A SECA NO RIO SÃO FRANCISCO E OS RISCOS PARA A VITICULTURA

Vinícolas do Vale do São Francisco

Existem várias lendas que contam a origem do vinho – a que segue é uma que eu considero como das mais simpática:

De acordo com a mitologia grega, o deus Baco encontrou uma planta muito pequena e delicada. Para protege-la, Baco colocou a plantinha dentro de um osso de pássaro. A planta começou a crescer e Baco achou por bem transferi-la um osso de leão. Como a planta não parou de cresceu, Baco resolveu coloca-la em um osso de burro. A planta cresceu mais e mais, deu seus primeiros frutos e Baco descobriu que poderia produzir um licor – assim surgiu o vinho. Como uma herança dos ossos do pássaro, do leão e do burro, o vinho adquiriu a alegria, a força e a estupidez – quem bebe o vinho desfrutará momentaneamente da alegria do pássaro, da audácia do leão e da estupidez do burro. É por todas essas razões que os antigos gregos já ensinavam que beber vinho exige muita moderação.

O vinho chegou ao Brasil junto com o primeiros colonizadores portugueses – vale lembrar que Luso era um dos deuses do panteão grego, filho ou companheiro de Baco conforme a fonte consultada, e teve seu nome usado para batizar província romana mais ocidental: a Lusitânia. As primeiras mudas da videira chegaram à Capitania de São Vicente pela mãos de Martin Afonso de Sousa em 1532 e, aos poucos foi se espalhando pelo país. De acordo com Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843-1899), a Vila de São Paulo de Piratininga já produzia vinhos de ótima qualidade ainda no século XVI. Mas foi, sobretudo, no extremo Sul do Brasil de clima subtropical, que o plantio da videira e a produção de vinho se destacou e se consolidou.

Foi somente a partir da década de 1960 que a viticultura (ciência que engloba o estudo e a produção da uva para o consumo in natura, para a produção de suco, para a vinificação e para a produção de uva passa) avançou além das regiões Sul e Sudeste, conseguindo se estabelecer nas margens do rio São Francisco, em plena região do semiárido nordestino, para a produção de uvas de mesa em vinhedos irrigados. A partir do ano 2000, com a instalação de vinícolas na região, que ganhou a denominação de Vale do São Francisco, teve início a produção dos vinhos finos, com destaque para as variedades Cabernet Sauvignon, Syrah, Moscato Canelli, Chardonnay e Chenin Blanc. Existem hoje seis vinícolas da Região, o que a coloca como o segundo maior polo produtor do Brasil, ficando atrás somente do Rio Grande do Sul. A produção é estimada em 8 milhões de litros de vinho por ano, abocanhando 15% do mercado brasileiro. O Vale do São Francisco é considerado o único local no mundo onde se consegue produzir duas safras anuais de uvas de mesa e viníferas.

Uma das grandes responsáveis pela consolidação da viticultura no Vale do São Francisco foi a construção da Represa de Sobradinho. Além de uvas, a Região produz diversas variedades de frutas como mangas, goiabas, acerolas e melões. Com sol intenso, terras férteis e disponibilidade de água para a irrigação, a Região produz frutas durante todos os meses do ano, com 70% da produção exportada para os Estados Unidos, a Europa e a Ásia. Nos últimos, porém, a devastação ambiental que se observa há muito tempo em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco começou a “cobrar a fatura” – com cada vez menos água na calha do rio, a Represa de Sobradinho começou a secar e as margens do lago começaram a recuar perigosamente. A represa (ou lago) de Sobradinho está hoje em um nível crítico, com um volume armazenado abaixo de 5% da capacidade total.

O Vale do São Francisco apresenta uma precipitação anual média de 500 mm, concentrada entre os meses de dezembro e março – no restante dos ano, as culturas dependem do rio São Francisco e da água captada por bombas, sendo distribuída nas plantações por milhares de quilômetros de tubulações dos sistemas de irrigação. Durante décadas a fio, os sistemas de irrigação garantiram o crescimentos contínuo da produção de frutas, que se transformou em uma importante alternativa econômica para o semiárido, gerando trabalho e renda para milhares de pequenos agricultores da Região. A redução contínua do espelho d’água da represa de Sobradinho, observada nos últimos anos, tem tirado o sono de muita gente – plantações que ficavam nas margens do reservatório e que retiravam água para uso na irrigação com extrema facilidade, agora estão, em alguns casos, a quilômetros de distância, necessitando aumentar sistematicamente o comprimento das tubulações, de forma a se manter as bombas em contato com a água. Quanto maior a extensão das tubulações, maiores são os gastos com energia elétrica e manutenção dos sistemas, além dos riscos maiores de roubo de bombas e de tubulações.

Além dos riscos de quebra da safra de frutas e da produção nas vinícolas, a seca traz no seu encalço um outro tipo de prejuízo – a queda no número de turistas. Como já acontece nas vinícolas das Regiões Sul e Sudeste, o turismo no Vale do São Francisco acabou se transformando em uma importante fonte alternativa de receita para os agricultores e produtores locais. Partindo principalmente das cidade de Juazeiro na Bahia e Petrolina em Pernambuco, os pacotes turísticos incluíam, além das visitas às vinícolas e as plantações, passeios de barco pelo rio São Francisco e pela outrora fabulosa represa de Sobradinho. Com a redução cada vez maior do nível do reservatório, muitas operadoras passaram a enfrentar problemas logísticos para transportar os turistas no trecho entre o espelho d’água e as vinícolas e/ou plantações, o que, em alguns casos, acaba por desestimular o interesse dos turistas pelos passeios.

Por determinação da ANA – Agência Nacional de Águas, a captação de água foi proibida as quartas-feiras até o final de novembro e seu uso foi priorizado para consumo humano e animal. Essa medida emergencial afeta diretamente os produtores de frutas da Região, que dependem da irrigação para, pelo menos, conseguir manter as plantas vivas. Por causa da seca que vem persistindo na Região desde 2013, muitos produtores vem registrando quebras de safra de até 50%.

Para evitar que a represa de Sobradinho entre no chamado “volume morto”, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, reduziu a vazão para 650 m²/s em junho, passando a operar com apenas duas das seis turbinas instaladas na hidrelétrica. Como as chuvas estão muito fracas na região das cabeceiras do rio São Francisco, os especialistas já estão trabalhando com a possibilidade de Sobradinho atingir o “volume morto” antes do final deste ano. A ANA – já autorizou uma nova diminuição da vazão da barragem, agora para 550 m³/s, como forma de retardar os acontecimentos. Neste mês de novembro, a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, autorizou o aumento da bandeira tarifária para Vermelha Patamar 2, o que vai significar a cobrança extra de R$ 5,00 para cada 100 kwh (quilowatt hora) consumido. Ao mesmo tempo em que este aumento na conta da energia elétrica força o consumidor a reduzir o consumo e, de quebra, auxilia na economia de água nos reservatórios, cria maiores custos para a irrigação das plantações. O baixo nível da represa de Sobradinho, ao contrário do que muitos podem imaginar, não está associado diretamente à forte seca que vem assolando toda a região do Semiárido desde 2011 – 75% dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado no Estado de Minas Gerais e de Goiás, que, conforme já comentamos em postagens anteriores, também vem sofrendo muito com a seca.

A expectativa das vinícolas do Vale do São Francisco, apesar de todos os contratempos, é de uma boa produção de vinhos neste ano. Resta-nos torcer para que a seca não “azede” os planos dos agricultores e empresários da região.

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