O CHOCOLATE QUE COSTUMAVA NASCER EM ÁRVORES

Cacau no Sul da Bahia

Entre muitas outras paixões, o brasileiro adora chocolate.

Estudo realizado em dez grandes cidades brasileiras mostrou que 69% dos entrevistados afirmaram consumir chocolate pelo menos uma vez por semana. O Brasil é atualmente o terceiro maior consumidor de chocolate do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha. O consumo per capita dos brasileiros é de 2,8 kg/ano, valor bem menor do que os 7,5 kg /ano consumido pelos europeus. Vale ressaltar que o consumo do produto aqui no Brasil vem registrando aumentos anuais de 10% em média nos últimos anos. De acordo com as pesquisas, os brasilienses e os recifenses são os maiores chocólatras do Brasil. Muita gente adoraria ter um “pé-de-chocolate” no seu quintal, o que, por mais incrível que pareça para alguns, não está longe da realidade.

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore originária da bacia hidrográfica do rio Amazonas, que produz um fruto chamado cacau – são as castanhas do cacau que dão origem ao nosso chocolate do dia a dia. Foram as grandes civilizações mesoamericanas dos Maias e dos Astecas que desenvolveram as primeiras bebidas preparadas a base do cacau – o kabkajatl. Os conquistadores espanhóis que chegaram ao continente americano a partir do final do século XV e que experimentaram a bebida, tinham muita dificuldade para pronunciar esta palavra nativa, que acabou sendo hispanizada para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar; a partir daí, ganhou o mundo com o nome de chocolate.

O cacaueiro se desenvolve sob as copas sombreadas das florestas, onde a árvore pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. Existem cerca de 60 mil produtores de cacau no Brasil, sendo a região Sul do Estado da Bahia a que concentra o maior número de plantadores. A produção baiana corresponde a 61% da produção brasileira de cacau, seguida pelo Pará, que produz 23% – Roraima, Espírito Santo e Amazonas produzem juntos 15% da produção total do país.

Diferente de outras culturas, o cacau depende da sombra de uma floresta para sobreviver, o que torna o seu cultivo sustentável do ponto de vista ambiental. O sucesso da região Sul da Bahia na produção do cacau se deve à razões históricas importantes: os ferozes índios antropófagos que viviam na região rechaçaram todas as tentativas dos primeiros colonizadores em instalar plantações de cana e engenhos de açúcar. A Mata Atlântica preservada foi fundamental para o início da cultura há mais de 200 anos na região, fornecendo sombra, umidade e proteção contra os ventos.

Esse regime de produção em sistema agroflorestal foi fundamental para a conservação de grandes corredores de mata nativa, onde hoje encontramos algumas espécies raras como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), o pau-brasil (Caesalpinea echinata) e a gameleira (Ficus gomelleira), espécies que desapareceram em outras regiões onde a Mata Atlântica foi praticamente dizimada. A existência de uma grande cobertura florestal preservada no Sul da Bahia é uma das grandes responsáveis pelo alto índice pluviométrico da região, cuja média anual até 2014 era de 1570 mm, muito acima da média da região Nordeste.

A forte estiagem que vem assolando grande parte da região Nordeste, infelizmente, vem apresentando reflexos na região Sul da Bahia e causando sucessivas quebras nas safras de cacau desde 2015. A última safra apresentou uma queda de 50% na produção, que atingiu o volume de 120 mil toneladas. Com a baixa produção local, quatro importantes indústrias de chocolate da região se reuniram e importaram, via o porto da cidade de Ilhéus, cerca de 150 mil toneladas de castanhas de cacau produzidas em Gana, país da costa oriental da África. Os países com as maiores produções mundiais de cacau do mundo se encontram hoje na África.

Apesar da reconhecida alta qualidade do produto e dos crescentes volumes de produção, as grandes fazendas africanas aparecem de forma recorrente nos noticiários internacionais pelo uso intensivo de mão de obra infantil e escrava – grandes fabricantes europeus, sob forte pressão popular, têm se recusado a comprar matérias-primas produzidas nestes países, com o claro objetivo de forçar a regularização da contratação de trabalhadores dentro das regras trabalhistas internacionais. Quando grandes empresas brasileiras compram cacau destes países, indiretamente podem estar contribuindo com a continuidade do uso desta mão de obra clandestina, o que se mostra como mais um desdobramento lamentável da seca que vem assolando diversas regiões brasileiras.

Os criadores de gado da região também têm enfrentado grandes prejuízos com a estiagem, especialmente nos municípios de Itabuna, Ilhéus, Buerarema, Coaraci, Barro Preto, Canavieiras e Almadina. Com as pastagens reduzidas a uma cobertura de palha seca e com as fontes de água cada vez mais escassas, os animais perdem peso e valor comercial. Os produtores de leite têm enfrentado uma redução de até 60% na produção – uma vaca que produzia, em média, oito litros de leite por dia, raramente tem conseguido produzir 5 litros nos últimos meses. Pequenos produtores de milho da região também vêm sendo fortemente atingidos pela estiagem e perderam a maior parte de suas safras.

De acordo com informações Laboratório de Climatologia da UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, a cada 10 ou 12 anos a região costuma enfrentar um período de seca, porém, a intensidade desta seca que vem assolando a região é a mais intensa já observada nos últimos 70 anos e não há consenso científico para explicar as suas causas. De 2015 para cá, o índice pluviométrico da região caiu para a metade da média histórica.

Grandes e pequenas cidades da região como Ilhéus e Itabuna têm enfrentado sérias dificuldades para garantir o abastecimento de suas populações. Com a redução do nível dos principais rios e mananciais, as empresas de saneamento locais têm buscado por fontes alternativas e recorrido à perfuração de poços artesianos para aumentar a produção e o fornecimento de água tratada. Em diversos bairros e comunidades mais distantes das cidades, o abastecimento tem sido feito com caminhões pipa, uma alternativa que, conforme comentamos em postagem anterior, é cheia de problemas.

Em diversas localidades abastecidas com estes caminhões, há relatos de moradores que reclamaram da salinidade da água – sempre que um rio com foz no oceano apresenta uma redução na vazão da água, ocorre a chamada intrusão ou língua salina, quando a água do mar consegue avançar continente a dentro e deixa a água salobra; dependendo do local onde é feita a captação da água para o abastecimento da população, água salobra poderá ser captada, especialmente durante a maré alta. Vale lembrar que o tratamento convencional da água em uma ETA – Estação de Tratamento de Água, não consegue retirar os vestígios de sal, o que só é possível com o uso de equipamentos de filtragem especiais conhecidos como dessalinizadores.

Todos esses problemas vem se somar a um outro, que desde o final da década de 1980, vem causando enormes perdas para os produtores locais: a vassoura-de-bruxa-do-cacaueiro, uma doença vegetal causada pelo fungo Moniliophtora perniciosa, que ataca e destrói as plantas. No período entre 1991 e 2000, a participação do Brasil no mercado internacional do cacau caiu de 15% para apenas 4% – a economia da cidade de Ilhéus foi uma das mais prejudicadas com a crise que se seguiu.

A seca, além de todos os problemas e transtornos já conhecidos por todos vocês, tem também o poder de deixar o chocolate nosso de cada dia um pouquinho mais amargo que o normal…

A QUEDA DA PRODUÇÃO DO CAFÉ EM 2017, OU EXISTE UM LADO BOM NA SECA

Cafezal

Uma antiga “lenda” conta que um certo Prefeito de uma cidade do interior do Estado de Alagoas, que estava muito preocupado com a forte estiagem que se abatia sobre a região, pretendia construir uma grande caixa d’água na praça central, garantido assim o abastecimento da população. O engenheiro da Prefeitura fez um relatório para o Prefeito, informando que o local era inadequado para a construção – o terreno era demasiadamente inclinado e a “lei da gravidade” impediria a estrutura de se manter de pé. Inconformado com o relatório, o Prefeito teria chamado o líder do Governo na Câmara dos Vereadores e dado instruções para que articulasse a maioria dos representantes da população para derrubar a tal “Lei da Gravidade” e construir a caixa d’água na praça. A narrativa prossegue com um comentário do líder do Governo: “- Senhor prefeito, não se sabe se esta lei é municipal ou estadual. E, depois, pode ser federal. É melhor não mexer no assunto, para não criar problemas. O negócio é não desobedecer ao engenheiro, que é autoridade no assunto”.

Tomando como base as qualidades de muitos políticos que encontramos por este mundo afora, pode até existir algum fundo de verdade nesta história. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso sabe que a Lei da Gravitação Universal (ou da Gravidade), proposta por Sir Isaac Newton em 1687, é imutável. Uma outra lei, bastante conhecida e que também é imutável, para a decepção de muitos políticos, é a Lei da Oferta e da Procura. Vamos comentar:

A forte estiagem que está castigando a região do Semiárido e alguns Estados brasileiros têm provocado a quebra de safras de uma série de produtos agrícolas nos últimos anos. De acordo com dados divulgados pela CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, a bola da vez é à safra do café, praticamente finalizada, e que está sinalizando para uma redução de 12,8% em relação à safra de 2016, ano em que a seca já havia provocado estragos. Os dados indicam que a produção deve alcançar 44,77 milhões de sacas de 60 kg – em 2016, a produção alcançou 51,37 milhões de sacas.

O café é uma planta arbórea nativa do Nordeste da África, que chegou ao Brasil ainda nos tempos Coloniais. Produzido inicialmente para o consumo pelas populações rurais, a cultura passou a ser vista como estratégica já no início do século XIX – o consumo do café começou a se popularizar na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, mercados fortes e ávidos pelo produto, que pagavam altos preços pelos grãos do café. É importante lembrar que, naquele momento, nosso país vivia um “vácuo econômico” – o Ciclo do Ouro, que durou aproximadamente 100 anos, havia se esgotado e as elites rurais brasileiras estavam, digamos assim, empobrecendo: literalmente, o café viria a ser a “salvação da lavoura”. Em poucas décadas, gigantescos cafezais passaram a cobrir extensas faixas de terras nos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, principalmente de São Paulo, onde entrou pela região do Vale do Paraíba, avançando depois para o chamado “Oeste Paulista”. A cultura do café foi altamente impactante para o país, tanto em aspectos positivos quanto negativos, e o Brasil ainda é o maior produtor de café do mundo.

A maior parte da produção brasileira é a do café arábica (Coffea arabica), que corresponde a 80% do total, uma espécie mais difícil de se produzir e destinada ao consumo direto na forma de bebida. O restante da produção é do chamado café robusta (Coffea canephora) ou conillon, uma espécie de produção mais fácil e que é utilizada pelas indústrias para a produção do café instantâneo e expresso. O café robusta tem um teor de cafeína duas vezes maior que o café arábica. Meu avô era um pequeno produtor de café no interior de São Paulo e lembro bem como a cultura dessa planta é trabalhosa. O café é na verdade uma pequena árvore e, como tal, precisa de uma grande quantidade de nutrientes no solo para produzir uma boa quantidade de frutos – a alta fertilidade dos solos de terra roxa (terra rossa) do interior do Estado de São Paulo foram fundamentais para a extrema adaptação e alta produtividade das plantas. Os cafezais também são exigentes no quesito água, não toleram baixas temperaturas por muito tempo e são sensíveis a fortes ventos. As plantas precisam receber trabalhos constantes para a remoção de ervas daninhas e mato ao redor do caule, além de adubação. A colheita também não é das mais fáceis e, em grande parte das propriedades, ainda é feita manualmente. Os frutos colhidos precisam passar por um processo de secagem e limpeza – o que tem valor comercial são as sementes. A produção do café é, normalmente, lucrativa apesar de ser extremamente trabalhosa e de estar sujeita aos riscos climáticos como as secas e as geadas.

Desde a época da criação do Proálcool – Programa Nacional do Álcool, pelos Governos Militares em meados da década de 1970, a cultura do café passou a perder importância aqui no Estado de São Paulo, que já foi o maior produtor brasileiro e que produz hoje apenas 10% da produção nacional. Os belos cafezais plantados em curva de nível, com vários tons de verde e frutos vermelhos, cederam lugar ao verde monótono dos canaviais, mais fáceis de se plantar e mais lucrativos. Minas Gerais é hoje o maior produtor nacional de café, seguido pelo Espírito Santo. A cultura também se espalhou pela Bahia, Goiás, Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, além de ter se mantido em algumas regiões dos Estados do Rio de Janeiro e do Paraná. O forte período de estiagem que estamos vivendo em grande parte do Brasil, atingiu em cheio várias regiões produtoras de café, especialmente nos Estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Goiás, o que explica a quebra da safra do produto neste ano de 2017.

Apesar de todos os problemas provocados pela seca, as notícias não são as piores para os produtores: as fortes chuvas no Vietnã, o maior produtor mundial de café do tipo robusta, estão prejudicando a qualidade do produto. A Indonésia, país que está entre os maiores produtores mundiais, também anunciou que a sua produção será menor neste ano. Dois outros grandes produtores mundiais, a Índia e a Colômbia, anunciaram aumentos nas suas safras, porém num volume insuficiente para cobrir as baixas nos estoques mundiais – vai faltar café no mercado mundial no próximo ano!

A boa e velha Lei da Oferta e da Procura, que nunca falha, já começou a mostrar as suas garras: a busca por contratos futuros para a compra de café do tipo arábica nas principais bolsas de mercadorias do mundo já cresceu 60% – o preço do café robusta ou conillon, aquele usado para fazer o café instantâneo e o preparado para cafés expressos, já subiu 40% em alguns mercados. O café foi a commodity que mais se valorizou nos mercados internacionais em 2017. Para os produtores brasileiros, atingidos pela quebra de safra do café, essas são notícias maravilhosas – mesmo tendo uma produção menor, a elevação dos preços internacionais de venda do produto poderá compensar as perdas e, quem sabe, até acabar num lucro extra e inesperado. Nem sempre as notícias divulgadas aqui neste blog ou ligadas à seca são necessariamente ruins.

Que os ventos internacionais, apesar de tudo, continuem a soprar favoravelmente para os produtores brasileiros de café e que não “me” apareçam políticos tentando mudar a “Lei da Oferta e da Procura”.

AINDA FALANDO DE CAMINHÕES PIPA

Água de Reuso

A greve dos chamados “pipeiros” no Estado do Ceará, comentada em minha última postagem, me trouxe à lembrança uma série de problemas associados à qualidade da água transportada por estes caminhões. Deixem-me começar relembrando fatos, no mínimo curiosos, associados a caminhões pipa:

Comecei a trabalhar na área da engenharia civil em 2003, quando caí de “pára-quedas” numa obra viária na Zona Leste da cidade de São Paulo, isto depois de ter trabalhado por mais de quinze anos em áreas diferentes da eletroeletrônica. Meu trabalho era o desenvolvimento de um processo de comunicação com as comunidades do entorno das obras. Caminhões, máquinas e centenas de homens trabalhando numa região geram conflitos e transtornos de vizinhança, que vão desde os clássicos assédios dos operários às mulheres que circulam pelas calçadas aos acidentes de obra que envolvem carros, motos, muros de casas, entre outros. Nesta obra, em particular, a reclamação mais frequente que se ouvia dizia respeito à poeira sufocante carregada pelos ventos das ruas para o interior das casas. A solução encontrada era a aspersão frequente de água nas ruas através de caminhões pipa. Certa manhã, eu estava atendendo um morador no estande da obra (que foi montado numa praça justamente para facilitar o contato com a população), quando uma moradora entrou correndo e falou que o caminhão pipa “havia jogado peixes na avenida”. Sem entender exatamente o que se passava, pedi licença ao morador que estava sendo atendido e me dirigi até o lado de fora – haviam centenas de peixinhos, alguns com mais de 5 cm, pululando sobre o asfalto. A água usada pelo caminhão pipa para molhar o asfalto foi captada em algum açude da região e os peixinhos acabaram sendo sugados pela bomba. Com a ajuda de muitos operários e moradores da vizinhança, conseguimos recolher e salvar a maioria dos peixes, que foram lançados num córrego localizado no centro da praça. Felizmente, o pessoal da Policial Militar Ambiental, que vistoriava a obra com uma frequência impressionante, não deu as caras naquele dia.

Lembro de um outro caso, quando um caminhão pipa a serviço de uma obra de implantação de uma rede coletora de esgotos se envolveu num acidente com um ônibus – com o choque, a válvula de saída do tanque arrebentou e um jato incontrolável lançou milhares de litros de água para o interior de uma casa, localizada num ponto abaixo do nível da avenida. Foi necessário alocar alguns funcionários da obra para ajudar na limpeza da casa e também reembolsar os prejuízos com móveis e eletrodomésticos danificados. Deixando de lado esses dois casos, que são exceções, a maioria dos problemas com caminhões pipa estão ligados à qualidade da água transportada. Aqui, é importante analisar o uso final da água transportada – água potável destinada ao consumo humano, indústria de alimentos, lavanderias, piscinas, aquicultura etc; água não potável destinada a lavagem de ruas, lavagem de peças e equipamentos industriais, refrigeração de equipamentos, preparação de concreto e massa em obras civis, rega de jardins e de plantações, etc.

As principais fontes de captação de água potável pelos caminhões pipa são as redes públicas de abastecimento e os poços artesianos. Como esta água será usada, direta ou indiretamente, no consumo humano, é fundamental que haja um perfeito controle da qualidade da água e do tanque do caminhão, que além de limpo e higienizado, precisa ser apropriado para o transporte de água potável, inclusive com a inscrição “ÁGUA POTÁVEL” pintada nas laterais – vou explicar a importância disto mais a frente do texto. No caso das fontes de água não potável podemos citar os açudes e os rios (tomando-se o cuidado de colocar uma rede na entrada da captação de água para se evitar que peixes e outros seres aquáticos como girinos, rãs e sapos sejam sugados pela bomba), poços semi artesianos (são os poços rasos, chamados de poços caipiras, cacimbas e cacimbões, conforme a região) e também a chamada água de reuso. A água de reuso é o resultado final do tratamento dos esgotos nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos. Nas ETEs mais modernas, essa água costuma apresentar um grau de pureza (vou usar este termo por questões didáticas) da ordem de 90 a 95% – em ETEs mais antigas, essa pureza é um pouco menor. Apesar de limpa, a água pode apresentar alguns resíduos ou um leve cheiro de esgotos ou ainda possuir algumas cepas de bactérias. Esta água não pode, em hipótese nenhuma, ser usada, direta ou indiretamente para o consumo humano; porém, para regar as plantas de uma praça (vide foto), ser usada no preparo do concreto numa obra ou para lavar uma rua onde funcionou uma feira livre, esta água serve perfeitamente. O caminhão pipa usado para o transporte dessa água deve estar identificado com a frase “ÁGUA DE REUSO” e o motorista deve ser treinado adequadamente sobre os usos específicos deste tipo de água. Por razões óbvias, um caminhão pipa usado para transportar água de reuso não poderá ser usado para o transporte de água potável, e vice versa.

Ampliando um pouco mais a nossa linha de raciocínio, é preciso comentar que os caminhões tanque são construídos para o transporte de líquidos em geral: além dos diversos tipos de água, podemos citar os combustíveis (gasolina, etanol, diesel, querosene de aviação, etc), solventes e produtos químicos dos mais diversos tipos, leite, sucos, ovo líquido (para uso industrial), entre outros usos. Observem que são fins diferentes, que exigem a dedicação do veículo para um tipo de uso exclusivo, sob risco de comprometimento da qualidade do líquido transportado – um tanque usado no transporte de leite, por exemplo, poderá agregar o sabor e o cheiro deste produto a um volume de suco de laranja que venha a ser transportado neste tanque; num caso mais extremo, um tanque usado no transporte de combustíveis, caso venha a ser utilizado para o transporte de água potável irá contaminar e inutilizar a carga – cito um exemplo: logo após o acidente no rio Doce, em Minas Gerais, há pouco mais de dois anos atrás, houve uma corrida alucinante por caminhões pipa para uso no abastecimento das cidades e povoados afetados. Foram inúmeros os relatos de cargas de água “potável” descartadas por apresentarem cheiro e gosto de combustíveis, ou seja, espertalhões travestiram caminhões tanques ou pipas usados no transporte de combustíveis para uso no transporte de água, algo absolutamente irregular.

Na postagem anterior, onde foi comentado sobre a greve dos “pipeiros” no Estado do Ceará, afirmei que militares do Exército brasileiro realizam um trabalho de fiscalização da documentação dos caminhões usados no transporte de água para o abastecimento dos flagelados pela forte estiagem do Semiárido – esse rigor da fiscalização, que algumas vezes gera conflitos com os motoristas, tem como objetivo justamente comprovar o uso de veículos em condições adequadas para o transporte de água potável e também em boas condições de manutenção – mesmo que o uso de um tanque possa ser, comprovadamente, exclusivo para o transporte de água potável, a presença de ferrugem poderá comprometer a qualidade da água durante o transporte. Outro controle importante é a fonte onde essa água foi coletada, que deve apresentar as melhores condições de qualidade e potabilidade para o posterior consumo pelas populações. Motoristas gananciosos, mais preocupados com o próprio bolso do que com a saúde e o bem estar dos usuários da água transportada, não pensarão duas vezes antes de parar na beira de um corpo d’água qualquer para encher o tanque do caminhão e assim conseguir lucrar com um reembolso de despesas de uma viagem mais longa. O MEI – Módulo de Monitoramento Embarcado e o GCDA – Sistema Gestor de Distribuição de Água, utilizados pelo Exército para controlar todo o sistema de distribuição de água por caminhões pipa nas regiões atingidas pela estiagem, são fundamentais para garantir a qualidade desta água.

Mesmo que você não more em áreas onde o abastecimento da água está sendo feito emergencialmente por estes caminhões pipa, é importante que se fique de olho na qualidade da água e nos caminhões tanques usados por indústrias, comércios, chácaras ou até mesmo na piscina do clube frequentado por você e sua família – existem espertalhões demais neste nosso mundo, que podem estar vendendo água não potável ou de reuso como água “mineral”.

A GREVE DOS “PIPEIROS” NO CEARÁ, OU LEMBRAM QUE FALEI DA INDÚSTRIA DA SECA?

Pipeiros

Há poucos dias atrás falei da “suposta” indústria da seca, uma associação informal de políticos, comerciantes, empresários, prestadores de serviços e servidores públicos que, se aproveitando de verbas emergenciais liberadas para obras, serviços e auxílios financeiros para o combate à seca, conseguem ganhar um dinheirinho extra – em poucas palavras: tentam lucrar o máximo possível com a desgraça alheia. E não é que os motoristas de caminhões pipa que transportam água para as populações atingidas pela seca no Estado do Ceará resolveram entrar em greve?

Antes de entrar no assunto, gostaria de apresentar um pequeno drama pessoal, onde fui vítima de uma greve dos médicos: em dezembro de 1986, quando voltava da faculdade com a minha motocicleta, um motorista bêbado fez uma conversão proibida e me atingiu em cheio. Fui levado para um pronto socorro particular bem próximo do local do acidente, onde sabia que meu convênio médico era aceito. Por mais incrível que possa parecer, uma greve dos médicos estava em andamento naquele momento e só casos de emergência estavam sendo atendidos – eu estava com uma fratura no osso da canela e com uma forte hemorragia devido a um corte profundo, o que não foi considerada uma emergência.

Os dois policiais militares que me socorreram e me acompanhavam no hospital ameaçaram dar voz de prisão por omissão de socorro aos dois médicos que estavam de plantão – com extrema má vontade e muito medo da firme ameaça dos policiais, os médicos me atenderam. O preço da “omissão” veio logo no dia seguinte: sentindo dores muito fortes, fui levado a uma clínica ortopédica particular, onde uma amiga trabalhava e onde não havia greve. O médico que me atendeu ficou chocado com a precariedade do primeiro atendimento recebido: havia resíduos de terra e de graxa no corte, mostrando que não foi feita uma assepsia adequada – caso eu não tivesse procurado outro atendimento médico, o ferimento teria evoluído para uma infecção grave.

Fiz questão de relembrar essa história para enfatizar que greve em serviços essenciais, na minha modesta opinião, é uma das maiores covardias que se pode imaginar: dor, sede e fome são inadiáveis e não é possível deixar pessoas sem o atendimento na defesa de interesses pessoais, particularmente o pleito de salários ou pagamentos maiores. Pois bem: no Estado do Ceará, 1 milhão de pessoas, vítimas da forte estiagem que assola o Semiárido nordestino há seis anos, estão sem o serviço de abastecimento de água através de caminhões pipa – os motoristas, conhecidos na região como “pipeiros”, entraram em greve por maiores salários e em protesto contra supostas falhas no sistema de monitoramento do trajeto dos caminhões.

Como todos devem saber, a seca é um fenômeno natural na região do Semiárido brasileiro, variando de intensidade ao longo do tempo – na maioria dos anos tem uma intensidade menor, mas em intervalos regulares, como tem ocorrido desde 2011, assume proporções gigantescas, causando enormes dificuldades para as populações sertanejas. Entre os diversos mecanismos usados pela autoridades dos diversos níveis de Governo para amenizar os efeitos da estiagem, a distribuição de água através de caminhões pipa é o mais comum. Veículos das Prefeituras, dos Estados e de órgãos Federais, transportam água para distribuição aos flagelados nos mais distantes rincões.

Considerando que o Semiárido tem uma área total próxima de 1 milhão de km² (nem sempre a estiagem atinge de maneira única toda a região) e que existem milhares de comunidades a serem abastecidas com água, fica fácil perceber as dificuldades para se fiscalizar todo este trabalho emergencial – desvios de verbas e má prestação dos serviços sempre acabam acontecendo.

Há vários anos, as autoridades vêm usando um sistema de monitoramento dos caminhões pipa através de sinal GPS – Global Positioning System ou, em português, Geoposicionamento Global por Satélite. Os caminhões são equipados com um MEI – Módulo de Monitoramento Embarcado, que envia via satélite as informações do trajeto percorrido, desde a coleta da água nas fontes até a entrega nas comunidades, para o COTER – Comando de Operações Terrestres, do Exército Brasileiro.

Sempre que um dos caminhões pipa chega a uma comunidade para fazer uma entrega, os dados são gravados em um cartão eletrônico, o G-Pipa. Este cartão fica sob a responsabilidade de um representante da comunidade e serve para comprovar a entrega da água. Estas informações são transmitidas em tempo real para o GCDA – Sistema Gestor de Distribuição de Água, sob responsabilidade do Comando Militar do Nordeste. A liberação dos pagamentos pelos serviços de entrega da água são feitos a partir destes dados, evitando-se assim a ocorrência de desvios.

Este sistema controla atualmente o abastecimento em mais de 78 mil pontos, espalhados por aproximadamente 850 municípios nos Estados da Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, além de municípios do Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. A população atendida é de aproximadamente 4 milhões de pessoas – cerca de 350 militares atuam diariamente no monitoramento das cisternas e reservatórios abastecidos pelos “pipeiros”, incluindo também a verificação da documentação e das condições dos veículos, além de monitorar a qualidade da água.

Os militares fornecem uma planilha com os locais que devem ser abastecidos e tabletes de cloro para serem adicionados à água. Os “pipeiros” cadastrados no Sistema ficam responsáveis pela coleta da água nos mananciais e fontes de abastecimento, e a aplicação do cloro na água após o enchimento das cisternas e caixas d’água nas comunidades. São aproximadamente 2 bilhões de litros de água distribuídos mensalmente.

De acordo com informações do Comando Militar do Nordeste, cerca de 200 “pipeiros” já foram afastados do serviço após irregularidades terem sido constatadas, indo desde a captação de água em fontes poluídas até o uso de câmaras de ar de pneus dentro dos tanques para reduzir o volume água transportada (o consumo de combustível pelos caminhões diminui e os motoristas “lucram” com o reembolso das despesas).

Curiosamente, esse Sistema tão complexo e eficiente não está funcionando corretamente no Ceará, o que motivou o SINPECE – Sindicato dos Pipeiros do Estado, a iniciar uma greve por causa da “precariedade do Sistema G-Pipa, pela defasagem dos salários e por um melhor tratamento profissional”. Segundo o Sindicato, o G-Pipa não está registrando corretamente o percurso feito pelos caminhões e os motoristas tem sofrido prejuízos. Cerca de 1.800 “pipeiros” aderiram à paralisação, que afeta cerca de 1 milhão de pessoas em cidades como Orós, Madalena, Nova Olinda, Morada Nova e Caucaia. Os grevistas afirmam que, caso não sejam atendidas as suas reivindicações, irão realizar bloqueios nas estradas, o que só vai aumentar o drama das populações sertanejas.

Minha crítica não é contra a reivindicação dos profissionais – se existem defasagem nos pagamentos ou problemas de funcionamento no Sistema, que se apurem e se resolvam: todo trabalhador tem direito a receber um salário justo. O que é inadmissível é se usar a fragilidade das populações afetadas pela falta da água para se chantagear as autoridades. Garçons e pasteleiros, por exemplo, caso queiram iniciar uma greve, não terão a mesma força dos “pipeiros” – o máximo que conseguirão é deixar seus clientes sem cerveja e pastéis, o que está muito longe de ser uma tragédia social.

Água, ao contrário, é um dos insumos essenciais a vida – alimentação, dessedentação, higiene pessoal e doméstica dependem da sua disponibilidade, mesmo que em quantidades diárias mínimas. Usar essa necessidade inadiável do bem natural como uma ferramenta de pressão para pressionar as autoridades por maiores salários chega, na minha opinião, ao limite da criminalidade – sem acesso a água, pessoas podem morrer.

São essas distorções com vistas ao lucro de uns poucos e sem se importar com o sofrimento de muita gente com a falta de água que impõem o uso da polêmica expressão “indústria da seca”.

Que prevaleça o bom senso e que as partes consigam se acertar e reestabelecer o abastecimento com caminhões pipa no menor tempo possível.

RIO ACRE: FIM PREVISTO PARA 2025?

Rio Acre - foto Odair Leal Amazonia Real

Um estudo recente publicado pela Universidade de Connecticut, Estados Unidos, concluiu que a forte seca que se abateu em 2016 sobre as regiões Sul e Sudoeste da Amazônia, em especial nos rio Madeira e Purus, foi intensificada pela ação humana. Os pesquisadores analisaram as secas dos anos de 1983, 1998, 2005, 2010 e 2016, analisando inclusive os efeitos da elevação da temperatura dos oceanos provocados pelo fenômeno climático El Niño. A seca de 2016, considerada a mais forte na região nos últimos 100 anos, não pode ser explicada somente a partir de causas naturais. Segundo os estudiosos, os dados da pesquisa sugerem que esta seca teve uma forte influência dos desmatamentos e mudanças climáticas locais resultantes de ações humanas – e as projeções não são nada animadoras: há uma tendência de secas cada vez mais fortes na região caso a devastação ambiental continue. Vejam este trecho do estudo:

“Temperaturas acima do normal da superfície oceânica na região tropical do Pacífico e no Atlântico foram os principais causadores de secas extremas na América do Sul, mas não explicam a severidade da falta de chuvas em 2016 em uma porção substancial da Amazônia e do Nordeste…

Isso sugere fortemente uma contribuição potencial de fatores não oceânicos (como mudanças na cobertura da terra e aquecimento por emissões de dióxido de carbono) para a seca de 2016″.

Os cientistas reiteraram que os desmatamentos registrados, não só nesta região mas em toda a Floresta Amazônica, tendem a agravar os períodos de seca – sem a cobertura vegetal, há uma redução substancial dos volumes de água que penetram e ficam armazenados nos solos, alimentando os rios e igarapés no período da seca; a perda da cobertura vegetal também se reflete numa redução da evapotranspiração, que inclui a evaporação do solo e a transpiração das plantas, um processo natural que transfere umidade para a atmosfera. Com plantas e atmosfera com baixos níveis de umidade, os riscos de grandes incêndios florestais e emissões de grandes volumes de carbono para a atmosfera, como os que ocorrem em áreas do Cerrado, aumentam consideravelmente. Este quadro é extremamente preocupante não só para a região Amazônica, mas para todo o Centro-Sul do Brasil: a grande floresta equatorial é a responsável pela formação das grandes nuvens de umidade que levam as chuvas para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, num fenômeno conhecido como os “rios voadores”.

Essa grande seca de 2016 atingiu em cheio o Estado do Acre, que é cortado, entre outros, pelos rios Purus e Acre (que é um importante afluente do rio Purus), causando inúmeras dificuldades para as populações, desde o abastecimento de água, a produção agrícola e pecuária, além da pesca e dos transportes por via fluvial, essenciais para as populações ribeirinhas. Algumas cenas comuns na região do Semiárido nordestino puderam ser vistas no Acre: grandes rebanhos bovinos extremamente magros, com animais se esforçando para alcançar um magro filete de água no talvegue de rios outrora caudalosos ou rezes redobrando os esforços para conseguir mastigar ervas e plantas ressequidas. A produção de leite caiu substancialmente – vacas que produziam até 8 litros de leite por dia passaram a produzir apenas 3 litros, mesmo com os produtores dobrando a cota diária de sal mineral de cada animal. Nada que lembrasse uma região com fama de fartura de água e de plantes verdes e suculentas.

O rio Acre (vide foto) é um exemplo acabado da situação hídrica no Estado: desde 1970, a Defesa Civil do Acre vem realizando medições sistemáticas do nível do rio, onde se observam reduções sistemáticas da cota mínima, fenômeno que fica muito mais evidente no período da seca. Nos últimos 25 anos, houve uma diminuição da cota mínima do rio equivalente a 1,5 metro. Se essa tendência continuar, as projeções indicam que, em 2025, o rio Acre apresentará um nível de apenas 0,5 metro no período da seca, um volume de água absolutamente insuficiente para o abastecimento da população que vive nas cidades de sua bacia hidrográfica, quiçá ainda fornecer água para usos na agricultura e na dessedentação dos rebanhos bovinos. No período seco deste ano, o rio Acre atingiu a cota de 1,67 metro na cidade de Rio Branco, nível que exigiu a utilização de bombas flutuantes para a captação da água usada no abastecimento da cidade; em Brasileia, a 232 km da capital, o nível do rio chegou a 1,15. Outros rios do Estado também atingiram volumes críticos: o rio Iaco, na cidade de Sena Madureira a 145 km da capital, atingiu a cota de 0,6 metro. O rio Acre percorre cerca de 800 km dentro do Estado, atravessando os municípios de Assis Brasil, Brasileia, Xapuri, Capixaba e Rio Branco, municípios que concentram 70% da população do Acre e mostram a importância regional do rio.

As duas mais importantes atividades econômicas do Estado do Acre ajudam a entender a crise hídrica que vem se abatendo sobre a região nos períodos secos dos últimos anos:

  • O rebanho bovino do Acre triplicou em apenas uma década: passou de 800 mil cabeças para 3 milhões. Além da exigência da ampliação das pastagens para comportar este volume cada vez maior de animais, os produtores precisaram investir na construção de açudes nas propriedades, como forma de garantir reservas de água para a dessedentação dos animais. A água destes açudes é captada diretamente dos rios, através de sistemas de bombas e tubulações, sem qualquer controle ou gestão do consumo por parte das autoridades estaduais;
  • A exploração de madeira passou de 300 mil metros cúbicos por ano para mais de 1 milhão de metros cúbicos. De acordo com dados do Governo do Acre, o desmatamento passou de 5,3 mil km² entre 1988 e 1998, para 7,3 mil km² na década seguinte. Na bacia hidrográfica do rio Acre, o desmatamento já consumiu 35% da cobertura florestal original.

Rio Branco, cidade com uma população de 370 mil habitantes, possui uma rede de abastecimento que cobre 65% do seu território (o restante da população utiliza a água de poços para o abastecimento de suas casas). Nos períodos secos dos últimos anos, a empresa local de abastecimento, a DEPASA – Departamento de Pavimentação e Saneamento, foi obrigada a impor um sistema de racionamento que chegou a atingir mais de 240 mil habitantes. Além das dificuldades para a captação da água, que ficou num nível abaixo das tubulações dos pontos de captação, o volume de sedimentos nas águas do rio Acre aumenta muito no período seco, o que somado ao aumento da concentração dos esgotos lançados nas águas do rio sem qualquer tipo de tratamento, compromete muito a qualidade da água e reduz o volume de água tratada nas ETAs – Estações de Tratamento de Água, da cidade.

As famílias que dependem da água de poços, inclusive de poços artesianos, também enfrentam sérios problemas: como comentei em minha última postagem, o nível dos lençóis subterrâneos de água rebaixam muito rápido na região amazônica, deixando milhares de pessoas com poços secos e na dependência de caminhões pipa do Governo para o abastecimento de suas casas.

É absolutamente clichê falarmos dos problemas de abastecimento de água e de fortes secas na região do Semiárido brasileiro – quando, porém, se fala de uma forte seca na Amazônia, região que concentra 70% das águas superficiais do Brasil, é um sinal que a situação está ficando extremamente crítica.

UMA BREVE HISTÓRIA DO ESTADO DO ACRE, OU UMA SECA DE PROPORÇÕES AMAZÔNICAS

Látex

A Floresta Amazônica aparenta, pelo menos para os que são de fora, ser uma região de águas abundantes e infinitas. Eu morei por quase dois anos na região, quando trabalhei nas obras de construção da rede coletora de esgotos de Porto Velho – Rondônia, e aprendi a olhar com mais cuidado para essa questão. Deixem-me explicar:

A cidade de Porto Velho tem aproximadamente 400 mil habitantes e, por mais incrível que possa parecer, enfrenta sérios problemas de falta de água. Não há exatamente falta de água na região – o rio Madeira é um dos maiores afluentes do rio Amazonas, com uma extensão total de 3.250 km. Os problemas estão concentrados na produção e na distribuição de água tratada para a população. As redes do sistema de abastecimento de água da empresa de saneamento local, a CAERD – Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia, atendem apenas 50% da população – quem não está ligado à rede pública de abastecimento precisará depender de poços ou cacimbas, escavados nos seus quintais. É aí que, literalmente, mora o problema.

O clima amazônico é dividido em apenas duas estações: um período quente e chuvoso e outro mais quente ainda e seco. O solo da Floresta Amazônica se comporta como uma gigantesca esponja, provavelmente a maior do mundo, que absorve imensos volumes de água no período das fortes chuvas; essa água é liberada gradativamente durante o período da seca, alimentando os igarapés e os rios da grande bacia hidrográfica da Amazônia; uma pequena quantidade da água de alguns rios, como o próprio Madeira, tem origem no derretimento de geleiras ou glaciares da Cordilheira dos Andes. Assim que a temporada das chuvas se encerra, o nível do lençol freático está bem próximo da superfície do solo – se você escavar 10 ou 20 cm, encontrará água. Conforme o período da seca vai evoluindo, o nível do lençol freático se reduz dramaticamente – na região de Porto Velho ele chega a rebaixar em até 50 metros. É justamente neste período de forte baixa do lençol freático que a população começa a sofrer com a falta de água – os poços, que normalmente tem uma profundidade de uns poucos metros, secam completamente. Vive-se uma verdadeira “seca verde”: matas verdejantes, rios e igarapés com baixos volumes de água e poços secos – algo surreal se comparado às fortes secas que assolam o semiárido brasileiro.

O Bioma Amazônia, muito mais do qualquer outro, é altamente dependente da relação água – solo – floresta: por menor que seja uma alteração em qualquer um dos componentes do “tripé”, o sistema todo passa a apresentar alterações e/ou distorções. A derrubada de trechos de matas para a implantação de projetos agropecuários no último meio século já começa a apresentar suas consequências em algumas regiões – o rio Acre, no Estado homônimo, é um exemplo.

De todos os Estados que compõem a nossa República Federativa, o Acre é o mais novo e com uma história das mais atribuladas. Até o início do século XX, o território do Acre fazia parte da Bolívia; porém, desde a década de 1870, a população da região era formada basicamente por seringueiros brasileiros de origem nordestina, que avançaram sobre o território em busca das seringueiras, a famosa Hevea brasiliensis, e o seu cobiçado látex (vide foto). Todos vocês devem se lembrar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental e do famoso Ciclo da Borracha. A situação fundiária do território e da população brasileira só foi resolvida em 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis – o Brasil ficaria com a posse do território e em troca construiria uma ferrovia, a Madeira-Mamoré, que permitiria o escoamento da produção do látex boliviano através da navegação fluvial pelos rios da Bacia Amazônica. A negociação também incluiu a transferência de terras do Estado de Mato Grosso para a Bolívia e o pagamento de uma indenização em dinheiro no valor de 2 milhões de libras esterlinas. Cabe aqui uma rápida explicação: o rio Madeira nasce na Bolívia, onde é chamado de rio Beni: o trecho entre o rio Mamoré, na divisa entre o Brasil e a Bolívia, e Porto Velho, em Rondônia, possui inúmeras cachoeiras e não é navegável – a construção da ferrovia permitiria aos bolivianos resolver este problema de logística.

O rio Acre nasce no Peru e atravessa todo o território do Estado do Acre, seguindo por um trecho do Estado do Amazonas até desaguar no rio Purus, numa extensão total de 1.190 km. O rio Acre foi, durante décadas, o caminho natural da colonização do território e de escoamento da produção local, especialmente do látex. Diversas cidades do Estado são atravessadas pelo rio Acre e dependem das suas águas para o abastecimento de suas populações: Rio Branco, Porto Acre, Senador Giomard, Brasileia e Assis Brasil, entre outras. Depois da abertura e posterior asfaltamento da rodovia federal BR 317 entre as cidades de Boca do Acre, no Estado do Amazonas, e Assis Brasil, no Acre, a navegação do rio Acre perdeu relevância diante do transporte rodoviário.

O Ciclo da Borracha no Acre teve seu apogeu entre as décadas de 1870 e 1910, quando o produto brasileiro passou a perder mercado para a produção dos seringais ingleses plantados na Ásia (relembrando – sementes de seringueira foram contrabandeadas e florestas artificiais foram plantadas no Sudeste asiático). Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), houve um breve esforço de recuperação da produção local de látex com a chegada dos famosos “Soldados da Borracha”. Com o fim do esforço de guerra, tanto o projeto de produção quanto os soldados foram esquecidos à própria sorte nos confins da Floresta Amazônica. Essa população esquecida e com uma densidade populacional relativamente alta para os padrões amazônicos, passou a viver de pequenos roçados de subsistência e da criação de pequenos rebanhos bovinos. Com o início do período dos Governos Militares em meados da década de 1960, teve início um forte movimento de ocupação dos vazios populacionais do imenso território brasileiro, especialmente na região da Floresta Amazônica – os militares temiam a “Internacionalização da Amazônia”, um suposto projeto liderado pelos Estados Unidos, onde o território da grande floresta seria dividido entre as grandes potencias mundiais. Teve início então um forte estímulo à migração de colonizadores para a região – um famoso slogan da época que me lembro bem dizia que era “uma terra sem homens para homens sem terra”. Milhares de famílias, especialmente da região Sul do Brasil, passaram a ser contempladas com terras na região, com destaque para os Estados de Mato Grosso (depois dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), Rondônia, Acre e Pará. Foi iniciada a construção da Transamazônica, a rodovia da “integração nacional”, além de outras rodovias e aeroportos, integrando a Amazônia ao resto do país.

O intenso desmatamento e implantação de projetos agrícolas e de pecuária em todo o Estado do Acre, mais do que em qualquer outra região da Amazônia, começou a apresentar a “fatura” da conta ainda em 1970: o rio Acre começou a apresentar reduções sistemáticas no seu nível; algumas projeções indicam que, em 2025, o nível do rio Acre não vai passar de 0,5 metro, levando inúmeras cidades ao colapso no abastecimento. Nos últimos anos, o rio Acre já vem apresentando vazões baixíssimas nos períodos de seca, o que tem causado inúmeros problemas para o abastecimento das cidades.

No próximo post vamos detalhar a situação do rio Acre e mostrar os desafios para o abastecimento das populações.

“A SECA NO SÃO FRANCISCO QUE SALGA O CAFÉ E ADOECE A POPULAÇÃO EM ALAGOAS”

Piaçabuçu

A salinização na foz do rio São Francisco é um problema seríssimo, já tratado aqui em postagem anterior, que foi agravado a partir da redução da vazão da barragem de Sobradinho para apenas 550 m³/s. Vejam a ótima e irretocável matéria publicada hoje (07/11/2017) pelo jornal espanhol EL PAÍS:

“No município alagoano de Piaçabuçu (vide foto), a 135 quilômetros de Maceió, tomar um simples cafezinho pode ser um evento difícil de engolir. ‘Já experimentou o nosso café, moça?’, perguntou à reportagem o pescador Marcos Antônio Batista dos Santos, 39. Ele atribui o estranho sabor da bebida à qualidade da água que abastece a cidade de cerca de 18.000 habitantes. ‘Aqui, água para beber e cozinhar, só comprando água mineral. Você precisa ver o gosto do café como fica [com a água da torneira fervida]’, diz.

A cidade fica na foz do Rio São Francisco, que nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Ao longo de seu curso, o Velho Chico, como é chamado, está sendo castigado por uma seca histórica. Por isso, desde 2013, sua vazão vem sendo reduzida paulatinamente. O efeito cascata desta crise hídrica é que, devido à redução do nível do rio, a água do mar avança com cada vez mais força leito adentro, resultando no fenômeno da salinização da água. Como a cidade de Piaçabuçu é totalmente abastecida pelo rio, a água salgada acaba se tornando um problema que ultrapassa o indigesto cafezinho. ‘Além de uma questão hídrica, existe um problema de saúde pública’, afirmou Anivaldo Miranda, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

Agentes de saúde e a própria população acreditam que casos de hipertensão e problemas de pele e nos rins que afetam os moradores do local estão aumentando em consequência da água salobra. ‘Ainda não há dados que confirmem, mas existe uma estimativa de aumento de 20% nos casos de hipertensão neste ano, pelo aumento da salinidade da água‘, diz Gênisson Branco, coordenador do hospital da cidade, a Casa Maternal de Piaçabuçu, e técnico em enfermagem da UFAL – Universidade Federal de Alagoas. De acordo com ele, além da hipertensão, a hipernatremia (alta concentração de sódio no corpo) e doenças de pele são as enfermidades mais comuns atribuídas à qualidade da água.

A salinização também está trazendo consequências para a agricultura local, segundo Miranda. ‘Algumas plantações de arroz e coco, alimentos muito cultivados na região, se tornaram impraticáveis’, explica. A alta concentração de sal na água utilizada na irrigação destrói os cultivos.

A aposentada Iraíris dos Santos Silva, 83, sabe bem do que Miranda está falando. ‘Antes, havia feira aqui todo sábado e domingo, o dia inteiro’, conta ela, enquanto olha para o rio. “Agora, é só no sábado e até meio dia. Não tem mais o que vender né?’. Ela veio de Pão de Açúcar, no sertão alagoano, a 200 quilômetros dali, fugindo da seca e para trabalhar em uma plantação de arroz. ‘A plantação já nem existe mais’, contou. A seca, esta sim persiste.

De acordo com Clécio Falcão, presidente da CASAL – Companhia de Saneamento de Alagoas, a água distribuída para a cidade pela companhia é tratada e própria para ser tomada. ‘Esta reclamação [sobre a água salgada e os casos de hipertensão] não está sendo feita por causa da água disponibilizada pela CASAL’, disse. ‘Eles devem estar captando água direto do rio, porque a água da CASAL tem um controle rigoroso’. De acordo com ele, o problema não é a qualidade da água distribuída, mas sim a escassez. Isso porque a distribuição é feita somente por 12 horas diárias, quando a maré está baixa, e a quantidade de água salgada no rio é, consequentemente, menor. Segundo ele, quem não tem caixa d’água em casa, quando o abastecimento é interrompido, acaba retirando água diretamente do rio, aumentando as chances de problemas de saúde. O problema é que somente 60% da população têm caixa d’água, segundo os cálculos de Falcão.

Na tentativa de remediar o problema, a CASAL afirmou, em agosto ao portal UOL, que distribuiria 1.000 caixas d´água para a população que não tinha este equipamento. Questionado pelo EL PAÍS se de fato a promessa foi cumprida, Clécio Falcão afirmou que a ideia foi ‘revista’ e chegaram à conclusão de que o plano não era viável. ‘Depois que fizemos a vistoria no bairro de Paciência [que segundo ele é a região mais carente da cidade], chegamos à conclusão de que era inviável porque falta estrutura nas casas para estes reservatórios’, explicou.

Mas João Suassuna, engenheiro agrônomo, especialista em semiárido e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, diz que a maré baixa não é garantia de qualidade. ‘Sempre ficam resíduos de sal’, diz. ‘Não é porque a maré está baixa que o rio está com água de boa qualidade’, alerta.

Para driblar a água salinizada, a captação é feita a uma distância de 12 quilômetros do mar. Após perceber que distribuir caixas d´água não resolveria o problema, a CASAL afirma estar atuando em duas novas frentes. A primeira é ativar uma nova captação rio acima, para tentar fugir da água marinha. A nova distância ficaria a 20 quilômetros do mar. Segundo Clécio Falcão, a expectativa é que a obra fique pronta até o final do ano. ‘Com esta nova captação, provavelmente poderemos aumentar o número de horas do bombeamento, talvez até voltar para as 24 horas de captação”, diz. ‘Mas isso vai depender do comportamento do rio e se a vazão continuará nos 550 metros cúbicos por segundo. Porque se a crise hídrica continuar e se a CHESF obtiver uma nova autorização da ANA – Agência Nacional de Água, para reduzir ainda mais a vazão, a gente não garante que esta nova captação consiga captar por 24 horas’.

A segunda iniciativa será construir uma espécie de ‘reservatório pulmão’, cujo projeto está sendo desenvolvido pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco. ‘Acredito que se tudo ocorrer bem, em cinco meses já teremos isso resolvido’, diz Anivaldo Miranda. A proposta é que o reservatório tenha dimensões capazes de suprir a cidade inteira.

“Farra da água”

Em 2013, quando o problema da seca se iniciou com mais intensidade, a vazão do rio São Francisco praticada pelos reservatórios de Sobradinho, na Bahia, e Xingó (entre Alagoas e Sergipe) era de 1.300 metros cúbicos por segundo. Paulatinamente ela foi sendo reduzida até o que é hoje, 550 metros cúbicos por segundo. A CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, responsável pela vazão, afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que estas reduções permitiram poupar o equivalente a 150% do volume útil do reservatório de Sobradinho. Mas, apesar da economia, Sobradinho está, neste momento, com somente 3,5% de seu volume útil.

A companhia não respondeu se há previsão de uma nova redução da vazão em breve. Disse, via assessoria de imprensa, que a salinização é um ‘fenômeno natural’ que ocorre “independentemente da ação humana”. Mas reconhece que há uma relação da “cunha salina com a vazão de um rio e com diversos outros fatores naturais”, e que “desde o ano de 2013, a bacia do rio São Francisco vem apresentando um quadro hidrológico bastante desfavorável”.

Anivaldo Miranda, do Comitê da Bacia do São Francisco, ressalta que, mais do que uma questão climática, existe também um problema administrativo. “É uma questão de crise de gestão e não só uma questão hídrica”, afirma. ‘Todo mundo fala do clima, mas isso já estava previsto. Estão fazendo a farra da água em muitos pontos da bacia e isso se reverte na vazão do São Francisco’, afirma

Os projetos para atenuar o problema em Piaçabuçu são, porém, medidas paliativas. João Suassuna alerta que, não há medidas a médio e curto prazo. ‘Não há um plano B para o problema da seca. Temos que cuidar da revitalização da bacia imediatamente”, diz. “Faz mais de 20 anos que denunciamos essas coisas. A natureza se vinga e está se vingando agora’.”

Por: Marina Rossi – EL PAÍS

A INDÚSTRIA DA SECA, OU FALANDO DE LENDAS URBANAS

Indústria da Seca

Quem é da minha faixa etária e cursou o ensino fundamental na década de 1970, muito provavelmente deve conhecer a história da loira, um fantasma com o rosto ensanguentado que aparecia nos banheiros das escolas – eu nunca vi a tal loira, mas lembro de uma colega de classe que chegou à beira da histeria por, supostamente, ter visto a mítica figura num dos banheiros do colégio. Lendas urbanas podem começar a partir de um fato verdadeiro, que é contado e recontado inúmeras vezes, até se transformar numa “falsa história verídica verdadeira”; outras vezes, nascem de alguma coisa criada intencionalmente por alguma pessoa, que só faz aumentar com o passar do tempo. Alguns, especialmente políticos, afirmam de pés juntos que a indústria da seca é uma lenda – muitos dizem que ela é um fato e que anda a pleno vapor, especialmente nestes tempos de forte estiagem nos sertões, quando grandes volumes de verbas para obras e serviços contra a seca são liberados por vários órgãos governamentais. Entre as lendas e os fatos, vamos aproveitar para tocar neste assunto espinhoso.

O fluminense Antonio Calado (1917-1997), apesar de formado em direito, começou a escrever para jornais ainda na juventude e acabou consagrado como jornalista, romancista, dramaturgo e biógrafo. Em 1960 ele escreveu uma importante reportagem, transformada em livro depois: “Os industriais da seca e os ‘Galileus’ de Pernambuco: aspectos pela reforma agrária no Brasil”. A expressão indústria da seca foi usada pela primeira vez neste texto e nunca mais saiu dos noticiários. No texto, Antonio Calado demonstrou como o fenômeno da seca, que sistematicamente se abate sobre a região do Semiárido e afeta milhões de pessoas, era usado no discurso das autoridades de cidades e regiões flageladas para pedir verbas emergenciais junto às estâncias superiores do poder, como parte das verbas acabava desviada para outros fins e “bolsos” e como a água virava uma moeda de troca. Os políticos e as autoridades trocavam (e trocam) a água por votos, conseguindo assim se perpetuar no poder. Obras realmente importantes com a perenização de rios e a construção de açudes e canais acabavam sendo deixadas de lado – era importante manter o povo sempre na dependência dos “favores” dos políticos e dos “coronéis” locais.

A falta de chuvas na região do Semiárido nordestino é um fenômeno natural e sazonal, registrado em documentos desde o século XVI. A irregularidade e os atrasos dos períodos das chuvas são determinados por fatores climáticos globais como as alterações na Zona de Convergência Intertropical, o El Niño, La Niña, entre outros. A intensa ocupação dos sertões pelas boiadas, expulsas do litoral no período Colonial, levou à fundação de inúmeras vilas e cidades por toda a região do Semiárido, o que resultou num enorme crescimento da população sertaneja ao longo dos séculos. Atualmente, o Semiárido brasileiro é a região semidesértica com maior densidade populacional do mundo, exercendo uma forte pressão sobre os recursos naturais existentes, especialmente a água. Sempre que uma forte seca se abate sobre a região, muita gente se aproveita da tragédia alheia para ganhar um dinheiro extra, incluindo-se na lista os já citados políticos, além de empresários, comerciantes, funcionários públicos e outros espertalhões.

Vou citar um exemplo bem recente da “esperteza” dos comerciantes: há exatos dois anos, quando a barragem de rejeitos de mineração em Mariana se rompeu, milhares de moradores das cidades e vilas ribeirinhas do rio Doce passaram a conviver com a “seca da lama”. Com as águas usadas para o abastecimento poluídas pelos rejeitos minerais e pela lama, muitas ETAs – Estações de Tratamento de Água, foram forçadas a interromper imediatamente as suas atividades; sem alternativa, os moradores correram para os supermercados e mercearias em busca de garrafas de água mineral. Fieis à lei da “oferta e procura”, os comerciantes rapidamente dobraram ou triplicaram o preço do produto (em muitos lugares esse preço não baixou até hoje). Em cidades do Semiárido atingidas por fortes secas num passado não muito distante, acontecia exatamente isto: assim que os Governos iniciavam a distribuição de verbas emergenciais aos flagelados, as mercearias das pequenas e médias cidades aumentavam imediatamente seus preços. De alguns anos para cá, depois da implantação da aposentadoria para trabalhadores rurais e a criação do Bolsa Família, esse tipo de problema diminuiu muito.

Já o uso de caminhões pipa para a distribuição de água nas comunidades gera múltiplos problemas, a começar pela contratação dos prestadores do serviço, que normalmente são associados ou amigos das autoridades locais. Os preços podem ser superfaturados, com o valor do sobre preço dividido entre muitos “amigos”. A distância percorrida para ir até a fonte de água e voltar também pode abrir um enorme espaço para aumentar artificialmente os custos da operação – não é incomum que motoristas captem água de fontes não potáveis ou suspeitas mais próximas da cidade, cobrando custos de viagens muito mais longas. No momento da distribuição da água nos bairros, o prefeito, os vereadores e outras autoridades costumam aparecer para cumprimentar os moradores e lembra-los que a água só chegou graças ao esforço pessoal de cada um deles – nas eleições locais, todo esse “esforço” feito será lembrado insistentemente ao se pedir votos.

Outra fonte de desvios são as famosas “obras emergenciais contra as secas”. Como deve ser do conhecimento de todos, a contratação de qualquer obra, serviço ou compra de materiais por órgão público só pode ser feita através de um processo administrativo como uma licitação ou carta convite por exemplo, onde os fornecedores serão escolhidos em função do menor preço de um produto ou serviço e/ou por apresentarem uma notória especialização ou capacitação técnica para realizar uma obra. Estou falando da Lei 8666/93, também conhecida como Lei das Licitações. Em situações de emergência ou de calamidade pública, como no caso de uma forte seca, as autoridades podem ser dispensadas da obrigatoriedade de uma licitação pública em prol do interesse coletivo – essa brecha pode resultar em todo o tipo de desvios de recursos, superfaturamentos, realização de obras sem projeto (que normalmente nunca são concluídas), etc. Em outros casos, empresas “amigas” combinam os preços e participam de licitações fraudulentas – grandes valores são liberados e a população não vê os resultados.

Um tipo de obra onde já se registrou uma quantidade enorme de desvios é a escavação de poços. O Governo Federal mantém ainda hoje um órgão específico para cuidar deste e de outros tipos de obras similares – estou falando do DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Criado em 1909, com o nome de Inspetoria de Obras Contra as Secas, o órgão realizou inúmeras obras importantes por toda a região do Semiárido nordestino. Porém, como sempre acontece, há inúmeras denúncias de obras realizadas dentro de áreas particulares como fazendas, chácaras e casas de “amigos” de autoridades e de políticos – dinheiro público usado em propriedades privadas. Também há algumas obras curiosas, realizadas em regiões muito distantes do Semiárido: a rede de águas pluviais da cidade de Porto Velho, em plena região Amazônica, e o canal construído no Banhado Grande no Rio Grande do Sul, aparecem como obras feitas pelo DNOCS.

É provável que muitos de vocês conheçam outros casos de desvios e malfeitos com verbas “carimbadas” para uso em obras e/ou compra de materiais para comunidades atingidas pelas secas. Uma verdadeira tragédia brasileira.

Se existe mesmo uma indústria da seca, eu não sei. O fato é que existem muitos “empreendedores” que se aproveitam, e muito, do flagelo de outrem.

A SECA NO RIO SÃO FRANCISCO E OS RISCOS PARA A VITICULTURA

Vinícolas do Vale do São Francisco

Existem várias lendas que contam a origem do vinho – a que segue é uma que eu considero como das mais simpática:

De acordo com a mitologia grega, o deus Baco encontrou uma planta muito pequena e delicada. Para protege-la, Baco colocou a plantinha dentro de um osso de pássaro. A planta começou a crescer e Baco achou por bem transferi-la um osso de leão. Como a planta não parou de cresceu, Baco resolveu coloca-la em um osso de burro. A planta cresceu mais e mais, deu seus primeiros frutos e Baco descobriu que poderia produzir um licor – assim surgiu o vinho. Como uma herança dos ossos do pássaro, do leão e do burro, o vinho adquiriu a alegria, a força e a estupidez – quem bebe o vinho desfrutará momentaneamente da alegria do pássaro, da audácia do leão e da estupidez do burro. É por todas essas razões que os antigos gregos já ensinavam que beber vinho exige muita moderação.

O vinho chegou ao Brasil junto com o primeiros colonizadores portugueses – vale lembrar que Luso era um dos deuses do panteão grego, filho ou companheiro de Baco conforme a fonte consultada, e teve seu nome usado para batizar província romana mais ocidental: a Lusitânia. As primeiras mudas da videira chegaram à Capitania de São Vicente pela mãos de Martin Afonso de Sousa em 1532 e, aos poucos foi se espalhando pelo país. De acordo com Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843-1899), a Vila de São Paulo de Piratininga já produzia vinhos de ótima qualidade ainda no século XVI. Mas foi, sobretudo, no extremo Sul do Brasil de clima subtropical, que o plantio da videira e a produção de vinho se destacou e se consolidou.

Foi somente a partir da década de 1960 que a viticultura (ciência que engloba o estudo e a produção da uva para o consumo in natura, para a produção de suco, para a vinificação e para a produção de uva passa) avançou além das regiões Sul e Sudeste, conseguindo se estabelecer nas margens do rio São Francisco, em plena região do semiárido nordestino, para a produção de uvas de mesa em vinhedos irrigados. A partir do ano 2000, com a instalação de vinícolas na região, que ganhou a denominação de Vale do São Francisco, teve início a produção dos vinhos finos, com destaque para as variedades Cabernet Sauvignon, Syrah, Moscato Canelli, Chardonnay e Chenin Blanc. Existem hoje seis vinícolas da Região, o que a coloca como o segundo maior polo produtor do Brasil, ficando atrás somente do Rio Grande do Sul. A produção é estimada em 8 milhões de litros de vinho por ano, abocanhando 15% do mercado brasileiro. O Vale do São Francisco é considerado o único local no mundo onde se consegue produzir duas safras anuais de uvas de mesa e viníferas.

Uma das grandes responsáveis pela consolidação da viticultura no Vale do São Francisco foi a construção da Represa de Sobradinho. Além de uvas, a Região produz diversas variedades de frutas como mangas, goiabas, acerolas e melões. Com sol intenso, terras férteis e disponibilidade de água para a irrigação, a Região produz frutas durante todos os meses do ano, com 70% da produção exportada para os Estados Unidos, a Europa e a Ásia. Nos últimos, porém, a devastação ambiental que se observa há muito tempo em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco começou a “cobrar a fatura” – com cada vez menos água na calha do rio, a Represa de Sobradinho começou a secar e as margens do lago começaram a recuar perigosamente. A represa (ou lago) de Sobradinho está hoje em um nível crítico, com um volume armazenado abaixo de 5% da capacidade total.

O Vale do São Francisco apresenta uma precipitação anual média de 500 mm, concentrada entre os meses de dezembro e março – no restante dos ano, as culturas dependem do rio São Francisco e da água captada por bombas, sendo distribuída nas plantações por milhares de quilômetros de tubulações dos sistemas de irrigação. Durante décadas a fio, os sistemas de irrigação garantiram o crescimentos contínuo da produção de frutas, que se transformou em uma importante alternativa econômica para o semiárido, gerando trabalho e renda para milhares de pequenos agricultores da Região. A redução contínua do espelho d’água da represa de Sobradinho, observada nos últimos anos, tem tirado o sono de muita gente – plantações que ficavam nas margens do reservatório e que retiravam água para uso na irrigação com extrema facilidade, agora estão, em alguns casos, a quilômetros de distância, necessitando aumentar sistematicamente o comprimento das tubulações, de forma a se manter as bombas em contato com a água. Quanto maior a extensão das tubulações, maiores são os gastos com energia elétrica e manutenção dos sistemas, além dos riscos maiores de roubo de bombas e de tubulações.

Além dos riscos de quebra da safra de frutas e da produção nas vinícolas, a seca traz no seu encalço um outro tipo de prejuízo – a queda no número de turistas. Como já acontece nas vinícolas das Regiões Sul e Sudeste, o turismo no Vale do São Francisco acabou se transformando em uma importante fonte alternativa de receita para os agricultores e produtores locais. Partindo principalmente das cidade de Juazeiro na Bahia e Petrolina em Pernambuco, os pacotes turísticos incluíam, além das visitas às vinícolas e as plantações, passeios de barco pelo rio São Francisco e pela outrora fabulosa represa de Sobradinho. Com a redução cada vez maior do nível do reservatório, muitas operadoras passaram a enfrentar problemas logísticos para transportar os turistas no trecho entre o espelho d’água e as vinícolas e/ou plantações, o que, em alguns casos, acaba por desestimular o interesse dos turistas pelos passeios.

Por determinação da ANA – Agência Nacional de Águas, a captação de água foi proibida as quartas-feiras até o final de novembro e seu uso foi priorizado para consumo humano e animal. Essa medida emergencial afeta diretamente os produtores de frutas da Região, que dependem da irrigação para, pelo menos, conseguir manter as plantas vivas. Por causa da seca que vem persistindo na Região desde 2013, muitos produtores vem registrando quebras de safra de até 50%.

Para evitar que a represa de Sobradinho entre no chamado “volume morto”, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, reduziu a vazão para 650 m²/s em junho, passando a operar com apenas duas das seis turbinas instaladas na hidrelétrica. Como as chuvas estão muito fracas na região das cabeceiras do rio São Francisco, os especialistas já estão trabalhando com a possibilidade de Sobradinho atingir o “volume morto” antes do final deste ano. A ANA – já autorizou uma nova diminuição da vazão da barragem, agora para 550 m³/s, como forma de retardar os acontecimentos. Neste mês de novembro, a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, autorizou o aumento da bandeira tarifária para Vermelha Patamar 2, o que vai significar a cobrança extra de R$ 5,00 para cada 100 kwh (quilowatt hora) consumido. Ao mesmo tempo em que este aumento na conta da energia elétrica força o consumidor a reduzir o consumo e, de quebra, auxilia na economia de água nos reservatórios, cria maiores custos para a irrigação das plantações. O baixo nível da represa de Sobradinho, ao contrário do que muitos podem imaginar, não está associado diretamente à forte seca que vem assolando toda a região do Semiárido desde 2011 – 75% dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado no Estado de Minas Gerais e de Goiás, que, conforme já comentamos em postagens anteriores, também vem sofrendo muito com a seca.

A expectativa das vinícolas do Vale do São Francisco, apesar de todos os contratempos, é de uma boa produção de vinhos neste ano. Resta-nos torcer para que a seca não “azede” os planos dos agricultores e empresários da região.

UMA NOVA ILHA DE LIXO – AGORA É NO MAR DO CARIBE

Ilha de Lixo Caribe

Há quase um ano atrás, publiquei uma postagem falando de uma imensa ilha de lixo flutuante que se formou no Norte do Oceano Pacífico, entre as ilhas do Hawai e a costa Oeste do Estados Unidos. Uma nova ilha de lixo, agora no Mar do Caribe, surgiu entre as costas da Guatemala e Honduras. De acordo com a imprensa internacional, a fonte dos detritos é o rio Motagua, que atravessa a maior parte da Guatemala e tem sua foz na costa de Honduras. Segundo os informes, dos 95 municípios guatemaltecos que se encontram dentro da bacia hidrográfica, 27 estão despejando resíduos sólidos diretamente nas águas do rio. No lado hondurenho, a bacia hidrográfica compreende apenas 3 municípios. Guatemala e Honduras vem travando uma verdadeira guerra sobre qual é o país responsável pela solução do problema. Enquanto não chegam a um acordo, ilhas e praias estão ficando cobertas por resíduos, prejudicando imensamente o turismo, uma das maiores fontes de receitas dos dois países. Vejam a matéria publicada pelo jornal El País em 30 de Outubro:

Um mar composto de escovas de dentes, garfos, colheres, pratos e garrafas de plástico. Essa é a imagem que a fotógrafa e ativista britânica Caroline Power captou entre as ilhas de Roatán e Cayos Cochinos, no Caribe hondurenho. “Foi devastador ver algo que me importa tanto sendo lentamente assassinado e asfixiado”, disse ela ao jornal britânico The Telegraph.

“Isto precisa parar, pensem no seu cotidiano. Como você levou para casa a comida que sobrou na última vez que você foi a um restaurante? É provável que [a embalagem] fosse de isopor, servida com um garfo de plástico, e depois colocada numa sacola de plástico”, escreveu Power no Facebook. A publicação, feita em 16 de outubro, já foi compartilhada mais de 2.770 vezes e recebeu mais de 1.100 reações nessa rede social.

A fotógrafa, especializada em imagens submarinas, contou ter feito a descoberta durante uma viagem de mergulho a ilhotas conhecidas por mal superarem o nível do mar, permitindo assim a exploração de áreas “intocadas”. “Observar o lixo e os refugos foi devastador”, disse a fotógrafa.

A organização ambientalista Blue Planet Society disse que esse “mar de plástico” se formou por causa do lixo arrastado da Guatemala para a costa hondurenha pelas águas do fronteiriço rio Motagua. Nos últimos três anos, os dois países vêm tendo atritos por causa da contaminação desse curso hídrico.

“O Governo de Honduras lamenta que, apesar das diversas abordagens ao Governo da Guatemala e dos esforços realizados, estes não tenham sido suficientes (…) e ainda não se vejam resultados concretos e evidentes”, afirmou a secretaria hondurenha de Relações Exteriores em nota no último dia 23.

O Governo de Honduras exigiu a mitigação dos danos e uma indenização pelo “investimento realizado”. Já o presidente guatemalteco, Jimmy Morales, declarou ao jornal Prensa Libre que conversou com seu homólogo hondurenho sobre as tarefas necessárias para combater o problema, mas que estas “ainda não foram definidas”.

Espero que não chegue o dia em que tenha de publicar um post falando da formação do primeiro continente formado exclusivamente de lixo…

 

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A ILHA DE LIXO NO OCEANO PACÍFICO