A RESSURREIÇÃO DO RIO JUNDIAÍ

jundiá

Confesso que escrever diariamente sobre as tragédias ambientais que estão destruindo as fontes de abastecimento de água em todo o mundo é algo que, de quando em vez, dá uma depressão “danada”. Porém, é reconfortante encontrar alguma boa notícia dentro deste tema tão complicado. A boa nova de hoje vem da região de Jundiaí, cidade a 60 quilômetros de São Paulo – depois de mais de 30 anos de investimentos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos, o rio que leva o nome da cidade e que já foi tão poluído quanto o rio Tietê, passou para a Classe 3 dos corpos d’água e já está autorizado a servir como manancial de abastecimento de água. Deixem-me explicar essa maravilhosa história:

Como acontece com grande parte dos topônimos do Estado de São Paulo, a palavra Jundiaí é de origem tupi e significa “rio dos jundiás” – a foto que ilustra este post é de um jundiá, uma espécie de bagre que já foi muito abundante neste rio. O rio tem nascentes na Serra da Pedra Vermelha em Mairiporã (contigua à Serra da Cantareira), município que faz divisa ao Sul com o município de São Paulo. Ao longo dos seus 123 quilômetros de extensão, o rio Jundiaí vai atravessar também os municípios de Atibaia, Campo Limpo Paulista, Várzea Paulista, Jundiaí, Itupeva, Indaiatuba e Salto, onde fica a sua foz no rio Tietê. Ao longo do trecho inicial de 47 quilômetros, o rio Jundiaí é considerado Classe 2, categoria definida pelo CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, como um curso d’água próprio para consumo após o tratamento convencional. A partir deste trecho, o Jundiaí passava a ser considerado Classe 4, mesmo nível do Rio Tietê dentro da Região Metropolitana de São Paulo, situação na qual o único uso permitido para as águas é a navegação. As razões para a destruição do rio, como sempre acontece, foram o crescimento populacional e a industrialização em toda esta região, com despejos de esgotos residenciais e industriais sem tratamento. Com a destruição das águas do rio Jundiaí, os jundiás desapareceram.

A história do rio Jundiaí começaria a mudar a partir de meados da década de 1980, quando importantes cidades da bacia hidrográfica iniciaram um ambicioso e contínuo investimento em obras de coleta e tratamento dos esgotos. A Prefeitura Municipal de Jundiaí inaugurou a sua primeira ETE – Estação de Tratamento de Esgotos, em 1998 e prosseguiu os investimentos ao longo de diferentes administrações municipais até atingir o índice de atendimento de 100% de água tratada e de coleta e tratamento de esgotos a toda a sua população. Com todo este esforço, o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, do município saltou do 51º para o 4º lugar no ranking nacional das cidades do mesmo porte e o 11º lugar no ranking nacional. A SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, concessionária dos serviços de água e esgotos nos municípios de Itupeva e Várzea Paulista, inaugurou as Estações de Tratamento de Esgotos municipais em 2012 e 2013, respectivamente. Com a redução progressiva dos lançamentos de esgotos no Rio Jundiaí, um trecho de 25 quilômetros de suas águas evoluiu do pior nível de poluição, a Classe 4, para a Classe 3, quando o abastecimento humano é permitido após o tratamento convencional ou avançado das águas.

Por mais óbvio que possa parecer, a recuperação ambiental de qualquer rio ou lago depende basicamente da eliminação dos despejos de esgotos e de resíduos sólidos em suas águas. Processos biológicos naturais se encarregarão de consumir toda a matéria orgânica em suspensão nas águas, repondo gradativamente os níveis de oxigênio dissolvido. A decantação gradativa de sedimentos e metais pesados vai melhorar a transparência e reduzir a eventual toxidade da água, permitindo a recolonização do ambiente por peixes, crustáceos, plantas, entre outros seres vivos. Quanto maior for o período de tempo em que o corpo d’água consiga ficar livre do lançamento de esgotos e de resíduos sólidos, melhor será a qualidade das suas águas.

O sucesso da recuperação do rio Jundiaí se deu justamente pela continuidade dos investimentos em coleta e tratamento de esgotos ao longo de mais 30 anos, um fato inédito no Estado de São Paulo e em todo o Brasil. Se considerarmos que o mandato de um Prefeito ou Governador é de 4 anos, estamos falando de 8 administrações consecutivas dando prosseguimento a um trabalho que, tradicionalmente, não costuma render dividendos eleitorais no curto prazo; porém, como demonstrado na evolução do IDH do município de Jundiaí, os resultados sociais e ambientais no longo prazo são fantásticos – os resultados econômicos favoráveis também não tardarão a aparecer. E como maior sinal da recuperação ambiental do rio, os jundiás, que há muito haviam desaparecido, são vistos com frequência cada vez maior nas águas do Jundiaí.

Apesar das cidades da região não necessitarem no presente da captação das águas do rio Jundiaí, a possibilidade de contar com um rio em condições para o abastecimento futuro é estratégica para o desenvolvimento e planejamento das cidades da sua bacia hidrográfica.

Que este exemplo se multiplique por todos os cantos e testemunhemos a ressureição de outros rios Brasil afora!

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