RIO ACRE: FIM PREVISTO PARA 2025?

Rio Acre - foto Odair Leal Amazonia Real

Um estudo recente publicado pela Universidade de Connecticut, Estados Unidos, concluiu que a forte seca que se abateu em 2016 sobre as regiões Sul e Sudoeste da Amazônia, em especial nos rio Madeira e Purus, foi intensificada pela ação humana. Os pesquisadores analisaram as secas dos anos de 1983, 1998, 2005, 2010 e 2016, analisando inclusive os efeitos da elevação da temperatura dos oceanos provocados pelo fenômeno climático El Niño. A seca de 2016, considerada a mais forte na região nos últimos 100 anos, não pode ser explicada somente a partir de causas naturais. Segundo os estudiosos, os dados da pesquisa sugerem que esta seca teve uma forte influência dos desmatamentos e mudanças climáticas locais resultantes de ações humanas – e as projeções não são nada animadoras: há uma tendência de secas cada vez mais fortes na região caso a devastação ambiental continue. Vejam este trecho do estudo:

“Temperaturas acima do normal da superfície oceânica na região tropical do Pacífico e no Atlântico foram os principais causadores de secas extremas na América do Sul, mas não explicam a severidade da falta de chuvas em 2016 em uma porção substancial da Amazônia e do Nordeste…

Isso sugere fortemente uma contribuição potencial de fatores não oceânicos (como mudanças na cobertura da terra e aquecimento por emissões de dióxido de carbono) para a seca de 2016″.

Os cientistas reiteraram que os desmatamentos registrados, não só nesta região mas em toda a Floresta Amazônica, tendem a agravar os períodos de seca – sem a cobertura vegetal, há uma redução substancial dos volumes de água que penetram e ficam armazenados nos solos, alimentando os rios e igarapés no período da seca; a perda da cobertura vegetal também se reflete numa redução da evapotranspiração, que inclui a evaporação do solo e a transpiração das plantas, um processo natural que transfere umidade para a atmosfera. Com plantas e atmosfera com baixos níveis de umidade, os riscos de grandes incêndios florestais e emissões de grandes volumes de carbono para a atmosfera, como os que ocorrem em áreas do Cerrado, aumentam consideravelmente. Este quadro é extremamente preocupante não só para a região Amazônica, mas para todo o Centro-Sul do Brasil: a grande floresta equatorial é a responsável pela formação das grandes nuvens de umidade que levam as chuvas para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, num fenômeno conhecido como os “rios voadores”.

Essa grande seca de 2016 atingiu em cheio o Estado do Acre, que é cortado, entre outros, pelos rios Purus e Acre (que é um importante afluente do rio Purus), causando inúmeras dificuldades para as populações, desde o abastecimento de água, a produção agrícola e pecuária, além da pesca e dos transportes por via fluvial, essenciais para as populações ribeirinhas. Algumas cenas comuns na região do Semiárido nordestino puderam ser vistas no Acre: grandes rebanhos bovinos extremamente magros, com animais se esforçando para alcançar um magro filete de água no talvegue de rios outrora caudalosos ou rezes redobrando os esforços para conseguir mastigar ervas e plantas ressequidas. A produção de leite caiu substancialmente – vacas que produziam até 8 litros de leite por dia passaram a produzir apenas 3 litros, mesmo com os produtores dobrando a cota diária de sal mineral de cada animal. Nada que lembrasse uma região com fama de fartura de água e de plantes verdes e suculentas.

O rio Acre (vide foto) é um exemplo acabado da situação hídrica no Estado: desde 1970, a Defesa Civil do Acre vem realizando medições sistemáticas do nível do rio, onde se observam reduções sistemáticas da cota mínima, fenômeno que fica muito mais evidente no período da seca. Nos últimos 25 anos, houve uma diminuição da cota mínima do rio equivalente a 1,5 metro. Se essa tendência continuar, as projeções indicam que, em 2025, o rio Acre apresentará um nível de apenas 0,5 metro no período da seca, um volume de água absolutamente insuficiente para o abastecimento da população que vive nas cidades de sua bacia hidrográfica, quiçá ainda fornecer água para usos na agricultura e na dessedentação dos rebanhos bovinos. No período seco deste ano, o rio Acre atingiu a cota de 1,67 metro na cidade de Rio Branco, nível que exigiu a utilização de bombas flutuantes para a captação da água usada no abastecimento da cidade; em Brasileia, a 232 km da capital, o nível do rio chegou a 1,15. Outros rios do Estado também atingiram volumes críticos: o rio Iaco, na cidade de Sena Madureira a 145 km da capital, atingiu a cota de 0,6 metro. O rio Acre percorre cerca de 800 km dentro do Estado, atravessando os municípios de Assis Brasil, Brasileia, Xapuri, Capixaba e Rio Branco, municípios que concentram 70% da população do Acre e mostram a importância regional do rio.

As duas mais importantes atividades econômicas do Estado do Acre ajudam a entender a crise hídrica que vem se abatendo sobre a região nos períodos secos dos últimos anos:

  • O rebanho bovino do Acre triplicou em apenas uma década: passou de 800 mil cabeças para 3 milhões. Além da exigência da ampliação das pastagens para comportar este volume cada vez maior de animais, os produtores precisaram investir na construção de açudes nas propriedades, como forma de garantir reservas de água para a dessedentação dos animais. A água destes açudes é captada diretamente dos rios, através de sistemas de bombas e tubulações, sem qualquer controle ou gestão do consumo por parte das autoridades estaduais;
  • A exploração de madeira passou de 300 mil metros cúbicos por ano para mais de 1 milhão de metros cúbicos. De acordo com dados do Governo do Acre, o desmatamento passou de 5,3 mil km² entre 1988 e 1998, para 7,3 mil km² na década seguinte. Na bacia hidrográfica do rio Acre, o desmatamento já consumiu 35% da cobertura florestal original.

Rio Branco, cidade com uma população de 370 mil habitantes, possui uma rede de abastecimento que cobre 65% do seu território (o restante da população utiliza a água de poços para o abastecimento de suas casas). Nos períodos secos dos últimos anos, a empresa local de abastecimento, a DEPASA – Departamento de Pavimentação e Saneamento, foi obrigada a impor um sistema de racionamento que chegou a atingir mais de 240 mil habitantes. Além das dificuldades para a captação da água, que ficou num nível abaixo das tubulações dos pontos de captação, o volume de sedimentos nas águas do rio Acre aumenta muito no período seco, o que somado ao aumento da concentração dos esgotos lançados nas águas do rio sem qualquer tipo de tratamento, compromete muito a qualidade da água e reduz o volume de água tratada nas ETAs – Estações de Tratamento de Água, da cidade.

As famílias que dependem da água de poços, inclusive de poços artesianos, também enfrentam sérios problemas: como comentei em minha última postagem, o nível dos lençóis subterrâneos de água rebaixam muito rápido na região amazônica, deixando milhares de pessoas com poços secos e na dependência de caminhões pipa do Governo para o abastecimento de suas casas.

É absolutamente clichê falarmos dos problemas de abastecimento de água e de fortes secas na região do Semiárido brasileiro – quando, porém, se fala de uma forte seca na Amazônia, região que concentra 70% das águas superficiais do Brasil, é um sinal que a situação está ficando extremamente crítica.

UMA BREVE HISTÓRIA DO ESTADO DO ACRE, OU UMA SECA DE PROPORÇÕES AMAZÔNICAS

Látex

A Floresta Amazônica aparenta, pelo menos para os que são de fora, ser uma região de águas abundantes e infinitas. Eu morei por quase dois anos na região, quando trabalhei nas obras de construção da rede coletora de esgotos de Porto Velho – Rondônia, e aprendi a olhar com mais cuidado para essa questão. Deixem-me explicar:

A cidade de Porto Velho tem aproximadamente 400 mil habitantes e, por mais incrível que possa parecer, enfrenta sérios problemas de falta de água. Não há exatamente falta de água na região – o rio Madeira é um dos maiores afluentes do rio Amazonas, com uma extensão total de 3.250 km. Os problemas estão concentrados na produção e na distribuição de água tratada para a população. As redes do sistema de abastecimento de água da empresa de saneamento local, a CAERD – Companhia de Águas e Esgotos de Rondônia, atendem apenas 50% da população – quem não está ligado à rede pública de abastecimento precisará depender de poços ou cacimbas, escavados nos seus quintais. É aí que, literalmente, mora o problema.

O clima amazônico é dividido em apenas duas estações: um período quente e chuvoso e outro mais quente ainda e seco. O solo da Floresta Amazônica se comporta como uma gigantesca esponja, provavelmente a maior do mundo, que absorve imensos volumes de água no período das fortes chuvas; essa água é liberada gradativamente durante o período da seca, alimentando os igarapés e os rios da grande bacia hidrográfica da Amazônia; uma pequena quantidade da água de alguns rios, como o próprio Madeira, tem origem no derretimento de geleiras ou glaciares da Cordilheira dos Andes. Assim que a temporada das chuvas se encerra, o nível do lençol freático está bem próximo da superfície do solo – se você escavar 10 ou 20 cm, encontrará água. Conforme o período da seca vai evoluindo, o nível do lençol freático se reduz dramaticamente – na região de Porto Velho ele chega a rebaixar em até 50 metros. É justamente neste período de forte baixa do lençol freático que a população começa a sofrer com a falta de água – os poços, que normalmente tem uma profundidade de uns poucos metros, secam completamente. Vive-se uma verdadeira “seca verde”: matas verdejantes, rios e igarapés com baixos volumes de água e poços secos – algo surreal se comparado às fortes secas que assolam o semiárido brasileiro.

O Bioma Amazônia, muito mais do qualquer outro, é altamente dependente da relação água – solo – floresta: por menor que seja uma alteração em qualquer um dos componentes do “tripé”, o sistema todo passa a apresentar alterações e/ou distorções. A derrubada de trechos de matas para a implantação de projetos agropecuários no último meio século já começa a apresentar suas consequências em algumas regiões – o rio Acre, no Estado homônimo, é um exemplo.

De todos os Estados que compõem a nossa República Federativa, o Acre é o mais novo e com uma história das mais atribuladas. Até o início do século XX, o território do Acre fazia parte da Bolívia; porém, desde a década de 1870, a população da região era formada basicamente por seringueiros brasileiros de origem nordestina, que avançaram sobre o território em busca das seringueiras, a famosa Hevea brasiliensis, e o seu cobiçado látex (vide foto). Todos vocês devem se lembrar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental e do famoso Ciclo da Borracha. A situação fundiária do território e da população brasileira só foi resolvida em 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis – o Brasil ficaria com a posse do território e em troca construiria uma ferrovia, a Madeira-Mamoré, que permitiria o escoamento da produção do látex boliviano através da navegação fluvial pelos rios da Bacia Amazônica. A negociação também incluiu a transferência de terras do Estado de Mato Grosso para a Bolívia e o pagamento de uma indenização em dinheiro no valor de 2 milhões de libras esterlinas. Cabe aqui uma rápida explicação: o rio Madeira nasce na Bolívia, onde é chamado de rio Beni: o trecho entre o rio Mamoré, na divisa entre o Brasil e a Bolívia, e Porto Velho, em Rondônia, possui inúmeras cachoeiras e não é navegável – a construção da ferrovia permitiria aos bolivianos resolver este problema de logística.

O rio Acre nasce no Peru e atravessa todo o território do Estado do Acre, seguindo por um trecho do Estado do Amazonas até desaguar no rio Purus, numa extensão total de 1.190 km. O rio Acre foi, durante décadas, o caminho natural da colonização do território e de escoamento da produção local, especialmente do látex. Diversas cidades do Estado são atravessadas pelo rio Acre e dependem das suas águas para o abastecimento de suas populações: Rio Branco, Porto Acre, Senador Giomard, Brasileia e Assis Brasil, entre outras. Depois da abertura e posterior asfaltamento da rodovia federal BR 317 entre as cidades de Boca do Acre, no Estado do Amazonas, e Assis Brasil, no Acre, a navegação do rio Acre perdeu relevância diante do transporte rodoviário.

O Ciclo da Borracha no Acre teve seu apogeu entre as décadas de 1870 e 1910, quando o produto brasileiro passou a perder mercado para a produção dos seringais ingleses plantados na Ásia (relembrando – sementes de seringueira foram contrabandeadas e florestas artificiais foram plantadas no Sudeste asiático). Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), houve um breve esforço de recuperação da produção local de látex com a chegada dos famosos “Soldados da Borracha”. Com o fim do esforço de guerra, tanto o projeto de produção quanto os soldados foram esquecidos à própria sorte nos confins da Floresta Amazônica. Essa população esquecida e com uma densidade populacional relativamente alta para os padrões amazônicos, passou a viver de pequenos roçados de subsistência e da criação de pequenos rebanhos bovinos. Com o início do período dos Governos Militares em meados da década de 1960, teve início um forte movimento de ocupação dos vazios populacionais do imenso território brasileiro, especialmente na região da Floresta Amazônica – os militares temiam a “Internacionalização da Amazônia”, um suposto projeto liderado pelos Estados Unidos, onde o território da grande floresta seria dividido entre as grandes potencias mundiais. Teve início então um forte estímulo à migração de colonizadores para a região – um famoso slogan da época que me lembro bem dizia que era “uma terra sem homens para homens sem terra”. Milhares de famílias, especialmente da região Sul do Brasil, passaram a ser contempladas com terras na região, com destaque para os Estados de Mato Grosso (depois dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), Rondônia, Acre e Pará. Foi iniciada a construção da Transamazônica, a rodovia da “integração nacional”, além de outras rodovias e aeroportos, integrando a Amazônia ao resto do país.

O intenso desmatamento e implantação de projetos agrícolas e de pecuária em todo o Estado do Acre, mais do que em qualquer outra região da Amazônia, começou a apresentar a “fatura” da conta ainda em 1970: o rio Acre começou a apresentar reduções sistemáticas no seu nível; algumas projeções indicam que, em 2025, o nível do rio Acre não vai passar de 0,5 metro, levando inúmeras cidades ao colapso no abastecimento. Nos últimos anos, o rio Acre já vem apresentando vazões baixíssimas nos períodos de seca, o que tem causado inúmeros problemas para o abastecimento das cidades.

No próximo post vamos detalhar a situação do rio Acre e mostrar os desafios para o abastecimento das populações.

“A SECA NO SÃO FRANCISCO QUE SALGA O CAFÉ E ADOECE A POPULAÇÃO EM ALAGOAS”

Piaçabuçu

A salinização na foz do rio São Francisco é um problema seríssimo, já tratado aqui em postagem anterior, que foi agravado a partir da redução da vazão da barragem de Sobradinho para apenas 550 m³/s. Vejam a ótima e irretocável matéria publicada hoje (07/11/2017) pelo jornal espanhol EL PAÍS:

“No município alagoano de Piaçabuçu (vide foto), a 135 quilômetros de Maceió, tomar um simples cafezinho pode ser um evento difícil de engolir. ‘Já experimentou o nosso café, moça?’, perguntou à reportagem o pescador Marcos Antônio Batista dos Santos, 39. Ele atribui o estranho sabor da bebida à qualidade da água que abastece a cidade de cerca de 18.000 habitantes. ‘Aqui, água para beber e cozinhar, só comprando água mineral. Você precisa ver o gosto do café como fica [com a água da torneira fervida]’, diz.

A cidade fica na foz do Rio São Francisco, que nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Ao longo de seu curso, o Velho Chico, como é chamado, está sendo castigado por uma seca histórica. Por isso, desde 2013, sua vazão vem sendo reduzida paulatinamente. O efeito cascata desta crise hídrica é que, devido à redução do nível do rio, a água do mar avança com cada vez mais força leito adentro, resultando no fenômeno da salinização da água. Como a cidade de Piaçabuçu é totalmente abastecida pelo rio, a água salgada acaba se tornando um problema que ultrapassa o indigesto cafezinho. ‘Além de uma questão hídrica, existe um problema de saúde pública’, afirmou Anivaldo Miranda, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

Agentes de saúde e a própria população acreditam que casos de hipertensão e problemas de pele e nos rins que afetam os moradores do local estão aumentando em consequência da água salobra. ‘Ainda não há dados que confirmem, mas existe uma estimativa de aumento de 20% nos casos de hipertensão neste ano, pelo aumento da salinidade da água‘, diz Gênisson Branco, coordenador do hospital da cidade, a Casa Maternal de Piaçabuçu, e técnico em enfermagem da UFAL – Universidade Federal de Alagoas. De acordo com ele, além da hipertensão, a hipernatremia (alta concentração de sódio no corpo) e doenças de pele são as enfermidades mais comuns atribuídas à qualidade da água.

A salinização também está trazendo consequências para a agricultura local, segundo Miranda. ‘Algumas plantações de arroz e coco, alimentos muito cultivados na região, se tornaram impraticáveis’, explica. A alta concentração de sal na água utilizada na irrigação destrói os cultivos.

A aposentada Iraíris dos Santos Silva, 83, sabe bem do que Miranda está falando. ‘Antes, havia feira aqui todo sábado e domingo, o dia inteiro’, conta ela, enquanto olha para o rio. “Agora, é só no sábado e até meio dia. Não tem mais o que vender né?’. Ela veio de Pão de Açúcar, no sertão alagoano, a 200 quilômetros dali, fugindo da seca e para trabalhar em uma plantação de arroz. ‘A plantação já nem existe mais’, contou. A seca, esta sim persiste.

De acordo com Clécio Falcão, presidente da CASAL – Companhia de Saneamento de Alagoas, a água distribuída para a cidade pela companhia é tratada e própria para ser tomada. ‘Esta reclamação [sobre a água salgada e os casos de hipertensão] não está sendo feita por causa da água disponibilizada pela CASAL’, disse. ‘Eles devem estar captando água direto do rio, porque a água da CASAL tem um controle rigoroso’. De acordo com ele, o problema não é a qualidade da água distribuída, mas sim a escassez. Isso porque a distribuição é feita somente por 12 horas diárias, quando a maré está baixa, e a quantidade de água salgada no rio é, consequentemente, menor. Segundo ele, quem não tem caixa d’água em casa, quando o abastecimento é interrompido, acaba retirando água diretamente do rio, aumentando as chances de problemas de saúde. O problema é que somente 60% da população têm caixa d’água, segundo os cálculos de Falcão.

Na tentativa de remediar o problema, a CASAL afirmou, em agosto ao portal UOL, que distribuiria 1.000 caixas d´água para a população que não tinha este equipamento. Questionado pelo EL PAÍS se de fato a promessa foi cumprida, Clécio Falcão afirmou que a ideia foi ‘revista’ e chegaram à conclusão de que o plano não era viável. ‘Depois que fizemos a vistoria no bairro de Paciência [que segundo ele é a região mais carente da cidade], chegamos à conclusão de que era inviável porque falta estrutura nas casas para estes reservatórios’, explicou.

Mas João Suassuna, engenheiro agrônomo, especialista em semiárido e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, diz que a maré baixa não é garantia de qualidade. ‘Sempre ficam resíduos de sal’, diz. ‘Não é porque a maré está baixa que o rio está com água de boa qualidade’, alerta.

Para driblar a água salinizada, a captação é feita a uma distância de 12 quilômetros do mar. Após perceber que distribuir caixas d´água não resolveria o problema, a CASAL afirma estar atuando em duas novas frentes. A primeira é ativar uma nova captação rio acima, para tentar fugir da água marinha. A nova distância ficaria a 20 quilômetros do mar. Segundo Clécio Falcão, a expectativa é que a obra fique pronta até o final do ano. ‘Com esta nova captação, provavelmente poderemos aumentar o número de horas do bombeamento, talvez até voltar para as 24 horas de captação”, diz. ‘Mas isso vai depender do comportamento do rio e se a vazão continuará nos 550 metros cúbicos por segundo. Porque se a crise hídrica continuar e se a CHESF obtiver uma nova autorização da ANA – Agência Nacional de Água, para reduzir ainda mais a vazão, a gente não garante que esta nova captação consiga captar por 24 horas’.

A segunda iniciativa será construir uma espécie de ‘reservatório pulmão’, cujo projeto está sendo desenvolvido pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco. ‘Acredito que se tudo ocorrer bem, em cinco meses já teremos isso resolvido’, diz Anivaldo Miranda. A proposta é que o reservatório tenha dimensões capazes de suprir a cidade inteira.

“Farra da água”

Em 2013, quando o problema da seca se iniciou com mais intensidade, a vazão do rio São Francisco praticada pelos reservatórios de Sobradinho, na Bahia, e Xingó (entre Alagoas e Sergipe) era de 1.300 metros cúbicos por segundo. Paulatinamente ela foi sendo reduzida até o que é hoje, 550 metros cúbicos por segundo. A CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, responsável pela vazão, afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que estas reduções permitiram poupar o equivalente a 150% do volume útil do reservatório de Sobradinho. Mas, apesar da economia, Sobradinho está, neste momento, com somente 3,5% de seu volume útil.

A companhia não respondeu se há previsão de uma nova redução da vazão em breve. Disse, via assessoria de imprensa, que a salinização é um ‘fenômeno natural’ que ocorre “independentemente da ação humana”. Mas reconhece que há uma relação da “cunha salina com a vazão de um rio e com diversos outros fatores naturais”, e que “desde o ano de 2013, a bacia do rio São Francisco vem apresentando um quadro hidrológico bastante desfavorável”.

Anivaldo Miranda, do Comitê da Bacia do São Francisco, ressalta que, mais do que uma questão climática, existe também um problema administrativo. “É uma questão de crise de gestão e não só uma questão hídrica”, afirma. ‘Todo mundo fala do clima, mas isso já estava previsto. Estão fazendo a farra da água em muitos pontos da bacia e isso se reverte na vazão do São Francisco’, afirma

Os projetos para atenuar o problema em Piaçabuçu são, porém, medidas paliativas. João Suassuna alerta que, não há medidas a médio e curto prazo. ‘Não há um plano B para o problema da seca. Temos que cuidar da revitalização da bacia imediatamente”, diz. “Faz mais de 20 anos que denunciamos essas coisas. A natureza se vinga e está se vingando agora’.”

Por: Marina Rossi – EL PAÍS

A INDÚSTRIA DA SECA, OU FALANDO DE LENDAS URBANAS

Indústria da Seca

Quem é da minha faixa etária e cursou o ensino fundamental na década de 1970, muito provavelmente deve conhecer a história da loira, um fantasma com o rosto ensanguentado que aparecia nos banheiros das escolas – eu nunca vi a tal loira, mas lembro de uma colega de classe que chegou à beira da histeria por, supostamente, ter visto a mítica figura num dos banheiros do colégio. Lendas urbanas podem começar a partir de um fato verdadeiro, que é contado e recontado inúmeras vezes, até se transformar numa “falsa história verídica verdadeira”; outras vezes, nascem de alguma coisa criada intencionalmente por alguma pessoa, que só faz aumentar com o passar do tempo. Alguns, especialmente políticos, afirmam de pés juntos que a indústria da seca é uma lenda – muitos dizem que ela é um fato e que anda a pleno vapor, especialmente nestes tempos de forte estiagem nos sertões, quando grandes volumes de verbas para obras e serviços contra a seca são liberados por vários órgãos governamentais. Entre as lendas e os fatos, vamos aproveitar para tocar neste assunto espinhoso.

O fluminense Antonio Calado (1917-1997), apesar de formado em direito, começou a escrever para jornais ainda na juventude e acabou consagrado como jornalista, romancista, dramaturgo e biógrafo. Em 1960 ele escreveu uma importante reportagem, transformada em livro depois: “Os industriais da seca e os ‘Galileus’ de Pernambuco: aspectos pela reforma agrária no Brasil”. A expressão indústria da seca foi usada pela primeira vez neste texto e nunca mais saiu dos noticiários. No texto, Antonio Calado demonstrou como o fenômeno da seca, que sistematicamente se abate sobre a região do Semiárido e afeta milhões de pessoas, era usado no discurso das autoridades de cidades e regiões flageladas para pedir verbas emergenciais junto às estâncias superiores do poder, como parte das verbas acabava desviada para outros fins e “bolsos” e como a água virava uma moeda de troca. Os políticos e as autoridades trocavam (e trocam) a água por votos, conseguindo assim se perpetuar no poder. Obras realmente importantes com a perenização de rios e a construção de açudes e canais acabavam sendo deixadas de lado – era importante manter o povo sempre na dependência dos “favores” dos políticos e dos “coronéis” locais.

A falta de chuvas na região do Semiárido nordestino é um fenômeno natural e sazonal, registrado em documentos desde o século XVI. A irregularidade e os atrasos dos períodos das chuvas são determinados por fatores climáticos globais como as alterações na Zona de Convergência Intertropical, o El Niño, La Niña, entre outros. A intensa ocupação dos sertões pelas boiadas, expulsas do litoral no período Colonial, levou à fundação de inúmeras vilas e cidades por toda a região do Semiárido, o que resultou num enorme crescimento da população sertaneja ao longo dos séculos. Atualmente, o Semiárido brasileiro é a região semidesértica com maior densidade populacional do mundo, exercendo uma forte pressão sobre os recursos naturais existentes, especialmente a água. Sempre que uma forte seca se abate sobre a região, muita gente se aproveita da tragédia alheia para ganhar um dinheiro extra, incluindo-se na lista os já citados políticos, além de empresários, comerciantes, funcionários públicos e outros espertalhões.

Vou citar um exemplo bem recente da “esperteza” dos comerciantes: há exatos dois anos, quando a barragem de rejeitos de mineração em Mariana se rompeu, milhares de moradores das cidades e vilas ribeirinhas do rio Doce passaram a conviver com a “seca da lama”. Com as águas usadas para o abastecimento poluídas pelos rejeitos minerais e pela lama, muitas ETAs – Estações de Tratamento de Água, foram forçadas a interromper imediatamente as suas atividades; sem alternativa, os moradores correram para os supermercados e mercearias em busca de garrafas de água mineral. Fieis à lei da “oferta e procura”, os comerciantes rapidamente dobraram ou triplicaram o preço do produto (em muitos lugares esse preço não baixou até hoje). Em cidades do Semiárido atingidas por fortes secas num passado não muito distante, acontecia exatamente isto: assim que os Governos iniciavam a distribuição de verbas emergenciais aos flagelados, as mercearias das pequenas e médias cidades aumentavam imediatamente seus preços. De alguns anos para cá, depois da implantação da aposentadoria para trabalhadores rurais e a criação do Bolsa Família, esse tipo de problema diminuiu muito.

Já o uso de caminhões pipa para a distribuição de água nas comunidades gera múltiplos problemas, a começar pela contratação dos prestadores do serviço, que normalmente são associados ou amigos das autoridades locais. Os preços podem ser superfaturados, com o valor do sobre preço dividido entre muitos “amigos”. A distância percorrida para ir até a fonte de água e voltar também pode abrir um enorme espaço para aumentar artificialmente os custos da operação – não é incomum que motoristas captem água de fontes não potáveis ou suspeitas mais próximas da cidade, cobrando custos de viagens muito mais longas. No momento da distribuição da água nos bairros, o prefeito, os vereadores e outras autoridades costumam aparecer para cumprimentar os moradores e lembra-los que a água só chegou graças ao esforço pessoal de cada um deles – nas eleições locais, todo esse “esforço” feito será lembrado insistentemente ao se pedir votos.

Outra fonte de desvios são as famosas “obras emergenciais contra as secas”. Como deve ser do conhecimento de todos, a contratação de qualquer obra, serviço ou compra de materiais por órgão público só pode ser feita através de um processo administrativo como uma licitação ou carta convite por exemplo, onde os fornecedores serão escolhidos em função do menor preço de um produto ou serviço e/ou por apresentarem uma notória especialização ou capacitação técnica para realizar uma obra. Estou falando da Lei 8666/93, também conhecida como Lei das Licitações. Em situações de emergência ou de calamidade pública, como no caso de uma forte seca, as autoridades podem ser dispensadas da obrigatoriedade de uma licitação pública em prol do interesse coletivo – essa brecha pode resultar em todo o tipo de desvios de recursos, superfaturamentos, realização de obras sem projeto (que normalmente nunca são concluídas), etc. Em outros casos, empresas “amigas” combinam os preços e participam de licitações fraudulentas – grandes valores são liberados e a população não vê os resultados.

Um tipo de obra onde já se registrou uma quantidade enorme de desvios é a escavação de poços. O Governo Federal mantém ainda hoje um órgão específico para cuidar deste e de outros tipos de obras similares – estou falando do DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Criado em 1909, com o nome de Inspetoria de Obras Contra as Secas, o órgão realizou inúmeras obras importantes por toda a região do Semiárido nordestino. Porém, como sempre acontece, há inúmeras denúncias de obras realizadas dentro de áreas particulares como fazendas, chácaras e casas de “amigos” de autoridades e de políticos – dinheiro público usado em propriedades privadas. Também há algumas obras curiosas, realizadas em regiões muito distantes do Semiárido: a rede de águas pluviais da cidade de Porto Velho, em plena região Amazônica, e o canal construído no Banhado Grande no Rio Grande do Sul, aparecem como obras feitas pelo DNOCS.

É provável que muitos de vocês conheçam outros casos de desvios e malfeitos com verbas “carimbadas” para uso em obras e/ou compra de materiais para comunidades atingidas pelas secas. Uma verdadeira tragédia brasileira.

Se existe mesmo uma indústria da seca, eu não sei. O fato é que existem muitos “empreendedores” que se aproveitam, e muito, do flagelo de outrem.

A SECA NO RIO SÃO FRANCISCO E OS RISCOS PARA A VITICULTURA

Vinícolas do Vale do São Francisco

Existem várias lendas que contam a origem do vinho – a que segue é uma que eu considero como das mais simpática:

De acordo com a mitologia grega, o deus Baco encontrou uma planta muito pequena e delicada. Para protege-la, Baco colocou a plantinha dentro de um osso de pássaro. A planta começou a crescer e Baco achou por bem transferi-la um osso de leão. Como a planta não parou de cresceu, Baco resolveu coloca-la em um osso de burro. A planta cresceu mais e mais, deu seus primeiros frutos e Baco descobriu que poderia produzir um licor – assim surgiu o vinho. Como uma herança dos ossos do pássaro, do leão e do burro, o vinho adquiriu a alegria, a força e a estupidez – quem bebe o vinho desfrutará momentaneamente da alegria do pássaro, da audácia do leão e da estupidez do burro. É por todas essas razões que os antigos gregos já ensinavam que beber vinho exige muita moderação.

O vinho chegou ao Brasil junto com o primeiros colonizadores portugueses – vale lembrar que Luso era um dos deuses do panteão grego, filho ou companheiro de Baco conforme a fonte consultada, e teve seu nome usado para batizar província romana mais ocidental: a Lusitânia. As primeiras mudas da videira chegaram à Capitania de São Vicente pela mãos de Martin Afonso de Sousa em 1532 e, aos poucos foi se espalhando pelo país. De acordo com Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843-1899), a Vila de São Paulo de Piratininga já produzia vinhos de ótima qualidade ainda no século XVI. Mas foi, sobretudo, no extremo Sul do Brasil de clima subtropical, que o plantio da videira e a produção de vinho se destacou e se consolidou.

Foi somente a partir da década de 1960 que a viticultura (ciência que engloba o estudo e a produção da uva para o consumo in natura, para a produção de suco, para a vinificação e para a produção de uva passa) avançou além das regiões Sul e Sudeste, conseguindo se estabelecer nas margens do rio São Francisco, em plena região do semiárido nordestino, para a produção de uvas de mesa em vinhedos irrigados. A partir do ano 2000, com a instalação de vinícolas na região, que ganhou a denominação de Vale do São Francisco, teve início a produção dos vinhos finos, com destaque para as variedades Cabernet Sauvignon, Syrah, Moscato Canelli, Chardonnay e Chenin Blanc. Existem hoje seis vinícolas da Região, o que a coloca como o segundo maior polo produtor do Brasil, ficando atrás somente do Rio Grande do Sul. A produção é estimada em 8 milhões de litros de vinho por ano, abocanhando 15% do mercado brasileiro. O Vale do São Francisco é considerado o único local no mundo onde se consegue produzir duas safras anuais de uvas de mesa e viníferas.

Uma das grandes responsáveis pela consolidação da viticultura no Vale do São Francisco foi a construção da Represa de Sobradinho. Além de uvas, a Região produz diversas variedades de frutas como mangas, goiabas, acerolas e melões. Com sol intenso, terras férteis e disponibilidade de água para a irrigação, a Região produz frutas durante todos os meses do ano, com 70% da produção exportada para os Estados Unidos, a Europa e a Ásia. Nos últimos, porém, a devastação ambiental que se observa há muito tempo em toda a bacia hidrográfica do rio São Francisco começou a “cobrar a fatura” – com cada vez menos água na calha do rio, a Represa de Sobradinho começou a secar e as margens do lago começaram a recuar perigosamente. A represa (ou lago) de Sobradinho está hoje em um nível crítico, com um volume armazenado abaixo de 5% da capacidade total.

O Vale do São Francisco apresenta uma precipitação anual média de 500 mm, concentrada entre os meses de dezembro e março – no restante dos ano, as culturas dependem do rio São Francisco e da água captada por bombas, sendo distribuída nas plantações por milhares de quilômetros de tubulações dos sistemas de irrigação. Durante décadas a fio, os sistemas de irrigação garantiram o crescimentos contínuo da produção de frutas, que se transformou em uma importante alternativa econômica para o semiárido, gerando trabalho e renda para milhares de pequenos agricultores da Região. A redução contínua do espelho d’água da represa de Sobradinho, observada nos últimos anos, tem tirado o sono de muita gente – plantações que ficavam nas margens do reservatório e que retiravam água para uso na irrigação com extrema facilidade, agora estão, em alguns casos, a quilômetros de distância, necessitando aumentar sistematicamente o comprimento das tubulações, de forma a se manter as bombas em contato com a água. Quanto maior a extensão das tubulações, maiores são os gastos com energia elétrica e manutenção dos sistemas, além dos riscos maiores de roubo de bombas e de tubulações.

Além dos riscos de quebra da safra de frutas e da produção nas vinícolas, a seca traz no seu encalço um outro tipo de prejuízo – a queda no número de turistas. Como já acontece nas vinícolas das Regiões Sul e Sudeste, o turismo no Vale do São Francisco acabou se transformando em uma importante fonte alternativa de receita para os agricultores e produtores locais. Partindo principalmente das cidade de Juazeiro na Bahia e Petrolina em Pernambuco, os pacotes turísticos incluíam, além das visitas às vinícolas e as plantações, passeios de barco pelo rio São Francisco e pela outrora fabulosa represa de Sobradinho. Com a redução cada vez maior do nível do reservatório, muitas operadoras passaram a enfrentar problemas logísticos para transportar os turistas no trecho entre o espelho d’água e as vinícolas e/ou plantações, o que, em alguns casos, acaba por desestimular o interesse dos turistas pelos passeios.

Por determinação da ANA – Agência Nacional de Águas, a captação de água foi proibida as quartas-feiras até o final de novembro e seu uso foi priorizado para consumo humano e animal. Essa medida emergencial afeta diretamente os produtores de frutas da Região, que dependem da irrigação para, pelo menos, conseguir manter as plantas vivas. Por causa da seca que vem persistindo na Região desde 2013, muitos produtores vem registrando quebras de safra de até 50%.

Para evitar que a represa de Sobradinho entre no chamado “volume morto”, a CHESF – Companhia Hidrelétrica do Rio São Francisco, reduziu a vazão para 650 m²/s em junho, passando a operar com apenas duas das seis turbinas instaladas na hidrelétrica. Como as chuvas estão muito fracas na região das cabeceiras do rio São Francisco, os especialistas já estão trabalhando com a possibilidade de Sobradinho atingir o “volume morto” antes do final deste ano. A ANA – já autorizou uma nova diminuição da vazão da barragem, agora para 550 m³/s, como forma de retardar os acontecimentos. Neste mês de novembro, a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, autorizou o aumento da bandeira tarifária para Vermelha Patamar 2, o que vai significar a cobrança extra de R$ 5,00 para cada 100 kwh (quilowatt hora) consumido. Ao mesmo tempo em que este aumento na conta da energia elétrica força o consumidor a reduzir o consumo e, de quebra, auxilia na economia de água nos reservatórios, cria maiores custos para a irrigação das plantações. O baixo nível da represa de Sobradinho, ao contrário do que muitos podem imaginar, não está associado diretamente à forte seca que vem assolando toda a região do Semiárido desde 2011 – 75% dos caudais da bacia hidrográfica do Rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado no Estado de Minas Gerais e de Goiás, que, conforme já comentamos em postagens anteriores, também vem sofrendo muito com a seca.

A expectativa das vinícolas do Vale do São Francisco, apesar de todos os contratempos, é de uma boa produção de vinhos neste ano. Resta-nos torcer para que a seca não “azede” os planos dos agricultores e empresários da região.

UMA NOVA ILHA DE LIXO – AGORA É NO MAR DO CARIBE

Ilha de Lixo Caribe

Há quase um ano atrás, publiquei uma postagem falando de uma imensa ilha de lixo flutuante que se formou no Norte do Oceano Pacífico, entre as ilhas do Hawai e a costa Oeste do Estados Unidos. Uma nova ilha de lixo, agora no Mar do Caribe, surgiu entre as costas da Guatemala e Honduras. De acordo com a imprensa internacional, a fonte dos detritos é o rio Motagua, que atravessa a maior parte da Guatemala e tem sua foz na costa de Honduras. Segundo os informes, dos 95 municípios guatemaltecos que se encontram dentro da bacia hidrográfica, 27 estão despejando resíduos sólidos diretamente nas águas do rio. No lado hondurenho, a bacia hidrográfica compreende apenas 3 municípios. Guatemala e Honduras vem travando uma verdadeira guerra sobre qual é o país responsável pela solução do problema. Enquanto não chegam a um acordo, ilhas e praias estão ficando cobertas por resíduos, prejudicando imensamente o turismo, uma das maiores fontes de receitas dos dois países. Vejam a matéria publicada pelo jornal El País em 30 de Outubro:

Um mar composto de escovas de dentes, garfos, colheres, pratos e garrafas de plástico. Essa é a imagem que a fotógrafa e ativista britânica Caroline Power captou entre as ilhas de Roatán e Cayos Cochinos, no Caribe hondurenho. “Foi devastador ver algo que me importa tanto sendo lentamente assassinado e asfixiado”, disse ela ao jornal britânico The Telegraph.

“Isto precisa parar, pensem no seu cotidiano. Como você levou para casa a comida que sobrou na última vez que você foi a um restaurante? É provável que [a embalagem] fosse de isopor, servida com um garfo de plástico, e depois colocada numa sacola de plástico”, escreveu Power no Facebook. A publicação, feita em 16 de outubro, já foi compartilhada mais de 2.770 vezes e recebeu mais de 1.100 reações nessa rede social.

A fotógrafa, especializada em imagens submarinas, contou ter feito a descoberta durante uma viagem de mergulho a ilhotas conhecidas por mal superarem o nível do mar, permitindo assim a exploração de áreas “intocadas”. “Observar o lixo e os refugos foi devastador”, disse a fotógrafa.

A organização ambientalista Blue Planet Society disse que esse “mar de plástico” se formou por causa do lixo arrastado da Guatemala para a costa hondurenha pelas águas do fronteiriço rio Motagua. Nos últimos três anos, os dois países vêm tendo atritos por causa da contaminação desse curso hídrico.

“O Governo de Honduras lamenta que, apesar das diversas abordagens ao Governo da Guatemala e dos esforços realizados, estes não tenham sido suficientes (…) e ainda não se vejam resultados concretos e evidentes”, afirmou a secretaria hondurenha de Relações Exteriores em nota no último dia 23.

O Governo de Honduras exigiu a mitigação dos danos e uma indenização pelo “investimento realizado”. Já o presidente guatemalteco, Jimmy Morales, declarou ao jornal Prensa Libre que conversou com seu homólogo hondurenho sobre as tarefas necessárias para combater o problema, mas que estas “ainda não foram definidas”.

Espero que não chegue o dia em que tenha de publicar um post falando da formação do primeiro continente formado exclusivamente de lixo…

 

Leia também:

A ILHA DE LIXO NO OCEANO PACÍFICO

 

A BABUGEM, O ACHEB E A RESSURREIÇÃO DOS SEMIÁRIDOS

Atacama

Uma das figuras mitológicas mais intrigantes da história da humanidade é a fênix, um pássaro lendário que morria em meio as chamas e que depois renascia das próprias cinzas. A ideia de uma ave com estas características surgiu no Oriente – povos como os egípcios veneravam a fênix, que era vista pelo povo como a reencarnação do deus Rá. A imagem da ave mitológica foi adaptada pelos gregos dentro do conceito que chegou aos nossos dias.

De acordo com as antigas lendas, a fênix era uma ave muito poderosa, que podia carregar grandes cargas durante o voo, inclusive elefantes. Também tinha o poder de se transformar em uma ave de fogo com uma forma muito parecida com uma águia. As lágrimas da fênix teriam o poder de curar doenças. Porém, a característica mais marcante da fênix é sua capacidade de renascer a partir das próprias cinzas. No imaginário coletivo, a fênix passou a representar a ideia da imortalidade e do renascimento.

Comecei esta postagem falando da fênix como uma introdução a um assunto bastante parecido – o renascimento das áreas semiáridas e desérticas que acontece logo após a chegada das chuvas (pode parecer estranho mas chove, muito pouco é claro, nos desertos). Não sei quantos de vocês já tiveram a oportunidade de conversar com um sertanejo “da gema”, acostumado com as belezas e as durezas do sertão. Quando qualquer um desses homens “rudes” (uso o termo aqui no sentido de adaptação a um meio extremamente difícil) fala da chegada das chuvas ao sertão depois de uma seca prolongada, é possível ver seus olhos marejando de tanta felicidade. Uma das razões dessa felicidade é o rápido renascimento da terra seca após as chuvas – estou falando da babugem.

A babugem é um tipo de vegetação de crescimento extremamente rápido, formado pela associação de várias espécies de plantas, especialmente as gramíneas, que nascem, crescem e dão flor e sementes em poucos dias, logo após as chuvas começarem a cair sobre o solo seco. A babugem marca uma espécie de “rito de passagem” entre os tempos de escassez da seca e a fartura do período das águas – uma forma de ressurreição da “fênix” verde nordestina logo após as cinzas dos tempos da seca. Uma pessoa de outras terras poderá ter um choque ao visitar uma área do sertão antes e depois das chuvas, mesmo sendo num espaço de tempo pequeno, dias talvez. As sementes destas plantas sertanejas tem uma alta capacidade de resistir por longos períodos sobre o solo seco, e estamos falando aqui de anos a fio. Com as chegada das chuvas, a semente desperta e usa toda a energia armazenada em sua estrutura para germinar no menor tempo possível para aproveitar ao máximo da umidade, que poderá desaparecer muito rapidamente. O ciclo de vida das plantas, devido a um intenso processo evolutivo, pode ser completado em poucos dias: germinar, crescer, florescer e produzir sementes, garantindo assim a perpetuação da espécie. As sementes são espalhados pelo vento e, caso não encontrem umidade para germinar, vão ficar adormecidas a espera das chuvas, demore o tempo que demorar.

O semiárido brasileiro, que ocupa uma área total de mais de 925 mil km², é formado por uma infinidade de ecossistemas diferentes, que formam um mosaico altamente complexo – cada um destes ecossistemas possui as suas próprias variedades de “sementes mágicas”, que vão florescer à sua moda com a chegada das chuvas. Todas as plantas do semiárido sofreram um intenso processo de adaptação para reduzir a perda de água por evaporação e desenvolveram grande capacidade para armazenar água, especialmente as cactáceas como o xique-xique, a coroa-de-frade e os famosos mandacarus. As árvores do semiárido também são altamente adaptadas, com raízes profundas e troncos e galhos apropriados ao clima seco; quando a planta ressente a falta de água, ela perde rapidamente suas folhas, num mecanismo para economizar energia e água. Quando as chuvas chegam, essas plantas recuperam as suas folhagens e o seu viço rapidamente, claro que numa velocidade muito menor do que a babugem. Junto com o verde e com as flores, a vida animal também parece renascer repentinamente: são milhares de espécies de insetos, aves e mamíferos, além dos resistentes répteis, que enchem os olhos e os ares de vida.

Este fenômeno maravilhoso não é uma exclusividade do semiárido brasileiro – ele acontece em diferentes lugares de clima extremamente seco do mundo: a foto que ilustra este post, escolhida pela beleza sui generis, mostra uma área no deserto do Atacama, no Norte do Chile, após uma das raríssimas chuvas ter caído sobre as areias escaldantes. Também poderá ser encontrado em regiões semiáridas do mundo na África, América do Norte, Europa, Ásia e Austrália.

Na região do deserto do Saara, conforme comentado em post anterior, vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas dentro de uma área com 9,2 milhões de km². Diferente do que muita gente pensa, o Saara não é formada apenas pelas gigantescas dunas de areia mostradas nos antigos filmes da Legião Estrangeira francesa. No Saara existe um enorme mosaico de ecossistemas diferentes, que vão de campos de savanas às dunas de areia, incluindo-se áreas de semiárido muito parecidas com a nossa caatinga nordestina, oásis verdejantes no meio do nada, vales profundos onde correm pequenos rios e até altas montanhas com picos nevados – sempre chove um pouco por todos os lados e de vez em quando até cai neve em alguns lugares do Saara. Nas áreas semiáridas do Saara, ocorre um fenômeno muito parecido com a babugem – os pastores nômades do Maghreb (nome que os locais dão ao Saara) chamam este fenômeno de acheb. O grande geógrafo francês Émile-Félix Gauthier (1864-1940), em sua famosa obra Le Sahara de 1925, nos deixou este registro:

“O acheb não é uma planta determinada, é uma categoria de vegetais que possuem sua tática própria de luta contra a seca. Vegetais que sobrevivem por suas sementes cuja resistência à seca é de duração quase infinita. Quando cai a chuva o grão de acheb a utiliza com energia admirável. Em poucos dias ele germina, lança sua haste, cobre-se de flores e lança suas sementes. Ele sabe que não tem tempo a perder, está organizado para tirar todo partido da dádiva excepcional. Mas sua semente carregada pelo vento e recoberta pela areia, guardada nas anfractuosidades da rocha esperará, se for preciso, dez anos por novas chuvas. São vegetais que sacrificam tudo pela reprodução, são verdadeiros buquês de flores. Este é o pasto que dá pena ver-se deglutido pela garganta imunda dos camelos.”

Todos estes tipos diferentes de vegetação com suas flores maravilhosas são uma espécie de prêmio a todos aqueles que conseguiram sobreviver a todas as agruras e provações das grandes secas. Faço votos que a babugem e outras formas vegetais floresçam o mais rápido possível em muitas terras assoladas ainda hoje pela forte seca, marcando o renascimento da vida nestes sertões.

Encerro com uma observação de Euclides da Cunha (1866-1909), o célebre autor da antológica obra “Os Sertões”, descrevendo um destes raros momentos em que o sertão renasceu das cinzas:

“E ao tornar da travessia o viajante, pasmo, não vê mais o deserto. Sobre o solo, que as marílis atapetam, ressurge triunfante a flora tropical. É uma mutação de apoteose.”

RIOS E CÓRREGOS DESAPARECEM NO NORTE DE GOIÁS

Riacho Fundo em Formosa

Para iniciarmos esta postagem, deixem-me apresentar alguns conceitos importantes, que vão ajudar a compreender bem o texto:

Hidrologia é a ciência que trata da água na Terra, sua ocorrência, circulação e distribuição, além de se ocupar das propriedades físicas e químicas da água e a sua reação com o meio ambiente, incluindo sua relação com as formas de vida. Dentro da hidrologia, uma área de estudo importante é a infiltração de água no solo – este processo pode ser definido como a passagem de água da superfície para o interior do solo, o que dependerá da disponibilidade de água para infiltrar, da natureza do solo, do estado da sua superfície, e das quantidades inicialmente presentes de ar e água no seu interior. As reservas de água no solo serão fundamentais para garantir o escoamento da água na superfície na forma de riachos, córregos e rios – se existirem grandes reservas de água armazenadas no solo, serão maiores as chances dos cursos de água serem permanentes; se as reservas não forem significativas, teremos escoamentos não permanentes ou temporários. O fluxo permanente ou temporário das águas de um rio ou córrego terá repercussões em todo o ecossistema, tanto na água quanto nas áreas ao redor.

Colocando estes conceitos na prática – no Norte do Estado de Goiás, vários rios e córregos passaram a ficar completamente secos ou com níveis de água extremamente baixos no período das secas. Apesar de ser um fenômeno bastante comum em rios e riachos da região do semiárido nordestino, nesta região de Goiás, onde os rios sempre foram permanentes, o fenômeno passou a ser observado nos últimos dez anos. Populações que sempre dependeram das águas destes rios e córregos, agora têm enfrentado sérios problemas. Um exemplo deste seríssimo problema é o rio do Ouro que atravessa o município de Porangatu.

Considerado um dos mais importantes corpos hídricos da região, o rio do Ouro neste momento está reduzido a um leito seco, que mais parece um caminho de areia e pedras. Até o ano de 2010, o rio era considerado perene, apresentando água durante todo o ano. De lá para cá, todos os anos, o rio passou a secar completamente no período da estiagem. O fenômeno do rio do Ouro não é um caso isolado – existem ao menos dez rios de Goiás que estão apresentando exatamente o mesmo comportamento. O córrego Bom Sucesso, na mesma região do rio do Ouro, também tem se transformado num caminho de areia e folhas secas nos períodos de estiagem. Na cidade de Goiás, os rios Bacalhau e Bagagem estão se comportando como intermitentes desde 2008; desde a mesma época, os rios Santa Maria e Correntes, na região de Flores de Goiás, Formosa e Alvorada do Norte, também passaram a ser intermitentes.

O abastecimento de água na cidade de Porangatu, apesar da situação crítica, ainda não foi afetado porque a captação é feita em um outro rio da região que ainda se mantém com características de um rio permanente. Os moradores da região esperam ansiosamente pela chegada do período das chuvas, enfrentando temperaturas próximas dos 40° C, as mais altas registradas neste ano no Estado de Goiás, e com níveis de umidade do ar próximos dos 10%, o que é considerado um clima de deserto. O rio do Ouro se forma a partir de pequenos cursos de água que nascem em regime de enxurrada na Serra do Paranã, que sem as chuvas desaparecem. De acordo com as autoridades locais, este é um fenômeno natural que se repete em intervalos regulares – a intensidade deste fenômeno, porém, está preocupando muita gente.

Especialistas afirmam que a derrubada de matas no campo e nas margens dos rios está na raiz do problema. A presença de uma densa cobertura vegetal favorece a infiltração de água no solo – a vegetação dificulta o escoamento superficial da água durante o período das chuvas, facilitando e aumentando o tempo que a água tem para infiltrar no solo. A vegetação nativa do Cerrado, apesar de se apresentar com árvores de pequeno porte e arbustos retorcidos, o que dá uma aparência de extrema pobreza vegetal, têm uma característica que a diferencia de outros sistemas florestais – as plantas possuem raízes extremamente grandes e profundas. Essa característica única se desenvolveu para permitir que as plantas conseguissem sobreviver aos longos períodos de estiagem, captando a água armazenada em profundos lençóis subterrâneos. São estas mesmas raízes profundas que permitem que as águas das chuvas penetrem profundamente nos solos para recarregar estas reservas subterrâneas. Com o avanço da fronteira agrícola na região do Cerrado nas últimas décadas, grande parte da vegetação nativa foi derrubada para a implantação de grandes plantações de soja e milho, além da formação de pastagens para o gado. Essa “nova” vegetação é muito rala e apresenta raízes muito superficiais, o que vem dificultando cada vez mais a infiltração da água e reduzindo cada vez mais a produção de água nas nascentes. Vale lembra que o Cerrado é o “berço das águas” do Brasil – as mais importantes bacias hidrográficas brasileiras têm nascentes na região: rios Tocantins/Araguaia, Paraná e São Francisco.

O Professor Altair Sales Barbosa, diretor do Instituto do Trópico Subúmido e professor da PUC – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, reitera estas informações, afirmando que, com o desmatamento e a redução da vegetação nativa, a água não está conseguindo alcançar as regiões mais profundas para reabastecer os aquíferos, que chegaram ao nível mínimo e não estão conseguindo abastecer as nascentes:

“A quantidade de água existente nesses aquíferos já chegou ao seu nível mínimo. É como se fosse uma caixa d’água com vários furos. Os furos são as nascentes. Quando ela está cheia, a água sai por muitos furos. Conforme vai esvaziando, vai saindo nos furos mais inferiores, até chegar ao último furo e há um momento em que não sai mais. Estamos em um momento em que [a água] está saindo, mas de maneira muito rudimentar, menor do que saía há 20, 40 anos.”

A agricultura intensiva causa um outro forte impacto nos rios da região – grandes quantidades de água são retiradas dos rios para a irrigação das lavouras. Sem uma gestão adequada dos volumes retirados, existem grandes desperdícios e uma parcela importante da água se perde por evaporação. Com quantidades cada vez menores de água nos rios e com retiradas cada vez maiores para os mais diversos usos, acontece o óbvio: os rios secam (literalmente, ficam zerados).

A foto que ilustra este post mostra o aspecto atual do Riacho Fundo na cidade de Formosa – um leito completamente seco, sem uma única gota de água. Imagine você o impacto desta situação para todos os sitiantes e moradores das margens, que sempre dependeram do riacho para sobreviver e que agora precisam procurar outras fontes de abastecimento. Para a fauna local, não acostumada com o desaparecimento da água, a seca pode significar a morte. Espécies de animais de regiões semiáridas, onde é comum a presença de rios intermitentes, estão melhor adaptadas para estas situações e tiveram milhares de anos para desenvolver mecanismos de adaptação para períodos de seca extrema – as espécies do Cerrado são adaptadas para tolerar o clima seco dos períodos de estiagem, porém, como sempre dispuseram de fontes de água permanentes, não se adaptaram a falta contínua de água.

É um fenômeno preocupante que, dada a contínua e intensa destruição dos últimos fragmentos de matas originais do Cerrado, tende a se agravar.

A SECA E A LENTA AGONIA DO BENJAMIM GUIMARÃES

BENJAMIM GUIMARÃES

Durante grande parte do século XIX e início do século XX, os navios movidos a vapor tiveram uma enorme importância para a navegação mundial, percorrendo rotas em mares, rios e lagos. No rio Mississipi, o maior rio da América do Norte, os vapores tiveram uma importância ímpar, tendo se transformado numa espécie de símbolo da região – muitos de vocês já devem ter assistido algum filme americano onde apareceu algum destes navios. A principal característica dos lendários vapores do Mississipi é a roda de pás, um enorme mecanismos de propulsão que chegava a pesar 25 toneladas. Um dos principais portos de chegada e saída destas embarcações no rio Mississipi era a famosa cidade de Nova Orleans. No período áureo da cidade, entre 1830 e 1860, era possível encontrar até 30 vapores alinhados nas docas do rio. Nos dias atuais, ainda existem diversos destes “vapores” modernizados realizando passeios turísticos pelo Velho Mississipi.

Um dos últimos navios a vapor com estas características fabricado nos Estados Unidos em 1913 e que chegou inclusive a navegar no Mississipi, acabou sendo enviado para o Brasil, onde inicialmente navegou pelos rios da região Amazônica. Na metade da década de 1920, o vapor foi comprado por uma empresa de Minas Gerais, a Júlio Guimarães. A embarcação foi desmontada e transportada para a cidade de Pirapora, norte de Minas Gerais, onde foi remontada no porto fluvial da cidade. O vapor foi rebatizado com o nome de Benjamim Guimarães, numa homenagem ao pai do proprietário da empresa. Durante as décadas seguintes, o Benjamim Guimarães passou a realizar viagens regulares ao longo do rio São Francisco e principais afluentes, transportando passageiros e carga. A rota mais importante do vapor ligava a cidade de Pirapora a Petrolina e Juazeiro, na divisa de Pernambuco e Bahia. A população ribeirinha rapidamente batizou o vapor com o nome de “gaiola”, nome que pode ser encontrado na literatura, nas poesias, nos cordéis, na música e no folclore regional.

Com capacidade para transportar até 170 pessoas, entre passageiros e tripulantes, o Benjamim Guimarães consumia o equivalente a um metro cúbico de lenha a cada hora. A embarcação possui 44 metros de comprimento, 8 metros de largura e 8 metros de altura, divido em três pisos, sendo a parte baixa ocupada pela casa de máquinas, caldeira, banheiros e uma área reservada para passageiros de classe mais baixa. No segundo piso se encontram os doze camarotes da primeira classe; na parte superior, um bar e uma grande área coberta. Embarcações a vapor da classe do Benjamim Guimarães com casco de baixo perfil são adequadas apenas para a navegação em rios e lagos, não sendo usados, por razões de segurança, para navegação em águas com ondas ou ventos fortes.

Se você pesquisar, vai descobrir histórias de diversas embarcações a vapor que navegaram por diversos rios do interior do Brasil – nenhuma se aproximou da notoriedade, popularidade e charme do vapor Benjamim Guimarães. Diferente de outras embarcações, o Benjamim Guimarães não seguia um protocolo mais rígido em suas viagens, parando apenas nos portos programados. Conforme a necessidade, o vapor parava em portos menores, atendendo as demandas da população ribeirinha, tanto no transporte de passageiros quanto de cargas. As viagens entre Pirapora e Juazeiro duravam entre 3 e 5 dias. Contam algumas lendas que, numa certa viagem, o bando de Lampião e de seus temidos cangaceiros se encontrava na região de Juazeiro no momento da chegada do Benjamim Guimarães. Virgulino Ferreira, o Lampião, pretendia abordar o vapor para roubar a sua carga. Avisado do perigo, o capitão do vapor mudou o local do desembarque – ele conduziu o vapor na direção de Petrolina, do outro lado do rio São Francisco.

Uma outra história, esta muito real, foi a valorosa participação do vapor na Segunda Guerra Mundial. Foi o Benjamim Guimarães um dos principais responsáveis pelo transporte de militares brasileiros originários de cidades do interior de Minas Gerais e da Bahia. Transportados até a região de Juazeiro e Petrolina, os militares seguiam por outros meios até o litoral de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, onde serviram no patrulhamento da costa ou seguiram em direção a Europa para servir nos fronts da Guerra pela FEB – Força Expedicionária Brasileira.

Ao longo de mais de cem anos de serviços no Brasil, o vapor Benjamim Guimarães já teve vários donos. Nos anos de 1940, a empresa Navegação e Comércio do São Francisco comprou o vapor. Pouco depois, a empresa foi incorporada à Companhia Indústria e Viação de Pirapora. Em 1955, todas as empresas de navegação foram encampadas pela União e o vapor Benjamim Guimarães, junto com outras trinta e uma embarcações, foi transferido para o Serviço de Navegação do São Francisco, passando depois para a Companhia de Navegação do São Francisco. Em cada uma destas fases, a embarcação foi usada para o transporte de cargas e de passageiros, com configurações com primeira, segunda e até terceira classe.

Com o avanço das rodovias e o uso cada vez maior dos caminhões e ônibus para o transporte de cargas e de passageiros, a navegação no rio São Francisco entrou em decadência. O vapor passou a ser usado apenas em passeios turísticos. Em 1985, o Benjamim Guimarães foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico devido ao seu valor histórico e cultural. Neste mesmo ano, a embarcação, já bastante deteriorada por mais de setenta anos de serviço, passa pela primeira reforma. Em outubro de 1986, o vapor volta a navegar exclusivamente para fins turísticos no trecho Pirapora – São Francisco – Pirapora, num percurso total de 460 km.

Durante uma viagem em 1995, o vapor apresentou falhas na caldeira e no casco – por ordem da Capitania dos Portos de Minas Gerais, seu uso foi interditado até que passasse por uma reforma completa que corrigisse estes e uma série de problemas de segurança. Recolhido ao porto, o vapor ficou quase dez anos parado. Após passar por uma reforma e restauração completa, realizada com a supervisão do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico, o vapor Benjamim Guimarães voltou a navegar em 2004.

Nos últimos anos, as viagens do velho vapor começaram a rarear. Não foi pela idade avançada, pela falta de passageiros ou pela falta de carinho da população. A navegação pelas águas do rio São Francisco passou a apresentar riscos para a embarcação – a redução cada vez maior do volume de água do rio e a formação de grandes bancos de areia nos períodos cada vez mais intensos de seca forçaram o Benjamim Guimarães a passar cada vez mais tempo atracado no porto. A última vez que o Benjamim Guimarães navegou foi no início de 2016, quando “atuou” como um dos personagens da novela Velho Chico. Na trama da novela, o vapor era chamado de “gaiola encantado” – a personagem Encarnação tinha visões de antigos passageiros já mortos. Desde essa época, a forte seca que se instalou no Norte de Minas e sertão da Bahia fez as águas do rio São Francisco abaixarem ainda mais. Ao largo da cidade de Pirapora, o São Francisco parece um filete de água cercado por inúmeros afloramentos de pedra do fundo do rio.

Além da enorme saudade do apito do vapor Benjamim Guimarães em suas viagens ao longo do Velho Chico, a população “barranqueira” sente falta da boa e tradicional moqueca de peixe, especialmente de surubim, cada vez mais difícil de se achar nas poucas águas que restaram no rio…

Oremos a São Pedro e a São Francisco. Amém!

O RACIONAMENTO DE ÁGUA NO DISTRITO FEDERAL

Brasília

A ideia de se transferir a capital para o interior do Brasil era antiga, defendida por muitos que entendiam que esta era a melhor forma de se estimular a ocupação do nosso vasto território. Depois de muitas discussões e debates, foi definido na Constituição da República de 1891 que a capital deveria ser transferida para a região do Planalto Central. Em 1956, mais de meio século depois, o Presidente Juscelino Kubitschek lançou o edital de um concurso para a escolha do projeto urbanístico da nova capital. Vinte e cinco projetos foram apresentados, alguns altamente detalhados – o vencedor foi um projeto inovador, apresentado como um esboço de projeto feito a mão, acompanhado de um descritivo com pouco mais de vinte páginas. O autor – o urbanista Lúcio Costa, que confessou que não imaginava vencer e que se desculpou por não ser detalhista. Ele escolheu o arquiteto Oscar Niemayer para projetar os edifícios e o paisagista Roberto Burle Marx para cuidar dos jardins e terraços da nova cidade.

O jornalista e escritor Otto Lara Resende escreveu anos depois que a construção de Brasília foi “uma espécie de produto da conjugação de quatro loucuras”: de Juscelino Kubitschek, o Presidente da República, de Lúcio Costa, o urbanista, de Oscar Niemayer, o arquiteto, e de Israel Pinheiro, o presidente da Terracap, a empresa criada pelo Governo para gerenciar a construção da cidade. Em 1960, a tão sonhada “cidade do futuro” foi inaugurada e tudo virou história.

Brasília foi imaginada como uma cidade de médio porte, para uma população máxima entre 400 e 500 mil moradores – o Distrito Federal tem hoje aproximadamente 1,8 milhões de habitantes, a maioria vivendo em cidades satélites que em nada lembram os eixos do Plano Piloto e as superquadras imaginadas no projeto original. Crescimento desordenado e problemas de infraestrutura, transportes, educação, saúde e segurança estão por todos os lados – no centro, mansões, palácios, edifícios e uma pequena parte da população vivendo numa espécie de “ilha” com a maior renda per capita e um dos IDHs – Índice de Desenvolvimento Humano, mais altos do pais. Brasília é a terra dos contrastes.

Entre todos os problemas vividos pela população do Distrito Federal, um tem tirado o sono de muita gente desde o final do ano passado – a seca prolongada e a exaustão dos recursos hídricos armazenados, que são usados para o abastecimento da população. Desde o início de janeiro deste ano, as autoridades do Distrito Federal impuseram, pela primeira vez na história da cidade, um esquema de racionamento de água – em decisão tomada há poucos dias, devido ao agravamento da situação, as medidas para a economia de água se tornarão mais rígidas.

O Distrito Federal conta com dois reservatórios, que são os responsáveis pelo armazenamento da água utilizada para abastecer a população: a barragem do Descoberto, que fica em Brazlândia, e a barragem Santa Maria, que fica dentro do Parque Nacional de Brasília. O reservatório do Descoberto, responsável por 65% da água consumida no Distrito Federal, possui uma área total de drenagem de 460 km², abrangendo as bacias hidrográficas dos córregos Alto Descoberto, Ribeirão Rodeador e Ribeirão das Pedras, apresentando um espelho d’água de 12,55 km². O reservatório Santa Maria possui aproximadamente 120 km² de área de drenagem, onde fica localizada a bacia hidrográfica do Ribeirão do Torto – o espelho d’água do reservatório tem uma área de 7,65 km². De acordo com informações da última medição feita pela ADASA – Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal, o nível do reservatório do Descoberto no último dia 8 de outubro apresentava um volume acumulado equivalente a 14,9% de sua capacidade; o nível no reservatório de Santa Maria era de 27,9%. Situação crítica.

De acordo com os registros meteorológicos, este é o mês de outubro mais seco dos últimos 37 anos. As autoridades esperavam um volume de chuvas de 166 mm para o mês – as chuvas observadas chegaram apenas a 14 mm. O volume de chuvas medido nos últimos anos na bacia hidrográfica do córrego Alto Descoberto entre os meses de setembro a dezembro sempre esteve na faixa de 669 mm – no ano passado choveu o equivalente a 520 mm no mesmo período; para piorar a situação, o volume de chuvas no mês de janeiro deste ano foi muito abaixo da média. O consumo de água per capita pela população, ao contrário, cresceu 16% nos últimos 6 anos. Completando o quadro de desolação, foram feitos poucos investimentos em infraestrutura, especialmente na ampliação dos sistemas de captação e armazenamento de água. As perdas de água na rede de distribuição também não são nada desprezíveis – perto de 35% da água distribuída se perde, seja por vazamento nas tubulações seja por furto (os famosos “gatos”). São aproximadamente 86 bilhões de litros de água perdidos, que estão fazendo falta neste momento de crise. O quadro vivido por toda a região do Distrito Federal desde 2016 lembra muito a crise hídrica vivida pela Região Metropolitana de São Paulo em 2014 – a diferença é que na grande São Paulo existiam dois grandes reservatórios, as represas Guarapiranga e Rio Grande, com reservas de água mas sem tubulações de interligação com os demais sistemas (o que foi resolvido com obras emergenciais). No Distrito Federal não existem fontes alternativas para abastecimento da população.

Diante deste quadro nada animador, a ADASA autorizou a CAESB – Companhia de Saneamento Básico do Distrito Federal, a reduzir de pressão na rede, realizar o rodízio do abastecimento, efetuar a paralisação parcial do abastecimento, além de veicular campanhas de incentivo à redução do consumo de água. A CAESB iniciou o processo de racionamento no final de 2016 com a redução da pressão nas redes de tubulações, medida que afeta a oferta de água e que obriga a população a economizar. Com o agravamento da queda dos níveis nas barragens, a CAESB decidiu iniciar o rodízio do abastecimento de água nas localidades atendidas pela barragem do Descoberto. O rodízio no fornecimento passou a valer para as 14 regiões administrativas abastecidas pela barragem, atingindo as localidades de Ceilândia, Recanto das Emas, Riacho Fundo II, Vicente Pires, Colônia Agrícola Samambaia, Vila São José, Jóquei, Santa Maria, DVO, Sítio do Gama, Polo JK e Residencial Santa Maria. O sistema fornece água normalmente por 3 dias, 1 dia fica sem fornecimento e 2 dias se destinam à estabilização completa do abastecimento. A partir do final do mês de fevereiro, o rodízio passou a valer também para as regiões abastecidas pela barragem Santa Maria. De acordo com dados da CAESB, a economia obtida com estas medidas equivale a 550 litros de água por segundo – água suficiente para abastecer a região de Ceilândia, que tem uma população de 360 mil habitantes.

Nas áreas rurais do Distrito Federal, mais de 4 mil produtores rurais estão sendo afetados pelo racionamento. O uso dos sistemas de irrigação só podia ser feito entre 6 e 9 horas da manhã. Nos últimos dias, com regras mais rígidas, o uso de água só poderá ser feito nos dias ímpares, por um período máximo de 3 horas. Muitas lavouras de frutas e de verduras estão sendo inviabilizadas pelas novas medidas de economia.

A grande ironia desta situação é que a região do Planalto Central está estrategicamente no centro divisor das águas do Brasil, onde nascem os rios de três das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras: os rios Tocantins/Araguaia, Paraná e São Francisco.

Resta-nos rezar para chover e economizar o máximo possível de água.