A TRISTE SINA DAS REPRESAS, OU AINDA FALANDO DA BILLINGS

Construção Billings

A construção de represas é uma das atividades mais traumáticas entre todas as técnicas criadas pela humanidade nos últimos milênios. O represamento das águas de um rio, obrigatoriamente, vai requerer a transferências das pessoas que habitam, algumas vezes a diversas gerações, nas suas terras; forçará a fuga dos animais que ocupavam seus nichos ecológicos nas matas de galerias e também estas matas precisarão ser removidas, especialmente nos casos em que a água do reservatório será usada para o abastecimento humano: árvores submersas morrem e entram em putrefação, oxidando a água e prejudicando sua qualidade para o consumo. Lembro de memória de dois livros que contam a história da construção de represas – Cartilha da Billings, de José Contreras Castilho, e Águas aos Olhos de Santa Luzia, de Cintya Maria Costa Rodrigues, que contam as histórias e os traumas dos antigos moradores despejados para a construção, respectivamente, das represas Billings e do rio Atibainha.

Mas os dramas das represas nunca terminam – após a conclusão das obras, elas passam a compor novas paisagens ecológicas, que por sua vez, passarão a sofrer novas pressões ambientais, algumas bastante negativas. Esse é o caso da represa Billings, que começou como uma represa criada para a geração de energia elétrica, depois passou a área de lazer e recreação para a população das regiões do seu entorno, passando a seguir a depósito de esgotos e, ironicamente, a manancial de abastecimento da região metropolitana mais densamente povoada do país. Foram mais de oitenta anos de descaso até que a Billings chegasse aos nossos dias em situação de extrema precariedade.

Como comentei em posts anteriores, foi o sistemático bombeamento de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê em direção da represa Billings o principal responsável pela degradação ambiental de suas águas. Mas não foi só isso – o crescimento e a posterior ocupação desordenada de suas margens por habitações de populações de baixa renda, levantadas em loteamentos clandestinos e sem qualquer tipo de infraestrutura o que ajudou a selar o destino da Billings. Apesar do bombeamento de águas contaminadas por esgotos desde o rio Tietê para a Billings ter sido suspenso há mais de vinte e cinco anos, os despejos de efluentes domésticos de milhares de residências nos bairros do entorno da represa continuaram a acontecer dia após dia, degradando as águas continuamente.

Um outro problema, pouco divulgado, é a perda contínua de águas pela represa ao longo dos últimos anos. Como comentado em post anterior, um estudo feito pelo Instituto Socioambiental na represa Billings demonstrou a perda de 6% da vegetação de suas margens entre os anos de 1989 e 1999. Apesar de parecer pouco significativa, essa perda de vegetação resultou no desaparecimento de inúmeras nascentes alimentadoras da represa – medições feitas observaram uma redução de 22% no volume total de água armazenada na represa Billings, que era, originalmente, de 1,3 bilhão de metros cúbicos de água. Um outro estudo, realizado pela ONG PROAM – Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, analisou 300 fotografias aéreas da represa Billings a partir de 1950 e concluiu que, dentro de 50 anos, 60% da capacidade atual de armazenamento estará comprometida – em menos de um século a Billings poderá deixar de existir. Como observamos no presente um avanço das construções irregulares em antigas áreas que um dia já foram fundo da represa, podemos imaginar bairros inteiros ocupando as várzeas secas que poderão surgir com a secagem da represa Billings. Confesso que esta é uma cena que não pretendo testemunhar em minha vida.

Na recente crise hídrica vivida pela Região Metropolitana de São Paulo entre os anos de 2012 e 2015, foram as águas poluídas e, muitas vezes, desprezadas da represa Billings que nos ajudaram a evitar o colapso do abastecimento de água. Após um grande esforço técnico da empresa de abastecimento local, um sistema de tubulações e de conjuntos de bombas foi construído a partir de um dos braços da represa Billings, permitindo a transposição de águas para o Sistema Alto Tietê, àquela altura praticamente seco. A represa de Guarapiranga, uma vizinha da represa Billings na Zona Sul da cidade de São Paulo, um pouco mais velha, mas com uma história de agressões ambientais idêntica, na mesma crise hídrica chegou a fornecer metade da água usada no abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo.

Com todos os traumas que se desenrolaram em suas construções e com todos os dramas colecionados em suas respectivas histórias, as represas são essenciais para a moderna vida nas grandes cidades. Com a falta cada vez maior de locais adequados para a construção de novas represas e também devido aos altos custos necessários para a desapropriação de áreas, é necessário um olhar carinhoso para os recursos hídricos que já possuímos, buscando por todas as maneiras possíveis formas e mecanismos que permitam a recuperação da qualidade de suas águas.

Quando isto acontecer, eu espero ver os nomes das represas Billings e Guarapiranga nas primeiras linhas da lista de corpos d’água a serem recuperados.

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