia. Trechos da Rodovia Rio Santos também tiveram quedas de barreiras sem o bloqueio total das pistas, porém, com muito barro acumulado sobre o pavimento da via. Nas cidades da região, foram registradas enchentes e alagamentos localizados, em pontos já bastante conhecidos pela população, causadas por antigos problemas nos sistemas de drenagem de águas pluviais.

Na cidade do Rio de Janeiro, a chuva foi simplesmente catastrófica – de acordo com dados divulgados pelo Alerta-Rio, entre 0h00 e 1h00 da madrugada do dia 15, foram registrados 123,6 mm de chuva na estação de medição meteorológica Barra/Riocentro. Esse volume de chuvas, o maior já registrado na cidade em apenas uma hora, é de proporções amazônicas – em 2010, quando trabalhava em obras de infraestrutura no Estado de Rondônia, testemunhei uma chuva de 132 mm em pouco mais de uma hora: posso afirmar que é água que não acaba mais!

A fortíssima tempestade causou inúmeros estragos por toda a cidade, incluindo alagamentos localizados em muitas avenidas, enchentes generalizadas em áreas mais baixas, quedas de árvores, desabamentos de construções e deslizamentos de encostas. Quatro pessoas morreram e pelo menos 1.500 ficaram desalojadas. Até ontem, dia 17 de fevereiro, cerca de 100 mil casas permaneciam sem energia elétrica devido aos estragos causados na fiação aérea da cidade.

Uma das cenas mais, digamos assim, dantescas da tragédia foi o afundamento de um trecho da ciclovia Tim Maia em São Conrado. Essa ciclovia, aliás, é a mesma que teve um trecho derrubado pela força das ondas de uma ressaca em 2016, poucas semanas após a inauguração. Isso só reforça a sensação da falta de infraestrutura de drenagem de águas pluviais na cidade ou, para falar o mínimo, de obras malfeitas e/ou mal projetadas (essa ciclovia, na minha humilde opinião, é uma verdadeira aula – “Tudo o que não se deve fazer em uma obra pública: projeto, execução e custos”).

Segue a reprodução de um trecho de reportagem publicada em um grande jornal local, onde se pode perceber que o caos foi generalizado em toda a cidade do Rio de Janeiro:

“Árvores caíram em mais de 60 ruas, causando obstrução de vias (e) afetando o tráfego de veículos. Órgãos da prefeitura atuam nos bairros de: Anchieta, Anil, Barra, Campinho, Centro, Cocotá, Grajaú-Jacarepaguá, Guadalupe, Ilha do Governador, Irajá, Jacarepaguá, Jardim Sulacap, Laranjeiras, Linha Vermelha, Maracanã, Olaria, Pechincha, Pedra de Guaratiba, Penha, Ramos, Recreio dos Bandeirantes, Santa Cruz, Sepetiba, Taquara, Vila Valqueire, Vila Cosmos e Vista Alegre.

Na Avenida Brasil, a pista lateral sentido Centro foi interditada na altura de Ramos por causa da queda de uma árvore. O COR (Centro de Operações Rio) informou que a interdição provoca reflexos em Irajá. Algumas pessoas desceram dos ônibus e tentaram seguir caminho a pé.

A Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá segue interditada em direção à Zona Oeste devido, também, à queda de uma árvore. Na Linha Vermelha, uma árvore caída na pista sentido Centro, na altura da Infraero, ocupou duas pistas, o que provocou tumulto no trânsito. A melhor opção para quem quer chegar ao Centro da cidade é a Avenida Pastor Martin Luther King e outras vias internas. (…)

Na área hospitalar, 11 unidades (hospitais municipais Evandro Freire, Paulino Werneck, Albert Schweitzer, Francisco da Silva Telles, Nossa Senhora do Loreto, Álvaro Ramos, maternidades Alexander Fleming e Carmela Dutra e UPAs Vila Kenndey, Sepetiba e Madureira) sofreram com a falta de energia e funcionam com geradores para garantir a assistência aos pacientes. O Hospital Lourenço Jorge utilizou o gerador por um período até o restabelecimento da energia.”

O Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, cujo nome convém nem citar, se reuniu com secretários e assessores no sábado, dia 17, para avaliar os problemas e estragos causados pelo temporal em toda a cidade. Uma nota divulgada pela assessoria de imprensa das “otoridades”, em minha opinião, é assustadora:

“Nossos reservatórios na Zona Norte não chegaram a transbordar, e foi satisfatório. No dia seguinte de manhã, na Fazenda Botafogo, a drenagem conseguiu que as águas tivessem um nível muito menor. Na Zona Oeste, no Jardim Maravilha, houve um tempo de escoamento maior, devido ao bairro estar bem abaixo da linha do mar, numa chuva que há décadas não caía sobre o Rio”.

Passados quatro dias das fortíssimas chuvas, com algumas áreas da cidade ainda inundadas ou com ruas cobertas com uma grossa camada de lama e lixo, além de um imenso rastro de destruição deixado pelos problemas de falta de infraestrutura para o escoamento de águas pluviais, e as máximas autoridades usam a classificação “Satisfatória” para avaliar o sistema de drenagem de águas pluviais da cidade? Desculpem-me, mas isto é uma grande brincadeira.

Durante o Carnaval, lamentavelmente, a Cidade do Rio de Janeiro sofreu com uma explosão de violência jamais vista, com roubos, arrastões e balas perdidas “comendo solto” (na última sexta-feira, não por coincidência, o Governo Federal decretou intervenção no sistema de segurança pública do Estado); logo depois, na noite da Quarta-feira de Cinzas, uma tempestade varreu a cidade e castigou a população como nunca. O Sr. Prefeito, que durante todo esse tempo esteve fora do país em uma suposta viagem “oficial”, chega depois de todo o estrago já feito e, na primeira reunião com seus secretários e assessores, diz uma barbaridade destas – não dá para levar a sério gente deste tipo!

A Cidade Maravilhosa e o Estado do Rio de Janeiro são grandes, fortes e importantes demais para a mediocridade e incompetência dos seus governantes atuais. Torço para que dias e tempos melhores cheguem logo ao “coração do meu Brasil”.

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