“O RIO DE PIRACICABA… VAI JOGAR ÁGUA PRÁ FORA…”

Rio Piracicaba

Para quem não conhece, o título deste post lembra uma estrofe da canção caipira “Rio de Lágrimas”, composta em 1970, com letra de Lourival dos Santos e melodia de Tião Carreiro e Piraci. Esta “moda de viola” se tornou uma referência da cultura caipira – faço referência aqui ao território que falava o tradicional Dialeto Caipira, que abrangia todo o Estado de São Paulo, Norte do Paraná, e Sul dos Estados de Minas Gerais, Goiás e de Mato Grosso. De algumas décadas para cada, essa referência cultural se misturou com outras e surgiu o chamado Sertanejo. Um trecho da moda de viola:

“O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora
Quando chegar a água, dos olhos de alguém que chora.

La no bairro onde eu moro só existe uma nascente.
A nascente dos meus olhos já formou agua corrente.
Pertinho da minha casa já formou uma lagoa
com a lágrima dos meus olhos por causa de uma pessoa.”

O Piracicaba é um importante rio do interior do Estado de São Paulo, formado a partir da junção dos rios Atibaia e Jaguari no município de Americana e considerado o mais volumoso afluente do rio Tietê, onde desagua nas proximidades de Barra Bonita, após um curso total de 115 quilômetros. De origem tupi, Piracicaba significa “lugar onde os peixes param” ou ainda “degraus para os peixes”, numa referência aos degraus de basalto que cobrem uma parte do leito do rio e que dificultam a subida dos peixes na época da piracema. As águas do rio Piracicaba são responsáveis pelo abastecimento dos mais de 3 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Campinas e também de parte da Região Metropolitana de São Paulo.

Por ser um grande afluente do rio Tietê, o Piracicaba foi uma importante rota de navegação fluvial na região ao longo do século XVIII. A partir de meados do século XIX, quando a região se transformou num polo de cafeicultura e de produção de cana de açúcar (ainda hoje, a região produz as melhores cachaças do Estado de São Paulo), o rio passou a ser utilizado para a navegação em pequenos vapores. A cultura do café, fundamental para o desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo, teve início na região do Vale do Rio Paraíba do Sul, no Leste do Estado. Com o esgotamento dos solos, os cafeicultores rapidamente rumaram na direção do chamado Oeste Paulista, que nesta época era a região de Campinas, Piracicaba, Limeira, São Carlos e arredores. Os férteis solos de terra roxa e a disponibilidade de grandes cursos d’água foram fundamentais para o sucesso da cafeicultura e o desenvolvimento e povoação da região. A consolidação econômica da região se deu com a construção das primeira ferrovias, que ligavam as cidades da região ao Porto de Santos na segunda metade do século XIX, e que foram fundamentais para o escoamento da produção de café para todo o mundo e que marcariam a ascensão econômica do Estado de São Paulo.

Com o crescimento das cidades da região, particularmente de Campinas, a maior cidade do interior do Estado de São Paulo, e também do forte crescimento industrial e agrícola, as águas do Piracicaba passaram a receber volumes crescentes de esgotos domésticos e industriais, além de grandes volumes de resíduos de fertilizantes e de pesticidas. A partir da década de 1980, o rio Piracicaba passou ser incluído, infelizmente, na lista dos mais contaminados do país. A superexploração das águas, especialmente para a irrigação das grandes plantações de cana de açúcar, também levou a uma redução no volume de águas do rio, expondo grandes trechos do fundo rochoso do rio.

A redução no volume de água do rio Piracicaba também tem ligações com o Sistema Cantareira, construído na região das nascentes formadoras da bacia hidrográfica ainda na década de 1960 e que desvia grandes volumes de água para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Ao longo dos anos, esta questão criou diversos embates entre os comitês de bacia hidrográfica do Rio Piracicaba, Jaguari, Capivari e Atibaia, de um lado, e do rio Tietê no lado da Região Metropolitana de São Paulo. Na recente crise hídrica que levou o Sistema Cantareira ao volume morto entre os anos de 2012 e 2015, os embates na disputa pelas águas escassas foram mais intensos do que nunca.

Todos estes embates tiveram, como um ponto positivo, a criação de grupos de consumidores que aumentaram a pressão sobre as diversas autoridades responsáveis pela gestão dos recursos hídricos no Estado de São Paulo, no aumento na fiscalização e nos usos das águas, além da luta por espaços nas comissões que estabelecem a divisão dos volumes de águas entre as duas bacias. Em diversas cidades da bacia hidrográfica do rio Piracicaba, numa corrida contra o tempo, estão sendo construídos sistemas de coleta e tratamento de esgotos, buscando-se ao menos estabilizar o grau de contaminação das águas do rio, que continua sendo, apesar de todas as agressões ambientais que sofre, um dos mais importantes mananciais de abastecimento de uma região densamente povoada.

Que sobrem águas para serem jogadas para fora do rio Piracicaba…

A RESSURREIÇÃO DO RIO JUNDIAÍ

jundiá

Confesso que escrever diariamente sobre as tragédias ambientais que estão destruindo as fontes de abastecimento de água em todo o mundo é algo que, de quando em vez, dá uma depressão “danada”. Porém, é reconfortante encontrar alguma boa notícia dentro deste tema tão complicado. A boa nova de hoje vem da região de Jundiaí, cidade a 60 quilômetros de São Paulo – depois de mais de 30 anos de investimentos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos, o rio que leva o nome da cidade e que já foi tão poluído quanto o rio Tietê, passou para a Classe 3 dos corpos d’água e já está autorizado a servir como manancial de abastecimento de água. Deixem-me explicar essa maravilhosa história:

Como acontece com grande parte dos topônimos do Estado de São Paulo, a palavra Jundiaí é de origem tupi e significa “rio dos jundiás” – a foto que ilustra este post é de um jundiá, uma espécie de bagre que já foi muito abundante neste rio. O rio tem nascentes na Serra da Pedra Vermelha em Mairiporã (contigua à Serra da Cantareira), município que faz divisa ao Sul com o município de São Paulo. Ao longo dos seus 123 quilômetros de extensão, o rio Jundiaí vai atravessar também os municípios de Atibaia, Campo Limpo Paulista, Várzea Paulista, Jundiaí, Itupeva, Indaiatuba e Salto, onde fica a sua foz no rio Tietê. Ao longo do trecho inicial de 47 quilômetros, o rio Jundiaí é considerado Classe 2, categoria definida pelo CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, como um curso d’água próprio para consumo após o tratamento convencional. A partir deste trecho, o Jundiaí passava a ser considerado Classe 4, mesmo nível do Rio Tietê dentro da Região Metropolitana de São Paulo, situação na qual o único uso permitido para as águas é a navegação. As razões para a destruição do rio, como sempre acontece, foram o crescimento populacional e a industrialização em toda esta região, com despejos de esgotos residenciais e industriais sem tratamento. Com a destruição das águas do rio Jundiaí, os jundiás desapareceram.

A história do rio Jundiaí começaria a mudar a partir de meados da década de 1980, quando importantes cidades da bacia hidrográfica iniciaram um ambicioso e contínuo investimento em obras de coleta e tratamento dos esgotos. A Prefeitura Municipal de Jundiaí inaugurou a sua primeira ETE – Estação de Tratamento de Esgotos, em 1998 e prosseguiu os investimentos ao longo de diferentes administrações municipais até atingir o índice de atendimento de 100% de água tratada e de coleta e tratamento de esgotos a toda a sua população. Com todo este esforço, o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, do município saltou do 51º para o 4º lugar no ranking nacional das cidades do mesmo porte e o 11º lugar no ranking nacional. A SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, concessionária dos serviços de água e esgotos nos municípios de Itupeva e Várzea Paulista, inaugurou as Estações de Tratamento de Esgotos municipais em 2012 e 2013, respectivamente. Com a redução progressiva dos lançamentos de esgotos no Rio Jundiaí, um trecho de 25 quilômetros de suas águas evoluiu do pior nível de poluição, a Classe 4, para a Classe 3, quando o abastecimento humano é permitido após o tratamento convencional ou avançado das águas.

Por mais óbvio que possa parecer, a recuperação ambiental de qualquer rio ou lago depende basicamente da eliminação dos despejos de esgotos e de resíduos sólidos em suas águas. Processos biológicos naturais se encarregarão de consumir toda a matéria orgânica em suspensão nas águas, repondo gradativamente os níveis de oxigênio dissolvido. A decantação gradativa de sedimentos e metais pesados vai melhorar a transparência e reduzir a eventual toxidade da água, permitindo a recolonização do ambiente por peixes, crustáceos, plantas, entre outros seres vivos. Quanto maior for o período de tempo em que o corpo d’água consiga ficar livre do lançamento de esgotos e de resíduos sólidos, melhor será a qualidade das suas águas.

O sucesso da recuperação do rio Jundiaí se deu justamente pela continuidade dos investimentos em coleta e tratamento de esgotos ao longo de mais 30 anos, um fato inédito no Estado de São Paulo e em todo o Brasil. Se considerarmos que o mandato de um Prefeito ou Governador é de 4 anos, estamos falando de 8 administrações consecutivas dando prosseguimento a um trabalho que, tradicionalmente, não costuma render dividendos eleitorais no curto prazo; porém, como demonstrado na evolução do IDH do município de Jundiaí, os resultados sociais e ambientais no longo prazo são fantásticos – os resultados econômicos favoráveis também não tardarão a aparecer. E como maior sinal da recuperação ambiental do rio, os jundiás, que há muito haviam desaparecido, são vistos com frequência cada vez maior nas águas do Jundiaí.

Apesar das cidades da região não necessitarem no presente da captação das águas do rio Jundiaí, a possibilidade de contar com um rio em condições para o abastecimento futuro é estratégica para o desenvolvimento e planejamento das cidades da sua bacia hidrográfica.

Que este exemplo se multiplique por todos os cantos e testemunhemos a ressureição de outros rios Brasil afora!

“SUJO E POLUÍDO, O RIO GANGES AGONIZA”

Ganges

Nestas últimas semanas, minhas publicações têm enfocado o problema da destruição das fontes de água na região do Planalto de Piratininga, com consequências das mais danosas para a população da Região Metropolitana de São Paulo. Um dos corpos d’água dos mais afetados por esta destruição e poluição por esgotos e resíduos sólidos é o nosso bom e velho rio Tietê que, apesar de muitos não concordarem, classifico como o mais importante rio do Estado de São Paulo, especialmente do ponto de vista histórico e econômico.

Infelizmente, não são apenas os paulistas que destroem seus rios – em todo o Brasil e em grande parte do mundo está catástrofe se repete e, num curtíssimo prazo, a já escassa água para o abastecimento de bilhões de pessoas, simplesmente, poderá deixar de existir. Peço sua atenção para esta reportagem, publicada pela Revista Veja – Edição Digital, no dia 09/07/2017. O fotógrafo Danish Siddiqui da Agência Reuters registrou a degradação ambiental das Águas do Rio Ganges na Índia, apresentada numa sequência de fotografias que você poderá conferir neste link.

Diferente do rio Tietê, que abastece a uns poucos milhões de pessoas no interior do Estado de São Paulo, o rio Ganges é responsável pelo abastecimento de 400 milhões de pessoas do subcontinente indiano, o que dá cores absolutamente trágicas a esta catástrofe ambiental. Leiam a reportagem:

“Fotógrafo Danish Siddiqui da agência Reuters registra a degradação das águas do Ganges na Índia

As águas do rio Ganges, na Índia, nascem cristalinas no alto dos Himalaias, mas a poluição e o uso excessivo as transformam em lodo tóxico na sua longa jornada por cidades em expansão e centros industriais. Milhões de habitantes, devotos e peregrinos, que buscam a purificação espiritual por meio de rituais e cerimônias fúnebres em suas margens, contribuem para degradação.

Sagrado para hindus e responsável por abastecer 400 milhões de indianos, o “Mãe Ganga” está morrendo – mesmo depois de décadas de tentativas de salvá-lo. O governo do primeiro-ministro Narendra Modi luta para cumprir o plano de limpeza do Ganges, estimado em 3 bilhões de dólares, mas até agora o resulto é trágico.

O rio, venerado por quase 828 milhões de pessoas, recebe resíduos industriais ao longo de seu curso, formando camadas de espuma na superfície. Na cidade industrial de Kanpur, norte da Índia, a cor da água fica cinza escuro. Em outro trecho, a coloração muda para um estranho tom de rosa.”

 

TAMANDUATEÍ: O RIO QUE FOI ESTRANGULADO PELA METRÓPOLE

Rio Tamanduateí

Nesta atual sequência de postagens, falamos da destruição das fontes de água que, nos tempos antigos, abundavam na região do Planalto de Piratininga, especialmente no município de São Paulo. O crescimento exponencial da cidade e a falta de preocupação com a preservação destas preciosas fontes de água, conduziram a uma destruição gradativa dos corpos d’água, transformados em sua imensa maioria em canais para o escoamento dos esgotos da população.

Escondidos dos olhos da população por sucessivos projetos de canalização e construção das chamadas “Avenidas de Fundos de Vale”, sobrevivem na memória coletiva da população nos nomes de avenidas e de bairros da cidade: Pacaembu, Anhangabaú, Cupecê, Bixiga, Iguatinga, Sapateiro, Sumaré, Itororó, Carandiru, Moóca, Traição, entre outros. Entre os “sobreviventes” (uso o termo aqui falando dos corpos d’água não canalizados), merece destaque o rio Tamanduateí, sobre o qual falaremos hoje.

Algumas fontes dizem que a palavra significa Tamanduateí significa “rio dos tamanduás verdadeiros”. Outras afirmam que a palavra significa “rio das muitas voltas”, o que seria um nome bastante adequado ao rio sinuoso de outrora, com nascentes no município de Mauá, que depois atravessa os municípios de Santo André e São Caetano do Sul, todos na região do ABCD Paulista, e por fim corta o município de São Paulo no sentido Leste-Oeste até desaguar no rio Tietê, nas proximidades do Centro de Exposições do Anhembi (lembrando que este é o antigo nome do rio Tietê). Com uma extensão total de 35 km, é rio pequeno, porém de extrema importância histórica para toda a região.

A Vila de São Paulo de Piratininga foi fundada no alto de uma pequena elevação ao lado do Tamanduateí, que já foi chamado de rio Piratininga, e cresceu ao redor deste rio. Durante pelo menos 3 séculos, suas águas abasteceram parte da população da cidade – em meados do século XIX, a poluição das águas inviabilizaria seu uso para o abastecimento; seu curso também foi utilizado para o transporte de pessoas e mercadorias até o início do século XX, quando as muitas retificações do seu curso inviabilizaram a navegação das embarcações de maior porte.

A foto que ilustra este post, de autoria do fotografo suíço-brasileiro Guilherme Gaensly (1843-1928), dá uma ideia das mudanças no Tamanduateí: mostra o rio no final do século XIX na região onde fica atualmente o Parque Dom Pedro II – a largura entre margens do antigo leito do rio é, pelo menos, três vezes mais larga do que o canal de concreto no qual o Tamanduateí acabou confinado.

Essa região era conhecida como Várzea do Carmo ou Sete Voltas e já foi palco de violentas enchentes – a partir da década da 1820, surgiram vários planos para a retificação do Tamanduateí e a urbanização da região, porém sem que houvessem recursos suficientes para a execução de todas as obras.

Entre meados e o fim do século XIX, diversas obras de retificação foram realizadas no rio Tamanduateí, transformando o sinuoso curso em um canal retilíneo – as antigas áreas de várzea, que permitiam o transbordando natural das águas excedentes dos períodos das chuvas, acabaram liberadas gradativamente para a especulação imobiliária e o trecho final do rio acabou espremido por altas paredes de concreto e pedras. A partir do ano de 1880, começou um intenso debate público, onde se buscava um “plano de embelezamento” da região da Várzea do Carmo – as discussões se estenderiam por exatos 30 anos.

Em 1910 foi decidido transformar a Várzea do Carmo em um grande parque, projeto que contaria com o apoio da iniciativa privada (que receberia parte dos terrenos recuperados das áreas alagáveis em troca dos serviços). O projeto só foi aprovado pelos órgãos públicos em 1914 e o Parque foi entregue à população em 1922, ano do Centenário da Independência. 

O Parque, batizado com o nome de Dom Pedro II (o imperador Dom Pedro I seria homenageado na ocasião com a inauguração do Parque da Independência, no Bairro do Ipiranga) se tornou um dos mais importantes espaços públicos de São Paulo, com uma grande variedade de árvores e grandes espaços livres para o lazer da população.

A partir do ano de 1938, com o engenheiro Francisco Prestes Maia assumindo a prefeitura da cidade de São Paulo, tem início a implantação do seu famoso Plano de Avenidas – uma ideia urbanística “revolucionária”, que transformaria a antiga cidade provinciana, criada ao estilo das cidades europeias, numa cópia das metrópoles norte americanas com suas grandes avenidas e milhares de automóveis em circulação. O Plano de Avenidas de Prestes Maia instituiu o conceito das Avenidas de Fundos de Vale, que levou à canalização de centenas de córregos e ribeirões por toda a cidade, criando -se assim os espaços para a construção das grandes avenidas.

Já na década de 1950, com o acelerado crescimento da cidade e de sua frota de automóveis, foi iniciado o asfaltamento da Avenida do Estado, uma via marginal ao rio Tamanduateí, que ao longo de diferentes administrações, passou a ligar a Marginal Tietê ao Município de Santo André.

O rio Tamanduateí, das muitas voltas e várzeas dos tempos antigos, foi espremido cada vez mais pelas paredes de concreto e hoje é um curso retilíneo de águas poluídas (não custa lembrar que a construção de grandes avenidas paga “melhores comissões” que a construção de redes coletoras de esgotos), só lembrado pela população nos dias de chuva, quando a nítida falta de capacidade do seu canal extravasa águas por todos os lados e produz algumas das maiores enchentes da cidade.

Pois é: coisa de grande metrópole…

A REPRESA DE GUARAPIRANGA, OU A HISTÓRIA DE SEMPRE

Guarapiranga

É praticamente impossível falar na poluição das fontes de água da cidade de São Paulo sem que se lembre da represa de Guarapiranga, já citada várias vezes por aqui nas últimas postagens. Vamos lá:

A represa de Santo Amaro, atualmente conhecida como represa de Guarapiranga (que é o nome de um dos seus principais rios formadores), foi construída no início do século XX para regularizar o fluxo das águas do rio Tietê, que corriam na direção da Usina Hidrelétrica de Santana de Parnaíba, a primeira geradora de eletricidade da região do Planalto de Piratininga. O Tietê é um típico rio de drenagem de planície, que durante os meses de chuva recebe grandes volumes de águas de chuva; nos meses secos de inverno, o nível do rio cai dramaticamente – essa oscilação brutal no fluxo de água criava uma série de problemas para a geração de eletricidade. Com a construção da Guarapiranga, as águas das chuvas de Verão ficavam armazenadas na represa e no período da seca eram liberadas na direção do Tietê, mantendo-se assim o fluxo da correnteza do rio constante e a geração elétrica estável.

Muito antes da construção da represa Billings, a Guarapiranga se tornou uma área de lazer para a população paulistana. Em 1913, apenas 5 anos após a conclusão da represa, foi inaugurada uma linha de bondes elétricos entre a Vila Mariana e a cidade de Santo Amaro (que em 1933 foi incorporada à cidade de São Paulo) – nos finais de semana, estes bondes ficavam lotados de “turistas”, que se dirigiam para as “praias” da Guarapiranga. Essa vocação de área de lazer era tão forte que anos mais tarde, nas décadas de 1940 e 1950, areias das praias da região da Baixada Santista foram trazidas serra acima de caminhão e espalhadas nas praias da Guarapiranga. Como bom santo-amarense, eu passei inúmeros finais de semana da minha infância brincando nas águas da Guarapiranga. Muita gente da região ainda faz isso nos dias de hoje, mas a qualidade das águas não é mais a mesma.

Com o crescimento das cidades de São Paulo e de Santo Amaro, que após a inauguração da linha do bonde se tornou uma opção barata de moradia para quem trabalhava em São Paulo, a represa de Guarapiranga foi promovida em 1928 a manancial de abastecimento de água potável, tornando-se assim uma reserva estratégica para as futuras gerações. Infelizmente, como é de praxe em nosso país, a “promoção” da represa a manancial não foi seguida por outras medidas para a conservação das matas ciliares e de galerias que circundavam tanto o reservatório quanto os rios formadores da represa – como todos devem saber, as matas são essenciais para a proteção das nascentes de água e também para a manutenção da qualidade das águas dos rios: a vegetação retém os sedimentos e fragmentos de todos os tipos que são carreados na direção das calhas dos rios pelas correntezas criadas pelas fortes chuvas de Verão. Essa tragédia também se abateu sobre a represa Billings, construída na década de 1930 e que têm alguns de seus braços muito próximos da represa de Guarapiranga (em alguns pontos, a distância entre as duas represas é menor que 10 quilômetros).

O início da indústria automobilista no Brasil na década de 1950, que instalou as suas principais fábricas na região do ABCD Paulista, foi seguida pela instalação de inúmeras fábricas de autopeças no município de São Paulo – na região de Santo Amaro, agora um bairro da cidade de São Paulo, mais especificamente no distrito industrial de Jurubatuba, dezenas de indústrias fornecedoras de autopeças e de motores se instalaram na mesma época, criando dezenas de milhares de empregos. Assim como ocorreu em áreas de mananciais da represa Billings, loteamentos baratos (e ilegais) nas áreas lindeiras da Guarapiranga passaram a atrair as famílias dos operários destas indústrias e bairros inteiros surgiram de uma hora para a outra, com suas ruas de terra e sem qualquer infraestrutura de saneamento básico. Poços semi artesianos eram escavados nos quintais para garantir o abastecimento de água nas residências e as manilhas de barro lançavam os efluentes em toda uma complexa rede de córregos e riachos, que tinham as águas da Guarapiranga como destino. Em poucas décadas, a exuberante vegetação de Mata Atlântica cedeu lugar ao interminável tom monocromático do marrom tijolo das paredes de milhares de residências construídas em sistemas de mutirões aos fins de semana. Estima-se que 1,5 milhão de pessoas vivam atualmente nas áreas de mananciais da represa de Guarapiranga, uma população equivalente à da cidade de Belém do Pará. A foto que ilustra este post mostra um dos braços da represa de Guarapiranga – a forte imagem dispensa maiores explicações.

Com tanta gente gerando e despejando gigantescas quantidades de esgotos nas águas da represa de Guarapiranga a cada dia, antiga praia dos paulistanos virou apenas mais uma fonte de água poluída por esgotos e que requer enormes quantidades de produtos químicos para o seu tratamento. Mesmo poluída, a Guarapiranga responde por até 40% do abastecimento da cidade de São Paulo.

Triste essa nossa vocação de destruir todas as nossas preciosas e importantes fontes de abastecimento de água…

 

Leia também:

Guarapiranga: a praia de Santo Amaro

Os efeitos da poluição na Represa Billings

A TRISTE SINA DAS REPRESAS, OU AINDA FALANDO DA BILLINGS

Construção Billings

A construção de represas é uma das atividades mais traumáticas entre todas as técnicas criadas pela humanidade nos últimos milênios. O represamento das águas de um rio, obrigatoriamente, vai requerer a transferências das pessoas que habitam, algumas vezes a diversas gerações, nas suas terras; forçará a fuga dos animais que ocupavam seus nichos ecológicos nas matas de galerias e também estas matas precisarão ser removidas, especialmente nos casos em que a água do reservatório será usada para o abastecimento humano: árvores submersas morrem e entram em putrefação, oxidando a água e prejudicando sua qualidade para o consumo. Lembro de memória de dois livros que contam a história da construção de represas – Cartilha da Billings, de José Contreras Castilho, e Águas aos Olhos de Santa Luzia, de Cintya Maria Costa Rodrigues, que contam as histórias e os traumas dos antigos moradores despejados para a construção, respectivamente, das represas Billings e do rio Atibainha.

Mas os dramas das represas nunca terminam – após a conclusão das obras, elas passam a compor novas paisagens ecológicas, que por sua vez, passarão a sofrer novas pressões ambientais, algumas bastante negativas. Esse é o caso da represa Billings, que começou como uma represa criada para a geração de energia elétrica, depois passou a área de lazer e recreação para a população das regiões do seu entorno, passando a seguir a depósito de esgotos e, ironicamente, a manancial de abastecimento da região metropolitana mais densamente povoada do país. Foram mais de oitenta anos de descaso até que a Billings chegasse aos nossos dias em situação de extrema precariedade.

Como comentei em posts anteriores, foi o sistemático bombeamento de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê em direção da represa Billings o principal responsável pela degradação ambiental de suas águas. Mas não foi só isso – o crescimento e a posterior ocupação desordenada de suas margens por habitações de populações de baixa renda, levantadas em loteamentos clandestinos e sem qualquer tipo de infraestrutura o que ajudou a selar o destino da Billings. Apesar do bombeamento de águas contaminadas por esgotos desde o rio Tietê para a Billings ter sido suspenso há mais de vinte e cinco anos, os despejos de efluentes domésticos de milhares de residências nos bairros do entorno da represa continuaram a acontecer dia após dia, degradando as águas continuamente.

Um outro problema, pouco divulgado, é a perda contínua de águas pela represa ao longo dos últimos anos. Como comentado em post anterior, um estudo feito pelo Instituto Socioambiental na represa Billings demonstrou a perda de 6% da vegetação de suas margens entre os anos de 1989 e 1999. Apesar de parecer pouco significativa, essa perda de vegetação resultou no desaparecimento de inúmeras nascentes alimentadoras da represa – medições feitas observaram uma redução de 22% no volume total de água armazenada na represa Billings, que era, originalmente, de 1,3 bilhão de metros cúbicos de água. Um outro estudo, realizado pela ONG PROAM – Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, analisou 300 fotografias aéreas da represa Billings a partir de 1950 e concluiu que, dentro de 50 anos, 60% da capacidade atual de armazenamento estará comprometida – em menos de um século a Billings poderá deixar de existir. Como observamos no presente um avanço das construções irregulares em antigas áreas que um dia já foram fundo da represa, podemos imaginar bairros inteiros ocupando as várzeas secas que poderão surgir com a secagem da represa Billings. Confesso que esta é uma cena que não pretendo testemunhar em minha vida.

Na recente crise hídrica vivida pela Região Metropolitana de São Paulo entre os anos de 2012 e 2015, foram as águas poluídas e, muitas vezes, desprezadas da represa Billings que nos ajudaram a evitar o colapso do abastecimento de água. Após um grande esforço técnico da empresa de abastecimento local, um sistema de tubulações e de conjuntos de bombas foi construído a partir de um dos braços da represa Billings, permitindo a transposição de águas para o Sistema Alto Tietê, àquela altura praticamente seco. A represa de Guarapiranga, uma vizinha da represa Billings na Zona Sul da cidade de São Paulo, um pouco mais velha, mas com uma história de agressões ambientais idêntica, na mesma crise hídrica chegou a fornecer metade da água usada no abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo.

Com todos os traumas que se desenrolaram em suas construções e com todos os dramas colecionados em suas respectivas histórias, as represas são essenciais para a moderna vida nas grandes cidades. Com a falta cada vez maior de locais adequados para a construção de novas represas e também devido aos altos custos necessários para a desapropriação de áreas, é necessário um olhar carinhoso para os recursos hídricos que já possuímos, buscando por todas as maneiras possíveis formas e mecanismos que permitam a recuperação da qualidade de suas águas.

Quando isto acontecer, eu espero ver os nomes das represas Billings e Guarapiranga nas primeiras linhas da lista de corpos d’água a serem recuperados.

OS EFEITOS DA POLUIÇÃO NA REPRESA BILLINGS

Eutrofização

A palavra esgoto é comumente utilizada para referenciar despejos em geral, sendo estes de origem doméstica, industrial, comercial, de áreas agrícolas, entre outros. Alguns autores também utilizam a denominação de águas residuárias, que é a tradução literal de wastewater, muito utilizada no inglês. Numa definição mais ampla, esgotos domésticos e alguns tipos de esgotos industriais são preponderantemente matérias orgânicas, isto é, elementos que servem de alimentos a animais, a fungos e a bactérias. O lançamento dessa matéria orgânica em um corpo d’água constitui, até certo ponto, em um benefício ao meio ecológico, pois será transformada em alimento para peixes e outros organismos menores. Porém, a quantidade excedente dessa matéria orgânica pode se transformar em um grave problema ambiental por permitir um crescimento exponencial das bactérias e algas nas águas, o que resultará em um consumo de oxigênio superior a disponibilidade do meio. A redução no nível de oxigênio prejudicará todas as demais formas de vida animais e vegetais da água, que sem conseguir retirar da água o oxigênio essencial à manutenção de suas vidas, vão começar a morrer em grandes quantidades. Esse seria o resumo do resumo da tragédia na represa Billings. Porém, como o objetivo deste blog é a Educação Ambiental, vamos nos aprofundar um pouco mais nestas definições:

Esgotos Sanitários: são predominantemente constituídos de despejos domésticos. Basicamente, são compostos por urina, fezes, restos de comida, papel, sabão, detergentes, águas de banho e de lavagem em geral;

Esgotos Industriais: as características deste tipo de despejo são extremamente variáveis de acordo com o tipo de atividade industrial (química, petroquímica, alimentos, metalúrgica etc.). Deve ser estudado caso a caso;

Matéria orgânica: esgotos são essencialmente efluentes líquidos – no esgoto doméstico, por exemplo, apenas 3% do volume corresponde a sólidos. Cerca de 70% dos sólidos no esgoto médio são de origem orgânica. Esta matéria é constituída principalmente por compostos de proteínas, carboidratos, gordura e óleos, e em menor parte, por ureia, surfactantes, fenóis, pesticidas (típicos de despejos industriais em quantidade), etc.

A matéria orgânica pode ser classificada em subgrupos:

a) Proteínas
Produzem nitrogênio e contém carbono, hidrogênio e oxigênio; também podem conter fósforo, enxofre e ferro. São basicamente de origem animal, mas também ocorrem em vegetais. O enxofre fornecido pelas proteínas é responsável pela produção do gás sulfídrico presente nos despejos.

b) Carboidratos
Contêm carbono, hidrogênio e oxigênio, e são as primeiras substâncias a serem atacadas pelas bactérias. Estão presentes principalmente nos açúcares, amidos em geral, celuloses, etc. A ação bacteriana nos carboidratos produz ácidos orgânicos, que geram um aumento na acidez do esgoto.

c) Gorduras e óleos
Também designadas como matéria graxa, as gorduras e os óleos se encontram presentes nos despejos domésticos e sua origem, em geral, se dá pelo uso de manteiga, óleos vegetais, carnes, etc. Além disso, podem estar presentes nos despejos produtos não tão comuns, como querosene, óleos lubrificantes e afins provenientes de garagens.

O nitrogênio liberado nos corpos receptores como rios, lagos, lagoas, etc., assim como qualquer tipo de nutriente, pode causar problemas de superprodução de algas (que se alimentam do nitrogênio). No caso de represas, lagos e lagoas, que têm águas paradas ou com pequena movimentação, a reprodução de algas é mais intensa. O excessivo enriquecimento de nutrientes do corpo receptor é denominado de eutrofização (vide foto), que nada mais é do que a superprodução de algas em floração. Conforme as condições ambientais, essas algas consomem rapidamente todo o oxigênio de um trecho do corpo d’água e provocam grandes mortandades de peixes e outras criaturas aquáticas.

As atividades bacterianas e o crescimento de algas têm como resultado o consumo do oxigênio dissolvido na água, num processo conhecido como DBO – Demanda Bioquímica de Oxigênio. Muitas reações químicas também demandam oxigênio – nestes casos, o processo é chamado de DQO – Demanda Química de Oxigênio. Tanto a DBO quanto a DQO são usadas, entre outros, como índices para determinar o estado de um corpo de água.

Os esgotos podem conter bactérias agentes de cólera, das febres tifoides e paratifoides, salmonelas causadoras de gastroenterites, eptospiras, bacilos da tuberculose, enterovírus causadores da poliomielite, vírus de hepatite, dentre muitos outros. O contato direto das populações com águas saturadas com esgotos pode levar a uma contaminação por estes microrganismos.

Agora, as surpreendentes conclusões de um estudo recente, realizado por cientistas da USP – Universidade de São Paulo, e que buscava entender as relações entre a poluição das águas e o desaparecimento diversas espécies de peixes na represa Billings: foi observada uma alta concentração de resíduos de medicamentos nas águas, particularmente anticoncepcionais sintéticos eliminados nos esgotos domésticos. Estudos em laboratório indicaram a ação destes anticoncepcionais no metabolismo dos peixes, alterando os ciclos reprodutivos e o volume das ovas postas pelas fêmeas, com resultado direto na diminuição expressiva no número de alevinos produzidos em cada período. A falta de peixes nas águas da represa Billings vem afetando a vida de centenas de pescadores profissionais, que foram obrigados a procurar outras ocupações e fontes de renda em outros lugares.

No próximo post, nós continuaremos a falar dos múltiplos efeitos da poluição e de outras agressões ambientais sofridas pelas águas da represa Billings.

A POLUIÇÃO DA REPRESA BILLINGS

Billings

A partir do ano de 1950, foi iniciado o processo contínuo de reversão do rio Pinheiros: nas épocas de estiagem, o procedimento assegurava o nível mínimo de água na represa Billings, garantindo assim a geração contínua de eletricidade na Usina Hidrelétrica de Cubatão; nos meses de chuva, a retirada de grandes volumes de água das bacias hidrográficas dos rios Tietê e Pinheiros minimizava os efeitos das já “lendárias” enchentes na região da capital paulista. Essa engenhosa operação, no entanto, acarretou no comprometimento da qualidade das águas da represa Billings: grande parte dos esgotos domésticos e indústrias despejados sem qualquer tipo de tratamento nos córregos, riachos e rios da cidade de São Paulo e entorno, corriam na direção do rio Tietê e acabavam transferidos para a bacia hidrográfica da Billings, degradando de forma crescente a qualidade das suas águas. Quando as águas da represa eram despejadas nas tubulações de descida para as turbinas geradoras da Usina de Cubatão, as poluídas águas da represa Billings atingiam a bacia hidrográfica do rio Cubatão, na região da Baixada Santista, comprometendo também a qualidade ambiental de extensos manguezais e de praias próximas ao estuário do rio. Ou seja, o Complexo Billings passou a funcionar como um grande “ventilador”, espalhando esgotos dos rios Tietê e Pinheiros por todos os lados.

Um primeiro comentário que precisa ser feito é que, com a implantação e o crescimento das indústrias automobilísticas na região do ABCD Paulista, as cidades passaram a ter crescimentos populacionais importantes. Para atender a demanda por água potável para esta crescente população, em 1958 foi inaugurado o Sistema de Abastecimento de Águas do Grande ABC, que tinha na represa Billings o seu principal manancial de abastecimento, ou seja, a represa que recebia grande parte dos esgotos gerados pela cidade de São Paulo e arredores passaria a atender toda a população da chamada Região da Borda do Campo. Um segundo comentário, fundamental, é que as necessidades energéticas de toda a Região Metropolitana de São Paulo, incluindo-se aqui a Região da Borda do Campo e todo o seu parque de indústrias automobilísticas, dependiam da geração elétrica do Complexo Billings – encerrar o bombeamento das águas dos rios Tietê e Pinheiros, que eram responsáveis pela manutenção dos níveis da represa Billings, com vistas a uma melhoria da qualidade das águas usadas no abastecimento das cidades – NEM PENSAR!

Os embates entre grupos conservacionistas e as autoridades locais e estaduais se estenderam por várias décadas – aliás, eu imagino que as discussões sobre a poluição das águas da represa Billings estão na origem dos movimentos de conservação ambiental da Região Metropolitana de São Paulo. Cenas de grandes mortandades de peixes devido ao alto grau de poluição nas águas da Billings e de grandes volumes de lixo viraram uma espécie de “cartão de apresentação” destes ambientalistas (vide foto). Graças a todas as discussões criadas em torno do tema, em 1975 foram estabelecidas novas regras para o bombeamento das águas do rio Pinheiros, condicionando que o volume de água bombeado seria o mínimo necessário para a operação das turbinas de geração de energia elétrica em Cubatão. Em 1982, uma barragem foi construída no braço do Rio Grande, isolando as águas deste trecho das águas poluídas que vinham do rio Pinheiros.

No ano de 1984, foi instituída a Operação Balanceada, com metade das águas do rio Pinheiros enviada para a Billings e a outra metade enviada para o médio rio Tietê. Com a promulgação da nova Constituição Paulista em 1992, foi suspenso o bombeamento de águas do rio Pinheiros em direção à represa Billings, exceto em casos de emergência, ou seja, em graves crises durante enchentes.

É importante que você leitor observe que, em nenhum momento, a solução mais óbvia e prática a ser implementada para resolver em definitivo o problema da transposição das águas das bacias hidrográficas dos rios Tietê e Pinheiros para alimentação da represa Billings foi sequer cogitada – a implantação de um sistema eficiente para a coleta e o tratamento dos esgotos das cidades: com as águas de toda a rede hidrológica regional livre de poluentes, as águas poderiam ser usadas livremente, resolvendo-se de uma só vez toda uma série de problemas. Soluções paliativas e pontuais, entretanto, são mais fáceis de serem realizadas – resolver os problemas dos esgotos é demorado, caro e não dá voto…

Dentro de todo um pacote de medidas para a “proteção” das áreas de mananciais da represa Billings, foram criadas entre os anos de 1975 e 1976 diversas APMs – Áreas de Proteção dos Mananciais. Essa legislação procurou estabelecer restrições à ocupação de áreas no entorno da represa, tentando disciplinar o adensamento populacional e o aumento do volume de esgotos lançados na represa. O tiro, porém, saiu pela culatra – essa nova legislação levou a uma queda no preço das terras, usadas até então como chácaras de lazer, e estimulou a criação de loteamentos ilegais. Estudos do Instituto Socioambiental mostram que, no período de 1989 e 1999, as áreas de entorno da represa Billings perderam 6% de sua cobertura vegetal, enquanto que a expansão urbana foi de 48%.

Lambaris

Soluções improvisadas costumam ter consequências deste tipo.

SENA, O RIO QUE CORTA PARIS, PODERÁ SER USADO PARA TOMAR BANHO

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Para quem não sabe, o rio Tietê era um tradicional palco de competições de natação, saltos ornamentais e regatas de remo até as primeiras décadas do século XX. Com o avanço da poluição nas águas do rio, os clubes passaram a recorrer às piscinas para as competições de natação e de saltos ornamentais e à raias de competição em represas, lagos e rios distantes da capital paulista para as competições de remo.

Enquanto nós ainda discutimos por aqui toda uma sucessão de erros e de decisões inconsequentes de Governos que levaram à transformação do rio Tietê num gigantesco canal de esgotos a céu aberto sem que se encontre uma maneira de resolver o problema, a Prefeitura de Paris, cidade que já sofreu dos mesmos males da poluição em seus rios e canais num passado cada vez mais distante, anuncia que estará liberando um trecho do rio Sena ao público para banhos naturais. Leiam a matéria publicada pela Revista Veja em 05/07/2017:

Uma experiência de banho natural, sem tratamento químico, ou biológico”, promete a prefeitura de Paris. A partir do início de julho, será possível se banhar no coração da capital francesa, graças a uma piscina construída dentro de um lago — com águas vindas do rio Sena. O local terá 100 metros de comprimento e fica dentro do parque de La , situado no nordeste da cidade.

Em 1988, o ex-presidente francês Jacques Chirac, então prefeito da cidade, disse que os moradores da capital poderiam se banhar no rio que cruza a cidade “dentro de cinco anos”.

Prometeu, então, que faria todo o possível para transformar o Sena em “um rio limpo” — mas nunca chegou a mergulhar nele.

A partir de 17 de julho até meados de setembro, um máximo de 300 pessoas poderão se banhar ao mesmo tempo sob a supervisão de uma equipe de salva-vidas.

A água do lago vem do canal de Ourcq, lembra Jean-François Martins, responsável pela área de esportes da prefeitura, e há filtros que evitam a chegada de folhas, resíduos sólidos e peixes. O lago também contará com novos sensores para controlar diariamente a qualidade da água.

“O lago de La Villette é uma primeira etapa. A próxima será o lago Daumesnil, no parque de Vincennes [ao oeste de Paris], em 2019. E, depois, em 2024, se ganharmos a sede dos Jogos Olímpicos, poderemos nos banhar no Sena”, promete Martins.

Após 15 anos de esforços, a taxa de bactérias enterococcus e Escherichia coli (E. coli) no Sena diminuiu. “Há mais de dois anos estamos abaixo dos limites estabelecidos pela agência regional de saúde”, disse.

O funcionário da prefeitura garantiu que as pessoas “não vão cheirar mal quando saírem” do banho.

Desde um decreto de 1923, é proibido se banhar no Sena sob ameaça de uma multa de 11 euros. Há uma brigada fluvial que obriga os infratores a saírem da água. No ano passado, porém, não pôde fazer nada quando dezenas de pessoas que se declaram “banhistas de rua” se jogaram nas águas em La Villette.

Morram de inveja paulistanos!

PS: o blog completa 1 ano hoje. 

1925: ANO DO PRIMEIRO “APAGÃO” NA CIDADE DE SÃO PAULO

Eldorado

Desde a inauguração da primeira usina geradora de energia elétrica na Região Metropolitana de São Paulo em 1901, a Usina Hidrelétrica de Santana de Paranaíba, a demanda por energia não parou mais. A empresa concessionária dos serviços de geração e transmissão de energia, a Light (nome abreviado da empresa) passou a correr contra o tempo para garantir tanto o aumento quanto a regularidade da energia gerada e transmitida para a efervescente cidade. Conforme comentamos em post anterior, a empresa foi obrigada a construir a represa de Guarapiranga em Santo Amaro para conseguir regularizar a vazão do rio Tietê e assim manter a produção de energia em Santana de Parnaíba. A Light também construiu outras pequenas usinas geradoras de energia elétrica em outros rios, aumentando gradativamente a oferta de eletricidade para seus consumidores. Porém, a empresa sabia que seria necessário pensar grande e que precisaria fazer investimentos em unidades geradoras de grande porte no futuro.

Na primeira metade da década de 1920, a Região Metropolitana de São Paulo enfrentou um período de forte estiagem, o que reduziu consideravelmente o fluxo de água na rede hidrológica local, com reflexos diretos no seu maior rio, o Tietê. Em fevereiro de 1925, a Light foi obrigada a reduzir em cerca de 70% o fornecimento de energia elétrica à capital paulista – o primeiro apagão da história da cidade: imaginem o desgaste desta iniciativa em uma cidade movida por indústrias! O impacto foi tão grande que, poucos meses depois deste apagão, a Light obteve a autorização para a construção do Complexo Billings, homologado a partir de um decreto assinado pelo Presidente Arthur Bernardes.

Com construção iniciada neste mesmo ano e inaugurado em 1937, o Complexo Billings/Usina de Cubatão forneceu a maior parte da energia necessária à industrialização e à urbanização de São Paulo entre 1937 e 1960. Ao longo dos oitenta anos de existência deste sistema, os usos da represa Billings acompanharam o crescimento das cidades e também mudaram.

Concebida inicialmente como um reservatório para a geração de energia elétrica, a represa Billings ganhou outras características com o passar do tempo. A primeira, de polo de lazer e turismo, caracterizado pela utilização de suas margens como balneário e local para a prática de pesca artesanal. Apesar de localizadas a pouco menos de 50 km das praias da Baixada Santista, a proximidade da represa foi bastante comemorada pelas populações das cidades da região do ABCD Paulista (para quem não é de São Paulo, são as iniciais das cidades de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), além dos moradores da cidade de São Paulo, que organizavam carreatas com os amigos e se dirigiam para a represa Billings para um dia de lazer.

Com a intensificação do processo de reversão do rio Pinheiros e o bombeamento cada vez maior das águas já poluídas do rio Tietê a partir de 1950, as águas da represa Billings começaram a sofrer uma perda de qualidade pela presença cada vez maior de esgotos. Além de receber os esgotos gerados na bacia hidrográfica do rio Tietê, a Billings passou a receber descargas de esgotos em quantidades crescentes gerados pelo crescimento das cidades do ABCD, despejados sem qualquer tipo de tratamento nas águas dos rios formadores da represa. Apesar de ser um problema cada vez mais evidente, a necessidade de volumes de energia elétrica cada vez maiores para atender a demanda residencial e industrial, com destaque aqui para a nascente indústria automobilística em instalação na região do ABCD, fez-se o que se costuma chamar de “olhos de mercador”: todos fecharam os olhos para os problemas das águas ou olharam na direção dos “relógios” medidores de consumo de energia elétrica – maior demanda por energia resulta sempre em maiores lucros para quem vende esta energia. Simples assim.

A partir de 1958, com a indústria automobilística já instalada e em plena operação, a combinação de necessidade de mão de obra e a oferta de postos de trabalho produziu fortes efeitos na migração de trabalhadores de outras regiões do país em direção ao ABCD Paulista. A necessidade de moradia para tanta gente elevou fortemente a demanda por lotes de terra baratos – grandes áreas nas margens da represa Billings foram loteadas irregularmente e vendidas para esses migrantes (vide foto). Surgiram então os grandes bairros populares como o bairro Eldorado em Diadema, que no censo 2000 do IBGE apresentou uma população de 70 mil habitantes e todos os problemas típicos de falta de infraestrutura, lançando diariamente milhões de litros de esgotos nas águas da represa. O mesmo Censo indicou uma população de 1,6 milhões de habitantes na área de mananciais da Billings. E, por mais irônico que possa parecer, o grande manancial de abastecimento de água da região era a própria represa Billings, cada vez mais sitiada e recebendo quantidades cada vez maiores de esgotos, tanto da população local quanto da população da bacia hidrográfica do rio Tietê, através do sistema de transposição de águas do rio Pinheiros.

Após várias décadas de despejos de esgotos por todos os lados, a situação ambiental da represa Billings ficaria insustentável. Falaremos sobre isso no próximo post.