AINDA FALANDO DA PERDA DE BIODIVERSIDADE NO GUAÍBA

Lontra

Na nossa última postagem, começamos a falar da perda de biodiversidade nas águas do Lago Guaíba e falamos dos problemas enfrentados pelas espécies de peixes. Vamos prosseguir avaliando a situação de outras espécies animais e vegetais que vivem em ambientes semiaquáticos e terrestres ligados diretamente ao Lago Guaíba. Peço que vocês prestem atenção nesta verdadeira “colcha-de-retalhos” de inter-relações entre as espécies vivas, ambientes e as ações antrópicas. 

Entre as causas antrópicas que provocam a perda de biodiversidade destacam-se a expansão das áreas urbanas e as atividades produtivas como a agricultura, pecuária e mineração. O crescimento das cidades se dá pela transformação de áreas rurais e naturais em áreas chamadas urbanizadas – isto significa a derrubada de matas e sua substituição por edificações, aterramento e ocupação de áreas de banhado e de inundação, a impermeabilização de solos para a formação de quintais, pátios de estacionamentos, pavimentação de ruas e avenidas, entre outras. A cidade de Porto Alegre, a maior da região do Lago Guaíba, possui uma população de mais de 1,5 milhão de habitantes e ocupa uma área superior a 500 km², área urbana que foi tomada sistematicamente dos antigos refúgios e áreas naturais. Além de substituir ambientes naturais por edificações e ruas pavimentadas, as cidades funcionam como obstáculos para a migração e movimentação de espécies dentro do território, problema que trará dificuldades para a reprodução de espécies animais e para a dispersão de sementes de inúmeras plantas – espécies animais e vegetais restritas a um território reduzido têm menores chances de sobrevivência no longo prazo. A conurbação, processo de fusão de cidades resultante do crescimento contínuo das manchas urbanas, é um complicador maior da divisão e fragmentação de habitats aquáticos e terrestres na Região Metropolitana de Porto Alegre – uma extensa faixa que começa nas margens do Guaíba e segue até Campo Bom ao Norte e até Gravataí a Leste, é, praticamente, uma única cidade. Essa extensa mancha urbana interrompeu “caminhos” naturais que ligavam, por via terrestre e aquática, as margens do Lago Guaíba com as margens dos rios Gravataí, dos Sinos e Caí. Animais terrestres, que ocupam nichos ecológicos entre as áreas úmidas, campos e as matas da região como o bugio-ruivo (Aloutatta guariba), ameaçado de extinção, o gato-maracajá (Leopardus wiedii), gambá-de-orelha-branca (Didelphis Albiventris), ouriço-cacheiro (Sphiggurus villosus), gato-do-mato (Leopardus tigrinus), entre outros, sofrem imensamente com essa fragmentação, com isolamento de populações e falta de acesso a áreas de alimentação e de reprodução.

Dentro do nosso processo histórico de crescimento das cidades, cursos d’água foram transformados em coletores de esgotos e são muitas vezes os responsáveis pelos despejos de poluentes em rios e lagos de maior porte, criando toda uma série de problemas ambientais – nas regiões de entorno do Lago Guaíba foi isso que aconteceu. Na esteira dos esgotos, como todos sabemos, sempre vem o lixo e os resíduos. Populações necessitam de água e alimentos – fontes de água são represadas e sistemas de tratamento e de distribuição têm de ser construídos, aumentando ainda mais os desmatamentos e a impermeabilização de solos. Cidades normalmente são cercadas por áreas agrícolas conhecidas como “cinturão verde”, onde tradicionalmente são produzidos verduras e legumes frescos – a criação destas áreas agrícolas forçará ainda mais o avanço contra as área naturais remanescentes. Também há o problema dos resíduos, especialmente os chamados entulhos da construção civil que, por falta de conscientização das populações, são descartados em áreas ermas, na beira de corpos d’água ou em matas, e que acabam carreados para o canal dos arroios e rios. Além das populações de peixes, comentadas em nossa última postagem, espécies semiaquáticas como as capivaras (Hydrochoerus hidrochaeris), lontras (Lontra longicaudis – vide foto) e ratões-do-banhado (Myocastor coypus), além de répteis aquáticos como jacarés-do-papo-amarelo (Caiman latilostris), cágado-de-barbelas-cinzento (Phynops hilarii) e tigres d´água ou tartaruga-verde-amarela (Trachemys dorbigni), entre outros, sofrem imensamente com a contaminação dos ambientes aquáticos e também com a fragmentação dos seus habitats e a destruição da vegetação das margens, locais onde algumas espécies encontram parte da sua alimentação.

As áreas do cinturão verde, por preservarem algumas características que lembram as antigas áreas naturais, poderão atrair, em maior ou menor escala, algumas espécies de animais silvestres, que estarão sujeitas a contatos com agrotóxicos (fertilizantes, pesticidas e herbicidas), produtos químicos que, a partir de uma certa dosagem, podem ser fatais. Essa interface entre as áreas urbanas e as áreas naturais também podem colocar animais domésticos, especialmente cães, em contato com espécies selvagens – animais de pequeno porte como répteis, aves e pequenos mamíferos podem acabar mortos por ataques de cães ou transformados em “lanches” por gatos. Espécies classificadas como caça podem acabar abatidas “discretamente” por moradores e transformadas em pratos principais de almoços e jantares. Algumas espécies consideradas perigosas, nocivas ou que simplesmente causam pavor em algumas pessoas, são simplesmente exterminadas – citamos as cobras, aranhas, répteis e morcegos. Existe um caso que classifico como trágico: filhotes pequenos de ratões-do-banhado, uma espécie nativa do Guaíba e de outras áreas úmidas, são muito parecidos com as grandes ratazanas ou ratos-de-esgoto – se eventualmente entrarem em áreas urbanas, poderão ser mortos pela população devido a esta trágica semelhança.

Além dos animais domésticos tradicionais, populações humanas também trazem sob suas “carroças” uma série de animais domesticados involuntariamente – o maior exemplo é o rato ou ratazana (Rattus norvergicus), mamífero originário das estepes da Ásia Central, que se habituou ao convívio com agrupamentos humanos e suas sobras de comida: desde tempos pré-históricos, os ratos vem acompanhando as populações humanas em suas contínuas migrações ao redor do mundo. A lista destes animais também inclui o camundongo-doméstico (Mus musculus), o rato-negro (Rattus rattus), os pombos (Columba livia), o pardal (Passer domesticus), a lebre (Lepus europaeus), o porco-mateiro (Sus scrofa), a rã-touro (Rana catesbeiana), a lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia), a carpa-cabeçuda (Anstichtys nobilis) e a tilápia-do-nilo (Sarotherodon niloticus), entre outras. Todas estas espécies domésticas e domesticadas costumam invadir e ocupar nichos ecológicos de espécies selvagens, competindo por espaço e alimentos, sob risco de levar as espécies nativas ao declínio populacional.

Quanto às atividades de produção – agricultura, pecuária e criação de animais, além da mineração, impactam diretamente as áreas naturais – matas, campos e banhados passam por alterações significativas de todos os tipos para permitir seu uso em atividade humanas: flora e fauna silvestres, simplesmente, perdem seus espaços e precisam migrar para sobreviver. As espécies vegetais têm grande desvantagem neste quesito e, caso não consigam dispersar sementes, frutos e brotos na direção de outras terras, estarão fadadas a desaparecer.

Manchas urbanas são consumidoras vorazes de energia e combustíveis, que são transformados em luz, calor, alimentos, produtos e transporte – a iluminação noturna das ruas e avenidas, citando um exemplo, podem confundir espécies de hábito diurno como os pássaros e alterar os seus ciclos de atividade. A queima de lenha em lareiras ou a fumaça liberada por carros, caminhões e ônibus provocam a poluição do ar, levando a fuga de diversas espécies das proximidades dos centros urbanos. Os ruídos excessivos nas cidades, estradas, ferrovias, portos e também os ruídos produzidos pelas embarcações, também espantam populações de animais e provocam alterações importantes nos habitats.

No próximo post falaremos das aves do Guaíba.

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