CAJUEIROS DO PIAUÍ NÃO RESISTEM À SECA

Cajueiro

Apesar de todo o otimismo dos produtores, que esperavam colher uma das maiores safras dos últimos cinco anos, a produção de caju no Piauí, de acordo com notícia do programa Globo Rural, terá uma quebra de safra em 2017, que em muitos casos poderá chegar a 50%. A safra de cajus prevista para este ano é de 17 mil toneladas, um valor 50% superior ao obtido em 2016 – porém, vale informar que a safra de 2016 foi uma das piores dos últimos anos. A forte estiagem que assola grande parte do Estado atingiu em cheio os cajueiros, uma planta nativa do Semiárido e bastante adaptada às condições climáticas locais. De acordo com relatos de produtores, a seca intensa não permite a formação completa das frutas, que secam na própria árvore – as castanhas secas caem no solo com um aspecto que lembra uma castanha torrada. Os baixos preços de venda dos produtos, R$ 3,00 por kg da castanha e R$ 0,40 por kg de caju, desestimulam ainda mais os produtores, que preferem abandonar as poucas frutas que vingaram nos pés e assim evitam ter de pagar pela colheita. Quem mora nas grandes cidades do Sul e do Sudeste, onde estes produtos são vendidos após passarem por toda uma cadeia de atravessadores, costuma desembolsar dezenas de vezes esse valor pago aos produtores – muitos destes consumidores não se conformarão em saber que as deliciosas “frutas” e castanhas estão apodrecendo nos campos. Em muitas fazendas, os cajueiros secos foram cortados e vendidos como lenha, numa tentativa desesperada de se ganhar algum dinheiro. De acordo com informações da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Piauí, a perda representa 100 mil hectares de cajueiros, correspondendo a exatos 48% da área ocupada por essa cultura no Estado.

A cultura vem apresentando declínio desde 2012 e teve em 2016 seu pior ano. Com a persistência da forte estiagem, grande parte das árvores morreram e as tentativas de replantio foram frustradas. Para efeito de comparação, a safra de cajus no ano de 2016 equivaleu a apenas 15% da produção de 2011, o que demonstra o tamanho do problema. Grande parte dos municípios do Estado do Piauí estão em situação de emergência por conta dos efeitos da forte estiagem, muitos deles localizados nas regiões da Serra da Capivara e nos vales dos Rios Canindé e Guaíbas – pelo menos 47 municípios estão em condição crítica por causa da seca e as populações estão a depender da distribuição da água através dos caminhões pipa.

O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma árvore nativa na região, primitivamente utilizada pelos indígenas em sua alimentação. Habitualmente, nos referimos ao caju como uma fruta mas, na realidade ele é um pseudofruto – o verdadeiro fruto é a castanha, que é muito saborosa para consumo in natura após ser torrada e salgada, ou entrando como tempero no preparo do vatapá e de quitutes do Nordeste e de outras regiões do Brasil. Em tupi guarani, a palavra usada para descrever a fruta é acaiu, que significa noz. A mesma palavra era usada para descrever ano, uma vez que os índios contavam a passagem do tempo a partir dos ciclos de floração do cajueiro. A castanha do caju tem um teor de proteínas da ordem de 20% e com um alto valor nutritivo. Por serem muito mais fáceis de se processar e armazenar, as castanhas são exportadas desde longa data para outras regiões do país e também para o exterior (em inglês é conhecida como “cashew nut”). O caju, de constituição bastante frágil, exige maiores cuidados com a embalagem a fim de ser transportado para os grandes centros consumidores. Lembro que numa das minhas primeiras viagens ao Nordeste, fiquei surpreso com a declaração de um sitiante do interior do Estado de Alagoas, que separava as castanhas para a torrefação e jogava as frutas para os animais. Eu cheguei a perguntar se ele e a família comiam a fruta: a resposta torta que recebi: “ – Eu não sou porco para comer fruta!”

O alto valor nutritivo do caju está em sua extraordinária riqueza em ácido ascórbico. É tão alto o teor vitamínico da fruta que, segundo comentam alguns especialistas, dão a ele um verdadeiro poder curativo. Muito antes de serem descobertas as vitaminas e conhecidas as suas propriedades, o caju era apregoado pelos curandeiros do sertão como uma fruta milagrosa, curadora de inúmeros males. Falava-se muito nos tempos antigos do Nordeste nas curas de caju, nos doentes que vão para as praias limpar o sangue com os banhos de mar e o regime de cajus e cajuadas. Em seu livro Higiene Alimentar, publicado em 1908, Eduardo de Magalhães fez esta apologia ao caju:

“Fala-se em cura de uvas, cura de mangas, de laranja, de limão, de cerejas e também de figos, maçãs e tâmaras. Bem, serão todas eficazes, não contesto, mormente a primeira, a cura de uvas; nenhuma, porém, competirá com a cura de caju. Indivíduos fracos, magros, eczematosos, reumáticos, enfastiados, diarréicos, sifilíticos, recolhendo-se no verão a uma das belas praias de Sergipe, onde os cajueiros amarelos e vermelhos são uma bela floresta, e atirando-se aos cajus cujo caldo ingerem chupando-os ou em cajuadas, de lá voltam nutridos, nédios, nem parecem os mesmos que para lá foram. Do caju se pode dizer que o próprio abuso é proveitoso.”

As árvores mais frondosas do cajueiro nascem nas terras chuvosas próximas ao litoral, conhecida como Zona da Mata. Conforme se segue para o interior do Semiárido, a árvore apresenta modificações na sua estrutura como uma adaptação à falta de água no solo e na atmosfera. Nas regiões da Caatinga, o cajueiro se apresenta como um arbusto, com folhas pequenas para evitar ao máximo a perda de água por evaporação, caules com uma casca muito grossa e raízes bem desenvolvidas para sugar qualquer quantidade de água existente no solo. Está espécie é conhecida pelos sertanejos como cajuí (Anacardium humilis), que nada mais é do que um cajueiro anão. A espécie plantada pelos agricultores, inclusive os do Piauí, é uma planta híbrida, conhecida pelo nome de cajueiro anão precoce, que associa o sistema radicular destas espécies adaptadas aos rigores do clima do sertão com a produtividade das árvores do litoral. Notem que nem mesmo com toda esta robustez, os cajueiros conseguiram resistir à forte seca dos últimos anos.

Quando os primeiros colonizadores portugueses chegaram ao Brasil ainda no século XVI, rapidamente se renderam ao sabor e à versatilidade do caju e de sua castanha. Durante as longas viagens marítimas daqueles tempos, era comum a incidência do escorbuto nas tripulações. Sabemos hoje que a principal causa da doença é a carência da vitamina C, nutriente encontrado em frutas cítricas como a laranja e o limão. Extremamente rico nesta vitamina, o caju mostrava já naquele período as suas propriedades curativas. Os navegadores portugueses se encarregaram de espalhar a planta pelo mundo durante as suas intermináveis expedições. Se você pesquisar quais são os principais produtores de caju, vai encontrar países como o Vietnã, o maior produtor mundial, seguido por Nigéria, Índia, Costa do Marfim, Benin, Filipinas, Guiné Bissau e Indonésia. O Brasil, terra de origem da árvore, só vai aparecer após a décima posição – sem utilizar sistemas de irrigação por micro gotejamento e perdendo grandes porcentagens das árvores plantadas por causa da forte seca, não é de se estranhar nossa posição na lanterna dos maiores produtores mundiais.

O grande problema de toda essa crise, na minha modesta opinião, é que corremos um sério risco de ver frutas e castanhas produzidas nestes países passarem a ser vendidas nos mercados e feiras das grandes cidades brasileiras, enquanto os nossos produtores decidem abandonar as frutas no pé por causa dos baixos preços de venda.

Imagino até a cena: uma caixa de autênticos cajus Made in China a venda no Mercadão da Cantareira…

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