1925: ANO DO PRIMEIRO “APAGÃO” NA CIDADE DE SÃO PAULO

Eldorado

Desde a inauguração da primeira usina geradora de energia elétrica na Região Metropolitana de São Paulo em 1901, a Usina Hidrelétrica de Santana de Paranaíba, a demanda por energia não parou mais. A empresa concessionária dos serviços de geração e transmissão de energia, a Light (nome abreviado da empresa) passou a correr contra o tempo para garantir tanto o aumento quanto a regularidade da energia gerada e transmitida para a efervescente cidade. Conforme comentamos em post anterior, a empresa foi obrigada a construir a represa de Guarapiranga em Santo Amaro para conseguir regularizar a vazão do rio Tietê e assim manter a produção de energia em Santana de Parnaíba. A Light também construiu outras pequenas usinas geradoras de energia elétrica em outros rios, aumentando gradativamente a oferta de eletricidade para seus consumidores. Porém, a empresa sabia que seria necessário pensar grande e que precisaria fazer investimentos em unidades geradoras de grande porte no futuro.

Na primeira metade da década de 1920, a Região Metropolitana de São Paulo enfrentou um período de forte estiagem, o que reduziu consideravelmente o fluxo de água na rede hidrológica local, com reflexos diretos no seu maior rio, o Tietê. Em fevereiro de 1925, a Light foi obrigada a reduzir em cerca de 70% o fornecimento de energia elétrica à capital paulista – o primeiro apagão da história da cidade: imaginem o desgaste desta iniciativa em uma cidade movida por indústrias! O impacto foi tão grande que, poucos meses depois deste apagão, a Light obteve a autorização para a construção do Complexo Billings, homologado a partir de um decreto assinado pelo Presidente Arthur Bernardes.

Com construção iniciada neste mesmo ano e inaugurado em 1937, o Complexo Billings/Usina de Cubatão forneceu a maior parte da energia necessária à industrialização e à urbanização de São Paulo entre 1937 e 1960. Ao longo dos oitenta anos de existência deste sistema, os usos da represa Billings acompanharam o crescimento das cidades e também mudaram.

Concebida inicialmente como um reservatório para a geração de energia elétrica, a represa Billings ganhou outras características com o passar do tempo. A primeira, de polo de lazer e turismo, caracterizado pela utilização de suas margens como balneário e local para a prática de pesca artesanal. Apesar de localizadas a pouco menos de 50 km das praias da Baixada Santista, a proximidade da represa foi bastante comemorada pelas populações das cidades da região do ABCD Paulista (para quem não é de São Paulo, são as iniciais das cidades de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), além dos moradores da cidade de São Paulo, que organizavam carreatas com os amigos e se dirigiam para a represa Billings para um dia de lazer.

Com a intensificação do processo de reversão do rio Pinheiros e o bombeamento cada vez maior das águas já poluídas do rio Tietê a partir de 1950, as águas da represa Billings começaram a sofrer uma perda de qualidade pela presença cada vez maior de esgotos. Além de receber os esgotos gerados na bacia hidrográfica do rio Tietê, a Billings passou a receber descargas de esgotos em quantidades crescentes gerados pelo crescimento das cidades do ABCD, despejados sem qualquer tipo de tratamento nas águas dos rios formadores da represa. Apesar de ser um problema cada vez mais evidente, a necessidade de volumes de energia elétrica cada vez maiores para atender a demanda residencial e industrial, com destaque aqui para a nascente indústria automobilística em instalação na região do ABCD, fez-se o que se costuma chamar de “olhos de mercador”: todos fecharam os olhos para os problemas das águas ou olharam na direção dos “relógios” medidores de consumo de energia elétrica – maior demanda por energia resulta sempre em maiores lucros para quem vende esta energia. Simples assim.

A partir de 1958, com a indústria automobilística já instalada e em plena operação, a combinação de necessidade de mão de obra e a oferta de postos de trabalho produziu fortes efeitos na migração de trabalhadores de outras regiões do país em direção ao ABCD Paulista. A necessidade de moradia para tanta gente elevou fortemente a demanda por lotes de terra baratos – grandes áreas nas margens da represa Billings foram loteadas irregularmente e vendidas para esses migrantes (vide foto). Surgiram então os grandes bairros populares como o bairro Eldorado em Diadema, que no censo 2000 do IBGE apresentou uma população de 70 mil habitantes e todos os problemas típicos de falta de infraestrutura, lançando diariamente milhões de litros de esgotos nas águas da represa. O mesmo Censo indicou uma população de 1,6 milhões de habitantes na área de mananciais da Billings. E, por mais irônico que possa parecer, o grande manancial de abastecimento de água da região era a própria represa Billings, cada vez mais sitiada e recebendo quantidades cada vez maiores de esgotos, tanto da população local quanto da população da bacia hidrográfica do rio Tietê, através do sistema de transposição de águas do rio Pinheiros.

Após várias décadas de despejos de esgotos por todos os lados, a situação ambiental da represa Billings ficaria insustentável. Falaremos sobre isso no próximo post.

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