PONTA D’AREIA: A PRAIA MAIS POLUÍDA DE SÃO LUIZ

Ponta D'Areia

O Estado do Maranhão é sui generis, a começar pela sua capital, São Luiz, que foi fundada por invasores franceses em 1612. A cidade foi batizada como Saint-Louis, em homenagem ao rei da França da época, Louis XIII. Foi somente no final de 1614, após as tropas portuguesas vencerem os franceses na Batalha de Guaxenduba, que a cidade passou ao controle de Portugal e os franceses passaram a ser expulsos sistematicamente de todo o território do Maranhão.

Apesar de fazer parte da Região Nordeste, o Maranhão tem características físicas e culturais bem amazônicas, que o tornam mais próximo da Região Norte. O Maranhão tem 4° maior economia da Região Nordeste e ocupa o 17° lugar entre as economias Estaduais do Brasil. Apesar deste destaque econômico, o Maranhão está em 27° lugar (ou na última posição) quando se analisa o PIB – Produto Interno Bruto, Per Capita: ou seja, é o Estado que concentra a maior população pobre do país. Falando da política local, o Estado pode ser considerado, em linguagem metafórica é claro, como uma das últimas Capitanias Hereditárias do Brasil – uma mesma família, que “convém não citar o nome”, governa o Estado há várias décadas, com pouca alternância no poder político local (o atual Governador é uma das poucas exceções). Numa definição bem simplificada, podemos afirmar que o Maranhão possui em conjunto a “pobreza” nordestina e a falta de infraestrutura da Amazônia. Justifico esta afirmação tomando como exemplo o saneamento básico, foco principal desta série de postagens:

O Estado do Maranhão possui uma das piores infraestruturas de saneamento básico do país, ocupando a 23° posição entre todas as unidades da Federação. O Estado só fica a frente do Pará, Acre, Rondônia e Amapá, todos localizados na Amazônia. De acordo com dados de 2017 do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, apenas 12,1% dos moradores do Maranhão dispõe do serviço de coleta de esgotos. São Luiz ocupa 79° posição no ranking do saneamento básico das 100 maiores cidades brasileiras: 88,02% da população tem acesso a água tratada, 47,9% a serviços de coleta de esgotos e apenas 4,03% do esgoto produzido é tratado. A perda de água tratada nas redes de distribuição, por vazamentos e roubos (os chamados “gatos”), é de 28,35%. São números bem ruins mesmo. Toda essa carência de serviços básicos se reflete em danos ao meio ambiente local. Vejamos o caso da Praia da Ponta D’Areia.

A Ponta D’Areia é a praia mais popular e de mais fácil acesso da orla de São Luiz, distante apenas 4 km do centro da cidade. Ao longo da orla da bela praia se encontram inúmeros restaurantes, bares e clubes de reggae, um dos ritmos mais populares da região. Um único, porém: as águas da Ponta D’Areia não são recomendadas para o banho de mar. Mesmo assim, é a praia mais frequentada pelos banhistas da cidade.

Um laudo divulgado há poucos dias pela SEMA – Secretaria Estadual do Meio Ambiente, indicou que 80% da orla da Ponta D’Areia apresenta condições impróprias para o banho de mar. A fonte de contaminação das águas, como não poderia deixar de ser, são os lançamentos irregulares de esgotos e efluentes tóxicos de todos os tipos em toda a rede hídrica da ilha de São Luiz: rios e córregos, em vias públicas e também nas redes de águas pluviais. Com a chegada do período das chuvas, um volume maior desses esgotos chega até a praia, contaminando a água e as areias. O único trecho da Ponta D’Areia com boas condições de balneabilidade fica em frente ao Forte Santo Antônio.

As autoridades locais montaram postos de apoio e informações aos banhistas e também instalaram placas ao longo da orla, informando que a qualidade das águas é imprópria para o banho de mar. Mesmo assim, nestas primeiras semanas do Verão, a praia tem ficado lotada de banhistas, surfistas, jogadores de futebol de areia e visitantes de todas as tribos – o perfil dos frequentadores da Ponta D’Areia é formado pelas populações de renda mais baixa da cidade, que não tem recursos para frequentar as praias mais distantes e com melhores condições de balneabilidade. Os estabelecimentos comerciais, também alheios às recomendações da SEMA, funcionam normalmente, atendendo aos frequentadores e visitantes da praia.

Esta indiferença dos maranhenses aos apelos das autoridades para que se evitem os banhos de mar na praia mais poluída de São Luiz está muito longe de ser uma exceção – na realidade, essa é uma regra geral entre banhistas, que tendem a desprezar os avisos de problemas de balneabilidade em praias de todo o Brasil. Existe uma espécie de “crença” generalizada entre a população que as água do oceano têm “poderes” quase mágicos para diluir e neutralizar rapidamente as impurezas presentes nas águas poluídas dos esgotos. Eu lembro de ter ouvido exatamente essa explicação de uma professora dos meus tempos do curso primário. Na realidade, o oceano até consegue fazer este trabalho a seu próprio tempo, porém, é preciso lembrar que a cidade de São Luiz, onde vive uma população de mais de 1 milhão de habitantes, gera e lança esgotos continuamente no meio ambiente (estamos falando de aproximadamente 150 milhões de litros de esgotos/dia) – por melhor que o oceano faça seu trabalho, ele não para de receber novas “remessas” de esgotos. E só existem dois caminhos a serem seguidos: ou as pessoas param de gerar esgotos – parando de tomar banho, de lavar roupas, de limpar as casas e, inclusive, deixando de usar o vaso sanitário; ou, se realizam pesados investimentos em obras de infraestrutura para implantação de redes coletoras e estações de tratamento de esgotos – simples assim.

Como todos sabemos que as eventuais soluções para os problemas de saneamento básico em São Luiz, e em grande parte das cidades brasileiras, vão demorar muito a aparecer, nosso conselho – muito cuidado ao frequentar a Ponta D’Areia e outras praias suspeitas de contaminação por esgotos.

Diz acertadamente um velho ditado: cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém…

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